3 NUANCES E REPRESENTAÇÕES: OS OLHARES PARA AS SALAS
3.3 Questões ligadas ao ensino em sala de aula
3.3.1 Relações entre o professor e a Sala Multisseriada
Talvez uma das perguntas mais importantes do nosso questionário seja: Para o(a) senhor(a), como é ensinar em uma Sala Multisseriada? Essa pergunta, extremamente relevante para a nossa pesquisa, assume tons e nuances que se misturam entre os professores que apoiam a sua existência, que amam as Salas Multisseriadas e lutam por elas, e os que ainda entendem que esse modelo de ensino é um atraso na educação e pode gerar prejuízos aos alunos. Essas representações não são exclusivas dos nossos entrevistados: pesquisas na área32 têm revelado a existência de representações sociais negativas sobre as Salas Multisseriadas. Hage (2015, p. 17), por exemplo, afirma:
Da mesma forma, é motivo de grande preocupação quando identificamos um grande número de sujeitos que ensinam, investigam ou demandam a educação no campo e na cidade se referir às escolas rurais multisseriadas como um ‘mal necessário’, um ‘grande problema’, um empecilho, um fardo muito pesado ou mesmo um impedimento para que o ensino e o direito à aprendizagem sejam assegurados nas escolas do campo, expressando sensações de imobilismo, de impotência, de falta de opção ou alternativa que a oferta da escolarização sob a forma de multissérie desencadeia (HAGE, 2015, p. 17).
Assim, percebemos que algumas professoras compartilham esse estigma negativo que o multisseriado carrega, como podemos ver nos relatos a seguir:
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É muito complicado, trabalhar com a sala multisseriada não tem um bom desenvolvimento, um bom resultado, o professor procura atingir um bom resultado, mas não consegue de maneira alguma. É diferente trabalhar em uma turma só, com uma turma só, você dá atenção só àquela turma, é muito diferente (RAFAELA, 2019, entrevista cedida em 02/09/2019).
O maior desafio na multisseriada não é o nível das crianças, porque em toda sala você vai encontrar crianças com diferentes níveis, o difícil é sua sequência didática, é porque você vai ter que deixar de lado algo de alguma turma, entendeu? E acaba que, na sequência didática da vida escolar da criança, isso pode gerar uma lacuna, porque vai depender do meu ponto de vista, do professor, por exemplo, se eu quiser dizer: – não vou ensinar para eles substantivo, se eu quiser ensinar adjetivo, que se tiver no livro do 5º ano e quiser ensinar para os dois, eu ensino, mas também, se for uma coisa que o professor quiser ignorar, ele ignora, então a criança pode sair com algumas lacunas devido a essa escolha. Deixa-me dizer, o professor pode fazer o que ele quiser, porque ele tem duas sequências didáticas, então para mim é diferente de quando ele tem apenas uma (MELISSA, 2019, entrevista cedida em 05/09/2019).
Quando comecei a trabalhar já fui para uma sala multisseriada, eu vi uma teoria por seriação, nessa época ainda era seriação, nem era anos, conteúdos em série, séries separadas. Quando eu entrei e vi a mistura, eu pensei: meu Deus, acho que entrei no barco errado. Mas a gente se adapta, porém não aceita, porque até hoje eu não aceito multisseriado, não. Porque eu acho que é uma sequela, que você vai manchar o seu aluno, vai deixar uma manchinha, um vazio, algum conteúdo que era específico para aquela série, eu vou deixar de dar, entendeu? (BARBOSA, 2019, entrevista cedida em 03/09/2019). Os testemunhos acima revelam um pouco dessa representação social negativa da Sala Multisseriada, mesmo vindo de professores que ensinam há muito tempo em salas desse tipo, como é o caso de Rafaela, as professoras justificam sua visão pessimista com base em um possível déficit, uma lacuna na aprendizagem dos alunos, que seria resultado dessa sala diversificada, e de um ensino pouco direcionado, que pode ser considerado um dos grandes desafios que se apresentam em uma Sala Multisseriadas. Outro ponto a ser considerado é que nos relatos os professores chamam a atenção para o fato de que, nas Salas Multisseriadas o professor escolhe os conteúdos para ensinar, e que isso era considerado uma fragilidade dessas salas. Podemos refletir: essa estratégia é exclusiva dos professores da Sala Multisseriada? No ensino regular, os professores não fazem a mesma coisa? Não temos aqui a intenção de gerar polêmica nas possíveis escolhas dos professores, nem criar disputa entre a sala seriada e a não seriada, mas apenas apontar que a escolha de conteúdo é realizada em ambas as modalidades de ensino, e não é uma característica única da Sala Multisseriada.
Medeiros (2010, p. 24) afirma que de todos os desafios colocados à educação do Campo, o maior está relacionado à complexidade das Salas Multisseriadas:
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Ensinar uma turma de ensino regular, seja ele educação infantil, fundamental ou médio requer diversas exigências para a/o professora/o. Essas exigências são, por exemplo, uma boa formação, digamos, teórica-metodológica, com base na psicologia da aprendizagem, na sociologia e na antropologia como fundamentos, para lidar com diferentes sujeitos, ou seja, com situações cambiantes do trabalho educativo encontrado no meio rural, [...]. Imaginemos então, o nível elevado das exigências que devam ser mobilizados por uma única professora, dentro do mesmo turno e espaço, para lecionar em uma turma composta por alunos com diferentes idades, séries, interesses e estágios de desenvolvimento cognitivo e de aprendizagem (MEDEIROS, 2010, p. 24). No entanto, o testemunho de Barbosa, mostra-se contraditório, visto que foi alfabetizada numa Sala Multisseriada, e mesmo assim, ainda tem essa representação negativa muito forte, contradizendo, em parte, a afirmação de Santos e Moura (2015, p. 45), que diz:
[...] a história de vida dos professores interfere, decisivamente, nas representações que estes constroem sobre as classes multisseriadas. Professores que estudaram em classes multisseriadas e, ainda, aqueles que possuem maior tempo de serviço em turmas multisseriadas parecem ter uma relação mais tranquila com turmas dessa natureza, implementando práticas mais flexíveis e desenvolvendo currículos mais abertos aos tempos e ritmos diversos que marcam esses espaços (SANTOS; MOURA, 2015, p. 45). Assim, ter a experiência de ser alfabetizada em uma Sala Multisseriada e posteriormente dar aula nessa mesma configuração, não contribuiu, nesse caso específico, para uma quebra de paradigma sobre uma possível deficiência no ensino nessas salas, mas foi uma percepção fortalecida.
No caso dos testemunhos de Maria de Nazaré e Maria, percebemos o movimento confirmatório, ambas também foram alfabetizadas em Salas Multisseriadas e têm uma percepção exitosa dessa sala, confirmando a argumentação de Santos e Moura (2015):
Muitos dos meus colegas que vieram trabalhar na zona rural, me questionam: – Como você prefere ir para a zona rural? Questionam por que só eu continuo na zona rural. Eles dizem: – Além do tempo que você gasta para ir, tem essa questão de ser mais de uma série. Eu digo que tenho amor pela zona rural, porque eu sou da zona rural. [...]. Existem dificuldades, mas, não sei, se é porque eu sou daqui, acho que as crianças têm o direito de estudar perto de casa, como eu estudei (MARIA DE NAZARÉ, 2019, entrevista cedida em 04/09/2019).
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B33: Como foi a experiência de ser alfabetizada em uma Sala Multisseriada,
e depois voltar para dar aula em uma Sala Multisseriada?
M: É como eu disse, para mim, é uma realidade muito comum, é uma turma normal, eu não vejo muita diferença, estudei em turma multisseriada, não tive muita dificuldade (MARIA, 2019, entrevista cedida em 04/09/2019).
A informação de que alguns professores foram alfabetizados em Salas Multisseriadas, surgiu no decorrer das entrevistas, e acabou sendo uma pergunta incorporada a partir de então, justamente por trazer duas percepções, a primeira a percepção do aluno dessas salas, mesmo não sendo o foco de nossa pesquisa, portanto não tão explorada aqui, e a segunda, talvez a mais importante, de que esse ensino não tem um efeito tão negativo assim, visto que alguns professores foram frutos desse ensino. Então apresentamos perspectivas distintas sobre o mesmo assunto, e concordamos com Poirer et al. (1999 apud SANTOS, 2015, p. 84):
Não tive a pretensão de que as narrativas singulares fossem suficientes para universalizar uma identidade para as professoras de turmas multisseriadas, todavia parti do princípio de que cada história singular concretiza o universal, embora não concretize tudo, face às regularidades e irregularidades das narrativas das colaboradoras (POIRER et al.,1999, apud SANTOS, 2015, p. 84).
Em nosso trabalho, não tivemos a intenção de narrar apenas uma perspectiva relacionada à existência das salas Multisseriadas, mas justamente formar um panorama com as mais variadas nuances que coexistem dentro de um sistema de ensino tão rico e grande como o que nos propomos a estudar.