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Report of the Commission of Inquiry established pursuant to Security

4.2 DÉCADA DE 1990: SOMÁLIA, BÓSNIA E RUANDA

4.2.2 Report of the Commission of Inquiry established pursuant to Security

to casualties among them (S/1994/653)

Em virtude dos constantes ataques das facções somalis à UNOSOM II e das consequentes baixas em seu efetivo, a Resolução do Conselho de Segurança 885 (1993), de 16 de novembro, autorizou a criação de uma comissão de inquérito responsável por investigar tais ataques. Fruto do trabalho dessa comissão, foi editado em 1 de junho de 1994 o Relatório

da Comissão de Inquérito para investigar ataques armados ao pessoal da UNOSOM II que levaram a baixas (S/1994/653) (Relatório Somália)239.

O relatório apresentou falhas na organização da UNOSOM II que levaram à morte dezenas de capacetes azuis, além de uma série de fatores que justificaram o insucesso das ações empreendidas pelas Nações Unidas na Somália.

Durante o ataque de 5 de junho de 1993, foi requisitado apoio ao headquarter da UNOSOM II em virtude da violência empregada pelas facções somalis e da falta de recursos para fazer frente à investida. O apoio, que deveria chegar em 30 minutos, demorou cinco horas para alcançar o local. Nesse ponto, a organização da UNOSOM II falhou ao não responder rapidamente ao pedido de socorro dos paquistaneses sob ataque240.

No dia seguinte ao ocorrido, o Conselho de Segurança aprovou a Resolução 837 (1993), para que fossem responsabilizados aqueles que tivessem atacado os soldados paquistaneses. Para essa empreitada, a UNOSOM II foi fortalecida com a presença dos

Rangers estadunidenses, os quais passaram a ter a missão de capturar o General Aidid,

suposto mandante do ataque.

A operação se desenrolaria no dia 3 de outubro, no Olimpic Hotel, onde estavam reunidos o General Aidid e seus assessores. Embora importantes assessores tenham sido

237 UNITED NATIONS (1997b). 238 UNITED NATIONS (1997b).

239 UNITED NATIONS. Security Council. Report of the Commission of Inquiry established pursuant to Security

Council Resolution 885 (1993) to investigate armed attacks on UNOSOM II personnel which led to casualties among them. UN docs. S/1994/653, 1 jun. 1994a.

capturados, a operação transformou-se num desastre quando dois helicópteros foram abatidos pela milícia, levando à morte quase 20 Rangers241.

Os Estados Unidos revisaram, então, sua política e anunciaram o retorno da força estadunidense para o país no dia 31 de março de 1994. Essa atitude do governo dos EUA privou a UNOSOM II de seu contingente nacional mais potente242.

Dentre os motivos que colaboraram para uma má atuação das Nações Unidas na Somália, tendo em vista o fato de os capacetes azuis não terem conseguido evitar o massacre à população civil, tampouco firmar um acordo de paz duradouro, promover eleições claras e democráticas, nem reconstruir a infraestrutura local, o Relatório Somália cita os principais.

Primeiramente, a UNOSOM I foi revestida das características de uma operação de manutenção da paz tradicional, uma vez que havia o consentimento local apenas para ao envio de observadores militares que se ocupariam da supervisão do acordo de cessar-fogo firmado à época. O emprego da força foi autorizado para os casos de legítima defesa. E, ao mesmo tempo em que constituía uma operação de manutenção da paz, era também uma missão de cunho humanitário.

Já a UNOSOM II era fundamentada no capítulo VII da Carta da ONU, o que por si só já a diferenciava da primeira. Seus objetivos eram mais audaciosos, não havia consentimento das autoridades locais em virtude das inúmeras facções rivais que conduziam o conflito, o que implicava a falta de partes legítimas a quem se pudesse pedir o consentimento. O uso da força tinha sido autorizado para dar efetividade ao cumprimento do mandato, que previa a proteção dos peacekeepers, das instalações da missão, do pessoal envolvido na ajuda humanitária, de aeroportos, portos, infraestruturas úteis ao alívio humanitário. Note-se que a proteção da população civil não figurava como parte integrante do mandato243.

As diferenças vão além: enquanto a UNOSOM I foi uma operação de manutenção da paz tradicional, inadequada para a gravidade do conflito, a UNOSOM II foi classificada pelo próprio Relatório Somália como uma peace enforcement244, uma vez que os capacetes azuis atuavam sem o consentimento das partes e impunham práticas de desarmamento coercitivas.

O Relatório Somália julgou, então, que a operação de peace enforcement empreendida pela UNOSOM II na Somália, dentro de um contexto de guerra civil, não

241 UNITED NATIONS (1994a, p. 32). 242

UNITED NATIONS (1994a).

243 UNITED NATIONS (1994a, p. 46). 244 UNITED NATIONS (1994a).

conferiu às Nações Unidas uma imagem pacífica e humanitária, tampouco colaborou para que um acordo de paz fosse firmado245.

Outro problema encontrado foi o fato de muitos assessores políticos seniors da UNOSOM II não terem experiência e conhecimento acerca das práticas envolvidas em operações de manutenção da paz, além de se terem mostrado insensíveis à cultura local246.

Faltou à UNOSOM II, também, uma fonte de informações confiável que satisfizesse as exigências da ONU e um setor de inteligência capaz de reunir dados importantes para o sucesso de uma operação de peace enforcement247.

A exemplo da forma como o governo estadunidense lidou com a operação dos

Rangers de 3 de outubro, ficou comprovado que os Estados não estão preparados para sofrer

baixas de seus soldados por motivos alheios ao interesse nacional. Esse fato limita as operações de peace enforcement248 e de manutenção da paz.

Outra questão de grande relevância apontada pelo relatório foi a aprovação de um mandato muito pretensioso para a UNOSOM II em relação aos instrumentos disponíveis e à vontade política do Estados participantes em implementá-lo249.

Por fim, as falhas determinantes para a deficiência da UNOSOM II foram a falta total de experiência em operações de manutenção da paz em conflitos internos violentíssimos250 e a falta de entendimento por parte da ONU, à época, de que as violações de direitos humanos configuram ameaças à paz e à segurança internacionais e que, portanto, devem constar do mandato como tarefa “número 1” a ser executada pelos peacekeepers.