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5 EFEITOS DAS OPERAÇÕES DE MANUTENÇÃO DA PAZ DA DÉCADA

7.4 STATUS OF FORCE AGREEMENT E OS DIREITOS HUMANOS

O SOFA prevê a concessão à MINUSTAH, e a todos os seus membros, de um conjunto de privilégios, imunidades e facilidades aplicáveis em todo o território daquele país, definindo, também, a jurisdição a que estarão submetidos os membros da missão de paz em caso de delitos. A exemplo das resoluções do Conselho de Segurança, a análise desse documento, que será feita a seguir, tem como foco identificar a aplicação das recomendações constantes dos documentos estudados até aqui, especialmente as voltadas para a observância dos direitos humanos.

Desta sorte, o título I, parágrafo 1º, alínea “a” (ANEXO A) trata das definições dos termos usados no acordo e estabelece a ligação entre as previsões da Resolução 1542 (2004) – que instituiu a MINUSTAH e definiu seu mandato – e as previsões do SOFA. Vê-se, portanto, que esse último documento visa a criar as condições necessárias para que os objetivos do mandato sejam alcançados, aí incluídos os que dizem respeito aos direitos humanos.

Cumpre notar, no item 11 da Resolução 1542 (2004), que o CSNU instou as autoridades haitianas a firmar o SOFA com o SGNU em 30 dias a contar da data da resolução. No interregno, estaria em vigor provisoriamente o modelo-padrão de SOFA, datado de 9 de outubro de 1990 (A/45/594), normalmente utilizado nesses períodos de transição.

Ainda no campo das definições do parágrafo 1º, na alínea “a” consta que os membros da MINUSTAH compreendem o SRSG e dois Deputy Special Representative of the

Secretary-General (DSRSG), os integrantes da categoria peacekeeping personnel e mais os da peacekeeping troops. Faz-se, ainda, menção expressa à Convenção Geral de 1946, que rege a

situação do SRSG, DSRSG e do peacekeeping personnel quanto a esses assuntos, e já abordada na seção anterior.

Já o título IV do SOFA trata do status da MINUSTAH, conferindo a ela a natureza de órgão internacional subsidiário da ONU. O parágrafo 5, por sua vez, estabelece que seus membros comprometem-se a respeitar as leis e normas do país que voluntariamente a acolheu. Com isso, atende-se ao princípio do consentimento das partes e preserva-se a soberania nacional do anfitrião, como defendido pelo Relatório Brahimi e pela Doutrina Capstone.

O parágrafo 5 estabelece, ainda, que a MINUSTAH e seus membros se abstêm de todos os atos ou atividades incompatíveis com o caráter imparcial e internacional de suas funções ou contrárias ao espírito do acordo. Por esse dispositivo, verifica-se que a MINUSTAH compromete-se expressamente a observar o princípio da imparcialidade da holly

No parágrafo 6, alínea “a”, a ONU assegura que o efetivo militar da MINUSTAH cumprirá sua missão respeitando os princípios e normas das convenções internacionais relativas ao direito internacional humanitário500. Incluem-se neste arcabouço normativo as quatro Convenções de Genebra de 12 de agosto de 1949 e seus protocolos adicionais de 8 de junho de 1977, e mais a Convenção Internacional da UNESCO para a proteção de bens culturais, datada de 14 de maio de 1954. Há, contudo, uma limitação ao cumprimento das convenções expressa no caput do parágrafo, com a inclusão da ressalva “sem danos ao mandato da MINUSTAH e a seu estatuto internacional”.

Mais adiante, o título VI trata do status dos membros da MINUSTAH, considerados individualmente. Com esse propósito, os parágrafos 26, 27 e 28 discorrem sobre os privilégios e imunidades do SRSG e dos membros integrantes da categoria peacekeeping personnel, como visto no item 6.2. Quanto ao pessoal militar dos contingentes nacionais, seus privilégios e imunidades estão unicamente previstos no próprio SOFA, como disposto no parágrafo 29, já que a Convenção a eles não se aplica.

Sobre a questão disciplinar, pelo parágrafo 43 o SRSG compromete-se a tomar as medidas cabíveis para assegurar a manutenção da ordem e da disciplina entre os membros da MINUSTAH, bem como entre o pessoal recrutado na área. Se necessário, de acordo com o parágrafo 45, as autoridades do governo poderão prender um membro da MINUSTAH, desde que a pedido do SRSG ou em flagrante delito. Nesses casos, o preso deve ser encaminhado

incontinenti a uma autoridade da MINUSTAH.

O parágrafo 48, alínea “ii”, estabelece que, no caso de membros da MINUSTAH serem capturados ou presos no exercício de suas funções, não serão submetidos a interrogatórios, mas devem ser liberados imediatamente e encaminhados às Nações Unidas. Até a liberação, devem ser tratados de acordo com as normas universais de respeito aos direitos humanos e os princípios das Convenções de Genebra.

Sobre jurisdição a ser aplicada, caso o governo do Haiti considere que um membro da MINUSTAH tenha cometido uma infração penal, deverá informar o fato com brevidade ao SRSG e apresentar todos os elementos de prova existentes, como prescrito no parágrafo 51.

Sendo o acusado integrante da categoria dos peacekeeping personnel, o SRSG irá apurar se a infração foi cometida no exercício da função oficial. Se for este o caso, não dará permissão para a abertura de procedimento criminal, já que o infrator estaria resguardado pela imunidade. Caso contrário, o SRSG poderá abrir mão da imunidade do peacekeeper de modo

a permitir que o processo siga seu curso segundo as leis do país anfitrião, aplicando-se a jurisdição local.

Em qualquer caso, o SRSG deve instaurar investigação própria e entrar em acordo com o governo local sobre se o processo criminal deve ou não ser instaurado. Caso não haja acordo, as partes deverão recorrer ao mecanismo de regularização de desavenças previsto no parágrafo 57.

Quanto aos militares membros dos contingentes nacionais da MINUSTAH, eles estão submetidos à jurisdição exclusiva do Estado contribuinte para toda e qualquer infração de natureza penal que venham a cometer no Haiti. Contudo, como medida administrativa, o SGNU poderá ordenar a repatriação de qualquer militar membro de contingente que tenha sido considerado culpado de ter cometido falta grave, para que seja penalizado em seu próprio país.

Quanto às infrações de natureza civil, o parágrafo 52 prevê que, no caso de uma ação civil ajuizada contra um membro da MINUSTAH, uma notificação será feita ao SRSG para que informe ao Tribunal local se o caso tem ou não ligação com as funções oficiais desempenhadas pelo infrator. Comprovada tal ligação, a ação será extinta. Caso contrário, a ação seguirá seu curso normal junto ao Judiciário do Haiti.

Por fim, o título VIII trata da regularização de desavenças no curso da missão. Segundo o parágrafo 57, todas as desavenças entre a MINUSTAH e o governo local serão levadas a um tribunal composto por três membros: um nomeado pela MINUSTAH, outro pelo governo do Haiti e o terceiro nomeado de comum acordo entre as partes. Caso não haja acordo, o terceiro membro – que presidirá o Tribunal – será nomeado pelo presidente da Corte Internacional de Justiça, quando solicitado por uma das partes. As decisões desse tribunal terão força de lei, não cabendo apelações.