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Report of the Secretary-General pursuant to General Assembly Resolution

4.2 DÉCADA DE 1990: SOMÁLIA, BÓSNIA E RUANDA

4.2.4 Report of the Secretary-General pursuant to General Assembly Resolution

A partir do Relatório do Secretário-Geral acerca da Resolução 53/35 da Assembleia

Geral: “a queda de Srebrenica” (A/54/549) (Relatório Srebrenica), elaborado para tratar do

massacre de Srebrenica, em função do desastre humanitário ali ocorrido e da impossibilidade de reversão do quadro pelos capacetes azuis que protegiam a região, pode-se traçar um panorama geral acerca da atuação e das falhas cometidas pelas Nações Unidas na Bósnia.

A queda de Srebrenica choca por dois motivos: primeiramente, pela magnitude dos crimes cometidos, que levaram à morte mais de 7 mil bósnios mulçumanos; e pela crença da população civil que se abrigava naquela safe área, de que as Nações Unidas garantiriam sua segurança277.

Conforme explica Uziel, a criação de safe areas pressupõe, para seu êxito, o consentimento das partes e uma alocação maior de recursos materiais e humanos. A Resolução 819 (1993), de 16 de abril, não previu qualquer recurso adicional, por faltar consenso entre os membros permanentes do Conselho de Segurança. Contudo, mesmo com as divergências, escassez de recursos e um consentimento instável firmado no dia 17 de abril de 1993, o órgão expandiu a política de safe areas por intermédio da Resolução 824 (1993), de 6 de maio278.

Vê-se, então, que a política engendrada pelo Conselho de Segurança já apresentava, no momento de sua concepção, dificuldades em ser efetivada. O Relatório Srebrenica informa que era claro para o Secretariado e para os Estados membros que as safe areas não eram verdadeiramente seguras, pois faltava uma presença militar robusta279, um consentimento

275 ANJOS (2007, p. 124). 276 ANJOS (2007). 277

UNITED NATIONS. General Assembly. Report of the Secretary-General pursuant to General Assembly Resolution 53/35: “the fall of Srebrenica” (Relatório Srebrenica) (A/54/549). 15 nov. 1999a. Disponível em: <http://www.un.org/peace/srebrenica.pdf/>. Acesso em: 12 maio 2011. p. 102.

278 UZIEL (2010, p. 145). 279

O Secretariado julgou ser necessário um efetivo de 32 mil homens, mais ou menos, para que o plano das safe areas fosse cumprido com êxito. No entanto, os países contribuintes disponibilizaram apenas 7.600 homens (UZIEL, 2010, p. 59).

cristalino, o interesse em usar decisivamente a força aérea na região e os meios necessários para repelir ataques em solo280.

Porém, não obstante os sinais de fragilidade que cercavam Srebrenica, muitos observadores culparam o batalhão holandês da UNPROFOR, responsável pela segurança da cidade, por não ter impedido o massacre. O comandante da força holandesa justificou-se ressaltando que muitos pedidos de apoio aéreo foram feitos sem que uma resposta fosse dada, e, desse modo, nada poderia ter sido feito para impedir o ataque sérvio. Deve-se ressaltar, também, o baixo quorum de solados holandeses – cerca de 150 homens – levemente armados e em posições indefensáveis para fazer frente a um efetivo de mais de 2 mil sérvios munidos com artilharia pesada e blindados281.

No que toca à falta de apoio aéreo, deve-se frisar que, apesar dos vários pedidos de apoio efetuados pelo comandante holandês, o SRSG na Bósnia e o Force Commander opuseram-se por quatro motivos. Primeiramente, acreditaram que o uso da força aérea indicaria que as Nações Unidas haviam entrado na guerra contra os sérvios e que o formato de operação de manutenção da paz havia sido substituído pelo de peace enforcement. Em seguida, consideraram que a partir dessa iniciativa poderiam perder o controle do processo de paz, o que colocaria em perigo a segurança das tropas. Ademais, o uso da força aérea tiraria o foco da missão de paz, cujo objetivo primário era criar um ambiente seguro para a prestação de assistência humanitária. Por fim, temeram represálias sérvias contra seus peacekeepers282.

Colaborou, também, para o massacre, a falha na compreensão da extensão da guerra sérvia, o que impediu a UNPROFOR de agir prontamente ao ataque. As informações que chegavam ao Conselho de Segurança eram imprecisas e incompletas e levavam a crer que a situação estava sob controle. Faltou, então, um serviço de inteligência funcional, que permitisse uma coleta real de dados conjugada a uma interpretação fiel dessas informações283. O Relatório Srebrenica apontou, ainda, como lição primeira a ser aprendida com o evento de Srebrenica, o fato de que operações de manutenção da paz não devem ser utilizadas como substitutas a um consenso político, pois dessa forma elas falharão. A falta de consenso impediu uma leitura clara do conflito e acabou por enviar capacetes azuis a um terreno em que não havia um acordo de paz ou tampouco um cessar-fogo, e onde o som dos tiros ainda ressoava284.

280 UNITED NATIONS (1999a, p. 107-108). 281 UNITED NATIONS (1999a).

282

UNITED NATIONS (1999a, p. 104).

283 UNITED NATIONS (1999a, p. 106). 284 UNITED NATIONS (1999a).

Contudo, o principal ensinamento de Srebrenica diz respeito ao uso da força. Apesar de o Secretariado ter-se convencido sobre a importância de seu emprego em momentos anteriores para dar cumprimento à ajuda humanitária, o Secretário-Geral, em relatório endereçado ao Conselho de Segurança, manifestou-se contra a “cultura da morte”, afirmando que a paz deveria ser alcançada por meios pacíficos e não por meio de métodos militares.

Ademais, faltou ao Conselho de Segurança sensibilidade ao tratar da política de “limpeza étnica” levada a cabo pelos sérvios. Em suas resoluções, tal política era descrita pelo órgão como ilegal e inaceitável, mas nunca como uma ameaça à paz e à segurança internacionais que justificasse o uso da força para proteger os milhões de vidas perdidas durante a guerra285.

A lição cardinal de Srebrenica, portanto, é a de que, em situações de terror e homicídio em massa, todos os meios necessários devem ser utilizados. Na guerra da Bósnia, o uso da força era imprescindível para pôr um fim às mortes sistemáticas e à expulsão de civis286.

O Relatório Srebrenica concluiu que esses problemas operacionais estavam relacionados a profundos problemas políticos no âmbito do Conselho de Segurança. Mais uma vez, então, o CSNU tentou manter a paz onde não havia paz a ser mantida e acreditou que a ajuda humanitária seria o suficiente para remediar a situação287.