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CAPÍTULO 2 – CY PRES E FLUID RECOVERY

2.1 A CLASS ACTION MODERNA E O PROBLEMA DAS CORTES COM A

2.1.3 REVERSÃO PARA O ESTADO (ESCHEAT)

Tradicionalmente todo o dinheiro sem dono, incluindo somas de danos sem demandante, podem ser transferidos aos cofres públicos. A autoridade do Estado para ser recebedor desses fundos vem de sua posição como parens

patrie e da teoria geral da escheat.131 Apenas a título de ilustração, em outros

sistemas de common law com a Austrália e o Canada, há previsão expressa de que fundos sem dono reverterão ao Estado – mesmo que não no contexto da

class action.

Nos Estados Unidos, não há previsão alguma sobre a escheat na Regra 23, porém, os fundos residuais de julgamento ou acordo podem retornar ao governo sob a Seção 2042 do Título 28 do Código dos Estados Unidos.132 Em

resumo, a regra expressa que todo dinheiro pago as Cortes ou a seus oficiais em casos pendentes ou por ela julgados deve ser depositado no Tesouro dos

129 YOSPE, Sam. Cy Pres Distributions in Class Action Settlements. Columbia Business Law

Review, vol. 2009, n. 3, p. 1014-1064, 2009. p. 1043.

130 WASSERMAN, Rhonda. Op. Cit., p. 107.

131 O termo parens patrie é tradicionalmente descrito o poder do soberano de agir como guardião

da pessoa com alguma incapacidade de agir por si mesmo, inclui casos em que o Estado age como trustee para menores. SHEPHERD, Stewart. Damage Distribution in Class Actions: The Cy Pres Remedy. University of Chicago Law Review, v. 39 iss. 2, article 9, p. 448-465, 1972. p. 454.

132 ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. U. S. Code. Title 28, Section 2042. No money deposited

under section 2041 of this title shall be withdrawn except by order of court. In every case in which the right to withdraw money deposited in court under section 2041 has been adjudicated or is not in dispute and such money has remained so deposited for at least five years unclaimed by the person entitled thereto, such court shall cause such money to be deposited in the Treasury in the name and to the credit of the United States. Any claimant entitled to any such money may, on petition to the court and upon notice to the United States attorney and full proof of the right thereto, obtain an order directing payment to him.

Estados Unidos ou em outro depositário designado. Esse montante não poderá ser sacado sem a expressa autorização da Corte.

Se o valor permanecer por pelo menos 5 anos sem que seja demandado, ele deverá ser depositado como crédito ao Tesouro. Aquele que porventura tenha direito a esse valor deverá fazer uma requisição direta, juntamente às provas devidas, ao advogado do Estado para ordem de pagamento direta.

Assim, de maneira genérica, é possível inferir que a Seção 2042 do Título 28 do Código dos Estados Unidos autoriza a reversão para o Tesouro dos fundos depositados em cortes federais que não forem demandados em 5 anos. Entretanto, questiona-se se essa provisão, de fato, poderia ser considerada uma escheat, vez que a escheat é o procedimento pelo qual o Estado, de fato, adquire o direito (title) à propriedade abandonada e de acordo com essa provisão do Código dos Estados Unidos, o governo não ganha a propriedade do dinheiro, mas apenas serviria de trustee para seus proprietários enquanto não o demandassem.133

Fato é que, no contexto da class action, o Estado é autorizado a utilizar a teoria da escheat nos fundos não demandados, na qualidade de representante desses cidadãos que não recolheram sua parte.134 Assim, a classe poderia

consistir na população geral do Estado, ou mesmo pode-se direcionar sua utilização a grupos beneficiados por programas especiais do governo. Inclusive, se os membros da classe forem de diferentes estados, cada estado pode exercer a escheat da fração do fundo que lhe for correspondente.

Assim, a base da teoria é a de que os membros da classe que não demandaram sua parte serão indiretamente beneficiados à medida que o Estado irá utilizar os fundos para beneficiar todos os seus cidadãos. Assim os objetivos compensatórios do Direito, principal objeto das demandas da classe, serão efetivados – ainda que de maneira indireta e imperfeita, uma vez que os membros ausentes são tipicamente parte, ainda que pequena, da população geral do Estado.135

133 WASSERMAN, Rhonda. Op. Cit., p. 109.

134 Para um estudo mais aprofundado sobre a escheat nas class actions ver: MILLAR, Ethan D.

COALSON JR., John. The Pot of Gold at the End of the Class Action Lawsuit: Can States Claim It as Unclaimed Property?. University of Pittsburgh Law Review, vol. 70, n. 4, p. 511-554, 2009.

Entretanto, melhor que servir a propósito compensatório, parece que a

escheat serve de maneira mais eficiente ao propósito de desencorajar os

comportamentos ilícitos, vez que assegura que os réus paguem o montante completo do acordo e não recebam reversão dos fundos residuais.136

Alguns autores vão além e defendem que a reversão para o Estado, ou a escheat, seria alternativa superior às demais e que, inclusive, deveria ir além do montante residual e ser aplicado na integralidade do montante em todos os processos coletivos.

A lógica subjacente desse raciocínio é a de que de virtualmente todos as pessoas podem fazer parte de class actions, sabendo ou não. Essas ações geram fundos residuais e por meio do véu da ignorância, o homem padrão não sabe quais classes ele integra ou pode integrar, nem tem expectativas de dividir os benefícios obtidos. Além disso, qualquer tentativa de enfocar uma classe específica de autores pode perder outros possíveis componentes da classe. Porém, é bem possível que qualquer sujeito espere ser beneficiado com dinheiro extra no Tesouro Nacional e até possa ser a opção mais desejada pelos membros não identificados da classe.137

Parece que a teoria tem seus méritos ao buscar utilização do fundo que não seja unicamente voltada à reparação de dano passado, mas também busca olhar prospectivo, com o emprego dos fundos para a prevenção de danos futuros. Mesmo assim, parece difícil imaginar a aplicabilidade dessa teoria quando o Poder Público passa a ser réu em ações coletivas.