• Nenhum resultado encontrado

Ricœur, Soi-même comme un autre, p 380.

No documento Da ficção em Leviathan de Paul Auster (páginas 115-145)

Jogos de espelhos

13 Ricœur, Soi-même comme un autre, p 380.

14Martine Chard-Hutchinson, "Les espaces de la mémoire dans L'Invention de la Solitude", L'Œuvre de Paul Auster, p. 17.

com Maria um projecto sem contornos definidos, que a artista intitula "Thursdays with Ben". Comentando os possíveis resultados deste projecto, Aaron afirma a importância das sessões fotográficas que o integram para o restabelecimento da identidade de Sachs:

Every time Sachs posed for a picture, he was forced to impersonate himself, to play the game of pretending to be who he was. After a while, it must have had an effect on him. By repeating the process so often, he must have come to a point where he started seeing himself through Maria's eyes, where the whole thing doubled back on him and he was able to encounter himself again. They say that a camera can rob a person of his soul. In this case, I believe it was just the opposite. With this camera, I believe that Sachs's soul was gradually given back to him. (130)

Sachs encontra-se através da percepção que Maria Turner objectiva com a ajuda da máquina fotográfica, ou seja, o objecto do trabalho da artista "rouba" a sua identidade à imagem que esta cria, constrói-se como sujeito no próprio acto de se deixar observar e representar por uma outra personagem.

O jogo de personagens especulares que se realiza no espaço criado pela distância entre a ilusão e o olhar está na origem de todo o processo narrativo de Leviathan, e daí a multiplicação dos duplos, de figuras com percursos similares e caracterizadas por diversos pontos em comum, capazes de construir a sua identidade a partir das imagens de si próprias que recebem umas das outras:

Leviathan, while repeating the Ishmael-Ahab setup of The Locked Room, augments the exponent, producing the triplet Aaron-Sachs-Dimaggio: Aaron substitutes in Sachs's bed and Sachs in Dimaggio's; Sachs, who "had stood for the same things" as Dimaggio [170], adopts Dimaggio's mission and while carrying out a form of it, forges in Aaron's books the signature of the author, who himself will borrow the name of Sachs's own unfinished project to title the account of Sachs's life, a life without which Aaron says he "can hardly imagine" his own [18].15

O jogo de duplos não se fica, assim, pela ambiguidade da relação Aaron- Sachs, surgindo uma nova personagem que vai ajudar ao processo de estruturação da

identidade de Sachs. Dimaggio é, para ele, o outro em que revê a sua identidade ideal, o percurso de vida que não tinha ainda tido coragem de assumir, mas por que opta quando é confrontado com a história do ex-marido de Lillian. A "música do acaso" parece promover o encontro destas imagens especulares, e possibilitar a identificação pelo outro. É, por isso, Dimmagio (e a sua tese sobre mais uma personagem com estas características, Alexander Berkman) quem conduz Sachs para a opção pela acção terrorista, que, pelo menos temporariamente, dá um sentido de unidade à vida do protagonista:

'I couldn't help myself after that. I started to think about Dimaggio all the time, to compare myself to him, to question how we'd come to be together on that road in Vermont. I sensed a kind of cosmic attraction, the pull of some inexorable force. (...) I

knew he'd been a soldier in Vietnam and that the war had turned him inside-out, that

he'd left the army with a new understanding of America, of politics, of his own life. It fascinated me to think that I'd gone to prison because of that war - and that fighting in it had brought him around to more or less the same position as mine. We'd both become writers, we both knew that fundamental changes were needed - but whereas I started to lose my way, to dither around with half-assed articles and literary pretensions, Dimaggio kept developing, kept moving forward, and in the end he was brave enough to put his ideas to the test. (224-225)

Os paralelismos entre os percursos de vida dos dois (e também de Aaron) são de tal modo notórios que Eric Wirth chega a afirmar:

That it is senseless to say whether the three names correspond to three characters enacting a single life or to one character living three lives is the point - don't say either, and certainly don't say three characters live three lives that are intricately enmeshed by coincidence. For Hobbes the leviathan is the commonwealth, the multitude voluntarily united under the absolute sovereign so that the interest of each individual is not absolute. For Auster, a counter-Hobbes surveying anarchy, the leviathan is the aggregation of missing male adults, which any one man and all men compose equally well - an anticommunal totality of zero, the whiteness of the whale, non-individuated consciousness itself (...)16

As relações entre estas personagens são, na verdade muito ambíguas e fortes. Isto não significa, contudo, que esta seja necessariamente uma agregação de adultos

desaparecidos, sem existência palpável, perfazendo uma totalidade anti-comunal de zero. Se o leviatã de Auster é a brancura da baleia, imersa numa rede de sentidos contraditórios e mesmo insondáveis, esta brancura não corresponde a uma consciência não individualizada que usa cada personagem para se expressar de determinada forma e depois a anula: pelo contrário, a representação da ligação profunda entre eu e outro tem por consequência a afirmação da distância que os separa. O seu leviatã não é, deste modo, a omnipresença do nada, mas a consciência da impossibilidade de determinar em definitivo o sentido e a identidade.

Ironicamente, ao pôr em prática as ideias de Dimaggio, o último elemento da cadeia de duplos, Sachs acaba por ultrapassar e contrariar os princípios defendidos por uma outra figura especular cuja sombra paira sobre toda a sua vida: Henry David Thoreau, o modelo do protagonista, de quem decalca "an attitude of remorseless inner vigilance" (26) que o vai caracterizar até ao fim e acaba por o levar à morte. O pormenor de morrer com a mesma idade que Thoreau torna-se, assim, relevante, uma vez que propicia a leitura da aproximação do destino de Sachs ao modus vivendi que conhecera através de Thoreau.

Auster explica a importância desta figura real na sua obra, nomeadamente em Leviathan, da seguinte maneira:

Thoreau est avant tout un très grand styliste. (...) Mais ses grandes idées, celles rassemblées notamment dans son essai La Désobéissance civile, sont d'une extrême modernité. Son dernier grand concept, celui de «résistance passive», a fait le tour du monde. (...) Mais son grand livre reste Walden, où il raconte l'expérience de la solitude. Il est un des premiers à avoir vu les contradictions de cet immense pays que sont les Etats-Unis, pays agricole, pays de fermes et de paysans, que l'industrialisation allait peu à peu transformer. (...) Thoreau était un immense visionnaire et c'est ce qui me touche chez lui.17

Também Sachs, nas passadas do seu mestre, é um visionário que tenta alertar a América para as contradições existentes entre os ideais representados pela Estátua da Liberdade e a sociedade real do seu tempo. O último meio pelo qual tenta chamar a atenção para esta situação não se enquadra, contudo, na ideologia da resistência passiva defendida por Thoreau, ao contrário do que acontecera com a ida para a prisão em defesa da sua posição relativamente à guerra no Vietname. A escolha do terrorismo marca o distanciamento deste modelo e a identificação com as posições de Dimaggio, e daí o corte da barba, que usava em homenagem a Thoreau.

Se há uma proximidade especular entre Sachs e o autor de Walden, torna-se também visível, deste modo, um conjunto de características que os distanciam. O jogo paródico com Thoreau explora esta relação ambígua em dois campos

interligados de investigação: o papel das teorias políticas defendidas por este transcendentalista na cultura americana contemporânea e as implicações que advêm destas teorias para a compreensão da solidão humana e das limitações do diálogo:

What sort of space is that which separates a man from his fellows and makes him solitary? I have found that no exertion of the legs can bring two minds much nearer to one another. What do we want most to dwell near to? Not to many men surely (...), but to the perennial source of our life (...)18

Torna-se importante, neste âmbito, o regresso a The New York Trilogy, mas agora a "Ghosts", que está, como Leviathan, imerso na sombra do fantasma de Thoreau e na ambiguidade da interdependência entre observador e observado, o sujeito e o seu duplo.

He [Blue] imagines himself somewhere else, far away from here, walking through the woods and swinging an axe over his shoulder. Alone and free, his own man at last. He would build his life from the bottom up, an exile, a pioneer, a pilgrim in the new

18 Henry David Thoreau, Walden and Other Writings by Henry David Thoreau, ed. Joseph Wood

world But that is as far as he gets. For no sooner does he begin to walk through these woods in the middle of nowhere than he feels that Black is there, too, hiding behind some tree, stalking invisibly through some thicket, waiting for Blue to lie down and close his eyes before sneaking up on him and slitting his throat.19

A parodia de Walden é por demais produtiva e enriquecedora, ao equacionar a questão da liberdade com as da identidade e da solidão. Ao retirar-se para Walden Pond, Thoreau faz a afirmação do seu direito à discordância e à escolha, mas o que "Ghosts" vem provar é que este poder não existe de facto. Em "Plagiarism in Praise: Paul Auster and Melville", Maria Irene Ramalho de Sousa Santos explica em que medida The New York Trilogy é um comentário crítico à hipótese do isolamento proposta em Walden.

In the third and last story of The New York Trilogy, titled "The Locked Room," [t]he narrator confirms the reader's suspicions that the "three stories are finally the same story". The story, in short, is a story about "stepping aside" - like Hawthorne's "Wakefield," as the narrative of "Ghosts" makes clear; but also like Melville's Bartleby and like Thoreau in Walden. (...) As in Hawthorne, in Auster "stepping aside" means to reject both the comforts and the commitments of social life. (...) Walden's Thoreau wanted to learn "the gross necessaries of life"; Melville's Bartleby shows us that you can't reduce your needs to "the grossest groceries" of "private business", as Thoreau likes to put it in Walden, and continue to be human. Thoreau wanted to "from only the essential facts of life," "to drive life into a corner, and reduce it to its lowest terms," expecting to find it sublime; in Bartleby's "dead wall," the wall of John Jacob's Wall Street, Melville shows how mean such a life can be.20

A rejeição ou, pelo menos, o afastamento temporário dos confortos e dos compromissos sociais, propostos em Walden e sonhados por Blue em "Ghosts" são, assim, abertamente questionados por Auster através da referência implícita desde "City of Glass" a Melville e à passividade vazia e mesquinha de Bartleby. O que está em causa é, de facto, a própria humanidade de Blue, que percebe o sem-sentido da

19 Auster, The New York Trilogy, p. 222.

20 Maria Irene Ramalho de Sousa Santos, "Plagiarism in Praise: Paul Auster and Melville",

sua atracção pela solidão quando o que o define é precisamente o seu envolvimento social, a sua necessidade do outro (de Black). Maria Irene Sousa Santos continua:

Bartleby's pathetic vulnerability and dependency in Melville's tale throws a dark shadow over transcendalist radical self-sufficiency, and if Walden's Thoreau may be said to be an inspiringly step-asider (...), Melville's Bartleby, who doggedly forces stepping-aside on himself, helps us understand Auster's probings, in The New York Trilogy, into this beautiful and seductive American cultural myth.21

Contemporânea de Walden, a história de Bartleby funciona assim como a imagem inversa do mito da auto-suficiência radical, desenvolvido pelos transcendentalistas e revitalizado na cultura americana de hoje. Auster recupera a questionação feita por Melville ao criar personagens que, como Blue, se apercebem que a auto-suficiência não passa de uma ilusão e que o isolamento, a solidão, escondem sempre a presença do outro e a necessidade dos vínculos sociais. E por isso que Blue nunca está livre para escolher o seu caminho. Uma vez que Black faz parte da imagem que tem de si próprio, da sua condição humana (do mesmo modo que Black se revê nele), o direito à escolha do isolamento não existe de facto.

A viragem de Sachs para o terrorismo representa também uma forma de contestação dos ideais transcendentalistas de Thoreau, embora a solução preconizada pelo protagonista não tenha mais sucesso: se os ideais de Thoreau são um mito, o activismo militante de Sachs não passa de uma decepção, e a única alternativa com algum poder parece ser a escrita, que é pelo menos capaz de retratar as experiências políticas de Thoreau e Sachs. Por outro lado, a questionação da viabilidade do isolamento humano possibilitada pelas referências ao autor de Walden acaba por legitimar a leitura de Leviathan como uma narrativa não sobre uma, mas duas

(várias) vidas que se espelham mutuamente e assim conseguem uma forma de estruturação baseada nas trocas entre ambas.

Em L'Autre par Lui-Même, Baudrillard refere-se à forma de prazer proporcionada pelo delírio da comunicação e da hiper-realidade que sente invadir a sociedade contemporânea:

Si on suit Callois dans sa classification des jeux: mimicry, agôn, aléa, ilynx - jeux d'expression, jeux de compétition, jeux de hasard, jeux de vertige -, alors la tendance de toute notre culture nous mènerait d'une disparition des formes de l'expression et de la compétition vers une extension des formes de l'aléa et du vertige.

Celles-ci n'impliquent plus de jeux de scène, de miroir, de défi ou d'altérité - elles sont plutôt extatiques, solitaires et narcissiques.22

Apesar da sua contemporaneidade, a escrita de Auster parece não acreditar no abandono dos jogos de expressão e competição, como a multiplicação dos duplos parece provar, ainda que não deixe de representar a importância do aleatório e da vertigem. Pelo contrário, a linguagem e a ficção parecem constituir para ele o campo de expressão por excelência dos jogos agonísticos e de imitação, à semelhança do que Lyotard propõe. No espaço inseguro entre a ambiguidade do confronto e do diálogo entre figuras especulares e a constatação da necessidade de representar o homem como ser solitário exposto ao poder vertiginoso do acaso, o autor invoca, assim, a hipótese da existência de um homem e uma realidade concretos, ainda que inacessíveis, na tentativa de afastar o espectro da hiper-realidade que, segundo Baudrillard, se sobrepôs já a essa hipótese.

2. Os espelhos na escrita: palimpsestos e "ghost writing"

But not yet have we solved the incantation of this whiteness, and learned why it appeals with such power to the soul; and more strange and far more Baudrillard, L 'Autre par Lui-Même, p. 23.

portentous - why, as we have seen, it is at once the most meaning symbol of spiritual things, nay, the very veil of the Christian's Deity; and yet should be as it is, the intensifying agent in things the most appalling to mankind

Is it that by its indefmiteness it shadows forth the heartless voids and immensities of the universe, and thus stabs us from behind with the thought of annihilation, when beholding the white depths of the milky way?23

A existência de um homem e de uma realidade concretos parece ser a primeira aposta da escrita de Auster. Ela só faz, contudo, sentido quando fundada na aceitação de que a sua compreensão é necessariamente parcial e subjectiva. Torna-se necessário, por isso, representar o homem como manuscrito ou, melhor, palimpsesto escrito por diversos autores, entre os quais ele próprio. Daí a importância do papel dos duplos e dos modelos em Leviathan: a identidade de Sachs (e de Aaron) constrói-se a partir de contributos de diversas fontes, e a sua representação é um trabalho colectivo naturalmente envolto em paradoxos intransponíveis. O trabalho de escrita que Aaron empreende, na tentativa de relatar a sua versão da história de Sachs, torna-se, assim, um projecto a várias vozes, em que a sua e a do protagonista têm papéis preponderantes, mas não exclusivos. Assim, as palavras de Sachs mantêm-se vivas no ambiente em que Aaron escreve:

... this is the room where I saw him for the last time, where he poured out his heart to me and let me in on his terrible secret. If I concentrate hard enough on the memory of that night, I can almost delude myself into thinking that he's still here. It's as if his words were still hanging in the air around me, as if I could still reach out my hand and touch him. (9)

Sachs participa, como não poderia deixar de ser, na reconstrução que Aaron leva a cabo, mas não é a única voz presente neste projecto, do mesmo modo que, em vida, continuamente se expõe às colisões de diferentes influências e modelos, e através delas encontra sentidos para a sua existência. Esta só é possível quando

aberta ao diálogo e à aceitação da multiplicidade intrínseca à condição humana. Daí a dificuldade que Aaron sente ao tentar representar Sachs: o seu trabalho pretende alcançar o impossível, ou seja, integrar numa visão coerente um todo de contradições e influências que é a vida humana.

Ao analisar The Invention of Solitude, Pascal Bruckner refere-se a esta temática, pelo que as suas ideias podem ser proveitosas numa análise de Leviathan.

Through writing we can choose other fathers to compensate for our own, discover a spiritual link, go beyond ourselves. Memory is immersion in the past of all those others who comprise us. The narrator distinguishes, one by one, these voices that speak through him that must be quieted before his true inner voice can be heard. But this goal is impossible to attain: the palimpsest self, like an ever-peeling onion, resists categorization. This peregrination through the continents of memory may be a marvellous journey, but it does not succeed in easing the pain. No matter how far it roams, the self is always haunted and tortured by others; it is a room full of strangers and intruders who speak in his place.24

Neste quarto a abarrotar de estranhos e intrusos que rodeia a identidade não há, deste modo, hipótese de fugas: o sujeito é o centro nevrálgico de uma rede de textos e contextos que o enformam e de que se não pode libertar. Sachs é um bom exemplo: ao longo da narrativa que Aaron faz da sua vida, ele surge como uma figura em constante mutação, na sequência de um conjunto vastíssimo de trocas com o meio ambiente, outras personagens, obras literárias e ideologias. Ele constrói a sua história pessoal passo a passo, narra-se o seu percurso e com isso procura encontrar nexos de coerência para ele, mas este trabalho é mais do que a elaboração de um manuscrito. Em Moon Palace, M. S. Fogg, apoiado pelo tio Victor, começa a sua vida de adulto crente na liberdade humana para criar o seu destino, que as iniciais do seu nome parecem preconizar:

"Every man is the author of his own life," he [Uncle Victor] said "The book you are

No documento Da ficção em Leviathan de Paul Auster (páginas 115-145)