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SEGUNDO CAPÍTULO As surpresas

No documento 1 A Herança (páginas 41-52)

Terminado os festejos em Barreto, Henrique retorna ao Rio de Janeiro, ainda, como nos últimos dias, acompanhado pelas duas lindas e cobiçadas protetoras, sendo que agora com uma delas sob ameaça. Sua ansiedade o está matando. Quer resolver o quanto antes à questão da herança, na verdade confirmar, pois ainda não acredita que seja o herdeiro de tal fortuna.

A conselho de Isabel, Henrique antes de tomar qualquer providencia, primeiro deveria encontrar-se com o senhor Osvaldo Brandão IV, Marquês de Saquarema, pois segundo ela, a família do Marquês além de ser de confiança, foi à única que se manteve fiel ao longo desses 150 anos, à vontade do senhor Antenor seu antepassado e protegeu os diamantes que agora passariam para as mãos dele.

Convencido, Henrique foi ter com o tal Marquês, apesar de não gostar de se envolver com a aristocracia. Como não existia mais a corte, o Marquês também não morava mais no Rio, e sim na cidade de Valença, próximo à fazenda Joia de Valença, que a família é proprietária desde 1741. E era para lá que eles agora estavam se dirigindo.

- Isabel me confirma uma curiosidade. Esse senhor Osvaldo Brandão IV ainda é o Grão Mestre da Loja Maçônica Comercio e Artes?

- Exatamente. É ele mesmo, embora ultimamente tenha

estado um pouco afastado, mas costuma frequentar a loja quando vai ao Rio de janeiro. Por quê? Você o conhece?

- Não. Mas já ouvi alguns comentários a respeito dele quando estive pesquisando sobre a Maçonaria.

- Bons ou maus? – Perguntou sorrindo e fingindo preocupação.

- Bons é claro. Enaltecem sua integridade. Ele também é professor, não é?

- Sim. Foi professor de Matemática e Física do IME. Agora está aposentado.

- O distanciamento do Marquês, da Maçonaria, tem a ver com o fato de Sua Alteza Real estar pleiteando o posto de Grão Mestre?

- Não estou muito a par dessa questão, mas acredito que não.

- Falta muito para chegarmos?

- Mais uns vinte minutos e conhecerá o senhor Osvaldo. Você está me parecendo muito ansioso.

- É verdade, mas só um pouco.

- Acalme-se, você vai gostar dele. – Isabel sorria meio enigmática.

- Pelo tanto que você o elogia deve lhe ser uma pessoa muito especial.

Elizabeth parou o carro em frente a um portão duplo de bronze alto e largo localizado bem no centro daquele enorme terreno. Neste portão estava o brasão de família em cada uma das laterais. Dali da entrada dava para ver ao fundo um antigo palacete no tom rosado em estilo neoclássico, com suas majestosas pilastras revestidas em mármore branco trabalhado em alto-relevo dando conta ainda hoje do poder de

uma época que parece se perpetuar.

Ao serem identificados, os seguranças logo abriram o portão e eles puderam entrar. Henrique como todo escritor observava tudo atentamente. À distância até a entrada do palacete calculou em duzentos e cinquenta metros. O caminho ladeado por coqueiros anão, intercalados por pequenas roseiras também servia como divisor do jardim existente em toda a extensão do terreno, uma ponte sobre o lago dava o toque final de embelezamento. Estacionaram o carro no pátio entre as palmeiras centenárias e caminharam para a entrada principal.

Enquanto andavam, Henrique dava tratos a seus pensamentos.

Estava admirado com aquela residência monumental, não tinha nenhuma dúvida de que seu proprietário era uma pessoa extremamente rica. Outro fato que lhe chamou atenção foi à quantidade de seguranças no local, deveria existir alguma razão para tamanho aparato. Continuava apreensivo com o encontro, afinal dentro de alguns instantes conheceria alguém que, ao que tudo indicava era poderoso. Como seria recebido?

Também estaria de posse da documentação oficial que o coloca como herdeiro de uma imensa fortuna. Isso era o que mais lhe incomodava. Pararam na entrada e a porta foi aberta por Isabel.

- Não sabia que você tinha acesso liberado a casa?

- Eu moro aqui, meu amor.

- Mas você disse...

Não completou seu argumento, pois foi logo interrompido com a aparição de um senhor elegantemente vestido. Era o Petrônio, mordomo da família.

- Senhorita Isabel, Eu já estava com saudades. Fez boa viagem.

- A viagem foi ótima, basta me olhar? Não estou mais bonita?

- A senhorita para mim, sempre foi e será a mais linda.

- Não estou gostando nem um pouco disso. Você está se esquecendo de mim? – Brincou Elizabeth fingindo estar aborrecida.

- De maneira alguma, Elizabeth. Você sabe muito bem que é tão bonita quanto a Isabel.

- Não me engane. Você disse ser ela, a mais linda.

- Não quero brigas! – Também brincando, Isabel defendeu Petrônio e dirigindo-se a ele comentou: – Você continua um amor. Não sei o que seria de mim se você não existisse.

Henrique esse é o Petrônio. Quando eu nasci ele já estava aqui, por isso que ele me paparica tanto.

Henrique logo sentiu que aquele velho mordomo era muito especial para sua namorada e a prima.

- Prazer em conhecê-lo, Petrônio.

- O prazer também é meu. Acredito que seja o Conde de Meringuava, estou certo?

- Perfeitamente, mas deixemos o título de lado. Prefiro só o nome, Henrique para os amigos.

- Está bem, senhor Henrique.

Voltando-se para Isabel a avisou.

- Seu pai como sempre ansioso, a aguarda.

- Onde ele está?

- No salão principal.

- A megera já foi embora ou ainda está por aí?

- Ela está na biblioteca. – Falou rindo, mas com o cuidado de

não ser ouvido.

Esse final de conversa Henrique não entendeu muito bem, mas também não entrou em detalhes. Ainda estavam parados e o Marquês ouvindo aquele falatório dirigiu-se até a porta do salão para receber a filha, a sobrinha e ao Conde de Meringuava.

- Há quanto tempo não a vejo Elizabeth, brigou comigo? – Brincou com a sobrinha acariciando seus cabelos.

- Nem de brincadeira tio. – Os dois riam demonstrando grande afeto.

O Marquês não escondendo a enorme satisfação em participar daquele encontro dirigiu-se a Henrique, sem esperar ser apresentado.

- Eu sou o Osvaldo. É um grande prazer revê-lo, Henrique. – Abraçava e beijava a filha ao tempo que se apresentava.

Qualquer um, por mais distraído ou alienado que fosse, num simples olhar para aquele homem logo notava se tratar de um nobre. Apesar da idade tinha um porte altaneiro, mas nem de longe aparentava arrogância e mesmo estando no aconchego do lar trajava-se como se estivesse pronto para uma reunião empresarial.

- Também sinto um grande prazer, mesmo não sabendo explicar o porquê, mas por qual razão o senhor afirma rever-me.

- Permite que antes eu lhe dê um abraço?

- Por que eu não o permitiria? Dê-me cá este abraço.

O Senhor Osvaldo o abraçou forte e afetuosamente, demonstrando uma alegria até então incompreendida por Henrique.

- Fico muito feliz em tê-lo próximo novamente. Digo revê-lo, porque sua mãe era minha irmã de criação e eu sou seu padrinho de batismo. Sempre quis tirá-lo da guarda do Exército, mas a Igreja não permitia. Entende agora o porquê da minha alegria?

- Essa revelação é para mim uma surpresa muito grande, nunca me falaram nada a respeito.

- O importante é que agora você está de volta.

- Estou feliz. Eu, que pensava estar sozinho nesta vida, de repente descubro que tenho um padrinho “Marquês”.

Aquele velho homem estava realmente feliz com a presença de seu afilhado e demonstrava isso ao manter-se abraçado a ele enquanto continuava conversando.

- Quero que me desculpe, mas não pude deixar de ouvi-lo quando chegou. Então, que seja feita a sua vontade e deixemos os títulos e a nobreza de lado.

- Não é que me incomode, mas não vejo razão para tal tratamento.

- Vamos entrando, Henrique, pois quero que se sinta como se estivesse em sua própria casa.

- Obrigado, senhor.

- Aqui na sala de estar ficaremos bem mais à vontade. – Comentou Isabel.

Encontravam-se em um amplo salão decorado com grandes cortinas e quadros por toda a parede. Sobre o piso de Carrara um enorme tapete persa. Em cima da mesinha de centro podia ser visto uma jarra de cristal com um arranjo de flores.

Estrategicamente colocados no local, as duas poltronas em couro e os três sofás em tecido estampado completavam o

ambiente. Entre eles, pequenos pedestais com estatuetas, e no alto, ao centro, um enorme lustre em cristal, ornamentavam o salão.

- Também acho. Sua casa, apesar de grande, é bem aconchegante, Marquês. Perdão, eu quis dizer, Osvaldo. – Henrique se corrigiu rapidamente.

- Henrique, eu quero que desculpe minha filha e a minha sobrinha por lhe enganarem dizendo ser princesa e duquesa.

- Realmente estranhei tais títulos, mas agora estou começando a entender as razões.

- Durante o tempo que esteve com você era preciso manter sua identidade protegida, não só a dela como a de Elizabeth.

- Ela me explicou rapidamente do perigo que eu corro, embora não tenha acreditado muito, mas depois de alguns acontecimentos, confesso que passei a concordar com a necessidade da segurança.

- Com certeza. A história nos faz acreditar nessa precaução.

- Se o senhor está falando é porque tem conhecimento dos fatos.

- Você deve ter reparado na quantidade de seguranças que mantenho, certo?

- Sim, reparei, e a princípio achei um pouco exagerado, mas quando lembro dos bilhetes de aviso que recebi mais o acidente ocorrido com seu cozinheiro compreendo sua preocupação.

- Não tem nada de exagerado. – Interrompeu o Marquês com educação – Nos últimos cento e cinquenta anos meu bisavô, meu avo, meu pai e eu fomos vítimas de vários atentados e algumas tentativas de sequestro e de roubo. Por isso nunca

facilitamos com a nossa segurança.

- Então pelo visto os responsáveis por tudo isso somos nós, eu e o meu antepassado.

- Indiretamente sim.

- Como assim indiretamente?

- Posso lhe explicar? Ah! Já sei, aliás, vou fazer melhor, me acompanhe. – Convidou o Marquês.

- Não antes de eu saber o seu verdadeiro nome mocinha? – Henrique falou dirigindo-se a Isabel com ar de seriedade.

- Meu nome é mesmo Isabel. Só muda o nome de família.

Isabel Maria da Costa Cabral Machado Brandão e como já sabe não sou nenhuma Princesa e nem Marquesa, pois o título se válido pertenceria a meu irmão.

- Que pena. - Fingiu Henrique lamentando-se, tentando dessa forma enganá-la.

- Meu amor, não fique assim, era preciso para nos proteger. – Isabel se justificou.

Henrique continuou fingindo, falando com o mesmo ar triste, mas ao mesmo tempo já passando para o maroto.

- E eu que acreditei que seria um príncipe consorte, acabo de voltar a ser, um falso conde sem sorte. – Dizendo isso, riu e todos acabaram rindo.

- Sem sorte não, meu caro. Muita sorte. Afinal, você acaba de ganhar um padrinho, conquistou o coração da minha princesa, e está preste a tomar posse de uma fortuna em diamantes.

Mas me acompanhe até meu escritório.

Dizendo isso caminhou em direção ao aposento mencionado.

Na verdade era também uma enorme sala ao lado da que estavam e que acomodava uma biblioteca. Henrique calculou

ter por baixo, uns 15.000 livros expostos nas prateleiras instaladas em torno daquele salão. Ao centro haviam três grandes sofás dispostos em forma de triangulo tendo ao centro uma pequena mesa oval – de Pau Brasil – toda entalhada a mão.

- Bem, cá estamos.

- Belo acervo, senhor Osvaldo.

- Valquíria, esse é o senhor Henrique. Ele vai estar conosco nos próximos dias. – O Marques apresentava sua bibliotecária, uma senhora de meia idade.

- Muito prazer, senhor. – Mal conseguiu disfarçar sua insatisfação.

- O prazer é meu também. – Henrique logo descobriu quem era a megera que Isabel se referira e fez um ar de riso para sua namorada dando sua aprovação.

- Vejo que você acaba de me entender, amor. – E Isabel retribuía o sorriso.

O Marquês deu continuidade à conversa como se não tivesse entendido ou percebido aquela troca de sorrisos.

- Henrique, no futuro o que você precisar referente a livros e documentos é só pedir a Valquíria. Ela está conosco há trinta anos. Posso lhe garantir que ela sabe mais sobre isso aqui – e apontava para as estantes espalhadas pelo enorme salão – do que eu.

- Que maravilha. Foi bom saber, assim não ficarei perdido por muito tempo.

O Marquês de Saquarema abriu o cofre que apareceu por traz de uma das estantes.

- Primeiro quero que você veja isso. Este documento irá

comprovar o que lhe disse.

Henrique pegou o envelope e abriu. Dentro estava um documento da igreja que ele bem conhecia, era o seu batistério. Ali estava o nome dos seus padrinhos, senhor Osvaldo e a senhora Deolinda.

- Não era preciso mostrar-me este documento, senhor Osvaldo.

- Você vai precisar dele para casar. Esqueceu? – Riu com a cara de espanto que Henrique acabava de fazer.

- É mesmo, bem lembrado. – E riu também.

- E aqui temos os registros de tudo que aconteceu nos últimos 150 anos referente a sua herança. Essas anotações foram feitas durante os acontecimentos por meus ancestrais e os mais recentes, por mim. Acredito que sendo você um escritor não perderá a oportunidade de fazer um livro.

- Com toda certeza. Pode emprestar-me para eu dar uma olhada neles?

- É tudo seu. Trata-se de cópias que tirei. Os originais fazem parte do acervo da família e continuaram guardados no cofre.

- Nesses registros estão também os documentos referentes à herança que meu tataravô mandou fazer?

- Não. Como lhe disse, esses registros são a verdadeira historia que aconteceu. Suas origens, nossos antepassados e as lutas que ocorreram para se apoderarem da sua fortuna.

- Sua família ao que parece foi a idealizadora deles?

- Sim, mas com certeza também podemos dizer que foi muito ajudada por alguns dos envolvidos. O único mérito da nossa família foi à guarda e a proteção desses documentos. Você poderá constatar o que digo.

- Talvez eu leve algum tempo para lê-los.

- Entendo que esteja ansioso para se inteirar de tudo. Fique a vontade, você é nosso convidado. Vou deixá-lo a sós aqui na biblioteca.

- Obrigado. Procurarei ser rápido na leitura.

- Insisto que fique a vontade. Sinta-se como estivesse em casa.

- Muito obrigado.

- Enquanto isso eu vou matando as saudades das minhas meninas. – Dizendo isso, o Marquês deixou Henrique na biblioteca sumindo pelo casarão abraçado pela filha e a sobrinha.

Imediatamente, Henrique debruçou-se nos manuscritos dando continuidade ao que Isabel já havia contado e não parou mais.

TERCEIRO CAPÍTULO

No documento 1 A Herança (páginas 41-52)