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4.2.3 Tema 3 Do cuidado e o autocuidado

O relato de uma participante desmistifica a ideia de uma população assistida pelo SUS, como sendo eminentemente ignorante pouco participativa ou resistente às prescrições e ao tratamento em saúde. Ao contrário, traz a dificuldade em ser ouvida, ou melhor, vista em suas queixas, com a clara percepção de que havia “algo errado” com relação à conduta que vinha sendo dada diante de seu estado de saúde. Portanto, a dependência de um “bom médico” é apresentada em alguns relatos como estímulo à promoção de um maior autocuidado:

“(...) Cansei de ir no médico, cansei de ir no médico, mas todos me davam antidepressivos, depressão e, aí eles me davam o rivotril e, eu falava: mas não é o rivotril que eu preciso para dormir, eu preciso é descansar a minha cabeça(...)” (E1).

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Como cita Cunha (51), é muito frequente que os profissionais considerem que as dimensões não biológicas do processo Saúde-Doença não lhe dizem respeito, tomando as pessoas pelas doenças e acabando transformando-as em um “empecilho” ao seu “trabalho” que equivocadamente passa a ser apenas combater a doença.

Neste relato do paciente associa-se o conceito de Clínica Oficial, descrito por Campos (52), onde se aborda mais a doença que o indivíduo, e mesmo quando este é considerado, pensa- se em um indivíduo fragmentado, um ser composto de partes que apenas, teoricamente, guardariam alguma noção de interdependência. Segundo o mesmo autor, percebe-se no dia-a-dia, grau cada vez maior, não apenas de alienação de seus agentes em relação aos sujeitos concretos dependentes de seus cuidados, como também afastamento, desinteresse, dificuldades para escutar queixas, impossibilidade de comunicar qualquer coisa além da sequência automática de procedimentos.

No entanto, os depoimentos mostram que na medida em que os pacientes tomam consciência de sua condição, através da busca por compreender, entender e decidir sobre sua terapêutica (53), mostram uma certa autonomia, conforme pode ser observado nos relatos. Os pacientes percebem e compreendem a sua doença e os fatores de risco que contribuíram para o aparecimento e, com isto desenvolvem habilidades e competências para contribuir com a melhora de seu quadro, mudando alguns hábitos e seguindo as orientações do médico que o atende.

(...) Sou rigorosa, se é para tomar às seis da manhã, às cinco da manhã, eu estou acordada, tomo nos horários certos do jeito que o médico indica, faço as minhas caminhadas todos os dias né, (...) Caminho 45 minutos todos os dias (...), eu acompanho e, se o médico disser para mim: tem que evitar isso daqui a senhora, eu esqueço, nunca parece que eu vi aquilo, eu sigo corretamente tudo o que o médico me diz(...) (E1).

Toda a vez que eu ia no médico, tinha o Dr. X, um doutor bom, era um doutor dos antigos, toda vez que eu ia lá, ele me perturbava com isso, com esse negócio de pneumonia, que eu sofri muito com pneumonia, sofri oito vezes. Ai, eu ia lá e ele falava: rapaz você tem que parar de fumar, senão você está morto, você tem que parar (...). Joguei os cigarros todos fora e, eu fumava muito, no começo era fumo de corda, depois eu passei a cigarro branco, chegando a fumar três maços por dia(...)(E3).

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(...) Eu acho que é pulmão, é o cigarro, pronto, o cigarro ele falou: você fuma, eu fumo dois maços e meio de cigarro por dia (...) o médico falou para mim e, eu larguei de fumar. Faz dez meses que nem cigarro e nem nada, nada de bebida, nada, falei larguei de uma vez e pronto e estou aí, estou vivendo Graças a Deus, e agora começou com uma dor aqui e parou aqui(...)(E5).

Estes discursos nos mostram que, apesar do avanço do SUS em estimular a formação de Equipes Multiprofissionais, ainda na concepção do paciente, a única figura presente é do médico que o acompanha, sendo que em nenhum momento cita outro profissional da equipe atuando. Portanto, há muito a caminhar na mudança deste paradigma, mas acreditamos que esta seja possível, pois também se baseia na divisão de saberes e poderes.

Os relatos acima demonstram que, apesar da baixa escolaridade, como demonstrado na Tabela de Caracterização dos Sujeitos, os pacientes conhecem os agravos de suas doenças, o que comprova que o autocuidado não é tão dependente do nível de instrução. Como relatado, segundo pesquisa realizada por Garcia et al. (54), os idosos de categorias sociais desfavorecidas eram capazes de explicar seus adoecimentos a partir de uma criação de certo laço de confiança e oportunidade de diálogo. Talvez possamos dizer que o autocuidado possa ter muito mais relação com a autoestima, o bem cuidar de sí que se ampliaria de forma abrangente com uma maior escuta da Equipe responsável pelo seu acompanhamento.

Segundo Herzog (55), a ida do paciente ao médico reside numa promessa de cura e/ou numa proposta de adiamento da morte, no interior de uma perspectiva eminentemente cientifica. Este paradigma goza, segundo o mesmo autor, na atualidade, de grande força, parecendo sobrepujar outras perspectivas sendo o paciente compartilhador de uma crença com os doutores que exigem simplesmente a obediência aos seus preceitos.

Campos (56) aponta que há uma diferença irredutível entre o profissional e o usuário, por mais horizontal e aberta que seja a relação estabelecida, com o primeiro portador de uma oferta técnica, no caso o saber clínico e sanitário, e o usuário portador de um conhecimento próprio sobre seu sofrimento e sua própria vida. O autor afirma que o interesse do paciente é obter algum tipo de apoio pra melhorar seu estado de saúde, mas a vulnerabilidade em que a doença o coloca, permite que o espaço clínico considere o saber clínico como prioritária para o tratamento, dificultando a escuta cuidadosa.

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A falta da sistematização de um cuidado pelo próprio paciente antes do aparecimento da doença se percebe pela procura ao serviço de saúde, chamando a atenção pelo fato de não seguirem tanto promoção quanto prevenção de saúde. Porém se modifica quando se percebem doentes:

“(...) Ia ao posto de saúde em função só quando tinha algum probleminha (...) e tomava um remédio uns três ou quatro dias ou sete dias (…) acabava aquele remédio e ficava quieto”

(E6).

“(...) Acompanho, acompanhei (...)principalmente depois que eu comecei esse tratamento, aí eu nunca faltei o retorno, todo o retorno eu estou junto, tem que acompanhar né?(...)” (E3).

(...) Sempre vou, desde quando enfartei ali o Doutor pedia retorno de 30 dias, agora dessa vez ele pediu para 60 dias e o outro Doutor, o retorno dele e 180 dias e, ai quando está chegando um mês antes, aí faz tantas coisas, é exame de sangue, eletro, nossa! E no dia do retorno, ele tem que ver como estou (...) no dia que estava marcado no cartão, eu estava as sete lá(...)(E4).

A falta de sistematização do cuidado pode ser reflexo da dificuldade de acesso aos serviços de saúde, principalmente os especializados. Em geral, as esperas são tão demoradas que resultam em desistência da consulta agendada (57) e, em se tratando de uma população idosa com doenças crônicas não transmissíveis, se torna mais grave ainda.

Para melhora desta falta de sistematização, o comportamento de cuidar da saúde deve ser analisado independentemente do estado de saúde, o que não ocorre, pois os próprios profissionais de saúde inferem este cuidado a partir do cumprimento de suas recomendações, demonstrando o aspecto reducionista presente, não ampliando para situações de aprendizagem e enfrentamento que interferem na sua qualidade de vida (58).

Considerando Os Princípios Gerais da Política Nacional de Atenção Básica como “um conjunto de ações de saúde, no âmbito individual e coletivo, que abrangem a promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento a reabilitação e a manutenção da saúde” (13), as falas acima demonstram que nesta parcela da população, talvez, tenha faltado um trabalho maior neste modelo de prevenção.

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Após os sintomas aparecerem com maior incidência, o paciente muda seu comportamento em relação ao cuidado, mantendo este sob as orientações do médico, o que mostra pouca autonomia em relação ao seu autocuidado, mas sim submissão, dependência e obediência, comprovando o modelo centrado neste profissional.

O relato acima é comprovado por Amoretti (59), em que o perfil dos médicos formados baseia-se em manter uma lógica de poder pelo saber, portanto resistente a trabalhar em igualdade de condições com outras áreas da saúde. Além disso, o mesmo autor afirma o paternalismo na relação com pacientes e seus familiares, sendo este um dos aspectos que historicamente marca a relação médico-paciente.

Como consequência a esta submissão Tótora (60) cita a produção de discursos de verdade em que saúde implica deter os riscos de adoecer e morrer gerando relações de poder em que os médicos e demais profissionais da saúde que exercem um governo sem controle sobre os corpos das pessoas, sua saúde, sua vida e sua morte.

Uma das formas de controle é o planejamento de intervenções sobre os fatores de risco clássicos para DCNT, onde se dá o valor extremo ao cientificismo, mas ao mesmo tempo, como citam Achutti e Azambuza (61), há a necessidade de compreender múltiplos outros aspectos interdependentes, como o desenvolvimento humano integral.

Um aspecto importante a ser apontado quando nos referimos ao princípio da autonomia, é a constatação de que nos cuidados aos doentes, muitas vezes ocorre uma relação paternalista, assimétrica, entre eles e os profissionais de saúde: em uma das polaridades está o poder da equipe de saúde, na outra, a submissão do paciente e, quando este princípio é favorecido, ocorre uma relação simétrica entre profissionais e pacientes, sendo que estes últimos participam de forma mais ativa das decisões que envolvem seu tratamento, bem como sua interrupção (62).

Já Campos e Campos (63) ao discutir o conceito de autonomia, apontam que esta é a capacidade dos sujeitos de compreenderem e agirem sobre si mesmos e da capacidade do sujeito de agir sobre seu cotidiano e interferir sobre sua rede de dependências comportamentais e sociais que podem estar relacionadas com a sua condição atual.

Como afirma Freire (64), a autonomia vai se constituindo na experiência de várias, inúmeras decisões que vão sendo tomadas e, portanto, enquanto amadurecimento do ser para si, é processo, é vir a ser, não ocorrendo em data marcada. Assim, com pacientes de “personalidade

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mais difícil”, muitas vezes a transferência unilateral de informações, aconselhamentos, pode não se configurar em sucesso terapêutico.

Uma das formas de alcançar este empoderamento é a implantação da Universidade Aberta da Terceira Idade (UATI), com uma educação não formal e educação permanente, com o objetivo de instrumentalizar esta parcela importante da população com conhecimentos e informações a fim de assumir o exercício pleno da cidadania (65).

Quando questionados sobre o atendimento, alguns dos entrevistados fazem referência ao SUS, apontando pontos positivos e negativos do serviço:

“(...) SUS é um recurso demorado (...), mas se chegou e encostou em um médico, naquele dia você já tem tratamento, né, tratamento bom, do mesmo jeito que faz um tratamento pago(...)” (E3).

(...) Hoje eu frequento o posto de saúde lá no (...). Bom em um ponto, o atendimento é bom, o que é ruim é o remédio, que hoje o remédio é um absurdo, né, você vai lá, lá só tem remédio para pressão, remedinho, e remédio falta (...). É eu acho que tem que entrar mais qualidade de remédio principalmente de pressão ou mais remédio que tem muita necessidade que a população é muito grande(...)(E5).

“(...) Então, a cada três meses, a gente faz a consulta, a gente pega remédio lá a cada três meses. A cada três meses, tem o retorno da gente pegar outra receita e, eu tomava captopril antes” (E8).

Segundo estudo realizado por Piola et al. (66) os participantes também apontam deficiências no serviço em relação à demora no atendimento e a maioria advoga pela melhora na distribuição dos medicamentos, conforme também pode ser observado pelas pessoas entrevistadas no nosso estudo.

Como nas três falas acima, Ceccim e Feuerwerker (67) cita as muitas conquistas do ponto de vista do compromisso social construído, da democratização das estruturas do Estado, do acesso ampliado às ações e aos serviços de caráter não hospitalar e mais próximo dos territórios de moradia das pessoas e famílias (atenção básica à saúde). Mas, contudo, este mesmo autor refere que o caminho é longo a percorrer para chegarmos a um sistema capaz de garantir à nossa população a oferta de atenção integral e de elevada qualidade assistencial.

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Mattos (68) define que o Estado, centrado no texto constitucional, deve assegurar a todos brasileiros igualdade no acesso às ações e serviços de saúde de que necessitam, e não às ações e serviços públicos de saúde que constituem o SUS, tornando a igualdade e universalidade do acesso não apenas princípios do SUS, mas princípios mais gerais para a ação do Estado.

Para que isto ocorra há necessidade de politização das demandas com o objetivo da formação de uma contra-hegemonia, através da construção de um saber e de uma força social capaz de cobrar o cumprimento da legislação, de participar efetivamente do processo de mudança na organização do sistema de saúde que contemple a universalidade do acesso, com responsabilidade social (69).

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