2. COMUNICAÇÃO VERBAL E NÃO-VERBAL
2.3. Classificação dos signos não verbais
2.3.1. Teoria cinésica
O estudo dos gestos proporcionou o primeiro indício de que a estrutura cinésica é paralela à estrutura da linguagem. Mediante os estudos dos gestos no seu contexto, tornou-se claro que o sistema cinésico tem formas muito parecidas às palavras na língua. Por seu lado, esta descoberta levou à investigação dos componentes dessas formas e à descoberta de complexos mais amplos de que eles eram componentes. Pelo menos no que respeita aos sistemas cinésicos de ingleses, norte-americanos e alemães, é evidente que existem comportamentos corporais, que funcionam como sons significativos, que se combinam em unidades simples ou relativamente complexas como as palavras, e que por sua vez se combinam em trechos mais amplos de comportamento estruturado, à semelhança das frases e até mesmo dos parágrafos (Birdwhistell, 1979).
No desenvolvimento desta teoria, o mesmo autor enumera sete pressupostos que a explicam e fundamentam:
Tal como outros eventos na natureza, nenhum movimento ou expressão corporal é desprovido de significado no contexto em que se encontra;
Assim como outros aspectos do comportamento humano, a postura corporal, o movimento e a expressão facial são padronizados e, por conseguinte, estão sujeitos à análise sistemática;
Embora sejam reconhecidas as possíveis limitações impostas por substratos biológicos particulares, até que seja demonstrado o contrário, o movimento corporal sistemático dos membros de uma comunidade é considerado uma função do sistema social a que o grupo pertence;
A actividade corporal visível, tal como a actividade acústica audível, influencia sistematicamente o comportamento de outros membros de qualquer grupo;
Até que se demonstre o contrário, tal comportamento será considerado uma função comunicativa investigável;
Os significados daí decorrentes são funções tanto do comportamento como das operações pelas quais ele é investigado;
19 O sistema biológico particular e a experiência especial de vida de qualquer indivíduo contribuirão com elementos idiossincráticos para o seu sistema cinésico, mas a qualidade individual ou sintomática desses elementos só pode ser avaliada após a análise do sistema mais vasto de que eles são parte integrante (ibidem).
Dentro da teoria cinésica, é importante dar relevância aos sinais faciais, ao olhar e à postura corporal.
Na cinésica o rosto é tido como o melhor “mentiroso” não-verbal, uma vez que é a zona do corpo com a qual as pessoas têm maior consciência e em que as tentativas de controlo são mais frequentes. Em contrapartida, o olhar possui um sinal sobre o qual não temos controlo voluntário, que muitas vezes não é consciente, sendo por isso bastante fidedigno: a contracção ou dilatação da pupila. A pupila dilatada significa aprovação do que está a ser sentido pelo outro, enquanto que, a pupila contraída manifesta desagrado, desinteresse, discordância. Outra função do olhar é regular o fluxo da conversação. Normalmente, na cultura ocidental, as pessoas olham umas para as outras durante aproximadamente 50% do tempo de conversação. Se o olhar ultrapassar esse tempo, pode-se identificar raiva ou amor. O olhar também reflecte as nossas emoções: surpresa (abertura maior), alegria (brilho) ou tristeza (abertura menor) (Silva, 2006).
De acordo com Ortega e Gasset “É o olhar de olhos que parecem adormecidos, mas que, por detrás da nuvem de doce sonolência, estão bem despertos. Quem possuir o dom de olhar assim, possui um tesouro” (citado por Fast, 2001,p.137).
No que concerne ao atendimento pessoal, a chave para uma comunicação eficaz na qual se está a prestar a devida atenção, reside em utilizarmos todos os nossos sentidos, particularmente o olhar. Comunicamos de uma forma atenta se mantivermos o olhar no outro (Carkhuff, 1977).
Um outro aspecto particular da expressão facial é o sorriso. De acordo com Phaneuf (2002), devido às características pessoais, ou preocupações, algumas pessoas sentem dificuldade em sorrir, no entanto, só o sorriso pode indicar que somos calorosos e abertos aos outros.
20 Finalmente no que respeita à postura corporal, é importante referir, que a posição do corpo em relação a alguma coisa ou alguém, indica essencialmente duas situações: acolhido e aproximação ou desafio e rejeição. A primeira acontece quando nos voltamos para alguém com o corpo, com os ombros e nos “descruzamos”, ficando com o corpo aberto para o outro (braço, pernas, mãos). O desafio e rejeição constituem exactamente a postura contrária (Silva, 2006).
Para exemplificar a utilização de posições, imagine-se uma situação em que determinada pessoa insista fortemente num dado assunto. Aquele que a escuta está recostado na cadeira, com os braços e pernas cruzados, ouvindo atentamente as ideias do outro. Quando o ouvinte atinge um ponto em que discorda do interlocutor, muda de posição para exprimir o seu protesto. Poderá inclinar-se para a frente e descruzar os braços e as pernas. É possível que levante uma mão e aponte o dedo indicador para marcar uma recusa. Depois de ter terminado, recostar-se-á de novo na cadeira, assumindo a posição inicial de braços e pernas cruzadas – ou talvez adopte uma terceira posição, mais receptiva, recostado, mas com os braços e as pernas descruzados, assinalando que está aberto a uma sugestão (Fast, 2001).
O movimento da cabeça no final de cada afirmação é sinónimo para o interlocutor iniciar a resposta. Constitui uma das formas pelas quais orientamos as conversas, permitindo uma troca imediata de ideias sem ter de se dizer “Já acabou? Agora, vou eu falar”. Tal como o baixar a cabeça é indicativo do términus de uma afirmação e o erguer a cabeça o fim de uma pergunta, também as alterações nas atitudes marcam ponto final em interacções, o fim de um pensamento ou o fim de uma declaração. Exemplo disso é o mudar de posição, para deixar de encarar a pessoa com quem se está a conversar, significa que a conversa acabou, e que se pretende transferir a atenção para outro lado (ibidem).
As nossas mãos, o movimento que nelas operam também são motivo de análise por parte de muitos estudiosos. De acordo com Fast (2001), os gestos da mão, que todos nós fazemos ao conversar, ligam-se ao elevar da voz e ao sentido das palavras.
A maioria das pessoas identifica a gesticulação como alheia, ignorando-a, não lhe atribuindo qualquer sentido. Mas na verdade esses gestos comunicam, e por vezes