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A Teoria da Autopoiese de Humberto Maturana e Francisco Varela

CAPÍTULO III – CONCEITOS E TEORIAS

3.5 A Teoria da Autopoiese de Humberto Maturana e Francisco Varela

Antes de explicitar aqui o que significa e designa o termo Autopoiese, devemos deixar claro que desde 1932 o biologista Von Bertalanffy já vinha desenvolvendo estudo acerca das relações nas interações entre as partes do organismo e seus comportamentos, quer sejam estudados isoladamente, quer sejam estudados no interior dos organismos. Para aquele pesquisador, os organismos vivos não obedecem às regras da Física. A partir daí desenvolveu princípios aplicáveis a todos os fenômenos observáveis, chegando a criar a Teoria geral dos sistemas, publicada em 1968. Tal teoria visa analisar os conjuntos de elementos ou sistemas em inter-relações entre si e seu meio, e sua interdependência. (ZOZZOLI, 2002)

No que diz respeito aos seres humanos, enquanto sistemas, estes devem ser analisados como um conjunto e não como partes componentes do todo, como estuda a Física. Para Zozzoli,

os sistemas humanos se apresentam como sendo auto-reflexivos, significando que podem se auto-observar e se auto-analisar, estabelecer suas próprias metas, verificar se os meios escolhidos são adequados e eficientes e implementar ações corretivas de origem interna ou externa. Sendo essencialmente cibernéticos, seu funcionamento necessita, portanto, de muitas trocas de informações. (2002, p. 100)

Dessa forma, para Maturana e Varela, os sistemas vivos passam a ser descritos como sistemas fechados na sua autorreferencialidade, orientados para a manutenção de sua identidade. Para os autores, os seres vivos seriam sistemas autopoiéticos porque reproduzem todas as unidades elementares de que se compõem, denominados de clausura ou fechamento operacional, ou seja, de operação no interior de um espaço de transformações.

... um organismo vivo pode respirar, alimentar-se, locomover-se, reproduzir-se, mas ele nunca fará isto – supondo-se diferentes níveis de sua estrutura biológica: órgãos, tecidos, células – através dos elementos que compõem um outro organismo vivo, mas sim, através de suas próprias partes ou elementos que o compõem como um sistema, como unidade, como indivíduo. (RODRIGUES, 2008, p. 110)

A teoria da autopoiese, também conhecida como Biologia do conhecer, desenvolvida pelos neurobiólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela, revela-se como importante estudo acerca da fenomenologia dos seres vivos em geral e dos seres humanos em particular. Para Zozzoli, a teoria

como explicação do que é o viver, revela-se uma explicação da fenomenologia observada no constante vir-a-ser dos seres vivos no domínio de sua existência. Como reflexão sobre o conhecer, i.e. sobre o Conhecimento, é uma epistemologia. Ao oferecer uma explicação da cognição e da linguagem, a biologia do conhecer diferencia-se consideravelmente dos outros modelos biológicos disponíveis, fontes de explicações objetivistas sobre substâncias e essências presentes no universo que nos cerca. Ao refletir sobre nossa experiência com os outros na linguagem, revela-se igualmente uma reflexão sobre as relações humanas em geral, bem como de maneira mais específica sobre a linguagem e a cognição. (2002, p. 97)

Segundo Zozzoli (2002), não existe uma suposta “teoria autopoiética” ou “Biologia do conhecer” unificada, o que existe é um terreno compartilhado entre Maturana e Varela. Maturana defende que,

o ser vivo não é um conjunto de moléculas, mas uma dinâmica molecular, um processo que acontece como unidade separada e singular como resultado do operar, e no operar, das diferentes classes de moléculas que a compõem, em um interjogo de interações e relações de proximidade que o especificam e realizam como uma rede fechada de câmbios e sínteses moleculares que produzem as mesmas classes de moléculas que a constituem, configurando uma dinâmica que ao mesmo tempo especifica em cada instante seus limites e extensão. É a esta rede de produções de componentes, que resulta fechada sobre si mesma, [...] através do qual existe um contínuo fluxo de elementos que se fazem e deixam de ser componentes segundo

participam ou deixam de participar nessa rede. (MATURANA E VARELA, 1997, p. 15)

Maturana e Varela revelam que o termo autopoiese designa a organização mínima do vivo, em uma rede de produções de componentes, que resulta fechada sobre si mesma, através do processo de constituição de identidade, que é circular.

Poiesis significa criação, produção e um sistema autopoiético constitui-se num

sistema fechado do ponto de vista operativo; autorreferenciado (sic), uma vez que os elementos que o constituem relacionam-se de forma retroalimentada, recursiva, uns com os outros; autopoiético, porque um sistema com esta característica não apenas se autorreferencia (sic), mas se autoproduz, se produz como unidade. Para melhor compreendermos o conceito de autopoiésis, é necessário que pensemos no sistema como fechado – sempre do ponto de vista de suas operações – e, portanto, diferenciado de tudo mais que não seja ele próprio. (RODRIGUES, 2008, p. 112)

Nesta perspectiva o que temos é um sistema operando como um circuito fechado, e todo um meio que o contorna e que pode ser visto como o entorno desse circuito. Dessa forma, sistema e entorno diferenciam-se um do outro.

É uma rede de produções metabólicas que, entre outras coisas, produzem uma membrana que torna possível a existência mesma da rede. Esta circularidade fundamental é (sic), portanto, uma autoprodução única da unidade vivente em nível celular.

Toda interação da identidade autopoiética acontece não somente em termos de sua estrutura físico-química, mas também enquanto unidade organizada, isto é, em referência a sua identidade autoproduzida. Aparece de maneira explícita um ponto de referência nas interações e, portanto, surge um novo nível de fenômenos: a constituição de significados. Os sistemas autopoiéticos inauguram na natureza o fenômeno interpretativo. (MATURANA E VARELA, 1997, p. 47)

Para os pesquisadores, essa identidade autopoiética torna possível a evolução, através de séries reprodutivas, com conservação da identidade. Isso se deve ao fato de a circularidade ser a dinâmica produtiva molecular constitutiva do vivo.

... o que definia e de fato constituía os seres vivos como entes autônomos que resultavam auto-referidos em seu simples operar era o fato de que se tratavam de unidades separadas que existiam como tais na contínua realização e conservação da circularidade produtiva de todos seus componentes, de maneira tal que tudo o que acontecia com eles acontecia na realização e na conservação dessa dinâmica produtiva, que os definia e ao mesmo tempo os constituía em sua autonomia. (MATURANA In: MATURANA E VARELA, 1997, p. 14-15)

Em seu livro “A Árvore do conhecimento”, publicado pela primeira vez entre os anos de 1982 e 1983, os pesquisadores chilenos proporcionam uma revisão de nossos

conhecimentos, numa perspectiva transdisciplinar, que nos leva a um profundo repensar da nossa condição social humana, enquanto seres interativos.

O que Maturana e Varela tentam mostrar nesta obra, é que o mundo não é anterior à nossa experiência, pois se a vida é um processo de conhecimento, os seres vivos constroem esse conhecimento não a partir de uma atitude passiva e sim através da interação.

Para chegarem a tal afirmação, Maturana e Varela, seguiram duas vertentes de argumentação. A primeira sustenta que o conhecimento não se limita ao processamento de informações oriundas de um mundo anterior à experiência do observador, o qual se apropria dele para fragmentá-lo e explorá-lo. A segunda afirma que os seres vivos são autônomos, isto é, autoprodutores – capazes de produzir seus próprios componentes ao interagir com o meio: vivem no conhecimento e conhecem no viver.

A segunda vertente parte do pressuposto de que tendemos a viver num mundo de certezas, de solidez perceptiva não contestada, em que nossas convicções provam que as coisas são somente como as vemos e não existe alternativa para aquilo que nos parece certo. Entretanto, toda experiência cognitiva inclui aquele que conhece de um modo pessoal, que está enraizado em sua estrutura biológica, motivo pelo qual “toda experiência de certeza é um fenômeno individual cego em relação ao ato cognitivo do outro, numa solidão que [...] só é transcendida no mundo que criamos junto com ele” (MATURANA E VARELA, 2001, p. 22)

Maturana e Varela afirmam que é preciso dar-se conta de que não se pode tomar o fenômeno do conhecer como se houvesse “fatos” ou objetos lá fora, que alguém capta e introduz na cabeça. A experiência de qualquer coisa lá fora é validada de uma maneira particular pela estrutura humana, que torna possível “a coisa” que surge na descrição.

Essa circularidade, esse encadeamento entre ação e experiência, essa inseparabilidade entre ser de uma maneira particular e como o mundo nos parece ser, nos diz que todo ato de conhecer faz surgir um mundo. [...] Tudo isso pode ser englobado no aforismo: todo fazer é um conhecer e todo conhecer é um fazer. (MATURANA E VARELA, 2001, p. 31-32)

Segundo os pesquisadores, toda reflexão, inclusive a que se faz sobre os fundamentos do conhecer humano, ocorre necessariamente na linguagem, que é nossa maneira particular de ser humanos e estar no fazer humano. “Tudo que é dito é dito por alguém” (MATURANA E VARELA, 2001, p. 32). Dessa forma, toda reflexão faz surgir um mundo, pois a reflexão é um fazer humano, realizado por alguém em particular num determinado lugar.

... As diferentes palavras que utilizamos na vida cotidiana correspondem a diferentes operações que realizamos no viver, e nunca são, na verdade, arbitrárias, e sempre revelam coerências do viver no âmbito de nossa atuação como seres humanos. Por isso, o fato de que no viver cotidiano, em nosso idioma, utilizamos diferentes palavras para falar dos seres vivos [...] indica que não identificamos ou nos referimos ao mesmo sistema quando usamos uma ou outras dessas palavras. (MATURANA In: MATURANA E VARELA, 1997, p.21)

Isso ocorre porque, segundo os pesquisadores, é a organização o que define a identidade de classe de um sistema, e é a estrutura o que a realiza como um caso particular da classe que sua organização define. No caso dos seres vivos, que se caracterizam por produzirem, de modo contínuo, a si próprios, os autores classificaram sua organização como organização autopoiética, considerando estes seres vivos como unidades autônomas.

Perceber os seres vivos como unidades autônomas permite mostrar como sua autonomia – em geral vista como algo misterioso e esquivo – se torna explícita ao indicar que aquilo que os define como unidades é a sua organização autopoiética, e que é nelas que eles, ao mesmo tempo, realizam e especificam a si próprios. (MATURANA E VARELA, 2001, p. 56)

O que caracteriza os seres vivos enquanto unidades autônomas e os distingue de outros sistemas, é o fato de eles serem o produto de si mesmo, ou seja, sua organização é tal que inexiste separação entre produtor e produto: o ser e o fazer de uma unidade autopoiética são inseparáveis, e esse constitui seu modo específico de organização.

A formação de uma unidade determina sempre uma série de fenômenos associados às características que a definem, o que nos permite dizer que cada classe de unidades especifica uma fenomenologia particular. Assim, as unidades autopoiéticas especificam a fenomenologia biológica como uma fenomenologia que lhes é própria, e que tem características diferentes da fenomenologia física. (MATURANA E VARELA, 2001, p. 59-61)

Isso ocorre, porque os fenômenos que geram em seu funcionamento como unidades autopoiéticas, dependem de sua organização e de como esta se realiza, e não do caráter físico de seus componentes, pois estes apenas determinam seu espaço de existência. Por exemplo,

... se uma célula interage com uma molécula X, incorporando-a a seus processos, o que acontece como consequência (sic) da interação não está determinado pelas propriedades dessa molécula, e sim pela maneira como ela é “vista” ou tomada pela célula, ao incorporá-la à sua dinâmica autopoiética. As mudanças que posam ocorrer nela, em consequência (sic) dessa interação, serão as determinadas por sua própria estrutura como unidade celular. (MATURANA E VARELA, 2001, p. 61)

É essa estrutura própria dos seres vivos que determina e condiciona o curso de suas interações e delimita as mudanças estruturais que tais interações desencadeiam, o mesmo

acontece no meio em que nascem, realizam-se e interagem. “Esse entorno é também dotado de uma dinâmica estrutural própria, operacionalmente distinta do ser vivo” (ZOZZOLI, 2002, p. 117), o que nos leva a perceber o ser vivo e o meio como duas estruturas operacionalmente independentes uma da outra.

Porém, entre elas, existe uma congruência estrutural necessária, senão a unidade desapareceria. Nessa congruência estrutural, nenhuma perturbação do ambiente define o que pode acontecer ao ser vivo, uma vez que é a própria estrutura do ser vivo que determina as mudanças que poderão ocorrer como resposta. (ZOZZOLI, 2002, p. 117)

Maturana e Varela afirmam que os organismos (seres vivos e meio) sofrem transformações, através do que eles denominam de acoplamento estrutural.

Nessas circunstâncias – e diante desse fenômeno de acoplamento estrutural entre os organismos e o meio como sistemas operacionalmente independentes –, a manutenção dos organismos como sistemas dinâmicos em seu meio aparece como centrada em uma compatibilidade organismo/meio. É o que chamamos de

adaptação. [...] a adaptação de uma unidade a um meio é uma consequência (sic)

necessária do acoplamento estrutural dessa unidade nesse meio [...] em outras palavras: a ontogenia de um indivíduo é uma deriva de modificações e, portanto, com conservação da adaptação. (MATURANA E VARELA, 2001, p. 115-116)

Segundo os pesquisadores, por um lado, trata-se de um processo que ocorre sem interromper sua identidade nem seu acoplamento estrutural com o meio, desde o seu início até a sua desintegração final. Por outro lado, segue um curso particular, selecionado em sua história de interações pela sequência de mudanças estruturais que estas desencadearam nele. Isso nos leva a crer que, diante da interação organismo/meio, a estrutura do meio não pode especificar a mudança de um organismo, mas sim desencadeá-las. “O meio revelar-se-ia, portanto, um “selecionador” contínuo das mudanças estruturais que o organismo sofre em sua ontogenia” (ZOZZOLI, 2002, p. 119), assim como os seres vivos atuariam como seletores das mudanças estruturais do meio em que vivem.

O que a Biologia do conhecer defende é que a evolução ocorre como um fenômeno de deriva estrutural sob contínua seleção filogênica, em que não aparece progresso nem otimização do uso do meio, mas apenas a conservação da adaptação e da autopoiese, num processo em que organismo e meio se conservam em contínuo acoplamento estrutural. (ZOZZOLI, 2002, p. 120)

Já que todo sistema autopoiético é uma unidade feita de múltiplas interdependências, quando uma dimensão do sistema é modificada, o organismo como um todo passa por mudanças correlativas em muitas dimensões ao mesmo tempo. Mas, certamente, tais mudanças correlativas, que nos parecem corresponder a mudanças no meio, não ocorrem por causa destas e sim na deriva que se configura no encontro operacionalmente independente entre organismo e meio. Como não vemos todos os fatores que participam do encontro, a deriva nos parece um processo comandado pelo acaso. (MATURANA e VARELA, 2001, p. 148).

Os autores lembram que todos os seres vivos iniciam sua existência com uma estrutura unicelular particular, razão pela qual a ontogenia de todo ser vivo consiste em sua contínua transformação estrutural. Entre os seres humanos,

[...] os comportamentos linguísticos (sic) humanos são, de fato, condutas que ocorrem num domínio de acoplamento estrutural ontogênico, que nós, [...], estabelecemos e mantemos como resultado de nossas ontogenias coletivas. (MATURANA E VARELA, 2001, p. 230)

Se por um lado, comum a todos os seres vivos, esse processo flui, desde seu início até sua desintegração final, sem ruptura de identidade nem interrupção do acoplamento estrutural do organismo ao meio; por outro, próprio do ser vivo individual, ocorre de maneira singular, visto que é determinado pela sequência de mudanças estruturais desencadeadas por sua história de interações.

Assim, as transformações às quais os seres vivos estão sujeitos como sistemas fechados, para compensar as perturbações que resultam de suas interações com o organismo, não podem ser pontuais, mas encontram-se distribuídas na totalidade da rede. Com efeito, toda transformação localizada é ela própria fonte de novas transformações. Esse processo é potencialmente infinito. 

Em seus estudos, Maturana ao ressaltar que o ser humano é ao mesmo tempo um ser social e um ser individual, pergunta se existe realmente uma contradição entre o social e o individual, ou se essa contradição só é uma ilusão descritiva.

De fato, seu propósito consiste em mostrar que o ser humano individual é social e o ser humano social é individual. Porém, sua demonstração como pode se esperar, não procura argumentos oriundos da Filosofia, da Sociologia ou da Psicologia, mas parte da Biologia ao observar os próprios fundamentos do ser dos seres vivos. (MATURANA, 1999, p. 195-196).

Valendo-se dessa nova concepção do ser vivo, defendida pela Biologia do conhecer, podemos definir um sistema social como sendo o mecanismo biológico que gera os sistemas que exibem, em seu operar, todos os fenômenos que observamos nos sistemas que cotidianamente reconhecemos como sistemas sociais.

Dessa maneira, para a Biologia do conhecer tem-se um sistema social

cada vez que os membros de um conjunto de seres vivos constituem com sua conduta, uma rede de interações que opera para eles como um meio no qual eles se realizam como seres vivos, e no qual eles, portanto, conservam sua

organização e adaptação, e existem em uma co-deriva contingente com sua participação em tal rede de interações. (Maturana, 1999, p. 199).

Assim, no exemplo dos sistemas sociais, (sem sombra de dúvida, sistemas autopoiéticos de terceira ordem, uma vez que são constituídos por organismos), o que os define como sistemas sociais não é a autopoiese de seus componentes, mas a forma de relação entre os organismos que os constituem. É o que pode ser observado na vida cotidiana, no instante em que são por nós diferenciados em sua singularidade como tais, quando se usa a noção de sistema social. Todavia, não se pode omitir que é a partir da realização da autopoiese de seus componentes que tais sistemas de ordem superior se produzem, bem como o fato de que também podem realizar-se sistemas autopoiéticos de ordem superior que sejam ao mesmo tempo sistemas autopoiéticos de primeira ordem.