Vivemos no MNU, entre 1988-1995, o sonho de criação de uma organização política. Na edição nº 20 do Jornal do MNU, poucos meses antes de começar o trabalho no gabinete de
58 A respeito de reducionismo, economicismo e simplificação da estrutura das formações sociais, na relação
direta com a percepção dos problemas do racismo, ver Hall, Stuart. Da Diáspora–identidades e mediações
Florestan Fernandes, editamos uma longa entrevista com Luiza Bairros, a primeira coordenadora nacional do MNU.
A entrevista, realizada em Salvador, tinha como objetivo disseminar as ideias que circulavam em intenso debate no interior da organização e fora dela59. Desde o IX Congresso Nacional do MNU, realizado em abril de 1990, em Belo Horizonte, o conjunto dos ativistas havia aprovado a figura do coordenador (a) nacional, acompanhando outras importantes modificações nos documentos básicos (programa de ação e estatuto).
Eleita coordenadora do MNU somente no X Congresso, realizado no Rio de Janeiro, em março de 1991, Luiza Bairros, anuncia em entrevista de quatro páginas (tamanho tablóide) a construção do projeto político como o elemento-chave do novo MNU:
Jornal do MNU - Todo mundo está falando em projeto político, tanto entidades
domovimento negro como outras organizações políticas. Até o presidente da República tem falado num projeto político amplo, etc. O MNU tem priorizado a elaboração a elaboração de um projeto político, uma das decisões do Congresso. Em que nos distinguimos desses projetos em elaboração, em que o nosso projeto é diferente?
Luiza - Acho que a diferença na colocação que o MNU faz do
projetopolítico reside, num primeiro momento, na crença de que é possível se construir uma força política nesse país baseada no povo negro. Essa primeira diferença é fundamental. Construir uma força política capaz de disputar com um projeto que seja elaborado a partir de sua própria perspectiva, do seu próprio lugar. Não o lugar da subordinação em que a sociedade tem tentado nos atirar ao longo dos séculos, mas o lugar do sujeito político, responsável por seu próprio destino.
Para além disso, outro aspecto que eu considero superimportante, na colocação do MNU, é que não se trata de um projeto político do negro para o negro, ou seja, o negro pensando para dentro da sua própria comunidade, mas sim o negro pensando para a sociedade brasileira como um todo e levando em conta todos os povos, todas as raças que a compõem. Considero que isso é que dá a mudança efetiva de qualidade desse projeto que o MNU pretende.
Estamos apostando hoje na possibilidade de disputar não mais um espaço dentro de outros projetos para as nossas questões, que são tidas como menores. Mas
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A entrevista foi realizada no bairro do Engenho Velho, onde residiam Jônatas Conceição e Luiza Bairros, no dia 22 de outubro de 1991. Além de mim, participaram Jônatas e Sayonara, gaúcha, vizinha do casal e também do MNU. Editei a entrevista em Brasília, que saiu publicada com grande impacto no Jornal do MNU,
nós estamos apostando na possibilidade de que, através das nossas questões, nós consigamos efetivamente tocar, e tocar muito fundo, nas questões nacionais, nas questões que dizem respeito à sociedade como um todo. O MNU tem participado de muitas discussões e debates a respeito disso, e tem sido extremamente questionado.
E é muito interessante perceber que nos demais setores, principalmente nos setores políticos dominados por pessoas brancas, eles percebem exatamente qual é a potencialidade desta nossa proposta. E percebem essa potencialidade muitas vezes com algum medo, porque na medida em que modificamos a forma de nos colocar perante o Brasil, nos constituímos, nos efetivamos como uma ameaça do ponto de vista de determinados espaços de poder que existem na sociedade. Passamos a ser uma força que compete por determinadas posições.
Não se trata mais de ficarmos o tempo todo implorando, digamos assim, para que outros setores levem em conta nossas questões, que abram espaços para que o negro possa participar. Essa fase efetivamente acabou. Daqui para a frente, vamos construir alternativas próprias e, a partir dessas alternativas, criar para o povo negro como um todo no Brasil uma referência positiva, que atualize essa imagem do negro lutador, que hoje só é vista no passado60.
Nesta mesma edição do Jornal do MNU, consta ainda o documento “Projeto – político – desafios e perspectivas”, que não tem a mesma qualidade de análise e argumentação da entrevista de Luiza Bairros. Expressa, no entanto, em maiúsculas que o projeto político a ser gestado deve ser entendido como uma declaração teórica, política e ideológica de que
“PRETENDEMOS A LUTA PELO PODER” 61.
Em novembro de 1991, se realiza em São Paulo o I Encontro Nacional de Entidades Negras. A edição do Jornal do MNU nº 20 queria estimular o debate das entidades sobre a importância da construção do projeto político. A entidade que surgirá desse encontro se chamará Coordenação Nacional das Entidades Negras (Conen), da qual o MNU não participará e com a qual rivalizará. E não poderia ser diferente. A Conen agrega negros vinculados ao PT e ao PC do B, articulações de entidades com vínculos com a Igreja Católica e grupos menores.
A declaração política de independência do povo negro, que exige o fim de todas as formas de clientelismo e subalternização, isolará nesse contexto o MNU e fortalecerá sua fama de expressão de negros radicais.
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Jornal do MNU, nº 20, p.9.
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A discussão das cotas, que ganhou corpo aos poucos, a partir do período da Constituinte, pode servir de exemplo do empenho do MNU de pensar a questão racial como uma dimensão estrutural. O MNU recusou-se sempre a aderir a propostas em que o racial fosse um mero acessório e que não tivessem desdobramentos que implicassem a transformação da realidade do conjunto da população negra:
Ele [o sistema de cotas] funciona numa perspectiva capitalista de formar uma determinada classe com poder de estar inserida na sociedade com todas as condições de consumo que ela oferece. É um esquema que cria consumidores. Agora, ele não cria, necessariamente, força política, principalmente quando se considera que está colocado dentro de uma sociedade capitalista que é, por natureza, limitada. Então é uma ideia que já nasce para privilegiar uma minoria. Isso é intrínseco à ideia. Eu até admito num determinado momento histórico, como aconteceu nos EUA, vislumbrar isso como saída. Agora, sabendo disso hoje no Brasil, tentarmos trazer isso para cá, é equivocado.
Quem aposta no racismo como um fenômeno superficial dentro dessa sociedade, tem mais tranquilidade para fazer este tipo de proposta. Quem não está querendo dar à luta anti-racista o potencial transformador que ela tem, propõe isso porque age na superfície. Isso é um tipo de proposta que, em 88, até um Sarney simpatizava e ele verbalizou isso no discurso que fez no 13 de maio, quando se referiu à criação de uma elite negra.
Então, em minha opinião, não há possibilidade de aderir a uma proposta, relacionada à ampliação da participação do negro, concordando com Sarney e adjacências.62
Ainda sobre as ações afirmativas, o documento encaminhado ao I ENEN afirmava:
Não se trata, portanto, de inscrever nossas reivindicações como apêndices de programas que não contemplem uma compreensão sobre a natureza racista das relações sociais no Brasil. Medidas reformistas e compensatórias, por si só, não serão suficientes para repor a cidadania plena do negro. As reformas e as medidas compensatórias serão necessárias e consequentes se fizerem parte de um processo que, no limite, subverta as relações raciais no Brasil.63
As preocupações levantadas pelo MNU antecipam em uma década a discussão das ações afirmativas, que em 1991 ainda engatinhava. As ações afirmativas, alertava o MNU, poderiam 62
Jornal do MNU, nº 20, p. 10.
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existir e pouco alterar das relações raciais no Brasil. Em vez de provocar debate, o que se disseminava em nosso meio era a simplificação de que o MNU era “contra as cotas”.
Havia um grupo de ativistas no MNU mais intelectualizados, com alguma formação acadêmica, mas não era essa a explicação da força desse momento singular que foi o MNU na história do movimento negro no Brasil, embora não se possa desprezar essa variável.
Os indivíduos se orgulhavam da história de uma organização que surgira na rua, em 1978, no contexto da ditadura militar e que não queria ser mera correia de transmissão partidária. As diferenças regionais causavam tensão permanente, e efeitos políticos desastrosos, entre as diferentes seções estaduais. Não era fácil ser um dirigente nacional do MNU.
Até hoje, as pessoas que viveram o período juntas, com vínculos de fato com o MNU, guardam um tipo de reconhecimento que não é meramente discursivo ou alusivo a um conjunto de práticas específicas e datadas, situações e eventos.
Para além mesmo de toda camaradagem e afeto, foi um momento em que “nos representamos negros capazes de, reconhecendo-se em outros negros, empenhar-se para transformar a realidade a nossa volta”.
Éramos ou nos sentíamos de algum modo mais livres os negros do MNU. Ser do MNU conotava rebeldia, coragem de enfrentar a violência racial e autonomia para propor a construção de um projeto político.
No entanto, o MNU foi vaiado no I Encontro Nacional de Entidades Negras, as quais demonstraram pouco interesse na discussão de Projeto Político. O entendimento era que o significado legítimo dessa discussão era dado pelas legendas partidárias a que os agrupamentos mais expressivos se vinculavam.
Muitos ativistas do MNU eram também associados a partidos de esquerda, os quais, no período, conquistam prefeituras e abrem espaços (empregos) para militantes de movimento social.
As dificuldades de sustentação financeira, o regionalismo, a tensão com os partidos de esquerda, internalizada pela dupla militância de muitos companheiros, vão afetar gravemente o MNU. É tempo de partidos, de institucionalização acelerada de demandas de movimentos sociais e de sindicalismo de resultados. O momento é crítico para o MNU.
A ida de Luiza aos Estados Unidos para fazer o doutorado, a saída de Dionísio Guevara, um hondurenho que fez medicina em Goiânia e, enquanto fazia residência em São Paulo, foi-se afastando progressivamente do MNU, foram duros golpes na capacidade de elaboração da entidade. Há muitas outras perdas significativas, em Minas, Pernambuco, São Paulo e Rio, mas aquelas foram, para mim, as mais expressivas. A contribuição de Dionísio aos debates travados na Executiva Nacional, entre os anos decisivos de 1988 e 1992, foi preciosa e fundamental.
É preciso ainda considerar o surgimento e fortalecimento de organizações não- governamentais que, pouco a pouco, foram introduzindo a ideia de projeto, da captação de recursos públicos e privados e do fim da militância voluntária, o que abalava também profundamente o MNU.
A partir daqui passa a predominar nos debates a discussão de “políticas públicas” e, em seguida, das “parcerias”. Uma entidade que pensava mudança estrutural e confronto, como o MNU, vai começando a parecer, como no poema de Fernando Pessoa, “uma sombra num chão irreal, um sonho num transe”.
Eu resisti até 1995, porque, a partir de Brasília, tinha me libertado de vínculos regionais. O GT local a que eu estava ligado era o GT Formação, mas nossas iniciativas estavam longe de serem caracterizadas como de alcance estritamente local. Levo a ideia da Marcha a Brasília, no início de 1995, para uma reunião da Executiva em Salvador. A proposta foi aceita com muitos senões e, no momento que saio para articular seu encaminhamento, em nível nacional, começo a sair também do Movimento Negro Unificado.
A sigla persiste ainda nos dias de hoje, em lenta agonia, esvaziada de energia criadora. Mas qualquer que seja o futuro da luta contra o racismo no Brasil, o MNU foi um de seus momentos cruciais.