4. O PROCESSO DE LEGITIMAÇÃO NO TRIBUNAL DO DESEMBARGO DO PAÇO, RIO DE JANEIRO,
4.1 UMA DISCUSSÃO SOBRE A ILEGITIMIDADE
O principal objetivo desse capítulo consiste na análise da sucessão de patrimônio de filhos ilegítimos. A verificação da maneira como cada uma das categorias de ilegítimos, definidas pelo direito sucessório, recebia a herança paterna constitui nosso segundo objetivo. O terceiro e último consiste no exame do modo que as famílias legítimas dos perfilhadores portavam-se diante do processo de legitimação. A principal fonte desse estudo é o processo de legitimação ou perfilhação solene, realizado pelo Tribunal do Desembargo do Paço.
Com a instalação da Corte no Rio de Janeiro em 1808, esse tribunal funcionou na cidade até 1828, quando foi extinto. Dentre as suas funções destacaram-se aquelas ligadas à regulamentação dos direitos sucessórios e da vida familiar. De acordo com Nizza da Silva228, a tutoria, a emancipação e a legitimação de filhos menores, fossem naturais, adulterinos ou inces- tuosos, constituíam os principais objetivos de seus processos, os quais são a nossa principal fonte.229 Outra documentação utilizada nesse trabalho, mas em menor escala, são os inventários
post-mortem e testamentos dos perfilhantes que recorreram a esse tribunal.
228 SILVA, Maria Beatriz Nizza da. A documentação do Desembargo do Paço no Arquivo Nacional e a História da Família.
In: Acervo: Revista do Arquivo Nacional. Rio de Janeiro. 3 (2): 37-53, 1988.
229 A documentação do Tribunal do Desembargo do Paço, pertencente ao acervo do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro,
relativa à perfilhação é composta pelo seguinte fundo: Processos de legitimação, caixas 123-128. Tribunal do Desembargo do Paço, 1808-1828.
230 LEWIN, Linda. Repensando o patriarcado em declínio: de “pai incógnito” a “filho ilegítimo” no direito sucessório
brasileiro do século XIX. In: Ler História. 29 (Lisboa): 121-133, 1995.
231 LEWIN, Linda. Natural and spurious offspring in Brazilian inheritance law from colony to empire: a methodological
essay. In: The Americas. 48, 3 (1992): 351-396.
A legitimação através do Desembargo do Paço estava prevista em alguns casos. O tipo de ilegitimidade que recaía sobre o indivíduo e a condição do pai, nobre ou plebéia, são os principais fatores que devemos considerar na análise desses processos.
A distinção do tipo de ilegitimidade que recaía sobre o indivíduo definia a sua condi- ção perante a lei e determinava o seu direito sucessório. Isto ocorria porque as legislações civil e canônica eram complementares quando o assunto tratava do direito à herança.
De acordo com a legislação eclesiástica e com as Ordenações Filipinas havia dois tipos de ilegitimidade. A primeira, a natural, era o resultado de uniões tidas como ilícitas pelo direito canônico e não sacramentadas pelo matrimônio. Nessa situação, os pais poderiam se casar caso desejassem. A segunda, a espúria, era a conseqüência de uma relação proibida pela mesma legislação. Esse era o caso de filhos sacrílegos, adulterinos ou incestuosos. O sacrílego era filho de um religioso; o adulterino era o resultado de uma relação em que um dos pais era casado; e o incestuoso era a prole de pessoas que tinham graus de parentesco próximos. Em todos os casos, os pais tinham impedimentos impedientes ou dirimentes ao casamento, o que significava que eles jamais poderiam se casar.230
Havia dois tipos de reconhecimento de paternidade. O primeiro, o reconhecimento legal, era feito em escritura pública ou juramento diante de um tabelião. O segundo, a legitimação legal, se constituía em um processo enviado ao Tribunal do Desembargo do Paço. Normalmen- te, o reconhecimento legal era feito tanto para os filhos naturais, quanto para os espúrios; mas a legitimação era relativa apenas aos segundos. Esse processo recebia o nome de perfilhação solene ou legitimação. A exceção a essa regra era a legitimação dos filhos naturais de nobres que, até 1847, precisavam recorrer ao Desembargo do Paço para tornarem-se sucessíveis.231
A classificação da ilegitimidade do indivíduo era importante, porque afetava o seu direito de sucessão. Embora o filho natural, o sacrílego, o incestuoso e o adulterino fossem todos considerados ilegítimos, o primeiro gozava de uma posição favorável em relação aos demais. Regulamentado pelas Ordenações Filipinas, o direito sucessório português se caracteri- zou pela divisão igualitária entre os herdeiros necessários, ou seja, todos os filhos recebiam partes idênticas da sua herança ou legítima.232 A legislação civil também permitia que o filho natural fosse sucessível, desde que desfrutasse, “de reconhecimento do pai pela comunidade e pelos seus meio-irmãos [e isto] significava que o indivíduo seria chamado à sucessão, juntamen- te com os herdeiros necessários”.233
Ao contrário dos filhos naturais, os espúrios, independente da condição nobre ou plebéia do pai, eram insucessíveis de acordo com as Ordenações Filipinas.234 Hierarquicamente, eles se encontravam em uma posição de menor prestígio dentre os filhos ilegítimos. O argumen- to que justificava essa posição relacionava-se às leis canônicas. Os pais dos espúrios, proibidos de se casarem, tinham entre eles impedimentos dirimentes: votos religiosos, incesto ou adulté- rio. A legislação interpretava que, ao cometer um pecado mortal, a pessoa deveria ser punida de alguma maneira.235 Nessa sociedade, a condição do indivíduo definia a sua posição social, o Estado deveria ser responsável por essa tarefa.
A rigidez da legislação, que proibia os espúrios de se tornarem sucessíveis, era, na verdade, relativa. Segundo Linda Lewin, os filhos ilegítimos “podiam receber uma carta de legitimação perante o órgão real administrativo e judicial, a Mesa do Desembargo do Paço”.236
232 A legítima podia ser por parte de mãe, legítima materna, e, por parte de pai, legítima paterna.
233 LEWIN, Linda. Repensando o patriarcado em declínio: de “pai incógnito” a “filho ilegítimo” no direito sucessório
brasileiro do século XIX. In: Ler História. 29 (Lisboa): 121-133, 1995. p. 125.
234 Ibidem, p. 126.
235 Isso ocorria porque a legislação religiosa e a civil, como vimos, agiam de maneira complementar. 236 Idem.
Essa regra só valia para os filhos naturais de pessoas plebéias. O filho natural de um nobre ou de uma pessoa portadora de “distinções”, como títulos, era insucessível. Isto se justi- ficava pelo fato de o pai ser portador de um título, de distinções, ou ser administrador de bens pertencentes à coroa.
Os nobres, assim como os pais de filhos espúrios, podiam apelar ao Desembargo do Paço para legitimarem os seus filhos. Esse processo permitia ao filho o uso do nome do pai, elemento fundamental para a sua inserção em determinados meios. Assim, no caso de pais nobres adúlteros, os filhos poderiam obter a legitimação solene que apagava o estigma da ilegi- timidade e bastardia, e dava direito à sucessão patrimonial. De acordo com Linda Lewin,
... os pais que possuíam títulos de nobreza recorriam caracteristicamente ao Desembargo do Paço, pois as Ordenações eram mais restritas nesse caso, preservan- do o patrimônio mais exclusivamente para os herdeiros legítimos (necessários) ou colaterais, mesmo na ausência de descendentes.237
O direito sucessório português, regulamentado pelo alvará de 9 de novembro de 1754, estabeleceu a herança ab intestado ou legítima sucessão. Chamando os herdeiros necessári- os, os descendentes legítimos, naturais e os ascendentes à partilha, a herança ab intestado, sem testamento, previa, na ausência desses, a sucessão aos herdeiros colaterais, tios, sobrinhos e primos e primas até o décimo grau.238
A meação de bens, determinada pelo direito sucessório português, previa ao cônju- ge, considerado meeiro, o direito à metade de todos os bens do casal. Em seguida, o indivíduo poderia legar um terço dos seus bens livremente, através do mecanismo da terça testamentária. Essa beneficiava qualquer pessoa: desde os filhos ilegítimos e até a concubina.
237 Idem.
238 LEWIN, Linda. Natural and spurious offspring in Brazilian inheritance law from colony to empire: a methodological
Na ausência de um testamento, a herança era chamada de ab intestado ou sucessão natural. Nela, eram chamados primeiramente os herdeiros legítimos e em seguida os naturais reconhecidos pelo pai.239 No Brasil, segundo Lewin, confundia-se o legado da terça com a sucessão testamentária.240 A terça teria sido criada para uma categoria específica de herdeiros: os legitimados. A sucessão testamentária, ao contrário, era relativa aos filhos legítimos e natu- rais reconhecidos pelos pais. Ela significava a forma como um indivíduo desejava que os seus bens fossem partilhados, desde que obedecesse ao princípio de igualdade que caracterizava o direito sucessório português. Assim, filhos naturais e legítimos “recebiam quinhões iguais, de acordo com o princípio de ‘partes iguais para todos’ que caracterizava o sistema brasileiro de ‘herdeiros forçados’”. 241
O casamento dos pais era outra forma de legitimar o filho natural. Regra válida apenas para as pessoas de condição plebéia, situação impossível aos nobres. Chamada de legitimação por matrimônio ou casamento seguinte, essa legitimação transformava o filho natu- ral em legitimado e candidato, junto com os irmãos legítimos, à sucessão patrimonial. O filho espúrio, independentemente da condição do pai, não podia ser legitimado pelo matrimônio dos pais, pois havia impedimentos canônicos para o casamento dos mesmos.242
239 Ibidem, p. 360. 240 Idem.
241 LEWIN, Linda. Repensando o patriarcado em declínio: de “pai incógnito” a “filho ilegítimo” no direito sucessório
brasileiro do século XIX. In: Ler História. 29 (Lisboa): 121-133, 1995.
242 LEWIN, Linda. Natural and spurious offspring in Brazilian inheritance law from colony to empire: a methodological
essay. In: The Americas. 48, 3 (1992): 351-396. p. 360. Os impedimentos a que nos referimos eram: os votos religiosos (filho sacrílego), o incesto (parentesco de sangue ou espiritual) e adultério (quando um dos pais era casado).
243 SILVA, Maria Beatriz Nizza da. A documentação do Desembargo do Paço no Arquivo Nacional e a História da Família.
In: Acervo: Revista do Arquivo Nacional. Rio de Janeiro. 3 (2):37-53, 1988.
244 Processo de legitimação, caixa 123-II, documento 44. Tribunal do Desembargo do Paço. Arquivo Nacional do Rio de
Janeiro, daqui em diante ANRJ. Esse processo começou em 25 de agosto de 1825.