2. Desigualdades, exclusão e democracia na nova ordem mundial
2.3. Uma outra gestão do social: a necessidade de uma utopia
As sociedades ocidentais industrializadas confrontam-se actualmente com as consequências da acelerada mutação económica e sociocultural das últimas décadas. Essas transformações traduzem-se, como já foi referido, nas novas realidades demográficas, nas segmentações do mercado de trabalho e na emergência de novas formas de conflitualidade social, que aumentam a incerteza e o risco com que muitos indivíduos vivem o quotidiano e enfrentam o futuro. Alterações que colocam em causa o pacto social implícito que sustentou, desde o pós-guerra, o desenvolvimento do Estado-providência; quebram as solidariedades tradicionais; alteram as modalidades do contrato social anterior (assente num carácter mutualista). Assiste-se à desagregação deslizante das instituições do ligame social e das solidariedades, das formas de relação entre a
economia e a sociedade e, ainda, dos modos de constituição das identidades individuais e colectivas. Isto é, a uma crise simultaneamente da civilização e do indivíduo (Fitoussi e Rosanvallon, 1997) .
No período do "capitalismo organizado"35, como vimos,
"(...) a conexão económica residia em que a partilha nos ganhos de produtividade, os salários indirectos e o Estado-providência deveriam garantir por si a reprodução social (a alimentação, o vestuário, a habitação, a educação, a saúde, a segurança social, os transportes, o lazer, etc., etc.). Esta conexão permitia aos trabalhadores planear a sua reprodução social e a da sua família em total liberdade e segurança, sem qualquer sujeição aos ciclos económicos, ou às exigências empresariais" (Santos, 1997: 217).
Foi nessa fase que se estabeleceram "«padrões de segurança» e de «previsibilidade» ontológica e jurídica aos níveis individual e colectivo nunca antes alcançados na história do trabalho" (Ferreira, 2000), e se fortaleceram os princípios do Estado, do mercado e da comunidade (Santos, 2000).
Como salientamos anteriormente, com a mundialização das economias, aliada às novas tecnologias de informação e de comunicação, as mudanças que se vêm produzindo no mundo do trabalho (novas formas de organização da produção e de emprego, desemprego, desestabilização dos estáveis e precarização) têm abalado a estabilidade e a progressão profissionais, colocando em causa para alguns (Gorz, 1989; Meda, 1998) o trabalho enquanto factor estruturante da economia e da sociedade. Se no passado o trabalho assalariado (ou o independente) constituiu o elemento fulcral nas relações do indivíduo com a sociedade actual, em resultado das metamorfoses actuais existem cada vez mais pessoas desnecessárias no processo produtivo, que experienciam uma vida quase sempre sem projectos, devastadora e, não raras vezes, autodestrutiva, tanto mais difícil de controlar quanto menos se tem para negociar. Assim sendo, uma sociedade dita democrática estaria completamente inerme. Como assinalam
Período marcado pela expansão do Estado-providência, pelo alargamento dos direitos de cidadania, pelo pacto social levado a cabo entre o capital e o trabalho sobre a égide do Estado, e pelo modo de regulação social que se designou por fordismo (Santos, 2000).
Fitoussi e Rosanvallon (1997), quando os mecanismos económicos e sociais de regulação não funcionam, quando os indivíduos se sentem instáveis numa sociedade que cada vez lhes oferece menos pontos de referência, e quando a máquina económica parece estar demasiado governada pelas forças de mercados, instala-se um sentimento de insegurança. Tudo passa a ser subentendido como uma ameaça virtual, que corrói quer os vínculos sociais, quer as formas da vida democrática.
Como já mencionámos, a base da dignidade social do indivíduo não é tanto o emprego assalariado, nem o trabalho, mas a sua utilidade social, isto é, o lugar que ele ocupa no processo de construção da sociedade - "O trabalho constitui o ligame essencial que une o homem à sociedade. (...) Como no passado, continua a dar fundamento à subsistência material da vida, a fornecer um status social e a conferir uma identidade" (Fernandes, 2000: 173). Permanece como base principal da cidadania, atendendo a que esta comporta uma dimensão económica e uma dimensão social (Schnapper, 1998). Neste sentido, o trabalho representa mais do que uma ocupação, e o não trabalho mais do que o desemprego. Ora, a cidadania não se consegue sobre a inutilidade social. Como sublinha Gorz (in Fitoussi e Rosanvallon, 1997), a vida sem trabalho significa para o indivíduo a condenação à inutilidade e à inexistência pública.
Admitindo que a prática da democracia pressupõe um forte relacionamento entre a economia e a sociedade, e porque o "social não pode continuar dissociado do económico, como não pode ser autónomo em relação ao político" (Fernandes, 2000: 171), importa contrariar a tendência para a crescente desarticulação entre os padrões económicos e os padrões sociais. Desarticulação que tem permitido a existência de uma degradação da situação económica e social de um crescente número de pessoas e de grupos sociais, concomitantemente a um capitalismo em plena expansão. Para Mishra:
"(...) o fenómeno da globalização dos finais do século XX está a dissolver o vínculo entre ambas as dimensões, à medida que volta a exaltar a dimensão
económica em detrimento da dimensão social, procurando regular esta para a esfera privada" (Mishra, 1999: 170).
A tendência para a residualização da vertente do bem-estar social, ao dar prioridade aos direitos económicos e políticos, relega para segundo plano os direitos sociais (suporte constitucional do Estado-providência do pós-guerra), pelo que a ideia de cidadania vai perdendo credibilidade. Mishra {Idem) advoga, por isso, que a dimensão social identificada por Marshall (apesar do seu estatuto substantivo e não processual) deve ser encarada como uma categoria universal, semelhante às dimensões económica ou política. Dimensões que, aliás, se complementam numa sociedade dita democrática: a ordem económica tem por objectivo a produção eficiente de bens e de serviços, sendo o mercado a instituição-chave; a ordem política remete-nos para os mecanismos de tomada de decisão, e a política democrática é a instituição-chave; a ordem social reporta-nos para a manutenção da solidariedade social e comunitária, sendo a protecção social universal a instituição-chave. Deste modo, a comunidade aparece-nos como uma categoria sociológica idêntica à economia e à política. Por outras palavras, a cidadania deverá ser pensada em termos de padrões comunitários e universais e não de direitos individuais.
Reafirmar a importância da dimensão social e torná-la tal como a económica, parte integrante do conceito de desenvolvimento e do progresso (Mishra, 1999) é, pois, condição sine qua non para a reconciliação entre ambas as dimensões e subsequente "socialização da economia" (Hespanha, 1999), numa relação de entre-ajuda recíproca e geradora de sinergias positivas.
Também Fitoussi e Rosanvallon (1997), tal como Mishra, propõem uma re-interpretação do modelo tripartido de cidadania defendido por Marshall. Destarte, apresentam uma tipologia constituída por direitos-liberdades (que incluem os direitos tradicionalmente designados de direitos civis e políticos); direitos-créditos (que compreendem os direitos sociais tradicionais baseados na perspectiva indemnizatória e assistencialista por parte do Estado); direitos de
integração (assumidos como uma nova ordem de direitos sociais, assentes sobre uma lógica de pertença ao corpo social).
Os direitos de integração, que têm no direito à inserção a sua face mais visível, permitem corresponder às novas exigências colocadas pela emergência das novas formas de exclusão social. Os autores procuram, igualmente, introduzir uma nova lógica na relação entre o indivíduo, o Estado e a Sociedade, com vista a uma implicação de todas as partes na valorização do papel dos indivíduos na sociedade.
Esta nova concepção dos direitos sociais sustentará aquilo a que Rosanvallon denominou de Estado-providência activo (Rosanvallon, 1995: 11), o qual se desenvolve em torno do princípio de que todos os indivíduos devem ser considerados cidadãos activos. Contudo, numa sociedade atomizada, como a que vivemos, o primado deve ser conferido ao poder político. Isto porque os direitos do homem, se não forem preservados na ordem económica, são transferidos cada vez mais para a ordem social, pelo que, a "configuração do tecido social passa a exigir modalidades mais actuantes de intervenção política" (Fernandes, 2000:
174). O primado do político, refere o autor, desempenha um papel decisivo na refundação da sociedade firmado num novo contrato social. A separação entre a esfera económica e a social conduziu à desestruturação da segurança social, pelo que as formas tradicionais de contribuição para a constituição da segurança dos indivíduos se tornaram exíguas. Só através da activação das relações de solidariedade será possível refundar a sociedade. Neste sentido, incumbe:
"(...) ao Estado reconstituir os ligames sociais e as solidariedades destruídas pelo neoliberalismo e introduzir novas formas de relação entre a economia e a sociedade, mediante a criação de um mercado de trabalho social ao lado do mercado de trabalho competitivo" {Idem: 175).
Todavia, nas sociedades modernas o desajustamento entre as "esperanças subjectivas" e as "possibilidades objectivas"36 tende a aumentar, dado que, como
já argumentamos, nem todos os actores sociais têm "as mesmas possibilidades de ganho material e simbólico", tão pouco "as mesmas disposições para investir"
{Idem: 177), e as instituições sociais (tais como a família e a escola) não
conseguem alcançar tal equilíbrio. É, por isso, fundamental incentivar a aproximação entre as pessoas, fomentar a responsabilidade individual e promover a solidariedade colectiva.
Uma vez que as sociedades são constituídas na base das desigualdades "e como a desigualdade económica e social define espaços diferenciados de cidadania, esta não pode ser assegurada para todos se a política não tiver prioridade sobre a economia" {Idem: 182). Por isso, o Estado ao promover uma redefinição da sociedade e ao dar:
"(...) forma a um novo contrato social, origina solidariedades que, deixando de se basearem exclusivamente em relações contratuais de trabalho, partem de direitos sociais redefinidos em função da responsabilidade inerente à existência colectiva, e assim actua fortemente na construção da cidadania"
{Idem: 183).
É por demais evidente que o défice de cidadania procede da falta de integração social, e esta da ausência de uma intervenção do Estado, no domínio económico, de modo a assegurar um trabalho com dignidade para todos.
Deste modo, o designado Estado-providência activo, equaciona-se em torno de uma nova cultura política e, mais do que um conjunto de práticas precisas, corresponde à ideia de reformulação da relação entre o Estado- providência e o emprego. Neste sentido, e recuperando alguns dos debates "da assistência pelo trabalho" (dos séculos XVII e XIX), Rosanvallon desenvolve esta temática com base na reformulação do direito ao trabalho, que passaria por uma diversidade de opções como, por exemplo, a ligação entre direitos sociais e obrigações morais e a criação de ofertas públicas de trabalho37. Mais do que
17 Não deixa de ser curioso reflectir sobre esta proposta de Rosanvallon. De facto, depois do
autor se ter pronunciado sobre os vários problemas do Estado-providência e da sociedade moderna (a crise do individualismo negativo, a ruptura dos mecanismos de solidariedade social, a fragilização dos vínculos familiares e sociais, entre outros), centra a sua atenção na ideia de
corroborar o direito ao trabalho, pensamos ser indispensável repensar o Direito do Trabalho, atendendo aos novos contornos que a organização do trabalho tem vindo a assumir, e para os quais já chamamos a atenção. Sendo o trabalho um acto social e uma actividade pública colectiva, urge reconhecer:
"(...) a utilidade geral da actividade do trabalhador, bem como o elo indissolúvel que liga o trabalho à sociedade, enquadrando o trabalho num sistema de direitos e de deveres orientado pelas suas características políticas, sociais, públicas e colectivas onde se escorará a cidadania social" (Ferreira, 2001:259).
A emergência das novas formas de trabalho, ao tornar obsoletos os princípios históricos do direito do trabalho, evoca a necessidade de uma nova lógica da relação laboral e legitima o discurso sobre o "Novo Direito do Trabalho" (Aristiles, s/d) ou a "Reinvenção do Direito do Trabalho" (Redinha,
1998).
De facto, enquanto complexo normativo disciplinador das relações laborais, o direito do trabalho não pode ficar indiferente à mudança, devendo "cumprir o ciclo vicioso de interconexão entre direito e sociedade, e continuar assim a desempenhar adequadamente o seu papel regulador da vida social" (Santos, 1999: 56).
A prática democrática ao exigir novas regras de regulação social, sustentadas pela justiça redistributiva, implica necessariamente uma nova concepção da sociedade, assim como uma reconfiguração da arquitectura do Estado, "assente no principio da igualização das condições de vida (...) contrariando toda a assistência na dependência" (Fernandes: 2000: 172).
A este propósito, reportarmo-nos a John Rawls que na sua obra intitulada
Théorie de la justice (1987), ao recentrar o debate sobre este tema tem sido, ao
longo dos últimos anos, baluarte para os defensores da acção social em prol dos grupos mais desfavorecidos. Defensor da liberdade, mas em igualdade de
que o Estado deve assegurar o direito ao trabalho. Mais ainda, Rosanvallon considera que esta é a única dimensão dos processos de exclusão social onde a acção do Estado será eficaz (Rosanvallon, 1995: 128).
circunstâncias, Rawls procura encontrar a estrutura básica de uma sociedade mais justa. Para tal, concebe dois princípios de justiça que espera sejam escolhidos por todos os homens, sem olhar a particularismos. São eles: i) o princípio da liberdade, de acordo com o qual "cada pessoa deve ter um direito igual ao sistema mais alargado de liberdades de base igual para todos que seja compatível com o mesmo sistema para os outros" (Rawls: 91); o princípio da diferença, segundo o qual se propõe um sistema político em que: "as desigualdades sociais e económicas devem ser organizadas de maneira que, ao mesmo tempo, (a) se possa razoavelmente esperar que elas sejam em beneficio de cada e (b) que elas sejam associadas a posições e a funções atentas a todos" (Idem, ibidem).
Rawls sustenta, ainda, que a justiça social demanda quatro sectores de intervenção, através dos quais deverá ser reformado o Estado-providência: um sector de afectação de recursos (para manter o sistema de preços competitivo e impedir a formação de forças de mercado desmesuradas); um sector de estabilização (para assegurar a eficiência da economia de mercado); um sector de distribuição (para garantir uma justiça aproximada através de impostos e de ajustamentos convenientes aos direitos de propriedade). Há, no entanto, uma restrição neste modelo de justiça, para a qual Rawls nos adverte - uma geração não deve abusar dos seus descendentes, limitando-se a consumir a riqueza. Ou seja, o princípio da "justa poupança" exige que uma geração poupe em favor das gerações futuras, havendo sempre um limite máximo que pode ser pedido a uma geração para essa mesma poupança. Por outras palavras, o que está em causa é o equilíbrio entre a protecção social e a responsabilidade pessoal, construído na base de uma combinação da solidariedade com a responsabilidade individual. Tal implica um novo relacionamento dos serviços públicos com as formas de associação e de mobilização da sociedade civil.
Neste contexto, convém aludirmos mais uma vez ao importante papel a desempenhar pelo chamado terceiro sector38, no sentido de politizar as questões I O
O terceiro sector integra "aquelas organizações que, não sendo Estado, produzem bens e serviços de interesse geral e que, sendo privadas, não têm como objectivo principal a
sociais e de participar activamente no redesenhar do Estado e das políticas sociais. O seu poder advém da capacidade de mobilização dos cidadãos e da sociedade civil organizada, assim como da força e da legitimidade das suas instituições na afirmação de uma sociedade solidária, em que todos os actores sociais se mobilizam conjuntamente em defesa do bem-estar comum.
É neste quadro que equacionamos a necessidade de uma nova gestão do social, capaz de responder às exigências do actual contexto civilizacional.
De entre as várias abordagens por onde passa esta discussão, destacamos além dos contributos já mencionados, os de Santos (1999), os de Genro (1999), os de Petrella (2000; 2001) e os de Amartya Sen (2003), que exemplificam os diferentes posicionamentos assumidos face à nova questão social emergente, e sobre a qual urge encontrar respostas justas e eficazes, capazes de contrariar os efeitos perversos das transformações globalizantes em curso.
Destarte, para Santos (1998), o contrato social fundado na modernidade ao não dar conta da dinâmica de exclusão/ inclusão, deixa à margem da contratualidade uma grande parte da população, numa situação em que se passa do pré-contratualismo (onde mesmo para os excluídos havia a possibilidade de serem incluídos) para o pós-contratualismo (onde a possibilidade de inclusão, de um modo geral, já não existe). Para o autor, a solução não passa por abandonar a ideia de contrato social, mas pela reconfiguração e pela reconstrução do espaço- tempo da participação e da deliberação democrática. Tratar-se-ia de um contrato assaz diferente do então em vigor. Seria um contrato muito mais inclusivo, por um lado, uma vez que deve abranger não apenas o homem e os grupos sociais, como também a natureza; mas mais conflituoso, por outro, porque a inclusão se dá tanto por critérios de igualdade como de diferença. Além disso, sendo certo que o objectivo último do contrato é o de reconstruir o espaço-tempo da deliberação democrática, este, ao contrário do que sucedeu no contrato social
apropriação individual do lucro" (Ferreira, 2002: 1). Criadas e mantidas, de uma maneira geral, graças à participação voluntária, num âmbito não governamental, dão continuidade às práticas tradicionais de caridade, de filantropia e de mecenato.
moderno, não poderá circunscrever-se somente ao espaço tempo nacional estatal, mas deverá incluir igualmente os espaços-tempo local regional e global. Por último, o novo contrato não assentará em distinções rígidas entre Estado e sociedade civil, entre economia, política e cultura, entre público e privado. De acordo com o autor, a deliberação democrática, enquanto exigência cosmopolita, não tem sede própria, nem uma materialidade institucional específica (Santos,
1998).
Genro (1999), por sua vez, enfatiza o lado político do novo contrato social. Para ele, a ideia de um novo contrato social tem como pressuposto a noção de que o actual Estado e a sua representação política não é capaz de mediar os conflitos no contexto da globalização económica e dos novos padrões de produção gerados pelo desenvolvimento científico e tecnológico. Genro advoga a necessidade de criar um "novo espaço público não estatal", o que corresponderia a um "novo contrato público". Seria uma forma, defende o autor, de democratizar o Estado, colocando ao lado da já existente esfera decisória (procedente da representação política), uma outra advinda de um novo espaço público que permitiria a presença permanente e directa das várias organizações da sociedade civil. Genro acredita na superação da actual crise através de mecanismos mais permanentes e democratizados de participação política.
Já Petrella (2001, 2002), argumenta que a actual globalização descreve um mundo e uma sociedade que se tornou hegemónica a partir da década de 1970, devido à conjugação de diversos factores, tais como: a aceleração da financerização da economia, devido ao desenvolvimento das tecnologias de informação e de comunicação; a saturação da economia ocidental, que teria favorecido os processos de liberalização, desregulamentação e privatização; a perda de credibilidade do "socialismo real", que deixou de ser uma alternativa desejável ao capitalismo do mercado ocidental; um novo colonialismo, que "abre" o mundo todo ao capitalismo ocidental, em particular o norte americano. Um contrato social alternativo teria, na sua opinião, que enfrentar os seguintes desafios: desenvolver uma ciência e uma tecnologia ao serviço do bem-estar da
comunidade; democratizar o acesso aos lucros da produtividade, actualmente propriedade dos detentores do capital financeiro; superar a tendência de transformar a pessoa em "recurso humano"; enfrentar a mercantilização total, desde o conhecimento até à vida; recuperar a credibilidade política. Esta proposta de contrato social tem como ponto central o desenvolvimento de uma consciencialização partilhada por todos os membros da sociedade relativamente aos problemas actuais.
Por último, Sen (2003), tomando por referência a teoria do desenvolvimento humano e sustentável, defende a construção de uma nova ordem institucional capaz de subordinar a lógica do mercado à regulação do interesse público. Para isso, afirma, é preciso revigorar e aprofundar os mecanismos democráticos de controle social sobre o conjunto das actividades sociais (incluindo a economia e a acção do Estado). Trata-se de uma proposta de reforma do Estado, cujo objectivo não é a maximização dos lucros do grande capital, mas a melhoria de qualidade de vida da população. Sen sustenta que a sociedade deverá orientar todas as suas actividades, inclusive as da sua economia, de forma a permitir o desenvolvimento pleno das potencialidades humanas. Neste sentido, propõe uma redefinição dos papéis do Estado e da sociedade civil, assim como uma parceria crescente entre as duas partes, numa perspectiva de recuperação e ampliação do espaço da política e da participação cidadã.
Estas e outras propostas têm surgido enquanto tentativas de resposta às exigências da nova realidade. Face aos diferentes pontos de vista expostos, afigura-se-nos indiscutível a necessidade de um novo compromisso social que passará, antes de mais, pelo assumir de uma nova gestão do social (Fernandes, 2000), e que envolve processos tão diversos como a organização da sociedade civil (isto é, relações de cooperação reguladas pela reciprocidade e mutualidade com vista ao bem-estar social e colectivo); a criação de novos tipos de