E DA PSICOLINGUÍSTICA
2. Universais Tipológicos
2.2. Universais de Processamento
Como vimos, os parâmetros e as hierarquias que a abordagem tipológica estabelece são o resultado de observação interlinguística; e a abordagem tipológica funcional acrescenta que essa universalidade resulta de motivação externa: são princípios funcionais que determinam que a variação interlinguística e intralinguística seja limitada.
E se a principal função da linguagem é comunicar com clareza, rapidez, facilidade e expressividade de modo a ser humanamente processável, (Slobin 1977), então é natural que as semelhanças existentes entre as línguas do mundo resultem de estratégias semelhantes, a que os falantes recorrem para desenvolver e manter o equilíbrio entre esses factores.
23 M. A. Coelho da Mota (1989) faz uma distinção, que me parece bastante pertinente, entre variação e instabilidade:
"A variação sistemática, observável nos falantes autóctones de uma língua, é uma característica inerente à própria actividade linguística, como o mostrou Labov em muitos dos seus trabalhos; a instabilidade é, por seu turno, inerente à apropriação de uma língua estrangeira, independentemente da sua tendência à cristalização ou ao movimento progressivo em direcção ao sistema da língua em questão" (pp. 458-459).
A linguística formal não é a única a argumentar que a aquisição da linguagem pode ser guiada por princípios inatos. Na psicolinguística do desenvolvimento, tem havido numerosos estudos sobre as semelhanças evidenciadas no comportamento linguístico de diferentes crianças, crescendo em diferentes comunidades e aprendendo diferentes línguas. Elas evidenciam sequências de aquisição semelhantes e cometem o mesmo tipo de erros e isso é também verdadeiro quando a observação é feita interlinguisticamente. Muitos argumentam que deve haver uma explicação universal para este comportamento: a existência de princípios funcionais e de processamento, de que a criança dispõe, é a proposta de B. MacWhinney (1986) e Slobin (1985, por exemplo).
O modelo de B. MacWhinney (1986 : 251), que se apoia em anteriores trabalhos de Slobin, é um modelo de processamento e baseia-se principalmente em três princípios: (1) princípios de representação, que destacam a importância do léxico (lexicon)
(2) princípios de processamento, que destacam o modo como os itens lexicais entramem competição uns com os outros durante a compreensão e a produção (É essa competição que dá o nome ao modelo) e
(3) princípios de aprendizagem,a competição garante que as representações da criança se aproximarão continuamente das representações lexicais dos adultos.
Slobin tem vindo, desde o início dos anos 70, a desenvolver estudos próprios e combinados com muitos outros investigadores de muito variadas línguas, genética e tipologicamente muito diversas, para, aplicando um método interlinguístico, chegar àquilo a que, em 1985, designou por "Language - Making Capacity" (LMC) da criança.
O que se pretende com o método interlinguístico é "descrever a expansão do discurso da criança para mais precisamente caracterizar os aspectos linguísticos da experiência e do comportamento no desenvolvimento" (Slobin, 1985:1158); acredita que só observando repetidamente o comportamento de várias crianças de várias línguas e confrontando todos os dados recolhidos se pode chegar a formar uma imagem da actividade da criança na construção da linguagem - visto que é "prestando atenção ao mesmo tempo a universais e particulares que se começa a ter uma imagem mais nítida da linguagem da criança" (Slobin, 1985b).
Durante a década de 60, a psicolinguística do desenvolvimento aumentou os seus conhecimentos sobre a forma como as crianças adquirem as línguas. No entanto, os estudos
realizados centraram-se sobretudo na aquisição do Inglês; na década de 70, os conhecimentos foram perspectivados de outro modo ao serem confrontados com o que foi investigado para outras línguas, permitindo estabelecer a relação entre universais linguísticos e
universais cognitivos (Slobin, 1973).
Na linha de Givón e outros, Slobin assume que (1) qualquer língua consiste num conjunto de frases que realizam um conjunto universal de funções comunicativas (pedir, ordenar, declarar, negar, etc.); (2) essas frases exprimem um conjunto universal de relações semânticas; (3) usam um conjunto universal de sentidos formais; e (4) têm uma gramática.
Qualquer criança constrói a gramática da sua língua, ("Basic Child Language" - BCL) e para a construir ela tem de ter capacidade para (1) adquirir conhecimento sobre os eventos físicos e sociais que são codificados na linguagem e para (2) processar, organizar e armazenar informação linguística.
Para isso, a criança precisa de operar, actuar sobre o input disponível, recorrendo a processos que incluem estratégias de percepção, de análise e de uso que as conduzirão a um domínio cada vez maior da língua em aquisição. É a esse conjunto de Princípios Operatórios (PO, "Operating Principles") que Slobin chama "The Language - Making Capacity" (LMC) e que "na sua forma inicial, é prévio à experiência da criança face à linguagem. À medida que esses PO são aplicados para perceber o discurso e lhe associar percepções de objectos e eventos, LMC constrói uma BCG ("Basic Child Grammar") que guia a produção de frases com significado e com estrutura" (Slobin, 1985 : 1160).
Estes Princípios Operatórios, que vêm sendo estabelecidos por Slobin (em 1973, contava 7 princípios; em 1985, 40 princípios) e por A. Peters (1985), subdividem-se em dois grandes grupos: princípios de atenção e de armazenamento 24. Os primeiros actuam no sentido de extrair e segmentar pequenas parcelas "chunks" do input. A extracção "é um processo rudimentar, guiado por princípios quase puramente fonológicos" (A. Peters, 1985 : 1030), e em que estão envolvidas frequência e saliência fonológica e psicolinguística. A segmentação, por sua vez, consiste na descoberta de subunidades linguísticas que compõem cada "pequena parcela". Obedecendo a determinados princípios de "arrumação" ("mapping"), vão sendo ar- mazenados, conforme as categorias a que pertencem, em dois grandes espaços: o semântico,
24 Retomarei este assunto no Capítulo 3.
que não é estático, visto que, com o desenvolvimento, sofre constantes reorganizações, e o dos functores, cuja arrumação obedece a princípios de saliência, de relevância (ver Bybee, 1985), de proximidade sintáctica e de objectivo ("scope") (ver Givón, 1985).
À medida que a criança vai processando mais informação linguística, a sua gramática vai-se aproximando mais da gramática dos adultos, falantes da língua em aquisição. Neste percurso, "as crianças caminham de uma gramática UNIVERSAL para as gramáticas divergentes de cada uma das línguas" (Slobin, 1985 : 1160), isto é, as gramáticas iniciais construídas pelo LMC são semelhantes, seja qual for o input linguístico.
Slobin estabelece deste modo um plano de investigação com duas vertentes, que resultam de duas hipóteses de trabalho complementares:
(1) a hipótese nula: o desenvolvimento da linguagem é igual em todos os casos;
(2) a hipótese dos efeitos específicos de cada língua: factores relacionados com a acessibilidade das formas linguísticas em cada língua desempenham um papel em cada caso.
À hipótese nula faz corresponder os universais de desenvolvimento; isto é, aplicado o método interlinguístico, encontram-se padrões de desenvolvimento muito semelhantes, sendo assim, é lícito concluir que, em todas as situações, operam universais de desenvolvimento. O desenvolvimento conceptual é o principal regulador a nível funcional, enquanto que a aplicação de estratégias gerais de aquisição da linguagem actua a nível formal (Slobin, 1985 : 6). Portanto, o que determina a ordem de emergência das formas gramaticais é o desenvolvimento conceptual, daí que se encontre uma ordem de desenvolvimento comum intra e interlinguisticamente e que, a nível formal, todas as crianças revelem preferências semelhantes pela selecção e ordenação das formas. (Cf. Givón - modo pragmático; Cf. também Chomsky: inviolabilidade de princípios).
Contudo, a aquisição da linguagem depende de uma "teia" (Slobin, 1985b : 14) de universais e particulares, e, embora o objectivo último seja sempre a descoberta de processos gerais, o curso da aquisição não é exactamente o mesmo nos seus detalhes: a interacção entre a forma e a função influencia a velocidade e a sequência do desenvolvimento. Diferenças interlinguísticas com base em conceitos como clareza, saliência, relevância, frequência, maior ou menor elaboração de um dado paradigma, etc. devem ser tidas em conta.
Depois do balanço feito no volume de 1985, que contém informação de quinze línguas diferentes 25e que lhe permitiu confirmar e reelaborar as propostas que vem fazendo desde meados dos anos 60, Slobin parece agora voltar-se para a análise dos dados no sentido de verificar os efeitos específicos de cada língua. É que, como vem dizendo, "não se pode estudar os universais sem explorar os particulares" (Slobin, 1982).
Um contributo fundamental para a investigação de universais em aquisição de segunda língua, numa perspectiva interlinguística, é o conjunto de artigos editados em 1984 por R. W. Andersen (Second Language - A Cross-Linguistic Perspective). Este volume, como afirma o editor (Andersen, 1984a : 1): "está baseado na permissa de que uma compreensão sólida da aquisição e do uso de uma segunda língua requere evidência de um grande número de diferentes línguas segundas (e primeiras), adquiridas e usadas numa grande variedade de cenários 26.
Esta posição de base, bem como muitas outras assumidas por outros colaboradores do volume, corresponde em absoluto à perspectiva adoptada por Slobin em anteriores e posteriores trabalhos.
Hyltenstam (1984:41) parte para a análise da aquisição e desenvolvimento das orações relativas, de uma hipótese que corresponde à hipótese zero de Slobin (1985): "os estádios iniciais de desenvolvimento das interlínguas são qualitativamente semelhantes para todos os que aprendem uma mesma língua, independentemente da sua língua nativa" 27.
E Berman e o mesmo Hyltenstam, entre outros, acentuando a importância dos parâmetros tipológicos que prevêem semelhanças na aquisição de línguas primeiras semelhantes, partem do princípio de que, se a língua materna e a língua em aquisição são semelhantes, a aprendizagem de cognatos, estruturas gramaticais e certas codificações de distinções semânticas serão facilitadas (Berman, 1984 : 21) e que "aquelas estruturas que são
25 Os dois volumes editados por Slobin, The Crosslinguistc Study of Language Acquisition", (1985a) compreendem
informação de várias línguas indo-europeias: (Inglês, Alemão, Francês, Italiano, Português, Romeno, Espanhol e Polaco); do Hebreu, Húngaro, Turco, Japonês, Kaluli e Samoano e ainda de uma língua gestual (American Sign Language).
26 This book is based on the premise that a sound understanding of the acquisition and use of a second language
requires evidence from a wide range of different second (and first) languages acquired and used in a variety of settings" (Andersen, 1984a : 1).
27 "Initial stages of interlanguage development are predicted to be qualitatively similar for learners with different
marcadas, relativamente a critérios tipológicos, são com certeza aquelas que são adquiridas mais tarde" (Hyltenstam, 1984 : 39), porque "exigem um mais alto grau de processamento" (Clahsen, 1984 : 221).
Não deixam de lembrar também, recordando Givón, que uma forma não tem necessariamente na interlíngua (na língua da criança) a mesma função que tem na língua-alvo (na língua dos adultos) e que, por isso, "as interlínguas devem ser descritas na sua maior parte como sistemas independentes" (Dittman, 1984 : 244).