elegantes estações em forma quase sempre de chalés suíços. Esses postos são quase todos mantidos por colonos alemães, outrora contratados no seu país para a construção da estrada, e cuja emigração constituía por si mesma uma grande vantagem para a província: em todos os lugares em que os pequeninos núcleos de colonos alemães se agruparam embaixo das colinas, percebem-se viçosos jardins com flores e hortas de legumes e ca- sinhas muito limpas em que tudo indica a economia e o amor do confor- to interior, virtudes que caracterizam por toda parte o bom camponês da Alemanha. Por direito, nenhum escravo pode ser empregado pela compa- nhia; os trabalhadores são alemães ou portugueses.
Assim o exige um regulamento geral que se aplica a todos os trabalhos públicos de certa importância. Os contratos aprovados pelo Go- verno proíbem expressamente o emprego de escravos. Infelizmente a re- gra não é sempre estritamente observada, por isso que, nos trabalhos de certo gênero, não se achou meio de substituir essa pobre gente. Para a conservação das estradas, porém, para as reparações, por exemplo, que exigem grande quantidade de trabalhadores constantemente em ação, ex- plorando as pedreiras, quebrando pedras para o macadame, cobrindo o sulco deixado pelas rodas, retificando os taludes, etc., só se admitem tra- balhadores livres.
Esse cuidado em excluir os escravos dos trabalhos públicos reve- la uma tendência para a emancipação. Inspira-se na idéia limitar pouco a pou- co o trabalho servil às ocupações agrícolas, afastando os escravos das grandes cidades e suas vizinhanças. O problema da emancipação não é para o Brasil, como foi para o nosso país, um espantalho político. É discutido livremente e com calma em todas as classes da sociedade; pode-se, sem querer adiantar mais, predizer que não passarão muitos anos sem que a instituição desapareça, tanto o sentimento geral lhe é contrário. Durante a última legislatura um ou dois projetos foram para esse fim apresentados na Assembléia Legislativa.
Mesmo agora, um negro que tenha firme resolução pode conquistar sua li- berdade, e, uma vez esta obtida, não há mais obstáculo a que ele eleve a sua condição social ou política. Mas se, por esse lado, a escravidão é muito menos absoluta do que o foi nos Estados Unidos, tem, sob outros aspectos, algo de mais entristecedor. Os escravos, pelo menos nas cidades, são verdadeiras bes- tas-de-carga. Móveis pesados, pianos, aparadores, malas pesadas, barricas empilhadas umas sobre outras, tudo isso, até caixas de açúcar e sacas de café de
mais de cem libras de peso, é transportado nas ruas na cabeça dos pretos. Por causa disso, esses infelizes ficam freqüentemente com as pernas entortadas;
não é raro vê-los, na força da idade, curvados inteiramente ou estropiados, e podendo a custo andar com um pau na mão. Em boa justiça, deve-se acres- centar que tal prática, tão chocante para o estrangeiro, vai diminuindo. Al- guns anos atrás, segundo nos dizem, não se podia encontrar uma carroça para fazer uma mudança: fazia-se na cabeça. Hoje, o hábito de empregar nisso os negros se foi perdendo. Sobre essa questão de escravidão como sobre todas as demais, a opinião do Imperador é a de um homem esclareci- do e humano. Se o seu poder igualasse a sua vontade, a escravidão desapare- ceria do Império de um só golpe; mas se é por demais sensato para deixar de reconhecer que todas as grandes mudança sociais devem ser progressivas, não esconde o seu horror pelo sistema.
Essa digressão não nos deve fazer perder de vista a estrada da Companhia União e Indústria. Está atualmente concluída até Juiz de Fora, e oferece todas possibilidades de transporte às ricas colheitas de café que, de todas as fazendas da região, descem incessantemente para o Rio. Como este distrito possui magníficas plantações de café, o aperfei- çoamento dos meios de comunicação é de capital importância para o comércio do país, e o Sr. Laje está em via de construir estradas que não conduzam aos pequenos estabelecimentos das redondezas. Não esca- pou, entretanto, aos contratempos que acompanham todos aqueles cujas idéias estão em avanço sobre a rotina de seus contemporâneos. O des- contentamento provém, sem a menor dúvida, do fato de que a estrada não deu tão grande renda como se esperava; os progressos da estrada de ferro D. Pedro II, que dela se aproxima cada vez mais, comprometeu- lhe o sucesso. Mas isso não atesta menos o zelo e a energia dos homens que empreenderam essa obra difícil. Para não interromper o curso da minha narrativa, quis fornecer, como preâmbulo da descrição de nossa viagem, essas particularidades sobre a Estrada União e Indústria, cuja construção é um fato significativo da história contemporânea do Brasil.
Retorno agora ao fio das nossas aventuras.
Embarcamos no Rio, às duas horas da tarde, numa pequena embarcação a vapor que nos transportou do outro lado da baía, a quinze milhas de distância. Graças à brisa, o calor, embora intenso, não era intole- rável. Passamos em frente da ilha do Governador, da pequena e graciosa ilha
de Paquetá, e outras mais, verdadeiros buquês de palmeiras, bananeiras e acácias, que recamam a baía e acrescentam à sua beleza um novo encanto.
Ao cabo de uma hora e um quarto de viagem, pusemos pé em terra na povoação de Mauá.45 Aí tomamos o trem e um novo percurso de uma hora, através de terrenos baixos e pantanosos, nos levou até o sopé da montanha (Raiz da Serra). Tivemos então que deixar a via férrea e tomar a diligência que parte regularmente dessa estação. A subida foi encanta- dora, nós num excelente cupê aberto, com quatro animais galopando a toda brida, numa estrada unida como um assoalho. O caminho descreve numerosas voltas nos flancos das montanhas, sobe e desce nas verdes coli- nas que assemelham um mar ondulado. Aos nossos pés se estende o vale, na nossa frente a cadeia litorânea, e, ao longe, a baía como que se esbate suavemente à luz do sol. Para completar o quadro, desdobra-se sobre todo o solo um manto de palmeiras, acácias e fetos arborescentes, caprichosa- mente bordados de parasitas e coloridos por uma profusão de flores púr- puras da quaresma,46 de bignônias azuis e amarelas, ou tumbérgias rastei- ras pendurando suas florezinhas amarelo-palha, em todas as moitas e pe- dras. Estamos sempre admirando a grande variedade de palmeiras. Uma árvore dessa espécie é uma raridade tão grande em nossas estufas que não imaginamos quanto essas plantas são numerosas e diversas em suas flores- tas natais. Não possuímos nós o carvalho-verde, o carvalho-branco, o car- valho-anão, o carvalho-castanheira, o carvalho-dos-pântanos, e vários ou- tros ainda? O mesmo se dá para com as florestas tropicais: há a palmeira da noz de coco, de tronco bulboso quando novo, reto e espigado quando velho, com seu cacho de frutos pesados e compridas flores que caem em forma de penas;47 o cocoeiro sic,48 o mais esbelto, cujos ramos pendentes carregam frutos pequeninos do tamanho duma cereja; o palmito que er- gue ao alto um gomo grosso tenro e suculento, empregado no país como legume e que substitui a couve; o icari ou cari espinhoso de palmas em
45 A boa estrada que leva a Petrópolis, residência favorita, no verão, dos habitantes do Rio, é obra do barão de Mauá, um dos homens que mais contribuíram para os progressos que o Brasil está em via de realizar.
46 Espécie de Melastomácea de grandes flores de muito efeito (L. A.) 47 Esta espécie não é natural do Brasil.
48 Coqueiro. (Nota do tr.).