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A choça de Esperança

No documento viagem ao brasil (páginas 179-189)

182 Luís Agassiz e Elizabeth Cary Agassiz

Viagem ao Brasil 183 necessário para as canoas. Enfim, chegamos ao extremo da estreita passagem, desembocando num grande lago. Verifica-se então que a grande rede que devia constar do aparelhamento de uma das canoas fora esquecida; chama-se em voz alta na direção de duas ou três cabanas de índios na esperança de arranjar esse engenho de pesca indispensável, mas em vão; forçoso foi mandar buscá-lo em Vila Bela. Devido a isso, amarraram-se as embarcações ao pé dum barranco, encimado por uma choça indígena, e para esta nos dirigimos a fim de nela esperarmos a volta dos mensageiros. Devo aqui confessar que, vista de muito perto, a Arcádia dissipa muito das ilusões, mas, todavia, é justo acrescentar que o espécimen em questão não era dos melhores. As habitações de Tajapuru eram bem mais atraentes, e os habitantes pareciam mais cuidadosos e também menos grosseiros do que os nossos hospedeiros de agora. Seja como for, o quadro neste momento não deixa de ter seu encanto. Como se tem de passar aqui várias horas, amarram-se as redes embaixo do grande alpendre, e alguns dos nossos já se vão preguiçosamente deitando nelas; uma mesa rústica improvisada com uma tábua presa a dois paus bifurcados é colocada a um canto; no outro, os nossos canoeiros repartem entre si as sobras do nosso festim. As mulheres índi- as, sujas de poeira, vestidas pela metade, com seus cabelos despenteados caindo sobre o rosto, se ocupam com os seus pequerruchos inteiramente nus ou socam mandioca num enorme pilão; os homens, que já voltaram da pesca, tendo a manhã sido melhor que de costume, acendem uma forja rudimentar e se põem a reparar alguns utensílios de ferro; enfim, até a ciência tem o seu cantinho, sagrado para todos, e, enquanto Agassiz procura novas espécies na pesca da manhã, o Sr. Burkhardt desenha os peixes encontrados.

A choça de Esperança. 29 de agosto – Descobrimos ontem que o nosso abrigo se torna dos menos agradáveis à proporção que o sol lhe bate em cima, e já que é necessário aguardar a noite para pescar, resolvemos atraves- sar o lago e alcançar um “sítio” (é o nome que os habitantes dão às suas plan- tações) situado na outra extremidade do lago. Desta vez demos com um dos melhores modelos de casa indígena. Num dos lados da habitação se estende a galeria aberta, que alegram neste momento as cores vivas das nossas redes.

Nos fundos há um grande quarto dando para esta galeria por uma larga porta de palha, ou antes, de folhas de palmeira, não fixada em gonzos, mas flutuan- te e suspensa como uma esteira, em frente da qual se acha uma janela sem vidraça, que se fecha à vontade por meio duma outra esteira de folhas de palmeira. Esse quarto, por agora, está exclusivamente reservado para mim.

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Do lado oposto, há uma outra dependência em forma de varanda, aberta aos quatro ventos, a cozinha, suponho, pois aí está o grande forno feito de barro – onde se torra a farinha, as cestas cheias de raízes de mandioca, prestes a serem descascadas e raladas, e, ainda, a mesa tosca em que jantaremos. Tudo tem um ar de decência e de asseio. O chão de terra batida está varrido, o terreno que circunda a casa está limpo, sem cisco, a pequena plantação de cacau e mandi- oca, onde se vê também alguns cafeeiros, está cuidadosamente tratada. A ha- bitação está situada sobre uma pequena elevação que se inclina suavemente na direção do lago; bem embaixo, abrigadas pelas grandes árvores, da margem, estão amarradas as “montarias” dos índios e as nossas canoas.

Fizeram-nos afável e doce acolhida. As mulheres se agrupam em volta de mim e passam em revista as minhas vestimentas, porém sem grosseria nem rudeza. A rede que prende os meus cabelos muito lhes preo- cupa; depois pegam em meus anéis, meu correntão de relógio, e, evidente- mente, discutem entre si a “branca”.

Cena pitoresca à noite. A noitinha, depois do jantar, passeio um pouco fora da casa e desfruto a singularidade da cena pitoresca seguinte.

O marido acabava de chegar da pesca e o fogo, aceso fora, onde cozinhava o peixe fresco para a refeição da família, se refletia sobre o rosto das mulheres e crianças atentas em torno, abrasando também com seus quentes clarões avermelhados a parte inferior do teto de folhas que cobre a cozinha. Do outro lado, uma lanterna acesa num canto do alpendre lançava uma luz vaga e indecisa sobre as redes e as pessoas meio inclinadas, ao mesmo tempo em que o lago e a floresta eram iluminados suavemente pelos raios da lua.

Infelizmente os mosquitos não tardaram a vir perturbar toda essa poesia, e, como o sono entrecortado da noite anterior só nos tinha deixado fadiga, fomos nos repousar cedo. Debaixo de um excelente mos- quiteiro, dormi perfeitamente, com sono calmo e benfazejo. Mas nem to- dos se lembraram de munir-se do indispensável complemento da rede; mais de um dos nossos passou uma noite miserável, servindo de pasto às hordas vorazes e zumbidoras dos mosquitos. Já era dia feito quando fui acordada pelas mulheres da casa, trazendo-me, com seus bons-dias, um apanhado encantador de rosas e jasmins colhidos nas proximidades. Depois de uma tão amável atenção, não lhes pude recusar o prazer de assistirem à minha toalete, e ainda menos deixar de consentir que abrissem a minha maleta e retirassem dela, um a um, todos os objetos.

Viagem ao Brasil 185 Sucesso dos colecionadores – A vida dos índios. A pesca noturna não fora feliz; porém, esta manhã uns pescadores trouxeram bas- tantes espécies novas para darem a Agassiz e ao desenhista ocupação para várias horas; resignamo-nos, pois, sem custo a passar ainda uma noite sob esse teto hospitaleiro. Devo dizer que os costumes primitivos dos índios da melhor classe, na Amazônia, têm muito mais atrativos que a vida pseudocivilizada das povoações de raça européia. Dificilmente concebo al- guma coisa de mais insípido, de mais triste e desanimador que a vida nas pequenas vilas amazonenses, com todo o formalismo e convenções da civi- lização, e sem nenhuma de suas vantagens.

Fabricação da farinha. Pela manhã, as minhas amigas índias me mostraram como se prepara a mandioca. Essa planta é de inestimável valor para os pobres: ela lhes dá a farinha – espécie de fécula grosseira que lhes substitui o pão – a tapioca e ainda uma espécie de bebida fermentada a que chamam tucupi, dádiva de valor duvidoso pois que lhes fornece o vene- no da embriaguez. Uma vez descascados os tubérculos da mandioca são ralados num ralador grosseiro. Obtém-se assim uma espécie de pasta úmi- da, com que se enchem tubos de palha, elásticos, feitos de fibras trançadas da palmeira Jacitará (Desmonchus). Quando esses tubos, tendo em cada ponta uma asa, estão cheios, a índia os suspende a um ramo de árvore; enfia em seguida uma vara resistente na asa inferior, fixando uma de suas pontas num buraco feito no tronco da árvore. Apoiando-se então na ponta livre da vara, ela o transforma numa espécie de alavanca primitiva sobre a qual exer- ce todo o peso de seu corpo, provocando assim o alongamento do cilindro elástico que se estica o mais que pode de uma extremidade para outra. A massa fica então fortemente comprimida e o suco que se escapa vem escor- rer num vaso colocado embaixo. Este suco é no começo venenoso, mas, depois de fermentado, torna-se inofensivo e capaz de servir como bebida: é o tucupi. Para fazer a tapioca, mistura-se mandioca ralada com água e com- prime-se numa peneira. O líquido que passa é deixado repousar; forma-se logo nele um depósito, semelhante ao amido, que se deixa endurecer e de que se faz em seguida uma espécie de sopa; é prato favorito dos índios.

Na intimidade dos índios. 30 de agosto – À medida que o tempo vai passando vamo-nos tornando mais familiares com os nossos

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rústicos amigos, e começamos a compreender as relações que mantêm entre si. O nome do índio que nos hospeda é Laudigari (escrevo como me soa aos ouvidos), e o de sua mulher, Esperança. O homem, como todos os índios das margens do Amazonas, é pescador e, com exceção dos cuidados exigidos pela sua pequena plantação tem como exclusiva preocupação a pesca. Nunca se vê um índio trabalhar nos cuidados internos da casa, não carrega água, nem lenha, e não pega nem mesmo nas coisas mais pesadas. Ora, como a pesca só se dá em determinadas estações do ano, ele gasta a seu bel-prazer a maior parte do seu tempo. As mulheres, ao contrário, são muito laboriosas, segundo di- zem, e aquelas que temos diante dos nossos olhos justificam perfeitamente essa boa opinião. Esperança está constantemente ocupada, quer com a casa, quer fora dela. Ela rala a mandioca, seca a farinha, comprime o tabaco, faz cozinha, varre os quartos. As criancinhas são ativas e obedientes; as mais velhas se mostram úteis indo buscar água no lago, lavando mandioca ou cuidando dos menores. Não se pode dizer que Esperança seja bonita, mas tem um sorriso gracioso, e a sua voz francamente suave tem como que uma entoação infantil que a torna verdadeiramente cativante. Quando, acabado o trabalho, ela veste por cima de sua saia escura uma camisa branca um tanto folgada, deixando aparecer seus ombros morenos, e enfia nos seus cabelos de azeviche uma rosa ou um galho de jasmim, o aspeto de toda a sua pessoa não deixa de ter sua sedução. Deve-se convir, porém, que o cachimbo, que ela tem o hábi- to de fumar à noite, prejudica um pouco o efeito geral. O marido parece um tanto tristonho, mas ri de todo o coração algumas vezes, e o bom humor com que saboreia o copo de caxaça101 [sic] que lhe dão toda vez que traz um espécimen novo, mostra bem que há um lado jovial no seu caráter. Diverte-se muito com o valor que Agassiz dá aos peixes, sobretudo aos muito pequeninos que, para ele, só servem para jogar fora. O outro par que vimos na nossa chegada era provavelmente uma família vizinha, que veio ajudar na prepara- ção da mandioca. Estavam aqui apenas desde aquela manhã e partiram na tarde do mesmo dia. O homem se chama Pedro Manuel e a sua companheira Miquelina: o marido é um tipo de folgazão de porte elegante, cuja ocupação principal é tomar atitudes pitorescas contemplando a sua mulher, aliás bem bonita, que vai e vem pela casa, muito atarefada em ralar a mandioca, espre-

101 Espécie de tafia extraído da cana-de-açúcar e que exala um ligeiro aroma empireumático.

(Nota da trad. francesa.)

Viagem ao Brasil 187 mer-lhe o suco, peneirá-la, sem abandonar, todavia, um instante sequer o filhinho, enganchado nos seus quadris; esta é a posição habitual de carregarem as índias os seus filhos. De vez em quando, Pedro Manuel se resolve a traba- lhar também para as coleções. Ontem trouxe para Agassiz alguns espécimens julgados de grande valor e recebeu uma galinha em recompensa. Grande foi a sua alegria e a sua surpresa também; mas é bem possível que viessem mistura- das de um pouco de desprezo por aquele homem capaz de dar uma galinha em troca de alguns peixes, bons no máximo para se atirar no rio.

Danças. Na noite deste mesmo dia, consegui, não sem cus- to, decidir Laudigari a tocar alguma coisa para nós ouvirmos, numa espé- cie de viola rústica, instrumento favorito das gentes do interior e orques- tra comum de suas festas. Uma vez acertada a música, pedimos a Esperan- ça e Miquelina que nos mostrassem algumas de suas danças. Elas se nega- ram por muito tempo, mas enfim, com um embaraço devido sem dúvida a esse primeiro despertar da dignidade que o contato da civilização provo- ca, cada uma delas deu a mão a um de nossos canoeiros e a dança come- çou. Era de um caráter todo especial e tão lânguida que apenas merecia o nome de dança. O corpo não faz quase movimento algum, os braços levantados e dobrados ficam duros e imóveis, os dedos estalam como castanholas acompanhando a música, e dir-se-iam estátuas deslizando de lugar em lugar mais do que dançadores. As mulheres é que produzem principalmente essa impressão, porque se movem menos ainda do que os homens. Um dos canoeiros era um boliviano, homem de formas elegan- tes e de fisionomia original, cujas vestes bizarras aumentavam ainda a singularidade dos seus movimentos. Os índios da Bolívia vestem uma espécie de dalmática; pelo menos não sei de outra expressão que possa dar uma idéia mais exata dessa vestimenta comprida e dura de algodão de malhas. Ela se compõe de duas peças unidas em cima dos ombros, porém deixando uma abertura para passar a cabeça, e que caem uma atrás outra na frente; são apertadas na cintura e abertas dos lados de modo a deixar toda liberdade aos braços e às pernas. As pregas rígidas dessa pesada capa branca emprestavam ao nosso boliviano o ar de uma figura de pedra se movendo com lentidão.

Quando terminou, chegou a minha vez de ser rogada por Esperança e seus amigos para mostrar “a dança do meu país”. Concordei

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de bom grado e tomando o braço do nosso amigo R... fiz algumas voltas de valsa, com grande alegria deles. Pareceu-me que estava tendo um estranho sonho; conosco rodavam o fogo aceso e os seus trêmulos reflexos sobre a palha do alpendre, e mais o pitoresco interior iluminado em cheio, e as figuras maravilhadas das índias. Rodeando-nos de perto, elas exclama- vam de tempos em tempos para nos animar:

– “Muito bonito, minha branca! muito bonito!”102

Os divertimentos se prolongaram até muito tarde, porque muito tempo depois de estar eu deitada em minha rede, ainda ouvia num meio-sono os sons plangentes do violão, misturados às notas melancólicas de uma espécie de noitibó que canta no mato durante a noite inteira.

Macacos roncadores. Esta manhã a floresta se encheu com o barulho que fazem os macacos roncadores; os roncos pareciam provir dum bando numeroso e pouco distante, mas nos asseguraram que o bando se acha no mais espesso da floresta e que desapareceria à menor aproximação.

Impressões sobre a religiosidade dos índios. 1o de setembro – Era muito cedo, ontem, quando nos despedimos dos nossos hospedei- ros. Foi com verdadeiro pesar que deixamos a bonita e pitoresca habita- ção. Na véspera à noite, Laudigari e sua mulher reuniram os seus vizinhos em nossa honra e renovaram a festa da outra noite. Como sempre aconte- ce, a repetição de uma coisa desusada exigiu muitos preparativos. Não era mais um improviso como da primeira vez e por isso nos pareceu menos divertido e bonito. Além do que, freqüentes libações de cachaça tornaram os convidados muito barulhentos e, sob a influência dessa bebida, a dan- ça, animando-se cada vez mais, perdeu o caráter sério e a dignidade que tivera da outra vez. Um pequeno incidente que se deu no começo nos interessou, porém, dando-nos a ver alguma coisa dos costumes religiosos desses índios. De manhã, a mãe de Esperança, uma velha muito feia, en- trou no meu quarto para me dar bom dia, e, com grande surpresa minha, vi-a ajoelhar-se antes de sair, a um canto do quarto, diante de um peque- no cofre de que levantara levemente a tampa. Ela levava freqüentemente

102 Em português, no original. (Nota do tr.)

Viagem ao Brasil 189 os dedos aos lábios, como para atirar beijos que pareciam ser dirigidos ao interior do cofre, e fazia também numerosos sinais-da-cruz. Voltou à noi- te para a festa e, com outras mulheres, iniciou uma dança religiosa acom- panhada de cantos. Todas tinham na mão um pedaço de madeira cortado em forma de grande leque, que abaixavam e levantavam com lentidão, acompanhando o ritmo do canto. Indaguei de Esperança a significação de tal cena. Ela me informou que essas mulheres, que vão no entanto regu- larmente à cidade vizinha de Vila Bela para assistirem à festa de Nossa Senhora de Nazaré, não deixavam de celebrar, na volta, essa espécie de cerimônia que faz parte dos seus antigos ritos. Ela, depois, me convidou a acompanhá-la e levou-me até o meu quarto. Abriu o precioso cofre e mostrou-me o seu conteúdo. Eram uma Nossa Senhora de Nazaré, uma grosseira estampa numa moldura malfeita de madeira, duas ou três outras imagens coloridas e alguns círios. Tudo estava cuidadosamente coberto por uma gaze azul. Este cofre era o oratório da família, e a ingênua índia, para me mostrar esses objetos, tomava-os nas mãos um de cada vez com um respeito feliz e enternecido que a falta de valor desses toscos objetos ainda tornava mais tocante.

A cabana do pescador. Achamo-nos agora numa outra cabana de índios, situada sobre uma barranca de um braço do Ramos, rio que, por intermédio do Maués, faz comunicar o Amazonas com o Madeira. A nossa viagem de canoa, anteontem, durou apenas duas horas, mas o calor nos acabrunhava e com ele o cansaço, embora seguíssemos um desses canais estreitos que acima descrevi. Os índios têm uma linda expressão para desig- nar essas pequenas ramificações dos rios; chamam-nas igarapés, isto é, lite- ralmente, caminho da piroga; em muitos pontos, efetivamente, há o lugar exato para dar passagem a uma embarcação desse gênero. Chegamos aqui às quatro horas mais ou menos; a habitação em que nos achamos é bem me- nos bonita do que a que deixamos. Está também, como a outra, situada numa encosta de colina, acima do rio e rodeada de floresta, mas faltam-lhe o grande alpendre e a sala de trabalho aberta aos quatro ventos, que torna- vam tão pitoresca a cabana de Esperança. Há aqui legiões de mosquitos;

logo que cai a noite, fecha-se a casa e queima-se na frente da porta, para afugentar esses encarniçados inimigos, uns molhos de ervas num panelão.

As pessoas que nos hospedam se chamam José Antônio Maia e Maria Joana, sua mulher, ambos fazem o que podem para que nos achemos bem sob o

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seu teto, e as crianças, como os seus pais, nos dão mostras dessa cortesia es- pontânea que ficamos tão admirados de encontrar entre os índios. A toda hora estão me trazendo flores e pequenos presentes que estão ao seu alcance me ofertar, como, por exemplo, essas vasilhas pintadas que os índios confec- cionam com o fruto da Crescentia e que lhes servem de copo, bacia, etc.

Vêem-se em quantidade em todas as habitações indígenas, ao longo das mar- gens do Amazonas.

Desejo de instruir os filhos. Os meus livros, o meu caderno de apontamentos interessam no mais alto grau a essa boa gente. Esta manhã, eu estava lendo junto à janela do meu quarto, quando o índio e a mulher se aproximaram; durante alguns minutos, olharam-me em silêncio, depois o homem me perguntou se eu não tinha algumas folhas de um livro velho, já fora de uso, ou mesmo um pedaço de jornal para lhe deixar quando me fosse embora. “Antigamente”, disse-me ele, “eu sabia ler um pouco” e pensava que, se voltasse a ler durante algum tempo, recobraria a ciência perdida. Ficou com o nariz comprido quando lhe respondi que todos os meus livros eram em inglês: foi uma ducha gelada na sua febre de leitura. Ele acrescentou então que um dos seus filhos era muito inteligente e com certeza aprenderia depressa se tivesse recursos para o mandar à escola; e como eu lhe respondesse que, no meu país, dá-se gratuitamente uma boa instrução aos filhos de todos os po- bres, ele exclamou: “Ah! se a branca não morasse tão longe, eu lhe pedia para levar a minha filha, como criada, para lhe ensinar a ler e escrever!” A sua fisionomia inteligente se animou e o tom sinceramente comovido das suas palavras bem traduzia o desejo que tinha de instruir os seus filhos.103

Volta para bordo.Resultados científicos da excursão. 3 de setembro – Pusemo-nos de novo a caminho ontem, e, depois de quatro horas de cansativa viagem a remo, no mais forte do calor, chegamos a bordo uma hora antes de cair a noite. Os resultados científicos dessa excursão foram dos mais satisfatórios. As coleções feitas nos dois pontos em que estacionamos diferem grandemente uma da outra e contêm numerosas espécies. O infatigá- vel Sr. Burkhardt fez aquarelas de todos esses espécimens, enquanto as cores estavam frescas, coisa que não foi nada fácil, pois os mosquitos rodavam em

103 O desejo do índio foi satisfeito, como se verá adiante. (Nota da trad. francesa.)

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