tinuação, a excitação aumentou e a dança se tornou como que uma exaltação selvagem acompanhada de exclamações e gritos estridentes. Os movimentos do corpo lembram, numa singular combinação, a dança dos nossos negros e dos espanhóis. Dos pés até a cintura, eram aqueles movimentos curtos, sacu- didos, de membros, e essa torção de pernas, próprios dos negros das nossas plantações, enquanto que o tronco e os braços oscilavam, cadenciados no ritmo tão característico do fandango espanhol. Quando já tínhamos observa- do bastante, entramos no jardim: os coqueiros e as bananeiras estavam carre- gados de frutos e as passifloras trepadeiras se prendiam às paredes da casa, deixando passar aqui e ali, entre suas folhas, uma bela flor carmesim escuro.
Era de um efeito encantador e parecia-me ter diante dos olhos uma cena do Sul e do Oriente ao mesmo tempo... O sol se punha, toda a baía e as suas montanhas brilhavam com um rico colorido púrpura; retiramo-nos e era quase noite quando voltamos para bordo.
Nesta latitude, as luzes do crepúsculo se extinguem rapidamen- te; porém, mal a obscuridade desceu sobre a cidade, inúmeras luzesinhas se acendem ao longo de todo o litoral e nos flancos das colinas. O Rio de Janei- ro se desdobra em forma de crescente, na margem ocidental da baía, e os seus bairros se estendem por distâncias consideráveis, à beira-mar, ou serpenteiam mais para dentro da vertente dos morros. Em conseqüência dessa disposição das casas, que se espalham por vasta área e se disseminam ao longo das praias, em vez de se concentrarem numa aglomeração compacta, o aspeto da cidade vista da baía à noite é extraordinariamente belo. Uma espécie de efeito cênico.
As luzes sobem acompanhando as elevações, coroam aqui e ali os cimos das colinas reunindo focos mais brilhantes ou se afastam, apagando-se, nos con- tornos das praias, de cada lado da zona comercial, situada no centro.
Conseqüências da emancipação dos negros nos Estados Uni- dos. E os negros continuavam a dançar ao clarão duma grande fogueira. De tempos em tempos, quando a sua excitação atingia o mais alto grau, eles atiçavam as chamas que projetavam estranhos e vivos clarões sobre o grupo selvagem. Não se podem contemplar esses corpos robustos, nus pela metade, essas fisionomias desinteligentes, sem se formular uma pergunta, a mesma que inevitavelmente se faz toda vez que a gente se encontra em presença da raça negra: “Que farão essas criaturas do dom precioso da liberdade?” O único meio de pôr um termo às dúvidas que nos invadem então é de pensar nas conseqüências do contato dos negros com os brancos. Pense-se o que se quiser
dos negros e da escravidão, sua perniciosa influência sobre os senhores não pode deixar dúvidas em ninguém. O capitão Bradbury perguntou ao pro- prietário da ilha se os negros lhe pertenciam ou se lhes alugava os serviços.
“– São meus, tenho mais de cem – respondeu no seu inglês –, mas isto vai acabar em breve.
“– Acabar em breve! Que quer dizer com isso?
“– Acabou no país dos senhores, e, uma vez acabado aí, está acabado em toda parte, acabou-se no Brasil.”
Disse isto, não num tom de queixa ou tristeza, mas como se falasse de um fato inevitável. O golpe desferido na escravatura, nos Estados Unidos, feriu-a de morte onde quer que ela exista; fato esse que nos parece consolador e significativo.
Primeira impressão ao desembarcar no Rio de Janeiro. 24 de abril – Hoje, algumas senhoras e eu fomos a terra, e, depois de termos escolhido residência, demos algumas voltas de carro pela cidade. O que chama desde logo a atenção no Rio de Janeiro é a negligência e a incúria.
Que contraste quando se pensa na ordem, no asseio, na regularidade das nossas grandes cidades! Ruas estreitas infalivelmente cortadas, no centro, por uma vala onde se acumulam imundícies de todo gênero; esgotos de nenhuma espécie;35 um aspecto de descalabro geral, resultante, em parte, sem dúvida, da extrema umidade do clima; uma expressão uniforme de indolência nos transeuntes: eis o bastante para causar uma impressão singu- lar a quem acaba de deixar a nossa população ativa e enérgica.
Grupos pitorescos nas ruas. Entretanto, o efeito pitoresco é tal, pelo menos aos olhos de um viajante, que todos esses defeitos desapa- recem. Todo aquele que visitou uma dessas velhas cidades espanholas ou portuguesas dos trópicos está lembrado de suas ruas estreitas, das casas multicores guarnecidas de balcões pesados, das fachadas pintadas ou revestidas de azulejos gritantes, e, como única variante, marcadas aqui e ali pela queda de um destes. Que fascinação e que encanto eles sabem que sentiram a despeito da falta de asseio e das coisas julgadas mais necessárias.
35 Já nessa época, deve-se dizer, tratava-se de dotar a cidade de um vasto sistema de esgotos para carregar todas as imundícies e impurezas para o mar, onde são recolhidas por poderosas bombas a vapor e transformadas em adubo. Essa obra considerável e de importância higiênica extrema está atualmente concluída. (Nota do tr. da ed. francesa.) [1869.]
E os grupos da rua, então! Aqui, os pretos carregadores seminus, rígidos e firmes como estátuas de bronze, sob os pesados fardos que carregam na cabeça e parecem estar aparafusados no seu crânio; ali, padres de vestes compridas e chapéu quadrado; acolá, mulas balançando dois cestos cheios de frutas e legumes: não é um espetáculo variado feito para absorver a atenção de um recém-chegado? Quanto a mim, nunca os negros se me mostraram sob um aspeto tão artístico. Não faz muito, cruzamos na rua com uma preta toda vestida de branco, o colo e os braços nus, com as mangas arregaçadas e presas numa espécie de bracelete; estava com a cabe- ça coberta por enorme turbante de musselina branca e trazia a tiracolo sobre os ombros um xale comprido de vivas cores, caindo até quase os pés. Fazia com certeza parte da aristocracia dos negros, porque, do outro lado da rua, uma outra preta quase sem roupa, sentada nas pedras da calçada, com seu filho nu adormecido nos joelhos, deixava luzir ao sol a sua pele escura e lustrosa. Outro quadro ainda: sobre um muro velho, baixo, da largura de alguns pés, correm trepadeiras que deixam pender até o chão suas folhagens espessas; dir-se-ia um longo mostruário, cheio de frutas e legumes pra vender. Por trás, um negro de formas robustas está em frente da rua; com seus braços de ébano cruzados sobre um cesto cheio de flores vermelhas, laranjas e bananas, está quase dormindo, indo- lente demais para fazer um simples aceno ao comprador.
Eclipse do Sol. 25 de abril – Parece que a natureza guardou, para nos receber, não somente as suas festas mais alegres, como também as mais excepcionais. Hoje houve um eclipse do sol, total em Cabo Frio, a sessenta milhas daqui, e quase total no Rio. Assistimo-lo do convés do navio onde ainda estamos morando. O efeito foi tão estranho quanto admirável. Uma gélida palidez invadiu a terra com a sua sombra, e houve como que um calafrio de toda a natureza. Não era um crepúsculo, dir-se-ia um lúgubre panorama do país dos fantasmas. Agassiz passou a manhã toda em palácio, onde o Imperador o convidara a vir ver o eclipse em seu observatório. As nuvens são más cortesãs:
passou uma por cima de São Cristóvão tão desastrosamente que interceptou a vista do fenômeno no momento de maior interesse. Nosso posto de observa- ção foi melhor, durante esse momento, que o observatório imperial. Se o espe- táculo dessa cena entranha foi mais apreciável visto da baía que de terra, Agassiz pôde, no entanto, fazer algumas interessantes observações sobre as impressões sentidas pelos animais nessas circunstâncias extraordinárias. Copio suas notas:
... “cruzamos na rua com uma preta toda
vestida de branco”... (pág. 68)
“O efeito da diminuição de luz sobre os animais foi notável. A baía do Rio é freqüentada, durante o dia, por numerosas aves, espécies de fraga- tas e patolas que todas as tardes retornam às ilhas do litoral. Todas as manhãs, também, uns abutres negros (urubus) descem aos milhares sobre os arrabaldes da cidade, principalmente sobre o matadouro,36 e, ao cair da tarde, se retiram para as montanhas vizinhas, passando em seu vôo por cima de São Cristóvão.
Logo que a luz começou a diminuir, essas aves tornaram-se inquietas, eviden- temente tinham consciência de que a duração do dia havia sido singularmente encurtada; tiveram, por conseguinte, um momento de indecisão sobre o que deviam fazer. De súbito no entanto, não fazendo as trevas senão crescer, elas partiram para os seus retiros noturnos, as aves aquáticas na direção do sul, os abutres fugindo em direção oposta, e todas já haviam deixado os pontos em que habitualmente procuram alimento antes da escuridão ser mais intensa.
Pareciam ter uma extrema pressa em alcançar as suas moradas, mas apenas estavam na metade do caminho e a luz apareceu de novo. Aumentou rapida- mente a claridade, e a confusão das aves chegou então ao auge. Algumas con- tinuaram no seu vôo para as montanhas ou para a baía, outras voltaram do caminho, enquanto que um certo número delas volteavam indecisas no espa- ço. Em breve o sol resplandeceu no meridiano; o seu esplendor pareceu então decidi-las a recomeçar um novo dia de trabalho e o bando inteiro retomou com toda rapidez a direção da cidade.”
O interesse e a boa vontade que o Imperador demonstra por tudo o que diz respeito à expedição é um novo encorajamento para o nosso chefe.
Um espírito tão liberal por parte do soberano tornará relativamente fácil a tarefa a que se entregou Agassiz. Já teve ocasião de procurar várias personalidades ofi- ciais para os assuntos que se relacionam com os seus projetos. É acolhido por toda parte com as mais calorosas demonstrações de simpatia e está certo de que a administração lhe prestará todo o concurso.
Nossa residência no Rio. Tomamos hoje posse dos nossos apar- tamentos na cidade. Vai começar a nossa vida brasileira, com que sucesso é o que veremos. Enquanto estávamos a bordo do Colorado parecia que ainda tinhamos um pé no solo dos Estados Unidos.
36 No Largo do Matadouro (Nota da ed. francesa).
Situado na atual Praça da Bandeira, próximo portanto do antigo Palácio Imperial da Quinta da Boavista. (Nota do tr.)
26 de abril – A Sra C. e eu consagramos esta manhã aos nos- sos pequenos arranjos domésticos; desencaixotamos os livros, as nossas escrivaninhas e todas as nossas “miudezas”, esforçando-nos por transfor- mar num interior nosso os compartimentos estrangeiros em que conta- mos ter que passar várias semanas.
Laranjeiras. À tarde, demos um passeio de carro pelas La- ranjeiras. Nossa primeira excursão através do Rio deixara-me no espírito apenas uma recordação de pitoresco desmantelo. Tudo me pareceu estar caindo em ruínas, não sem revestir, em seu declínio, um encanto, um fora do comum do mais artístico aspecto. Essa impressão foi hoje muito mo- dificada. Em todas as cidades existe sempre um certo trecho que é o me- nos apropriado para agradar à vista do estrangeiro; provavelmente havía- mos escolhido para a nossa primeira excursão a direção menos favorável.
O caminho para as Laranjeiras, passa entre duas filas de casas de campo um pouco baixas, quase sempre rodeadas de largas varandas, e cercadas de jardins magníficos onde se ostentam nesta estação as folhas escarlates da estrela-do-norte (Poinsettia),37 bignônias: azuis e amarelas, trepadeiras e uma porção de outros arbustos cujo nome ainda não conhecemos. Uma vez ou outra um largo portão, aberto em frente a uma avenida de palmei- ras dá-nos de passagem uma perspectiva de relance sobre a vida brasileira e deixa-nos divisar um grupo de pessoas sentadas no jardim ou crianças que, vigiadas por suas amas pretas, brincam na areia das aléias. À medida que nos afastamos da cidade, as “chácaras”38 vão rareando, porém a paisa- gem vai se tornando mais característica. A estrada galga a montanha ser- penteando até o sopé do Corcovado. Aí se tem que descer do carro e acabar a ascensão a cavalo ou em mula. Já é, porém, muito tarde para nós:
o cume do Corcovado banha-se já nos últimos raios do sol poente.
Passeio Público. Tomamos ao acaso um pequeno atalho muito poético, onde apanhamos algumas flores e voltamos de carro para a cidade, só parando para dar uma volta no Passeio Público. É um Jardim lindíssimo que dá frente para a baía, não é grande mas está traçado com muito gosto. Nada
37 Euphorbia pulcherrima, também vulgarmente conhecida por “asa-de-papagaio” e “língua-do- diabo”. (Nota do tr.)
38 É o nome que os brasileiros dão às suas casas de campo. (N. da tradução francesa.)
de mais admirável que o amplo terraço que se ergue ao fundo e contra o qual se vêem quebrar as vagas trazendo com elas um frescor benfazejo.
Amanhã seremos hóspedes do Major Ellison engenheiro-chefe da Estrada de Ferro D. Pedro II. Ele vai nos levar até o extremo dessa linha, a uma centena de milhas do Rio, em plena Serra do Mar.
Excursão na Estrada de Ferro Pedro II. 27 de abril – Talvez que em todas as nossas excursões através do Brasil não encontremos um dia tão cheio de impressões como este. Veremos, sem dúvida, uma paisa- gem mais selvagem; mas, da primeira vez que se contempla a natureza sob um aspecto inteiramente novo, experimenta-se uma sensação de encanto que é difícil se repetir; a primeira vez que se descobrem as altas monta- nhas, que se contempla o oceano, que se vê a vegetação dos trópicos em toda a sua pujança, marca época na vida. Essas florestas maravilhosas da América do Sul são tão espessas e emaranhadas de parasitas gigantescas que formam uma massa sólida e compacta de verdura. Não é a conhecida cortina de folhagem, transparente ao sol e vibrando a cada aragem, que representa a floresta da zona temperada. Algumas árvores dos trechos que hoje percorremos pareciam estar sob o amplexo enorme de serpentes, tão grossos eram os caules das parasitas que se enroscavam em volta delas;
orquídeas de toda espécie, de grandes dimensões, prendem-se-lhes aos troncos e galhos, e plantas crescendo às soltas trepam-lhe até o cimo para se desprenderem em guirlandas onduladas até o solo. Sobre os próprios taludes entre os quais a estrada passa, desenvolve-se e entrelaça-se uma vegetação caprichosa que se diria querer desdobrar um tapete de verdura sobre a brecha feia e nua aberta pela estrada. Longe de prejudicar essa paisagem encantadora, a via férrea, não hesito em dizê-lo, valorizou-a ao contrário descobrindo, com os cortes que abriu, magníficas perspectivas no coração da Serra. O vagão que ocupávamos, colocado na frente da locomotiva, defronta a estrada, e nada nos perturbava a vista, nem a fu- maça nem as cinzas. Ao sair dum túnel onde a escuridão parecia palpável, vimos desenrolar-se diante de nós um panorama deslumbrante todo resplendente de luz. Uma exclamação geral soltada por todos nós teste- munhou a nossa admiração e surpresa.
No fim do percurso, penetramos na zona das mais ricas plan- tações de café. É devido a estas que se mantém o tráfico nesta linha que transporta enormes quantidades do precioso grão, recebidas no percurso
ou vindas de mais longe. Próximo à última estação, há uma grande explora- ção rural ou fazenda, que produz, segundo nos disseram, cinco a seis mil quintais de café nos bons anos. Essas fazendas são edifícios de aspecto singu- lar, baixos (comumente de um só andar) e muito compridos; as maiores cobrem uma área considerável. Como se acham inteiramente isoladas e afas- tadas das demais habitações, os que nelas moram têm que fazer provisão de tudo o que é preciso para as suas necessidades. Isto conserva nos proprietá- rios costumes meramente primitivos. O Major Ellison contou-me que uma vez, e não há muito tempo, uma opulenta marquesa que morava um pouco longe no interior, dirigindo-se à cidade para uma demora de algumas sema- nas, fez parada em casa dele para descansar da viagem, vinha acompanhada por uma tropa de trinta e uma bestas de carga conduzindo toda a bagagem imaginável, sem contar as provisões de toda espécie, galinhas, presuntos, etc. e vinte e cinco criados a acompanhavam. A hospitalidade dos brasilei- ros, segundo se afirma, não conhece limites; basta alguém se apresentar à porta no fim de uma jornada de viagem e, desde que o forasteiro não tenha lá uma cara muito má, pode estar certo de receber uma acolhida cordial, um jantar e uma cama. O pedido de um amigo, uma carta de recomendação, abre-vos todas as portas da casa, e podeis demorar o tempo que quiserdes.
Fizemos as três últimas milhas do percurso sobre o que cha- mam a “estrada provisória”, que será abandonada logo que fique concluído o grande túnel. Confesse-se que, para um viajante não experimentado, essa estrada deve parecer excessivamente perigosa, sobretudo na parte que está apoiada, com um declive de quatro por cento, numa ponte de madeira de 20 metros de altura, descrevendo uma curva muito fechada. Quando vi- mos a máquina passar por esse plano inclinado, e que, debruçando-nos um pouco, percebemos o horror do precipício, depois, quase na nossa frente, o último carro do trem que dobrava a curva, foi difícil resistir ao sentimento do perigo. Se um fato pode dar a compreender a confiança que merece a administração dessa estrada de ferro, basta lembrar que nenhum acidente foi registrado nessas circunstâncias em que a menor precaução que se deixe de tomar causaria uma catástrofe inevitável.39
39 Algumas semanas mais tarde, tive ocasião de perguntar a uma encantadora jovem, recentemen- te casada, se já havia visitado a estrada provisória para desfrutar a pitoresca paisagem: – Não – respondeu-me ela com um tom sério –, sou moça e feliz, não desejo ainda morrer. Eis um comentário divertido da idéia que fazem os brasileiros do perigo de uma tal viagem.
Far-se-á uma idéia do trabalho que necessitou a construção dessa via férrea, quando se souber que para perfurar só o grande túnel (e há quatorze), foram empregados trezentos trabalhadores, divididos em duas turmas que se revezavam noite e dia, exceto os domingos, durante sete anos. O barulho das pás e picaretas quase que não foi interrompido durante esse longo espaço de tempo, e a rocha através da qual foi perfu- rada a galeria é tão dura que muitas vezes os golpes mais rudes dos per- furadores só produziam um pouco de pó do volume duma pitada.40
Na volta, paramos uma meia hora na estação situada à mar- gem do rio Paraíba. Essa primeira visita a um dos rios importantes do Brasil não se passou sem um incidente memorável. Um dos nossos ami- gos do Colorado que nos vai deixar e segue viagem até São Francisco (Califórnia), declarou que estava resolvido a não se separar da expedição sem ter feito alguma coisa por ela. Com a sua bengala, um fio de bar- bante e um alfinete dobrado em dois, improvisou um anzol, e, num instante, pescou dois peixes, nossa primeira colheita nas águas doces do Brasil. Singular coincidência!: um dos peixes era inteiramente novo para Agassiz e só conhecia o outro através de descrições.
40 Essa estrada, começo da grande via cujo objeto é o rio São Francisco, abre ricas perspectivas para os estudos científicos. Doravante a dificuldade de transportar as coleções do interior para o litoral se acha diminuída. Em lugar de alguns pequenos especimens da vegetação tropical atualmente conservados em nossos museus, cada escola que se inaugure para ensino da geolo- gia e da paleontologia possuirá em breve, eu o espero, grossos troncos e partes vegetais que permitirão observar a estrutura das palmeiras, dos fetos arborescentes e plantas análogas, representantes atuais das florestas primitivas. A ocasião chegou de os nossos manuais de botânica e zoologia perderem o seu caráter local e limitado, para apresentarem vastos e grandes quadros da natureza em todas as sua fases. Só então será possível fazer comparações exatas e significativas entre as condições da terra nas épocas primitivas e o seu aspecto atual, em zonas e climas diferentes. Até agora o princípio fundamental em que os autores se inspiram para determinar a identidade das formações geológicas, nos diversos períodos, repousa, sobre a hipótese de que cada período teve o mesmo caráter em toda parte. Entretanto, os professores de geologia tornam cada dia mais evidente e imperiosa a prova de que as diferentes latitudes e continentes tiveram, em todas as épocas, suas plantas especiais e seus animais próprios; a variedade era sem dúvida menor do que em nossos dias, mas bastante para excluir toda idéia de uniformidade. O aperfeiçoamento das vias de comunicação no Brasil promete, pois, enrique- cer as nossas coleções; nutro mesmo esperança de que as viagens científicas nos trópicos deixem de ser acontecimentos acidentais marcando época na história do progresso. Elas ficarão ao alcance de todos os que estudam a natureza, e tão fáceis como as excursões nas regiões da zona temperada. – Para mais particularidades sobre a construção dessa via férrea, veja-se o Apêndice (L. A.)