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resca entretanto que a que cerca o Rio. Ao pôr-do-sol, chegávamos à fazen- da, situada sobre uma esplanada que domina o rio e donde se abrange en- cantadora perspectiva de águas e florestas. Acolhem-nos com uma hospita- lidade de que dificilmente, penso, se encontrará fora do Brasil. Não se per- gunta quem sois, donde vindes, e abrem-se-vos todas as portas. Desta vez, éramos esperados; mas nem por isso é menos verdadeiro que, nessas fazen- das onde há lugar à mesa para cem pessoas, se necessário fosse, todo viajante que passa é livre de parar e ter pouso e refeição. Vimos vários desses hóspe- des de passagem: um par, entre outros, absolutamente desconhecido dos donos da casa, que ficara por uma noite, mas que a doença tinha surpreen- dido antes da partida, prolongava a sua estada havia perto de uma semana;
essas pessoas pareciam estar inteiramente em sua casa. Contam-se nesta pro- priedade cerca de dois mil escravos, dos quais uns trinta empregados no serviço doméstico. A habitação contém tudo o que é necessário às exigênci- as duma tão numerosa população: há uma farmácia e um hospital, cozinhas para os hóspedes e para os negros, uma capela, um padre, um médico. A capela é um simples oratório, somente aberto para as cerimônias e orna- mentado com muita elegância com vasos de ouro e de prata, tendo uma frente de altar em seda vermelha, etc. Está situado na extremidade de uma sala muito comprida que, embora utilizada para outros misteres, torna-se, durante as missas, o lugar de reunião de todos os habitantes da fazenda. A dona da casa nos fez visitar, certa manhã, as diversas salas de trabalho. A que mais nos interessou foi aquela em que as meninas aprendem costura. Admi- ro-me que não se tenha cuidado, nas nossas plantações do Sul, em tornar as pretas um pouca hábeis nesse mister. Aqui todas as meninas aprendem a costurar muito bem e muitas delas bordam e fazem renda na perfeição. Em frente a essa sala, vimos uma oficina de roupas, que me pareceu bastante parecida com as nossas sanitary rooms76 com suas peças de lã ou de algodão, que as negras cortam e costuram para os trabalhadores do campo. As cozi- nhas, as oficinas e os quartos dos negros circundam um pátio espaçoso plantado de árvores e de arbustos, em volta do qual há uma passagem co- berta, calçada de tijolos. Aí os pretos, jovens e velhos, pareciam um formi-
76 Grandes oficinas improvisadas, durante a guerra, pelas senhoras norte-americanas, para a confecção de roupas, etc., destinadas aos doentes. (N. da trad. francesa.)
gueiro; desde a velha ressequida que se gabava ela mesma de ter cem anos, mas não mostrava com menor orgulho o seu fino trabalho de renda e corria como uma menina, para que se visse como era ainda ativa, até os pequerruchos todos nus que engatinhavam a seus pés. Esta velhinha recebera a sua liberda- de havia muito tempo, mas por dedicação à família dos seus antigos senho- res nunca quis deixá-la. São fatos que dão à escravidão no Brasil um aspecto consolador e permitem esperar muita coisa. A emancipação geral é aqui considerada como um tema de discussão, a regular por lei para ser adotado.
Fazer presente a um escravo da sua liberdade nada tem de extraordinário.
À noite, quando depois do jantar tomávamos o café na varan- da, uma orquestra composta de escravos pertencentes à fazenda nos propor- cionou boa música. A paixão dos negros por essa arte é um fato observado em toda parte; esforçam-se muito para aprendê-la, aqui, e o Sr. Breves man- tém em sua casa um professor a quem os alunos fazem honra, na verdade.
No fim da noite, os músicos foram introduzidos nas salas e tivemos um espetáculo de dança, dado por negrinhos que eram dos mais cômicos. Como uns diabretes, dançavam com tal rapidez de movimentos, com tal anima- ção de vida e alegria espontânea que era impossível não os acompanhar.
Enquanto durou o baile, portas e janelas se achavam obstruídas por um enxame de gente preta, no meio da qual se destacavam aqui e ali uns rostos quase brancos, pois que aqui, como em toda parte, a escravidão traz consigo suas fatais e deploráveis conseqüências, e escravos claros não constituem raridade muito extraordinária.
Foi o último dia da nossa visita. Partimos na manhã seguinte, não mais a cavalo, mas numa dessas embarcações rasas que transportam café: o que nos pareceu preferível a uma longa cavalgada em pleno sol.
Fomos acompanhados ao embarcadoiro por nossos amáveis hospedeiros e seguidos por uma quantidade de negros, uns carregando a nossa bagagem e outros só pelo prazer de nos fazer aquele acompanhamento; entre estes esta- va a boa velhinha centenária que nos desejou feliz viagem com mais efusão e carinho que qualquer outro. Largamos afinal, e descemos alegremente o rio; os sacos de café nos serviam de bancos e almofadas e os nossos guarda- sóis abertos nos faziam as vezes de toldo, protegendo-nos sofrivelmente do sol. À viagem não faltaram mesmo algumas emoções, que o rio, entrecortado de pedras em muitos pontos, forma rápidos violentos, em cuja passagem os barqueiros desenvolvem grande habilidade.
Excursão botânica à Tijuca. 15 de julho – Hoje, longa excur- são botânica à Tijuca, em companhia do Sr. Glaziou,77 diretor do Passeio Público, que desejou muito ser o nosso guia. Agassiz teve muita sorte em encontrar, no meio dos lazeres a que o obriga o adiamento forçado de nossa partida, um botânico como o Sr. Glaziou, que soma a um conhecimento muito grande das plantas tropicais um profundo saber teórico. Ele fez por enriquecer a nossa bagagem científica, acrescendo-lhe uma coleção escolhi- da de palmeiras e outras plantas próprias para esclarecer as relações que exis- tem entre a flora tropical dos nossos dias e a vegetação das épocas geológicas anteriores. Será uma coleção inestimável para o estudo da paleontologia no Museu de Cambridge.
Preparativos de partida. O Major Coutinho. 23 de julho – Ainda bem que o nosso plano de campanha no Amazonas está definitiva- mente assentado. Embarcaremos depois d’amanhã no Cruzeiro do Sul. A conduta do governo brasileiro para com a expedição é das mais generosas:
foram concedidas passagens gratuitas a todos os seus membros e, ontem, Agassiz recebeu um documento oficial que ordena a todos os funcionários públicos prestarem dedicada assistência à execução dos seus projetos. Outra boa fortuna: o Sr. Major Coutinho78 se reuniu a nós. É um oficial do corpo de engenheiros que já consagrou vários anos à exploração dos rios amazôni- cos. Para nossa felicidade, se acha de volta, no Rio, há algumas semanas, e a boa estrela do nosso chefe permitiu que ambos se encontrassem no palácio imperial, no dia em que um ia aí prestar contas dos resultados de sua missão e o outro devia expor e discutir o plano de sua viagem. As explorações do jovem oficial haviam tornado seu nome familiar a Agassiz, e quando o Imperador lhe perguntou no que lhe poderia ser mais útil, a sua resposta foi que nada lhe poderia ser mais agradável e de auxílio mais eficaz que a com- panhia do Sr. Coutinho. Este acedeu em acompanhá-lo; o Imperador deu a sua aprovação e o trato ficou concluído. Depois disso, houve numerosas entrevistas entre os dois colaboradores de há pouco, quer para estudar os
77 Auguste-François Marie Glaziou. (Nota do tr.)
78 João Martins da Silva Coutinho; nessa época já publicara: Relatório sobre a colonização e navegação do rio Madeira (1862) e Relatório da exploração do rio Purus (1862). (Nota do tr.)
mapas, quer para combinarem acerca do melhor modo de orientar e repar- tir o trabalho. Agassiz compreende que, familiar como ele é com a região para onde vamos, o major saberá diminuir as dificuldades da empresa ao mesmo tempo em que o seu zelo pela ciência fará dele o mais simpático dos companheiros.79
Achamos hoje algumas folhas grandes de Terminalia catappa.
São do mais brilhante colorido. O vermelho e o doirado nelas refulgem como em nossas mais belas folhas de outono. Isso parece confirmar a opi- nião de que, quando as folhas mudam de cor, no outono, sob o nosso frio céu, não é por efeito de temperatura, mas simplesmente de maturação pois que aqui, onde não gela, o fenômeno se opera tão bem como nas latitudes setentrionais.
O Colégio Pedro II. 24 de julho – Estão concluídos os nossos últimos preparativos. As coleções feitas desde a nossa chegada e que en- chem, transbordando, cinqüenta caixotes ou barricas, estão embaladas, pron- tas para serem expedidas, na primeira ocasião, para os Estados Unidos.
Amanhã, de manhã cedo, estaremos de viagem para o grande rio. Fomos hoje ao Colégio Pedro II para nos despedirmos do nosso excelente amigo Dr. Pacheco, a cuja bondade devemos a maior parte dos nossos prazeres durante a estada no Rio. O colégio foi outrora um seminário, uma espécie de estabelecimento de caridade em que se preparavam crianças pobres para serem padres. A regra era severa: não havia serventes, sendo os alunos obri- gados a fazer tudo por suas próprias mãos, a cozinhar e tudo o mais, e mesmo ir pelas ruas pedir esmolas à moda dos monges mendicantes. Uma única condição se exigia para a sua admissão, era que fossem de raça pura;
não se recebiam negros nem mulatos. Não sei por que motivo a instituição foi abolida pelo governo, e o seminário se transformou em colégio. O edi- fício conserva ainda um pouco da sua fisionomia monástica, embora tenha sido grandemente modificado, e o claustro que o circunda por dentro lem-
79 Nunca uma esperança agradável foi mais plenamente confirmada. Durante onze meses do mais íntimo convívio, cada dia mais me louvei da feliz oportunidade que fez com que nos encontrássemos. Tive no Major Coutinho um colaborador dos mais preciosos, de atividade e devotamento à ciência infatigáveis. Um guia sem igual e um amigo cuja afeição espero conservar para sempre. (L. A.)
bra as suas origens. Era hora de aula quando fizemos a nossa visita, e como não havíamos ainda visto no Brasil um estabelecimento do gênero, o Dr.
Pacheco nos fez percorrê-lo. O que aqui se chama um colégio não é, como entre nós, uma universidade; é antes uma casa de ensino secundário fre- qüentada por jovens de doze a dezoito anos. É difícil julgar dos métodos de ensino aplicados quando se ouve uma língua estrangeira com que se está pouco familiarizado; os alunos se mostravam inteligentes, ativos; suas res- postas eram prontas e a disciplina parecia visivelmente boa. Uma coisa, todavia, impressiona o estrangeiro quando vê, pela primeira vez, toda essa juventude reunida: é a ausência do tipo puro e o aspecto doentio desses adolescentes; não sei se é uma conseqüência do clima, mas uma criança vigorosa e fortemente sadia é raro de se encontrar no Rio de Janeiro. Os alunos eram de todas as raças, viam-se entre eles negros e de todas as nuanças intermediárias até o branco; e mesmo o professor de uma das classes superio- res de língua latina era de puro sangue africano.80 É uma prova de que não existe o preconceito da cor. Esse professor havia feito as melhores provas num recente concurso para a cadeira, e, por unanimidade, fora escolhido de preferência a vários brasileiros de ascendência européia, que se haviam ins- crito com ele para o cargo vago. Depois de visitarmos várias classes, demos uma volta pelo resto do estabelecimento. A ordem e a perfeita limpeza que reinam em tudo, até na cozinha, onde o bronze e o estanho brilham de fazer inveja a mais de uma dona de casa, dão testemunho da excelência da dire- ção. Depois que essa instituição passou para as mãos do Dr. Pacheco, ele muito contribuiu para lhe imprimir o seu cunho atual. Enriqueceu a bibliote- ca, acresceu o laboratório com preciosos instrumentos e realizou um grande número de judiciosas reformas na organização geral.
80 Trata-se provavelmente do prof. Lucindo dos Santos. (Nota do tr.)
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bordo do Cruzeiro do Sul – Nossos companheiros de viagem. 25 de julho – Às onze horas, suspende-se âncora; partimos, não sem pena de deixar (não para sempre, bem o esperamos) essa baía admirável e essas montanhas que três meses não nos cansamos de contemplar. A expe- dição se compõe do Major Coutinho, do Sr. Burkhardt, do Sr. Bourget que nos acompanha como colecionador e preparador, dos nossos jovens amigos Srs. Hunnewell e James, e finalmente nós mesmos. Na Bahia, reu- nir-nos-emos aos Srs. Dexter e Thayer, dois membros do nosso primitivo grupo, que subiram a costa antes de nós e se ocuparam, durante duas ou três semanas, em formar coleções na Bahia e suas vizinhanças.
O aspecto do navio nada tem de atraente. Não admira: acabou de servir como transporte de tropas para o Sul e, por conseguinte, não prima pela limpeza. Está também abarrotado de passageiros que se desti- nam às províncias do Norte e que ficaram retidos no Rio com a interrupção das viagens regulares nesta linha. Todavia, prometem-nos melhor instalação dentro de alguns dias, pois grande número de passageiros deve desembarcar em Bahia e Pernambuco.81
IV
Do Rio de Janeiro ao Pará
A
81 São Salvador e Recife. (Nota do tr.)
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Chegada à Bahia. Um dia passado no campo. 28 de julho – A metade dos prazeres da vida nascem do contraste, e é seguramente a essa lei que se deve atribuir em grande parte a nossa satisfação de hoje. Depois de três dias passados, com um meio enjôo, num navio sem tratamento e sobrecarregado de gente, é uma deliciosa variante encontrar, numa arejada casa de campo em que somos acolhidos, essa hospitalidade, a mais grata de todas, na qual os hóspedes e hospedeiros se libertam mutuamente de cerimônias a fazer e receber. Sentada sob a sombra espessa duma enorme mangueira, com um livro sobre os joelhos, ora leio, ora escuto preguiço- samente o murmúrio das folhas ou as pombas arrulharem, dando picadas aqui e ali no solo ladrilhado do vestíbulo; e ora enfim, fico a olhar os negros que, com um cesto de verduras ou de flores e frutos na cabeça, vão e vêm no serviço da casa.
Enquanto isso, Agassiz se ocupa em examinar as coleções feitas pelos Srs. Dexter e Thayer durante o tempo em que estiveram na Bahia.
Eles receberam o mais solícito auxílio do nosso amigo Sr. Antônio de Lacerda, cujo teto hospitaleiro nos abriga e em casa de quem os encontra- mos. São já pessoas de casa, tão cordial foi a acolhida do Sr. Lacerda; este lhes proporcionou durante a sua estada todas as facilidades necessárias à execução de seus projetos. Amador apaixonado de história natural, consa- gra-lhe todas as horas que pode roubar às exigências duma vida de negócios ativamente ocupada e pôde ser, assim, um auxiliar utilíssimo para os nossos naturalistas; além disso, possui uma coleção de insetos numerosa e de gran- de valor, admiravelmente posta em ordem e em excelente estado de conser- vação. Os nossos excursionistas são também grandemente devedores ao Sr.
Nicolai, pastor residente da Igreja anglicana, que os acompanhou em suas explorações e lhes fez visitar o que, nas redondezas, era digno de interesse.
Quando se chega pela primeira vez à América do Sul, é na Bahia que se devia aportar. Nenhuma outra cidade exprime em tão alto grau o caráter, reproduz tão visivelmente a fisionomia, traz consigo de for- ma mais frisante a marca da nação a que pertence. Apenas atravessamos, esta manhã, a cidade e dela não poderíamos dizer senão bem pouca coisa, mas vimos o bastante para confirmar tudo o que se narra da originalidade e do pitoresco de seu aspecto. Ao desembarcar, achamo-nos ao pé de uma colina quase perpendicular; acorreram logo negros oferecendo-se para nos trans- portar ao alto dessa encosta escarpada e inacessível aos veículos, numa “ca-
deira”, espécie de assento encoberto por cortinas compridas. É um estranho meio de transporte para quem nunca o ensaiou, e a cidade ela mesma, com suas ruas em precipícios, suas casas bizarras, suas velhas igrejas, é tão estra- nha e tão antiga como esse singular veículo.
Volta a bordo. 29 de julho – Temos hoje o reverso da medalha;
eis-nos voltados à nossa prisão e uma chuva torrencial nos obriga a procurar refúgio no salão de comer, fechado e sufocante, nosso único recurso quan- do o tempo está ruim.
Conversa sobre a escravidão no Brasil. 30 de julho – Ao largo de Maceió. – Ontem à tarde, a chuva cessara, o luar atraía todos os passageiros para o tombadilho; tivemos com um amável companheiro de travessia, o Sr. Sinimbu,82 senador pela província de Alagoas, uma longa conversa sobre a escravidão no Brasil. Parece-me que aqui é oportuno a gente se instruir sobre o grande problema, fonte de tantas perturbações em nosso país, do lugar que se deva conceder, à raça preta na sociedade. Os brasileiros, com efeito, ensaiam gradualmente e, uma após outra, as experi- ências que fomos forçados a fazer bruscamente e sem estarmos de forma alguma preparados para elas. Ausência de toda restrição em relação aos pre- tos livres, sua elegibilidade para as funções, o fato de que todas as carreiras, todas as profissões lhes são abertas, sem que o preconceito da cor os persiga, permite que se forme uma opinião sobre a sua capacidade e aptidão para o progresso. O Sr. Sinimbu acha que o resultado é inteiramente em favor deles; diz que, no ponto de vista da inteligência e da atividade, os pretos livres suportam muito bem o confronto com os brasileiros e portugueses.
Mas é preciso levar em conta, se se quer fazer a mesma comparação no nosso país, que os negros estão aqui em contato com uma raça menos enér- gica e menos poderosa do que a anglo-saxônica. O Sr. Sinimbu acredita que a emancipação se deva fazer no Brasil gradativamente e por uma série de progressos dos quais os primeiros já se fizeram. Um grande número de escravos é, todos os anos, libertado pela vontade dos seus senhores; um maior número ainda se resgata pelo seu próprio dinheiro; desde muito tem- po que cessou o tráfico; nessas condições é um resultado inevitável que a
82 João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu (Visconde de Sinimbu).
escravidão se extinga por si. Infelizmente isto não caminha depressa, e a insti- tuição prossegue, sem parar, na sua obra infernal: a depravação e o enervamento tanto dos pretos como dos brancos.
Os próprios brasileiros não o negam; a todo instante ouvem-se de sua parte queixas sobre a necessidade que têm de se separarem de seus filhos para mandá-los educar longe da influência perniciosa dos escravos domésti- cos. De fato, se, do ponto de vista político, a escravidão apresenta no Brasil, mais do que noutra qualquer parte, a probabilidade duma feliz terminação, é nele, sob o ponto de vista moral, que se patenteiam algumas das característi- cas mais revoltantes dessa instituição que aí parecem mais odiosas ainda, se possível, que nos Estados Unidos.
Um casamento de negros. Tive ocasião de assistir, faz alguns dias, nas proximidades do Rio, ao casamento de dois negros. O senhor torna- ra obrigatória então a cerimônia religiosa, ou, antes, irreligiosa, penso eu. A noiva, preta como azeviche, estava vestida de musselina branca e trazia um véu dessa renda grosseira que as negras fazem elas mesmas; o noivo vinha vestido de linho branco. A jovem nubente parecia, e acho que realmente o estava, muito pouco à vontade, porque estavam presentes muitas pessoas es- tranhas, e a sua posição não deixava de ser embaraçosa. O padre, um portugu- ês de ar arrogante, olhar ousado, interpelou os noivos, e, com a precipitação menos respeitosa, lhes dirigiu algumas rudes palavras sobre os deveres do matrimônio, interrompendo-as várias vezes para censurar a ambos, e princi- palmente a ela, porque não praticava os ritos com tanta rudeza e brutalidade como ele. Mais com um tom de imprecação do que de prédica, ordenou-lhes que se ajoelhassem diante do altar; depois, tendo dado a bênção, gritou um amém, jogou ruidosamente o livro das orações sobre o altar, apagou os círios e despediu os recém-casados da mesma forma que teria expulsado um cão para fora da igreja. A moça saiu, sorrindo por baixo de suas lágrimas, e a sua mãe, aproximando-se dela, espargiu-lhe na cabeça uns punhados de pétalas de rosa. Assim se cumpriu esse sacramento, no qual a graça única que me pareceu descer sobre a novel esposa foi a bênção materna.
Se essas pobres criaturas refletissem, que estranha confusão não se faria em seu espírito! Ensinam-lhes que a união do homem e da mulher é um pecado, a menos que não seja consagrada pelo santo sacramento do matrimônio. Vêm buscar esse sacramento, e ouvem um homem duro e mau resmungar palavras que eles não entendem, entremeadas de tolices e