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Colheita do café

No documento viagem ao brasil (páginas 128-133)

foram abandonados, com exceção de alguns deles plantados com uma dupla fila de laranjeiras e que formam o pomar dos negros. Para substituí- los mandou fazer estradas que serpenteiam em volta dos morros e sobem suavemente, tanto assim que carrinhos leves, puxados por um burro só, transportam toda a colheita do alto das colinas até às secadeiras.

Era a época da colheita e o espetáculo que tínhamos diante dos olhos era verdadeiramente pitoresco. Os pretos, homens e mulheres, estavam espalhados pela plantação, trazendo às costas, amarrados às suas roupas, uma espécie de cesto feito de caniços ou de bambus. Dentro dele é que amontoam os grãos de café, uns vermelhos e brilhantes como cere- jas frescas, outros já escuros e meio ressequidos, e, de quando em vez, alguns ainda verdes, não de todo maduros, mas não devendo tardar em amadurecer sobre o solo abrasado do terreiro. Pretinhos pequenos, senta- dos na terra ao pé dos arbustos, ajuntam as cerejas caídas, cantando um estribilho monótono que tem sua harmonia e seu encanto; um deles faz o canto e os outros o acompanham. Uma vez cheios os cestos, vão mostrá- los ao administrador que lhes dá uma ficha de metal onde está marcado o valor da tarefa executada. Cada qual deve uma quantidade certa de traba- lho: tanto por homem, tanto por mulher, tanto por criança, e cada qual é pago do excedente que produz; o que se exige deles é verdadeiramente moderado e aqueles que não são preguiçosos podem facilmente juntar um pequeno pecúlio. Todas as tardes eles entregam as fichas recebidas no decorrer do dia e recebem o valor do excedente de trabalho livremente executado. Do terreno em que se procedia à colheita, nós acompanháva- mos os carrinhos até o lugar em que o seu conteúdo é esvaziado. Aí, os negros dividem em lotes a colheita do dia e a arrumam em pequenos montículos no terreiro. Quando o café está bem seco, e por igual, espa- lham-no em camadas de pouca altura sobre a extensão toda do terreiro, onde ainda recebe por algum tempo os raios do sol; os grãos são em seguida descascados com auxílio de máquinas muito simples que se usam em todas as fazendas, e a manipulação está concluída.

Volta ao Rio. Ao meio-dia, dissemos adeus aos nossos exce- lentes hospedeiros e partimos para Juiz de Fora. O nosso carro não era uma imitação muito imperfeita da arca de Noé; porque, nós também, carregávamos os animais dos campos, os pássaros do ar e os peixes das

águas,73 sem falar das árvores da floresta. A amável companhia com que acabávamos de passar tão agradáveis dias se reuniu para nos desejar boa viagem e nos saudar com repetidos vivas, agitando chapéus e lenços, quan- do transpusemos o portão de saída.

Tivemos a felicidade de, no dia seguinte, pegarmos um tempo fresco e um céu um pouco coberto, de modo que as horas de viagem entre Juiz de Fora e Petrópolis, na imperial duma diligência, nos pareceram deliciosas.

Efeitos de neve. Na manhã seguinte, descendo a serra até Maná, fomos testemunhas dum fenômeno estranho se bem que comum, supo- nho, e familiar para os que vivem nas altas regiões. Quando demos a volta da estrada, no ponto donde se começa a descortinar o magnífico panorama do sopé da serra, houve um grito geral de surpresa e admiração. O vale todo e toda a baía, até o Oceano, estavam transformados num imenso campo de neve, macia e flocosa como se tivesse caído durante a noite. A ilusão era perfeita; e embora fosse fácil reconhecer imediatamente que se tratava de um simples efeito das espessas névoas da manhã, nós quase que tínhamos pena em acreditar que aquilo se iria dissipar com a nossa aproximação e que a realidade não corresponderia à aparência. Aqui e ali, um ou outro alto cume, rompendo como uma ilha a massa branca, contribuía mais ainda para enganar a vista.

Esse incidente tinha para nós um particular interesse: ele nos reportava às recentes discussões sobre a possibilidade de que geleiras houves- sem existido um dia nesse mesmo local. Algumas noites antes, Agassiz, numa de suas conferências, indicava a imensa extensão que o gelo outrora havia recoberto, quando enormes geleiras enchiam toda a planície suíça en- tre os Alpes e o Jura. Dizia a propósito disso: “Observa-se na Suíça, no outono, um fenômeno bem comum que permite ainda rever essa paisagem extraordinária. Muita vez, em setembro, ao levantar do sol, toda a vasta planície se cobre de vapores cuja superfície ondulada é do branco mais resplandescente; parece, vista das alturas do Jura, um ‘mar de gelo’ coberto de neve, que desce dos Alpes e enche todos os vales vizinhos.” O vale e a

73 Por ordem do Sr. Laje, foi feita uma abundante coleção de peixes das águas do rio Novo, e essa excursão não contribuiu pouco para estender consideravelmente a área abrangida pelo meu estudo da bacia do Paraíba. (L. A.)

baía do Rio de Janeiro nos ofereciam, no momento, esse mesmo estranho cenário dos tempos que não existem mais e cuja imagem não saía do nosso espírito desde alguns dias, incessantemente reavivada pela observação dos fenômenos glaciários que encontrávamos pelo caminho.

Adiamento da partida para o Amazonas. 6 de julho – A nos- sa partida para o Amazonas havia sido fixada para amanhã, mas o interesse particular cede ao interesse público. Acabam de nos comunicar que o vapor a bordo do qual devíamos partir foi requisitado pelo governo, para trans- portar tropas para o teatro da guerra. Os acontecimentos assumem dia a dia maior gravidade, e o Imperador em pessoa parte para o Rio Grande do Sul, acompanhado de seu genro, o Duque de Saxe. O Conde d’Eu, esperado a 18, pelo navio francês, deve se reunir a eles. Nessas circunstâncias, não so- mente a nossa partida não se pode dar mais no dia marcado, mas ainda um novo atraso parece bastante provável, pois que outros navios a vapor devem ser reservados para as necessidades do exército.

Um grande banquete de despedida foi ontem oferecido a Agassiz pelos Srs. Fleiuss e Linde. Norte-americanos, alemães, suíços, franceses e brasileiros nele se reuniram, e dessa mistura de nacionalidades resultou a melhor harmonia.

A lagarta-do-café e seu casulo. 9 de julho – Agassiz há algum tempo que procura arranjar alguns espécimens vivos do inseto que causa grandes devastações nos cafezais; é a larva duma pequenina mariposa análo- ga à que destrói as videiras da Europa. Ontem, consegui encontrar um certo número delas, das quais uma estava construindo o seu casulo na superfície da folha. Examinamos demoradamente com a lupa como ela constrói a sua delicada moradia. Dispõe os fios em arcos ao centro, de modo a reservar um pequenino espaço que lhe servirá de abrigo. A frágil e tênue abóbada parecia concluída, no momento em que estávamos observando; a pequenina lagarta ocupava-se então em esticar o seu fio para frente e fixá-lo a curta- distância para prender, de um modo qualquer, o seu ninho à folha. A extre- ma delicadeza desse trabalho era surpreendente. A lagarta fia com a boca, e deita o seu corpo para trás para implantar num mesmo nível a extremidade de cada novo fio; ela repete a mesma operação para diante, alinhando a sua teia com precisão e rapidez dificilmente alcançadas por uma máquina.

É interessante notar até que ponto a perfeição das obras da maioria dos animais inferiores é um mero resultado de sua organização e deve, por conseguinte, ser atribuída menos ao instinto que a uma função cujos atos sejam tão inevitáveis como os da função digestiva ou do trabalho respiratório. No caso presente o corpo do animalzinho servia de medida;

era curioso vê-la manejar seus fios com um cuidado tão rigoroso que bem se compreendia que não os poderia fazer nem mais longos nem mais curtos.

Com efeito, do centro da sua moradia, esticando o corpo em todo o seu comprimento, devia atingir sempre o mesmo ponto. A mesma coisa se verifica para com a pseudomatemática das abelhas. Esses insetos se conser- vam tão unidos quanto possível na colméia, para economizar espaço, e cada qual depõe em torno de si a sua provisão de cera, de sorte que sua forma e suas dimensões próprias servem de molde para cada uma dessas células cuja regularidade nos enche de admiração e espanto. O segredo da matemática das abelhas não reside portanto em seu instinto, mas na sua estrutura. Toda- via, nas obras da indústria de certos animais inferiores, a formiga, por exem- plo, há uma faculdade de adaptação que não se pode mais explicar do mes- mo modo, e a sua organização social é por demais inteligente, segundo parece, para ser fruto simplesmente de seu próprio poder de raciocínio, e não parece relacionada diretamente com a sua estrutura. Quando estávamos observando a nossa pequenina lagarta, um sopro agitou a folha; instantanea- mente ela se enrolou toda e escondeu-se em seu abrigo; mas logo se encheu de coragem, a retomou o seu trabalho.

Visita à fazenda de Comendador74 Breves. 14 de julho – Acabo de passar dois ou três dias da semana muito agradavelmente. Alguns amigos me decidiram a visitar com eles uma das maiores fazendas das pro- ximidades do Rio, propriedade do comendador Breves.75 Em quatro horas, a estrada de ferro D. Pedro II nos leva à Barra do Piraí; depois continuamos calmamente a nossa caminhada, montados em burros, ao longo das mar- gens do Paraíba, através de uma paisagem calma e muito linda, menos pito-

74 Esse título, antigamente, era acompanhado da posse de uma comendadoria, espécie de morga- do. É hoje puramente honorífico e individual, mas nem por isso é menos procurado pelos brasileiros e portugueses. É como que um título de nobreza. (N. da trad. francesa.)

75 José de Sousa Breves. Proprietário da Fazenda dos Pinheiros. (Nota do tr.)

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