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Palmeira trepadeira (Jacítara)

No documento viagem ao brasil (páginas 150-166)

Chácara do Sr. Pimenta Bueno, Pará

aproximamos da cidade, as numerosas ilhas que formam o porto do Pará e o abrigam, limitam progressivamente a vista e quebram a enorme massa das águas doces que afluem. Às três horas mais ou menos fundeamos; mas um violento temporal desaba, o trovão reboa, a chuva cai torrencial, e todos ficamos a bordo, com exceção do Major Coutinho. Este foi anun- ciar a nossa chegada ao seu amigo Sr. Pimenta Bueno90 que teve a bonda- de de nos oferecer a sua residência para todo o tempo da nossa permanên- cia aqui.

Recepção encantadora. A chuva cessou esta manhã, o tem- po está esplendido; às sete horas, duas embarcações vieram nos buscar a bordo, juntamente com a nossa bagagem. Uma vez em terra, dirigimo- nos para os vastos edifícios em que estão situados os escritórios e os arma- zéns do Sr. Pimenta Bueno. Ele teve a gentileza de mandar preparar várias salas grandes e de belo aspecto para servirem de laboratório e depósito; no andar superior, em quartos frescos, bem ventilados, foram alojados os nossos companheiros. Chegados antes de nós, eles já armaram as suas redes, arrumaram os seus pertences, e dir-se-ia um verdadeiro internato de rapazes. Postos em ordem os instrumentos da expedição, tomamos um carro e nos dirigimos para a “chácara” do Sr. Pimenta. Essa elegante habi- tação está situada a duas milhas do Pará, na Rua de Nazaré. Fomos nela acolhidos com a mais extrema bondade. Agassiz pouco se demorou; saiu quase imediatamente depois para a cidade em companhia do Major Coutinho, pois não há tempo a perder e é urgente começar os trabalhos de laboratório.

Quanto a mim, fico na chácara e passo uma manhã encantado- ra com as senhoras da casa que me fazem conhecer a famosa bebida extraída dos frutos da palmeira açaí. Esses frutos são do tamanho dos da amoreira de espinho e de cor castanho muito escuro. Depois de fervidos, são espremi- dos e dão um suco abundante de cor púrpura análoga à do suco de amoras.

Depois de passado na peneira, esse suco tem a consistência do chocolate.

O gosto é enjoativo, mas dá um prato muito delicado quando se lhe ajunta um pouco de açúcar e “farinha–d’água”, espécie de farinha dividida em

90 José Antônio Pimenta Bueno, depois marquês de São Vicente. (Nota do tr.)

grossos fragmentos, fornecida pelos tubérculos da mandioca. Na província do Pará, as pessoas de todas as classes são apaixonadas por essa bebida, e há mesmo um provérbio que diz:

Quem vai ao Pará, parou...

Bebeu açaí, ficou.

Arredores do Pará. 12 de agosto – Despertamos muito cedo e fomos correr a cidade. Os seus arrabaldes têm merecido um cuidado muito especial, e a Rua de Nazaré, larga avenida que leva deste arrabalde ao centro, está plantada, numa extensão de duas ou três milhas de belas árvores em que predominam mangueiras. No caminho, notamos uma palmeira de caule esguio que se tornou presa duma enorme parasita, que a sufoca num impla- cável amplexo. Tão luxuriante é o desenvolvimento da planta assassina que os seus galhos vigorosos e a sua espessa folhagem não nos deixam ver, a uma primeira observação, a estipe inteiramente escondida de que suga a seiva.

Com efeito, é tão-somente no alto da palmeira que algumas folhas em leque escapam ao inimigo e se lançam para o ar e para a luz como para fugir dele. A infeliz planta, contudo, não poderá viver por muito tempo: mais alguns dias e a sua morte fará soar para o assassino a hora do castigo.

Vegetação. Alguns passos adiante, na mesma avenida, depara- se-nos outra prova, e encantadora, de exuberância da vida vegetal. Num dos lados da avenida, eleva-se o esqueleto duma casa: ruína, ou construção inacabada em abandono? Não o sei. O que seja, não tem mais do que os muros, abertos nos lugares das portas e janelas. Mas a natureza completou o edifício: cobriu-o com um belo teto de verdura, atapetou-lhe os muros com plantas engrinaldadas em volta dos vãos arruinados, transformou o interior vazio num jardim de sua escolha, e a casa deserta, na falta de outros habitantes, serve pelo menos de abrigo aos passarinhos. É um quadro admi- rável e sempre que passo em frente dele desejo possuir o seu esboço.

O Mercado – Canoas de índios. Chegando à cidade, fomos direito ao mercado; está situado perto da margem do rio e foi com vivo prazer que vimos abordarem as canoas dos índios. A “montaria” (é o nome que eles dão às suas embarcações) é longa e estreita, e tem numa de suas

extremidades uma coberta de folhas secas, debaixo da qual mora a família; é aí que o índio está verdadeiramente em sua casa; aí vivem sua mulher e seus filhos, aí estão as redes, os utensílios domésticos, os vasos de barro, todos os seus pertences, em suma. Em algumas dessas montarias, as mulheres ocupa- das em preparar o almoço, ferviam o café ou cozinhavam a tapioca ao fogo;

em outras, expunham à venda essa cerâmica grosseira a que pertencem todos os seus utensílios e cujas formas não deixam de ter sua graça e elegância. Depois de nos termos regalado com esse espetáculo, demos uma volta pelos mostruári- os que são amplos e bem tratados; os mercados brasileiros, porém, só são bonitos em comparação uns com os outros. O abastecimento é abaixo de medíocre em sua variedade; há pouca coisa a ver, só tendo os brasileiros muito poucos legumes, embora lhes fosse fácil cultivar grande variedade deles. O mercado de frutas mesmo não era nada do que supúnhamos encontrar.

À tardinha, Agassiz partiu com os seus auxiliares para explorar algumas das ilhas que estão situadas na barra. O itinerário dessa primeira excursão às imediações do Pará foi traçado pelo presidente da província, Dr.

Couto de Magalhães.91

Clima. 14 de agosto – O clima que estamos desfrutando nos causa uma surpresa das mais agradáveis. Esperei sempre viver, logo que nos achássemos na região amazônica, sob um calor acabrunhante, ininterrupto, intolerável. Longe disso, as manhãs são frescas e é uma delícia passear-se pelas manhãs, quer a pé quer a cavalo, entre seis e oito horas. Se no meio do dia, o calor é efetivamente muito grande, ele vai diminuindo por volta das quatro horas; as tardes são absolutamente agradáveis e a temperatura das noites não é nunca incômoda. Mesmo quando, durante o dia, ele é dos mais fortes, nunca é sufocante; sempre uma ligeira brisa sopra brandamente.

91 O Dr. Couto de Magalhães(*) não se cansou de prodigalizar a Agassiz, durante a nossa estada no Amazonas, atenções de toda sorte. Não esqueceu nenhum dos meios que estavam ao seu alcance para assegurar o sucesso da expedição. A considerável coleção feita sob a sua direção, durante a nossa viagem ao alto Amazonas, aumentará no mais alto grau a importância dos seus resultados científicos. Quando o Sr. Couto soube que o Sr. Ward, um dos nossos jovens companheiros, descia o Tocantins, enviou ao seu encontro uma canoa e um guia; à sua chegada ao Pará, hospedou-o em casa dele e aí o reteve durante todo o tempo que passou nessa cidade.

* José Vieira Couto de Magalhães; já havia então publicado: Primeira Viagem ao Araguaia (1863). Esta sua obra, e também O Sertanejo fazem parte da coleção Brasiliana. (Nota do tr.)

Excursão à baía. Agassiz voltou esta tarde de sua excursão à barra, mais profundamente impressionado do que nunca da grandeza da entrada do Amazonas e da beleza de suas inúmeras ilhas. É, diz ele, um arquipélago num

“oceano de água doce”. Descreve, como coisa muito curiosa, a maneira de pescar dos índios. Eles sobem, remando muito devagar, um pequeno canal, depois de previamente terem amarrado as pontas de sua rede às duas margens num ponto inferior; depois, quando já subiram suficientemente longe, batem nas águas com um feixe de folhagem e se deixam levar pela corrente numa direção constante, enxotando diante deles o peixe para a rede. Basta-lhes retirar uma única vez a rede de arrastão para encher pela metade a canoa.

Foi com vivo interesse que, pela primeira vez, Agassiz pôde examinar vivo o singular peixe denominado “Tralhoto” pelos índios e co- nhecidos dos naturalistas pelo nome de Anableps tetrophthalmus. Este nome, que significa “quatro-olhos”, lhe foi dado por causa da singular estrutura dos seus olhos: uma prega membranosa, que circurnda o bulbo ocular, pas- sa através da pupila e divide o órgão em duas metades, uma superior e outra inferior. Sem dúvida uma tal conformação tem por fim adaptar os olhos aos hábitos particulares do Anables. Esses peixes se reúnem em bandos na superfície da água, com a cabeça parte em cima, parte em baixo, e se mo- vem por saltos mais ou menos como as rãs sobre o solo. Vivendo assim metade no ar e metade n’água, necessitam de olhos capazes de enxergarem nesses dois elementos e, graças à disposição indicada, os que os possuem preenchem precisamente essa finalidade.

19 de agosto – São dez horas da noite. Acabamos de embarcar no vapor que nos fará subir o Amazonas, e, antes da madrugada, nos pore- mos a caminho. A semana que acaba de passar foi para mim um delicioso intervalo de repouso e distração. A calma da vida de campo, os passeios matinais nas estradas e atalhos umbrosos das vizinhanças, entre sebes perfu- madas, foram um verdadeiro alívio depois de quatro meses de viagens ou estada em hotéis barulhentos.

Um curioso cogumelo. Um destes últimos dias, indo à cida- de, descobrimos na erva úmida da parte baixa da avenida um cogumelo, o mais admirável que já vi. A haste inteiramente branca, da grossura de meia polegada, e de três, ou quatro de altura, era ensimada por um chapéu em

forma de clava, pardo escuro com uma ponta azul. Da base do chapéu pendia até uma polegada mais ou menos do solo um fileto branco com largas malhas extremamente delicadas, verdadeira renda de fada tecida pela rainha Mab em pessoa.92

As coleções. Esta semana, tão sossegada para mim, não foi um período de repouso para Agassiz, cujo interesse, entretanto, não cessou um instante de se mostrar vivamente alerta. No dia mesmo da nossa chegada, graças à bondade do Sr. Pimenta Bueno, foram dispostas grandes salas de maneira a constituir um admirável laboratório e, desde o momento em que Agassiz nelas penetrou pela primeira vez, os exemplares afluíram de todos os cantos. Os membros da expedição não constituem senão uma fraca parte do exército de amigos da ciência que trabalharam com ele e para ele. So- mente no Pará, já conta com mais de cinqüenta espécies novas de peixes d’água doce, com que pode revelar relações novas e inesperadas no mundo ictiológico e fornecer bases para uma classificação mais perfeita. Longe está ele de se atribuir inteiramente um resultado tão feliz e tão considerável.

Apesar de sua incessante e infatigável atividade, não poderia ter realizado a metade do que fez sem a boa vontade e a solicitude dos que o cercam.

Os “peixes-do-mato”. Entre as mais preciosas dessas contri- buições está a ofertada pelo Sr. Pimenta Bueno e que se compõe dos cha- mados “peixes-do-mato”. Quando as águas crescem após a estação das chu- vas, elas transbordam de cada lado, através da floresta, e cobrem o solo até uma distância considerável das margens. Esses peixes ficam então se agitan- do por sobre as depressões do terreno e os lugares escavados; e as águas, ao se retirarem, os abandonam nos pequenos charcos ou nos regos que forma- ram. Não são encontrados em pleno rio, mas tão-somente nas ondulações do solo florestal; daí o nome que se lhes dá de “peixes-do-mato”.

92 Esse cogumelo pertence ao gênero Phallus e parece não ter sido ainda descrito. Conservei-o em álcool, mas não me foi possível obter um desenho dele enquanto ainda duravam o seu viço e a sua beleza. De manhã bem cedo, quando a relva ainda estava úmida, encontramos às vezes um caramujo todo especial, uma espécie de Bulimus arrastando-se pela beira do caminho. A forma da parte anterior do pé não se parecia com a de nenhuma espécie até agora conhecida nesse grupo. Fatos como esse mostram quanto é para desejar que se desenhem as partes moles desses animais tanto quanto os seus invólucros sólidos. (L. A.)

Demonstrações públicas de simpatia. Agassiz não teve aqui de reconhecer apenas a inesgotável benevolência das pessoas, mas também os testemunhos de calorosa simpatia que as corporações oficiais manifesta- ram pelo objetivo da expedição. Uma deputação da municipalidade do Pará se dirigiu a ele para lhe exprimir a satisfação geral causada pelo seu empreen- dimento, e recebeu, dos professores do colégio oficial, uma demonstração pública da mesma natureza. Finalmente, o bispo e o vigário-geral da diocese vieram também oferecer-lhe muito cordialmente os seus préstimos. O in- teresse assim demonstrado não se manifestou só em palavras vãs. O Sr.

Pimenta Bueno é diretor da companhia brasileira dos navios a vapor que vão do Pará a Tabatinga.93 O trajeto até Manaus, pequena cidade situada na embocadura do rio Negro, se faz geralmente em cinco dias e os navios a vapor só param nos diferentes pontos de escala uma hora ou duas, para tomar ou deixar passageiros ou carga. A fim de nos dar inteira liberdade de estacionar onde bem nos pareça útil aos interesses das coleções, a compa- nhia pôs à nossa disposição um navio, por um mês, entre Pará e Manaus. Só levará a nós como passageiros, e vai provido de tudo o que possa ser neces- sário durante esse período de tempo: alimentos, criadagem, etc. Creio po- der dizer, sem receio de me enganar, que, em nenhum país do mundo, uma empresa científica particular haja sido acolhida com tanta cordialidade e hospitalidade mais liberal. Insisto sobre isso e volto várias vezes ao assunto, não num mesquinho espírito de egoísmo, mas porque essa homenagem é devida ao caráter do povo brasileiro, cuja generosidade devemos proclamar.

Se o nosso naturalista foi feliz em suas coleções zoológicas, o Major Coutinho não o foi menos nas geológicas, meteorológicas e hidrográficas. A sua cooperação é de valor inapreciável, e Agassiz não se cansa de bendizer o dia em que, tendo tido a sorte de encontrá-lo no palácio imperial, teve a idéia de convidá-lo a reunir-se à expedição. Os seus conhe- cimentos científicos, sua compreensão perfeita da linguagem dos índios (“língua geral”) e a sua grande familiaridade com os usos dessas gentes fa-

93 O presidente dessa companhia é o Barão de Mauá*, considerado pelos seus compatriotas como um financista de grande capacidade e homem de uma perseverança, uma energia e patriotismo raros. Estava na Europa por ocasião da minha viagem ao Brasil; não tive assim o prazer de travar com ele relações pessoais; por isso aproveito de bom grado a ocasião de agradecer-lhe a liberali- dade de que deu provas, em todas as suas relações comigo, a companhia de que é a alma. (L. A.)

* Irineu Evangelista de Sousa. (Nota do tr.)

zem dele o mais importante dos colaboradores. Graças a ele, pôde-se iniciar uma espécie de diário em que, ao lado do nome científico de cada exemplar, o major menciona o nome vulgar e local dado pelos índios e tudo o que é possível se saber sobre o habitat dos animais.

Caracteres geológicos da costa, do Rio de Janeiro ao Pará.

Nada disse ainda sobre as observações de Agassiz relativas ao caráter dos terrenos depois que deixamos o Rio. Achei que mais valeria tratá-las em conjunto e de uma vez. Ao longo de toda a costa, ele veio observando o drift e examinando cuidadosamente em cada ponto visitado. Na Bahia esse depósito continha blocos grandes em menor quantidade que no Rio, mas estava carregado de seixos e assentava sobre uma rocha estratificada sem decomposição. Em Maceió, capital da província de Alagoas, era da mesma natureza, mas recobria, como na Tijuca, uma rocha decomposta, embaixo da qual existia uma camada de argila contendo pequenos seixos. Em Pernambuco, na nossa excursão ao aqueduto, encontramo-lo ao longo de toda a estrada; era a mesma massa vermelha, argilosa e homogênea repousan- do sobre uma rocha decomposta. A linha de contato em Monteiro, lugar onde termina o aqueduto, estava claramente assinalada por uma camada de seixos interposta. Na Paraíba do Norte, o mesmo leito de drift porém con- tendo grossos seixos em número cada vez maior, assenta sobre arenito decom- posto que lembra a rocha decomposta de Pernambuco. Na rocha não decom- posta subjacente, Agassiz encontrou algumas conchas fósseis.

O drift errático. No cabo São Roque, vimos dunas de areia semelhante à do cabo Cod; por onde passamos suficientemente perto para distinguir nitidamente a costa, a camada de drift se deixava bem perceber por baixo das areias movediças da superfície. A diferença entre a cor branca das areias e a vermelha do terreno inferior tornava fácil de reconhecer as suas relações. No Ceará, onde desembarcamos, Agassiz teve ocasião de verificar o fato examinando as coisas de mais perto. No Maranhão, esse mesmo terreno pode ser reconhecido por toda parte, o mesmo se dando no Pará.

Essa camada de drift, que ele observou assim desde o Rio de Janeiro até à foz do Amazonas, tem em todos os pontos a mesma constituição geológi- ca: é sempre uma massa argilosa, homogênea, de cor vermelha, contendo seixos de quartzo e cujo caráter, seja qual for a natureza da rocha local (gra- nito, grés, gnais ou calcário) nunca varia e nunca participa do caráter das

rochas com que está em contato. Isso demonstra certamente que, não im- porta qual tenha sido a sua formação, esse depósito não pode pertencer às localidades em que é atualmente encontrado e deve ter sido trazido de uma certa distância. O problema de sua origem será resolvido portanto por quem possa acompanhar-lhe os traços, até o local em que essa terra vermelha com os seus elementos próprios constitua a rocha primitiva. Transcrevo aqui a carta de Agassiz escrita ao Imperador alguns dias mais tarde. Ela dará me- lhor a conhecer as suas opiniões sobre o assunto.

Carta ao Imperador. Bordo do Icamiaba sobre o Amazonas94 (20 de agosto de 1865).

Sire,

Permita-me Vossa Majestade que lhe faça uma rápida narrativa do que observei de mais interessante depois da minha partida do Rio. A primeira coisa que me impressionou, ao chegar à Bahia, foi encontrar aí o terreno errático, como na Tijuca e na parte meridional de Minas que visitei.

Aqui, como lá, esse terreno de constituição idêntica, assenta sobre rochas locais as mais diversificadas. Encontrei-o outrossim em Maceió, Pernambuco, Paraíba do Norte, Ceará, Maranhão e Pará. Eis portanto um fato estabeleci- do na maior escala! Isso demonstra que os materiais superficiais que se po- deriam designar com o nome de drift, aqui como no norte da Europa e da América, não poderiam ser o resultado da decomposição das rochas subjacentes, pois que estas são ora granito, ora gnais, ora folhelho mináceo ou talcoso, ora arenito, ao passo que drift apresenta em toda parte a mesma composição. Não estou menos longe, porém, do que estava de poder assi- nalar a origem desses materiais e a direção do seu transporte. Agora que o Major Coutinho aprendeu a distinguir drift das rochas decompostas, asse- gura-me que o encontraremos em todo o vale do Amazonas. A imaginação mais ousada recua diante de qualquer espécie de generalização sobre esse assunto. E, no entanto, é preciso acabar por nos familiarizarmos com a idéia de que a causa que dispersou esses materiais, qualquer que ela seja, agiu na mais vasta escala, pois que eles se encontrarão provavelmente sobre todo o

94 Esta carta, assim como as demais que se terá ocasião de ler, está em francês no texto original.

(Nota da trad. francesa.)

continente. Já fui informado de que os meus jovens companheiros de via- jem observaram o drift nas imediações de Barbacena e Ouro Preto, bem como no vale do rio das Velhas. Os meus resultados zoológicos não são menos satisfatórios; e para falar apenas sobre peixes, só no Pará, durante uma semana, encontrei maior número de espécies do que as que até agora foram descritas em toda a bacia do Amazonas; isto é, ao todo sessenta e três.

Esse estudo será útil, creio, à ictiologia, porque já pude distinguir cinco novas famílias e dezoito gêneros novos, as espécies inéditas não se elevando a menos de quarenta e nove. É uma garantia de que farei ainda uma rica colheita, quando entrar nos domínios propriamente ditos do Amazonas;

pois até então só vi uma décima parte das espécies fluviais que se conhecem nessa bacia e as poucas espécies marinhas que sobem até o Pará. Infelizmen- te o Sr. Burkhardt está doente e só pude mandar aquarelar quatro das espé- cies novas que consegui encontrar, quando de perto da metade só se obtive- ram exemplares únicos. É absolutamente necessário que, na minha volta, eu faça uma mais longa estação no Pará para preencher essas lacunas. Estou maravilhado com a natureza grandiosa que tenho diante dos olhos. Vossa Majestade reina incontestavelmente sobre o mais belo império do mundo, e ainda que sejam pessoais as atenções que eu recebo por onde quer que passe, não posso deixar de acreditar que, se não fossem o caráter generoso e hospitaleiro dos brasileiros e o interesse das classes superiores pelos profes- sores da ciência e da civilização, não teria absolutamente encontrado as faci- lidades que se me deparam. Assim foi que, para facilitar a exploração do rio, do Pará a Manaus, o Sr. Pimenta Bueno, em lugar de me fazer viajar num navio comum, pôs à minha disposição, por um mês ou seis semanas, um dos mais belos vapores da companhia, onde estou instalado tão comoda- mente como no meu museu de Cambridge. O Sr. Coutinho é cheio de atenções para conosco e torna o meu trabalho duplamente facilitado, repa- rando-o de antemão com todas as informações possíveis.

“Não quero, porém, abusar do tempo disponível de Vossa Ma- jestade e peço que acredite sempre no mais completo devotamento na mais respeitosa afeição

de seu muito humilde e muito obediente servidor,

L. Agassiz.”

No documento viagem ao brasil (páginas 150-166)