A – As tendências da população na américa latina: passado, presente e futuro
Para passar à formulação de propostas alternativas, é necessário analisar as oportunidades que se abrem com o novo século. A primeira oportunidade a ser analisada é oferecida pelo chamado “bônus”
demográfico.
As tendências demográficas oferecem oportunidades singulares ao desenvolvimento, uma vez que já não nascem mais os grandes contingentes de crianças como nos últimos cinqüenta anos e, contudo, ainda não há um número amplo de idosos, especialmente nos países em desenvolvimento.
O Fundo de População das Nações Unidas, em seu Relatório sobre a Situação da População Mundial 1998, chamou a atenção para a existência, atualmente, da “maior geração de jovens que jamais existiu”.
Nos países em desenvolvimento, as menores taxas de natalidade oferecem a possibilidade de um dividendo demográfico nos próximos 15 a 20 anos, na medida em que uma afluência de jovens ingressa na população ativa, enquanto, ao mesmo tempo, nasce uma menor quantidade de crianças. Se
3. OPORTUNIDADES E DESAFIOS NO COMEÇO DO NOVO SÉCULO
Ao pensar com perspectiva de futuro é importante analisar as principais oportunidades e desafios a serem encarados, revendo as implicações do chamado “bônus demográfico”, explorando os possíveis impactos da sociedade do conhecimento, e mostrando os possíveis efeitos dos processos de reforma do Estado.
fosse possível encontrar empregos para esses jovens, a afluência da população ativa poderia ser a base de maiores investimentos, maior produtividade do trabalho e rápido desenvolvimento econômico. Isso geraria utilidades que poderiam ser destinadas a investimentos sociais em questões como saúde, educação ou previdência social, para garantir as bases do desenvolvimento futuro.(UNFPA 1998 e 2003).
Em nível regional, o BID destaca o fenômeno com a mesma ênfase:
A maioria dos países da América Latina se encontra agora em um momento propício da transição demográfica. As taxas de fertilidade estão diminuindo e uma grande coorte de crianças está se incorporando às filas da população ativa. Com menos filhos para criar, e ainda poucos anciões desfrutando da aposentadoria, pode-se dizer que a atual geração de latino-americanos se encontra realmente em uma posição favorável para se converter na força motriz do crescimento econômico e em um agente social da mudança. Nos próximos vinte anos, será produzida uma diminuição na proporção de crianças em relação ao número de trabalhadores, antes que a proporção de inativos em relação ao número de trabalhadores ativos comece a representar uma carga financeira mais pesada. Disso se deduz – conclui – que temos duas décadas para acelerar o desenvolvimento, colocar as pessoas para trabalharem, financiar melhorias na educação e guardar para o futuro (BID 1999: 3).
As tendências são diferentes entre os países, mas o desafio está presente em todos, ainda que seja com maior ênfase nos países da região, que estão em plena transição demográfica (México, Colômbia, Brasil), e com impactos mais difusos nos de “transição precoce” (Uruguai, Argentina, Chile).
B – Os Enfoques dominantes: chaves para o debate
O BID, ao tempo que chama atenção para a oportunidade demográfica, alerta sobre a importância de políticas, destacando algumas:
No período 2000-2030, os coeficientes de dependência total da América Latina registraram níveis historicamente baixos. [Porém advertindo que a região] não pode esperar passivamente pelos maiores benefícios potenciais
gerados pela mudança na estrutura de idades; ao contrário, deve aplicar ativamente políticas que permitam tirar proveito desses benefícios. Os principais aspectos de política que precisam de atenção imediata para que os países da América Latina aproveitem essa oportunidade demográfica incluem questões trabalhistas, a criminalidade, a educação, a saúde e a previdência social (BID 2000a).
É imprescindível incorporar esse tipo de dimensões às análises estratégicas substantivas sobre políticas de juventudes, já que aí reside boa parte dos elementos que, posteriormente, determinam a definição de prioridades em termos de políticas públicas e da correspondente alocação de recursos. E, se analisarmos a prioridade que tem sido dada à temática juvenil nos últimos cinqüenta anos, pode-se constatar que as crianças sempre estiveram em primeiro lugar e que a elas foram concedidas as prioridades e os recursos em quase todos os planos relevantes. Se, com base nessas constatações, projeta-se esse tipo de análise para os próximos cinqüenta anos, pode-se verificar que a prioridade do futuro pode chegar a ser os mais velhos, se não houver concentrados esforços para destacar o caso dos jovens.
De fato, várias agências têm se orientado para a questão dos idosos.
O Banco Mundial, o BID e agências das Nações Unidas vêm analisando o tema da terceira idade, não só porque o ano de 1999 foi dedicado a essa população em nível internacional. O CELADE, em 2000, ano dedicado à juventude, escreveu sobre essa geração, mas vem também mais publicando sobre a terceira idade e o mesmo ocorre em quase todas as outras organizações internacionais.
O desafio da terceira idade nos afetará com muita força até meados deste século mas, ao mesmo tempo, há que enfatizar que o juvenil já se faz presente em nosso meio e terá uma validade central nos próximos vinte anos e, por isso, deve ser atendido prioritariamente nas duas próximas décadas. Nesse momento, os países latino-americanos, incluindo o Brasil, estão diante de uma rara oportunidade de potencializar o retorno de investimentos na juventude, devido ao momento demográfico favorável, mas, para concretizar essa potencialidade positiva, é preciso que esses países elaborem e implementem, com rapidez e eficiência, políticas públicas que superem o risco de não atender à situação das gerações jovens.
C – Especificidades nacionais: situações diversas diante da transição demográfica
Desde o começo, o tema tem diferentes implicações para cada país em particular, conforme a posição de cada um deles na transição demográfica como tal. Por isso, e além de não poder realizar uma análise de cada um deles, tecem-se alguns comentários por grupos de países, conforme as semelhanças que possam ser identificadas. Para tanto, pode ser útil diferenciar os países de “modernização precoce” daqueles de
“modernização tardia” e dos que estão em “plena transição”, em uma etapa intermediária (veja as cifras da Tabela 8 por países).
Na primeira categoria, se encontram os países do Cone Sul latino- americano (Argentina, Uruguai e Chile) junto com a Costa Rica, Cuba e, em menor escala, o Panamá. Nesse caso, a transição demográfica (em comparação às outras categorias) está mais avançada e o desafio da terceira idade está mais instalado. Contudo, de qualquer forma, o tema das gerações jovens é muito relevante, e tudo que seja feito sob o ponto de vista das áreas de política, como ressaltadas no relatório supracitado do BID – questões trabalhistas, criminalidade, educação, saúde, economia e previdência social – será básico para o desenvolvimento em geral e, em particular, das juventudes.
Na categoria intermediária, por sua vez, se encontram os maiores países da América Latina (Brasil, México, Colômbia) junto com outros (Venezuela e Peru, por exemplo) e é nesses países que as tendências do “dividendo demográfico” podem ser visualizadas de forma mais clara. Os contrastes entre as tendências demográficas e as políticas públicas em todos eles são evidentes: enquanto as gerações jovens irrompem socialmente por toda parte, as políticas públicas continuam a funcionar com as inércias do passado.
O resultado é o desenvolvimento inusitado da violência, como, por exemplo, na Colômbia. Nesses países, será necessário atender prioritariamente a essas tendências, com a maior urgência.
Por último, na categoria dos países de “modernização tardia”
(Guatemala, Nicarágua, Honduras, Bolívia e Paraguai, entre outros) conta-se, ainda, com contingente de crianças numeroso, mas as tendências de mudança estão se acelerando significativamente, devido ao decréscimo nas taxas de natalidade e mortalidade e ao conseqüente
aumento da expectativa de vida ao nascer. Nesses casos, o “bônus demográfico” vai chegar um pouco mais atrasado, em comparação ao restante, mas terá uma vigência efetiva na segunda e na terceira década deste novo século. A vantagem vem, sobretudo, do atraso relativo do aumento do contingente de população de terceira idade, que só passará a ser significativo na segunda metade deste século. A prioridade das políticas públicas deveria ir se deslocando da primeira infância para a adolescência e juventude.
TABELA 8 – Jovens de 15 a 29 anos, segundo países, projeções 1970 – 2050 (milhar)
Fonte: CELADE. Boletín demográfico Nº 62. Santiago: CELADE, 1998.
D – Os principais desafios do século XXI
A temática que se está analisando aponta para dois grupos de desafios relevantes: um relacionado com as políticas públicas, e outro com os atores que deverão protagonizar esses debates no futuro imediato.
No que se refere à dimensão substantiva, parece claro que as áreas já destacadas – educação, saúde e participação – devem ser analisadas também sob o enfoque de desafios demográficos. Não é o mesmo que focalizá-las sob a lógica das corporações empresariais e sindicais e a partir da lógica das gerações jovens. E o mesmo poderia ser dito a respeito das políticas públicas relacionadas com a saúde: trabalhar para combater a mortalidade infantil é diferente de atender vulnerabilidade dos jovens.
O mesmo tipo de argumento poderia ser aplicado no que se refere a violências, a partir do momento em que as condições mudam radicalmente num cenário onde existem ou não grandes contingentes de jovens excluídos, à disposição de grupos criminais organizados, como, por exemplo, o narcotráfico. Mais e melhores oportunidades de inclusão social para os jovens contribuiriam significativamente contra tal situação. Da mesma forma, os desafios da ampliação do ensino médio também devem ser considerados.
Sobre os desafios da ampliação ao acesso à educação, Werthein e Cunha (2004: 13) assinalam que, durante a década de 90, o Brasil promoveu avanços significativos em relação à democratização da educação, em todos os níveis; e que chama a atenção a dimensão inclusiva que caracteriza esse crescimento. Porém, destacam os autores, que a demanda por crescentes níveis de escolarização ocorre acompanhada da exigência de uma educação de qualidade, capaz de proporcionar a cada criança e jovem formação e habilidades para um mundo que solicita pessoas com iniciativa, postura ética, conhecimentos inovadores e competência social e técnica. Desafio que impõe a necessidade de aplicação de recursos, que antes de serem vistos como gastos devem ser considerados como investimentos que produzirão impactos positivos na sociedade.
III.2 A CONSTRUÇÃO DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO