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2 – INTEGRANDO ENFOQUES

hostil e combatido por eles. Também o Estado tem sido menos flexível, sem permitir uma comunicação sem manipulações e sensível a linguagens diferentes e diversas.

IV.2 INTEGRANDO ENFOQUES

Nessa mesma linha de raciocínio, frisa-se que o enfoque de “grupo de risco” não prioriza o desenvolvimento de iniciativas que tentam fomentar a participação dos jovens na dinâmica social, econômica, política e cultural dos diferentes países que o adotaram, portanto, não respondendo a demandas dos jovens, nem contribuindo para a construção da autonomia.

B – Os jovens como sujeitos de direito

Reconhecendo as limitações do enfoque de “grupo de risco”, e adotando, em grande medida, como base as estratégias introduzidas em relação a crianças e adolescentes desde a aprovação da Convenção Internacional dos Direitos da Criança (em 1990), começou a se desenvolver uma nova perspectiva, que considera os adolescentes e os jovens como sujeitos de direito.

Nessa perspectiva, e sem desconhecer que os jovens enfrentam agudas e evidentes situações de risco, se assume que eles são cidadãos e têm – partindo dessa condição – direitos que a sociedade e o Estado devem respeitar, procurando que tenham a mais extensa e profunda vigência efetiva em todos os níveis. Dito de outra maneira, o acesso a serviços não deve ser visto como uma concessão do Estado para com os jovens, mas sim como um direito a ser assegurado.

A mudança de paradigma é relevante, na medida em que permite encarar as posturas paternalistas e clientelistas que, com freqüência, são adotadas no enfoque de “grupo de risco”, assim como as perspectivas de submissão de parte dos próprios beneficiários frente ao Estado, que nem sempre assumem sua condição de sujeitos de direito e, de certa maneira, legitimam ou, pelo menos, toleram as práticas clientelistas.

Assim como o enfoque de “grupo de risco” foi introduzido, sobretudo, a partir da prática de diversos organismos públicos, como as secretarias e ministérios da área social, o enfoque de sujeito de direitos foi estimulado a partir das dinâmicas de diversas ONGs especializadas, apoiadas no desenvolvimento de experiências no âmbito da defesa dos Direitos da Criança.

Ao tornar explícito o enfoque na própria concepção da Convenção, passou-se a mencioná-la fazendo referência aos Direitos da Criança e do Adolescente e, ao mesmo tempo, durante a última década, tentou-se fazer com que a Declaração Universal se concretizasse na aprovação de Códigos Nacionais da Infância e da Adolescência, influenciando o conjunto das políticas públicas relacionadas com essas dinâmicas particulares.

Diversos organismos internacionais (UNESCO, UNICEF, o UNFPA e a OPAS, dentre outros) colaboraram decisivamente com esses processos e as avaliações que têm sido realizadas têm demonstrado avanços significativos em várias áreas relevantes, embora ainda existam muitas pendências.

Mas também esse enfoque apresenta limitações, na medida em que promove a participação dos jovens como outro direito, sem a realização de uma leitura rigorosa das eventuais contribuições e obrigações que os jovens podem oferecer à sociedade. De certa maneira, a extrapolação excessivamente mecanicista desse enfoque, pensando na infância, não considerou devidamente as evidentes diferenças entre crianças e jovens e entre os jovens, dentre as quais se destaca a ênfase na participação.

C – Os jovens como atores estratégicos no desenvolvimento

As diversas leituras que se têm processado coletivamente na última década, a partir das várias experiências em diferentes contextos locais e nacionais, foram dando lugar à elaboração de outro enfoque, mais especificamente construído a partir da própria promoção juvenil, e apoiado no conceito e na prática da participação dos jovens.

Os jovens são, sobretudo, atores estratégicos do desenvolvimento, sem desconhecer que também são um “grupo de risco” e, sem dúvida, sujeitos de direito. É preciso enfatizar o eventual aporte dos jovens à sociedade, não limitando as políticas públicas de juventudes ao acesso a serviços materiais e simbólicos como um canal privilegiado para melhorar as condições estruturais da vida.

Sob essa perspectiva, as políticas públicas de juventudes devem articular iniciativas programáticas relacionadas com melhorias das condições de vida dos jovens, com outras orientadas ao fomento da participação, considerando que não basta satisfazer somente investimentos nas condições sociais e econômicas.

A experiência chilena, a partir da restauração democrática em 1990 é um exemplo. Depois de quinze anos, durante os quais as condições de vida dos jovens têm apresentado notórios avanços, continuam sendo constatados quadros de aguda “alienação” dos jovens em relação às principais instituições democráticas de uma sociedade na qual não se sentem efetivamente integrados.

Os Planos Integrais de Juventude, que têm sido desenhados ultimamente, tentam enfatizar de forma mais explícita e efetiva ambas dimensões, condições de vida e participação, assumindo o enfoque que considera os jovens como atores estratégicos do desenvolvimento (ver Rodríguez 2002a), sendo o caso do México o mais notório (ver México. IMJ 2002).

O enfoque que tem os jovens como atores estratégicos do desenvolvimento pretende contribuir para a superação de uma contradição paradoxal, entre os discursos favoráveis à participação juvenil – que quase todos os atores sugerem – e as práticas efetivas a esse respeito, atravessadas, em boa medida, por um receio aos eventuais “deslizes”

juvenis. A contradição se apóia na ausência de canais institucionalizados e reconhecidos de participação juvenil, por parte dos atores relevantes.

Por esse motivo, postula-se o desenvolvimento de programas que fomentem a participação dos jovens na implementação de políticas públicas, como combate à pobreza e campanhas de alfabetização, construídas com base nos diálogos com os jovens.

D – Os jovens, a construção do capital social e o seu “empoderamento”

Finalmente, no decorrer desses diferentes enfoques estratégicos com os quais se está tentando construir políticas públicas de juventude mais pertinentes e oportunas, é importante fazer referência a dois outros, que se relacionam intimamente entre si e, também, com os que acabamos de descrever. Trata-se dos enfoques relacionados com a construção do capital social e com o “empoderamento” dos jovens.

Há uma ampla literatura sobre capital social, mas são poucos os estudos centralizados no tema, que levam em consideração a dinâmica juvenil. Entre esses últimos, se destacam os apresentados ultimamente pela CEPAL (Arriagada e Miranda [orgs.], 2003) e pela ONG chilena

CIDPA (Davila, coord., 2004) que distinguem o capital social individual, em especial, a capacidade empreendedora dos jovens para enfrentar os diversos desafios de seu desenvolvimento pessoal e social, e o capital social coletivo, apoios sociais com os quais contam os jovens para concretização de seus projetos de vida.

No plano do capital social individual, se inclui uma ampla gama de dimensões, como lidar com o risco, auto-estima, sociabilidade, empoderamento, lidar com vínculos, apoio social e criatividade. Capital social coletivo refere-se à institucionalidade local e/ou comunitária, vínculos sociais e comunitários, entorno familiar, disponibilidade de serviços públicos, dentre outros. Como se pode observar, trata-se de dimensões que não são oferecidas naturalmente, que devem ser construídas coletivamente. A pertinência do enfoque está centrada na relevância de identificar áreas estratégicas para a construção de projetos juvenis de vida.

Têm sido implementadas ações promocionais que colaboram com a construção do capital social juvenil, assumindo que ele induz à melhoria das condições de vida e à construção de sentimentos de pertencimento por parte dos jovens, em relação às sociedades. Uma das peças-chave a esse respeito tem sido o desenvolvimento de ações de

“empoderamento”, isto é, ações que podem oferecer aos jovens as ferramentas necessárias para negociar com aqueles que tomam as decisões, tanto no nível macro como no nível micro.

Sob esse ângulo, diversas políticas públicas poderiam ser avaliadas, bem como as iniciativas programáticas específicas, julgando até que ponto elas colaboram, ou não, na construção do capital social juvenil e/ou fomentam o “empoderamento” juvenil.