É objetivo da UNESCO em suas ações de/para/com juventudes contribuir para que os jovens e as jovens tenham a oportunidade de falar e serem ouvidos, estabelecendo-se, assim, um verdadeiro diálogo, entre eles e o Estado, integrando suas percepções e prioridades nos projetos e programas desenvolvidos nas diferentes áreas; e atuando para que a temática juventude seja incluída nas agendas políticas de educação, ciência, cultura e comunicação dos países membros da UNESCO, com o propósito de criar espaços de participação, valorização, visibilidade e credibilidade para as contribuições dos jovens em suas diferentes esferas.
Na realidade, a experiência mostra que a pretensão de “fazer tudo”
tem apresentado mais problemas do que vantagens. Por um lado, essas instituições especializadas têm enfrentado sérias dificuldades de competição com as grandes secretarias de Estado, ao tentar colocar em prática, programas de saúde, educação ou emprego para jovens, de forma paralela e sem as articulações necessárias com os respectivos ministérios.
Esses problemas sempre terminam com a vitória das grandes secretarias de Estado que são, sob todos os aspectos, mais poderosas, com maiores recursos e legitimação do que os Institutos Governamentais de Juventude, criados mais recentemente e com escassos níveis de implementação.
Em alguns casos, as instituições especializadas confundem seus papéis, se propondo a serem representantes do Estado perante os jovens, e representantes dos jovens perante o Estado, sem contar com a legitimação e as ferramentas para cumprir esses papéis.
Uma das modalidades concretas onde esses problemas ocorrem está relacionada à excessiva concentração de muitos desses Institutos ou Direções de Juventude em atividades de curto prazo, dedicadas à organização e à mobilização juvenil, deixando de lado o desenvolvimento de programas de médio e longo prazos, que promovam o acesso juvenil aos diversos serviços sociais – como educação, saúde, emprego e recreação.
B – Órgãos setoriais: alguns problemas
No caso das grandes secretarias de Estado, voltadas para juventudes, existentes na região, os problemas também não são menores, mas, nesse caso, as explicações parecem ser outras. Por um lado, se pode observar a predominância de enfoques específicos ou temáticos na maioria dos órgãos setoriais de Estado, que pouco diferenciam os setores da população com os quais trabalham, enquanto continuam vigentes enfoques simplistas e estereotipados em relação aos jovens, que mostram pouca familiaridade com as dinâmicas juvenis.
Além disso, há problemas na gestão, com dificuldades de fazer valer uma perspectiva transversal. Como muitas entidades se voltam mais para a execução e reivindicam exclusividade em relação a um tema ou área, não há lugar para ações conjuntas ou transversais. A preocupação
com desenhos programáticos rigorosos e mecanismos adequados de acompanhamento, principalmente por terceiros, tende a ser baixa e, nessas condições, é muito difícil que as avaliações a posteriori tenham a objetividade necessária. Também a dispersão e a desarticulação de esforços impede que se consiga um tipo de repercussão como a que seria obtida com o funcionamento combinado entre as diferentes instituições.
Igualmente, as avaliações disponíveis apontam que os programas setoriais se concentram excessivamente nos problemas e nos indivíduos, perdendo de vista a integralidade das intervenções institucionais, ainda mais necessárias quando os diversos problemas apresentam vínculos, como dificuldades econômicas do entorno, mudanças nas dinâmicas familiares e violências. Portanto, a busca por maiores e melhores articulações entre programas setoriais, que combinem a prevenção com a atenção, é outra clara prioridade para o desenvolvimento de políticas públicas de/para/com juventudes.
C – Departamentos municipais de juventude: com que objetivos?
Por outro lado, nos últimos anos, surgiram, em vários países da América Latina, departamentos e espaços específicos para a promoção juvenil na esfera municipal, procurando realizar ações a partir do âmbito local. A premissa básica que tem orientado esses tipos de esforços, em consonância com os processos de descentralização em muitas outras esferas das políticas públicas, tem sido a real – ou suposta – proximidade dos problemas e das expectativas dos jovens em relação às instituições centrais mas, em alguns casos nacionais, esses esforços foram dinamizados com base em orientações alternativas locais.
Embora tenham sido realizados programas e ações relevantes em casos específicos, esse nível também tem enfrentado sérios problemas ligados à gestão institucional. Em algumas circunstâncias, os problemas estão relacionados ao mesmo tipo de conflitos de competências mencionados anteriormente – as instituições do nível central em relação a outras secretarias ou departamentos das respectivas municipalidades.
Em outros casos, os problemas são gerados por uma certa tendência
dos adultos, encarregados das outras dependências municipais, de considerar os jovens como “mão-de-obra não-especializada” e a passar às secretarias e aos departamentos de juventude a responsabilidade pela implementação de tarefas de apoio logístico no desenvolvimento de outros planos e programas mais gerais, destinados a vários setores da população.
Neste sentido são formulados questionamentos a respeito das dinâmicas desenvolvidas, já que essas instâncias deveriam operar em seu âmbito local específico, no marco de uma ampla e efetiva coordenação com as especializadas em nível central – os Institutos, Direções Nacionais ou Ministérios e Secretarias de Juventude – e com as demais instituições municipais. O desafio é precisar com rigor os objetivos, o papel e as funções a serem desempenhadas, bem como as estratégias e metodologias de trabalho a serem utilizadas, aumentando as vantagens e minimizando as limitações locais.
D – Organizações juvenis, movimentos sociais e ONGs: questões sobre participação
Tecem-se a seguir alguns comentários sobre a participação das organizações da sociedade civil no desenho, na implementação e na avaliação das políticas públicas de juventudes, dando ênfase especial às organizações juvenis. Sem dúvida, as diferenças entre os processos nacionais são, nesse caso, tão ou mais marcadas do que outras temáticas analisadas até o momento mas, de qualquer forma, podem ser feitos alguns comentários gerais, recordando que, na maioria dos casos, a sociedade civil tem surgido com grande força, no marco dos processos de reforma do Estado atualmente em curso, através de diversas modalidades operacionais, reforçando o setor “público não-estatal” em vários países da região.
Contudo, junto com essa “emergência” é necessário destacar as mudanças nos modelos empregados nas últimas décadas. Assim, tudo parece indicar que, na maioria dos casos, as organizações juvenis, os movimentos sociais e as ONGs têm passado por um processo que os tem levado da oposição aos governos estabelecidos, claramente no caso
das ditaduras militares e aos governos autoritários dos anos setenta e oitenta na América Latina, à crescente intervenção e participação no desenho, na implementação e na avaliação de políticas públicas de juventude, chegando, em muitos casos, a colaborar com governos, no marco de processos de democratização na região.
Sem dúvidas, esse processo também foi facilitado pelas mudanças nas “regras do jogo” às quais as ONGs estão sujeitas. Assim, embora nos anos setenta e oitenta elas tenham recebido grande respaldo político e financeiro de agências internacionais e de cooperação, nos últimos anos essas organizações têm tido que financiar suas atividades através da “venda de serviços”, o que, por sua vez, está vinculado à abertura dos Estados nacionais que, no marco dos processos de terceirização de diversos componentes das políticas públicas, passaram a contratar, com certa regularidade seus serviços.
Por outro lado é preciso relativizar a idéia de institucionalização ou de “onguização” das entidades de jovens e a sua parceria com os Estados. Mesmo em casos como no Brasil, em que se conta com um presidente eleito por forças populares e que teve respaldo quer das juventudes de partidos de esquerda, quer de bases populares, vem crescendo as manifestações juvenis por históricas bandeiras de democratização e por soberania nacional. A presença de jovens em organizações que exercem uma cidadania ativa, por controle social e crítico de políticas do Estado que favoreçam o mercado é ainda destacada no Brasil. Nos Fór uns Sociais Mundiais, segundo levantamentos ad hoc do IBASE (uma das ONGs que no Brasil colaborou para a organização dos Fóruns de 2000, 20001 e 2002), quase 40% dos participantes teriam menos de 35 anos e foram bastante vocais na defesa da consigna “um outro mundo é possível”.
Vem se verificando, no Brasil, a mobilização de setores da juventude em movimentos críticos às políticas de ajuste, à relação do governo com o FMI e à efetivação do tratado de livre comércio (ALCA), além de apoiarem e participarem dos movimentos internacionais contra a globalização orientada pelas grandes agências financeiras internacionais, sendo muitos relacionados à Igreja católica, como as pastorais juvenis.
Por outro lado, tais entidades juvenis orientadas pelo controle e a crítica social vêm participando ativamente no Brasil em discussões por uma
política nacional de juventudes, debatendo propostas do governo de reforma universitária, defendendo, inclusive, na forma de passeatas e campanhas, “a universidade pública e de qualidade”, além de participarem do atual debate sobre as cotas para jovens negros e provenientes de escolas públicas nas universidades brasileiras.
Os processos onde as organizações de jovens colaboram com governos sem dúvida não estão isentos de problemas, mas o certo é que vêm sendo desenvolvidas experiências interessantes de complementação de esforços entre entidades públicas e privadas sem fins lucrativos, como por exemplo, no campo da prevenção e da atenção a Aids e no terreno de saúde adolescente e assim como em alguns programas de capacitação para trabalho; embora ainda necessitem de mais avaliações.
II.4 RECURSOS INVESTIDOS: QUANTO, EM QUE E COMO SÃO