A – Grupo de Trabalho Interministerial de Políticas para a Juventude O debate atual sobre políticas públicas para a juventude no Brasil envolve diversos atores institucionais que, por sua vez, vêm lidando com propostas e alternativas diferentes e convergentes. Nesta parte se faz referência aos diferentes grupos envolvidos no processo.
Foi criado o Grupo de Trabalho Interministerial de Políticas para a Juventude, composto pela Secretaria Geral e pela Casa Civil da Presidência da República, doze ministérios (Cultura, Defesa, Desenvolvimento Agrário, Educação, Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Esportes, Fazenda, Justiça, Meio Ambiente, Planejamento, Orçamento e Gestão, Saúde, Turismo, Trabalho e Emprego), três secretarias especiais (Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres) e o Gabinete de Segurança Institucional.
A Secretaria Executiva do Grupo está a cargo da Secretaria Geral, da Casa Civil e da Assessoria da Presidência da República, juntamente com o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão e do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA).
O Grupo vem avançando na construção de alguns pontos de consenso básico, entre os quais se destacam a convicção sobre a existência de uma ampla e importante oferta de programas, projetos e ações relacionados à juventude, e discutindo a importância e a possibilidade de articulações mais efetivas entre os ministérios.
Nessa mesma linha, há outros pontos consensuais de natureza mais operacional, que constituem a própria dinâmica das políticas públicas para a juventude, evidenciando a necessidade de contar com uma instância institucional articuladora e dinamizadora de todos esses esforços, que não desempenhe funções de execução direta e que opere com base em redes interinstitucionais, em todos os espaços correspondentes.
Trata-se de uma instância interinstitucional de importância-chave na dinâmica desses processos, que vem trabalhando no sentido de definir as linhas básicas que permitirão lançar as bases de um conjunto articulado de respostas integrais, bem como enfatiza a importância da elaboração de um plano nacional de políticas públicas para a juventude.
B – Comissão Especial sobre Políticas para a Juventude da Câmara dos Deputados
A Comissão Especial Destinada a Acompanhar e Estudar Propostas de Políticas Públicas para a Juventude, da Câmara dos Deputados, vem realizando um trabalho relacionado ao tema, em vários planos, simultaneamente.
Por um lado, vem realizando uma ampla gama de audiências públicas, internamente ao próprio Congresso, ouvindo pontos de vista, críticas e propostas de um amplo e variado conjunto de organizações.
Por outro lado, vem participando de consultas com atores locais, em pontos diferentes do território nacional. Numa terceira linha, participou de viagens de estudo a países europeus (Espanha, França e Portugal, principalmente), com a colaboração da UNESCO, com o objetivo de conhecer experiências internacionais no campo de políticas para os jovens.
Em setembro de 2003, a Comissão Especial organizou a Semana Nacional da Juventude, que incluiu a realização de um Seminário Nacional de Políticas Públicas para a Juventude e uma exposição de experiências das organizações e entidades que trabalham com os jovens.
Entre as recomendações da comissão, incluídas no relatório, estão um estatuto da juventude e um plano nacional para a juventude.
Essas propostas vêm sendo discutidas por grupos de jovens em todo o país, através da realização de Conferências Estaduais da Juventude, que acabarão por confluir na realização de uma Conferência Nacional da Juventude. O discurso do deputado Federal Vignatti, proferido na tribuna da Câmara dos Deputados, em 16 de março de 2004, sintetizou as propostas da Frente Parlamentar em defesa de políticas públicas para a juventude:
• a participação e o engajamento civil, através de um grande projeto nacional que possa envolver a juventude em ações locais de desenvolvimento humano;
• a reformulação e adequação da educação às necessidades dos jovens, por meio da ampliação da rede pública e dos investimentos na área (porque 70% da juventude nem chegou ao ensino médio), através de uma reestruturação pedagógica e a efetivação da democracia nos espaços educacionais (porque a juventude está distante e desinteressada da escola);
• o financiamento público do tempo livre, através de programas que possam garantir o acesso da juventude a atividades culturais, esportivas e de lazer;
• o estabelecimento de centros de convivência, através dos quais os diversos segmentos juvenis possam se integrar e interagir;
• a criação de uma Secretaria Especial de Juventude no âmbito do governo federal.
C – Instâncias institucionais estaduais e municipais da juventude
Continuam sendo realizadas diversas experiências em nível estadual e municipal, que recentemente foram objeto de uma observação inicial, no âmbito do estudo Avaliação das Melhores Práticas que Buscam a Inclusão Social dos Jovens Carentes nas Cidades do Mercosul (Dávila, 2003c).
O estudo identificou 101 experiências de trabalho com jovens em 14 cidades brasileiras, incluindo Belo Horizonte (7), Campinas (2), Diadema (17), Juiz de Fora (10), Macaé (1), Mossoró (1), Porto Alegre
(1), Recife (5), Rio Claro (1), Salvador (6), São Carlos (1), São Paulo (38), Santo André (2) e Rio de Janeiro (9).
Destaca-se que a maior parte dessas experiências se agrupa na categoria de “cidadania e participação social” (41 delas), seguida por iniciativas centradas em “educação” (22), “desenvolvimento social local e comunitário” (13), “cultura e meios de comunicação” (11),
“meio ambiente” (6), “emprego e capacitação para o trabalho” (4),
“saúde” (3) e “tempo livre e recreação” (1). Chama atenção o escasso número de experiências na área dos projetos de saúde e capacitação para o trabalho e emprego, mas o mais notável é a evidente preponderância dos projetos participativos, que trabalham na área da construção da cidadania.
A maior parte dessas experiências tem menos de dois anos de duração (43, ao total), embora não sejam poucas as que têm entre dois e quatro anos de existência (34), havendo ainda as que vêm sendo desenvolvidas há mais de cinco anos (24). Esse dado, em parte, confirma a
“volatilidade” desse tipo de experiência, mas é certo, também, que uma boa proporção delas superou a seqüência de gerações, ou seja, trabalhou com mais de uma geração de jovens.
O estudo realizado pela ONG Ação Educativa de São Paulo comenta que, em geral, trata-se de experiências que cumprem funções específicas de três tipos:
A primeira aparece como uma clara vocação para a articulação dos programas existentes, sem que o próprio organismo implemente ações ou programas; uma segunda ênfase reside nas ONGs de coordenação/
assessoria, que implementam projetos; e, em terceiro lugar, pode ocorrer a intensificação de vínculos entre os jovens e o Poder Público municipal, assegurando tanto uma maior possibilidade de acesso de grupos de jovens à máquina pública ou, inversamente, mobilizando a participação dos jovens em ações desencadeadas pelo Executivo municipal.
Há um conjunto de formas emergentes de novas agregações de interesses e de sociabilidade juvenil no âmbito da cidade, protagonizadas também por jovens em processo de exclusão social, muito mais ligadas a formas expressivas, resistentes à racionalidade instrumental inerente ao mundo da política e das ações institucionais (Sposito, Freitas e Oliveira, In: Dávila, 2003c).
D – Instituto Cidadania
O Instituto Cidadania é uma ONG que vem se dedicando, desde sua criação, à geração de propostas de políticas públicas.
Neste marco, os trabalhos do Projeto Juventude (2003-2004) que:
Pretende contribuir para que os próprios atores juvenis tenham peso decisivo em todas as mobilizações a serem articuladas no âmbito na sociedade civil e na elaboração das políticas públicas, que contemplem temas como trabalho e renda, educação, saúde, cultura, esportes, sexualidade, direitos, participação, segurança e as demais exigências de uma vida digna.
Nossa meta é a de projetar a questão dos jovens e de suas urgências como um tema de primeira ordem no campo da política, da ação governamental e das mobilizações surgidas na própria sociedade civil.
Os resultados do trabalho em andamento (o texto enfatiza) servirão como acervo e fonte de propostas para o governo federal, bem como para as autoridades estaduais e municipais dos diversos partidos políticos. Serão encaminhadas, igualmente, aos atores da sociedade civil interessados no progresso do Brasil como nação democrática (Instituto Cidadania, 2003).
O projeto se desenvolve em torno de seis eixos fundamentais: i) identificação e tratamento das informações sobre a juventude; ii) investigação quantitativa nacional (através de uma pesquisa específica); iii) criação e animação de um website específico na Internet;
iv) seminários e encontros temáticos; v) organização de dois livros sobre a juventude brasileira; e vi) narrativas sobre participação juvenil (investigação participativa).
A ênfase colocada no “empoderamento” dos próprios jovens organizados é um dos elementos distintivos dessa iniciativa e, como tal, vem conseguindo incorporar a participação dos jovens, recorrendo a metodologias par ticipativas, discutindo, com eles, suas reivindicações e suas propostas.