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2 – AVALIAÇÃO PROGRAMÁTICA

que têm componentes explícitos orientados à população juvenil e que começam a se multiplicar em alguns países da América Latina.

D – Investimento em capital humano no marco da transformação produtiva

Um quarto modelo de políticas de juventude parece ter começado a operar a partir do início dos anos noventa, ressaltando a importância do capital humano para o desenvolvimento estruturado em torno da inserção social e no mercado de trabalho dos jovens.

No último decênio, se alcançaram importantes consensos sobre a centralidade da educação nos processos de desenvolvimento e se outorgou uma alta prioridade ao tema da inserção dos jovens no mercado de trabalho. O programa de capacitação para o trabalho “Chile Jovem”, iniciado em 1990, foi precursor nessas matérias e está sendo reaplicado – com as correspondentes adaptações – em muitos outros países. Trata- se, em geral, de medidas destinadas a capacitar em períodos relativamente breves e mediante modalidades operacionais inovadoras, concentrando as preocupações, mais do que na simples qualificação técnica, na pertinência dos ofícios que se selecionam e na efetiva inserção dos jovens no trabalho. Esses programas são executados através de diversas entidades públicas e privadas, em um marco de regras de jogo competitivas; os governos participam em funções de desenho, supervisão e avaliação, afastados da execução. O que se procura é incorporar os jovens na modernização social e a transformação produtiva que exigem os processos de inserção internacional.

II.2 AVALIAÇÃO PROGRAMÁTICA: AVANÇOS DESARTICULADOS

privilegiadas são a educação, o emprego, a saúde e o lazer. Entretanto, são escassos os avanços em relação à participação cidadã juvenil e à prevenção da violência entre os jovens, aspectos que atualmente começam a ser atendidos de maneira mais decidida.

A – Reforma educacional e juventude: conquistas alcançadas e temas pendentes

No que diz respeito à educação, a principal conquista é – como já foi destacada – a ampliação da cobertura da população alvo, particularmente entre as mulheres, cujas atuais taxas de escolarização igualam ou superam as de homens na maioria dos países da região. Este avanço foi conseguido, em boa parte, graças ao importante aumento do investimento em educação, já que o gasto público no setor se incrementou – na média regional – de 2,9% para 4,5% do produto interno bruto (PIB) entre 1970 e 2000. Assim o destacam todos os estudos especializados (UNESCO 2001d).

Houve uma grande expansão das matrículas, com uma crescente heterogeneidade social entre os estudantes Ao mesmo tempo, registra- se um elevado nível de fracasso escolar. As explicações são variadas, contudo as mais conhecidas são as relacionados a problemas nas condições do corpo docente, da infra-estrutura e falta de materiais didáticos. Ao que se acrescenta outra fundamental: a distância existente entre cultura juvenil e cultura escolar nos estabelecimentos educacionais.

As experiências desenvolvidas no Chile, no marco do processo de reforma do ensino médio, desde as denominadas “atividades curriculares de livre eleição”, têm procurado encarar desafios, e outro tanto se está tentando nos estabelecimentos educacionais médios na Argentina, no Uruguai e em outros países da região. De qualquer maneira, o relevante é que os espaços que se desenvolvem com essa lógica não podem estar separados do restante, mas devem estar integrados adequadamente ao conjunto da dinâmica do estabelecimento. A participação e a liderança dos próprios estudantes devem ser promovidas e aceitas pelos docentes e diretores do estabelecimento, e até deveriam ser criadas figuras novas específicas (a serem incorporadas de forma estável ao corpo docente)

ao estilo dos “animadores juvenis”, que podem cumprir funções de intermediação e de articulação entre a cultura juvenil e a cultura escolar.

Sem dúvida, existe uma primeira e grande responsabilidade das autoridades de ensino e dos próprios docentes, mas a ela deverá ser acrescentada a responsabilidade dos próprios jovens, de suas famílias e do seu ambiente comunitário, de mídia e de muitas e diversas instituições públicas e privadas de promoção juvenil, que poderiam colaborar centralmente no processamento das mudanças propostas. No caso concreto dos jovens, isto é muito relevante, porque se as políticas públicas de juventude não podem depender exclusivamente dos jovens, é imperativo assumir que a emancipação juvenil só pode ocorrer com participação. (Rodriges, 2001e).

Será necessário continuar fazendo esforços relacionados com a requalificação dos docentes, a descentralização da gestão, a extensão horária, a avaliação de impactos efetivos e a participação de todos os atores envolvidos (incluindo especialmente a dos pais, a das comunidades e a dos próprios estudantes), que são os componentes centrais de quase todas as reformas educacionais postas em prática nos últimos anos na região. Uma dimensão chave no marco das políticas públicas de juventudes é considerar a distância existente entre cultura juvenil e cultura escolar nos estabelecimentos educacionais médios.

Como começam a demonstrar diversos estudos especializados em vários países da região, tal distancia colabora em boa medida para os elevados níveis de fracasso escolar e as iniqüidades sociais na dinâmica educacional (Reguillo 2000 e Abramovay e Castro 2003).

B – Juventudes e saúde: especificidades, experiências, obstáculos e desafios

A promoção de serviços de saúde para os jovens é um desafio para as sociedades em todo o mundo. Por se tratar de um período de vida quando, por um lado, a experimentação com o risco é parte do processo de autoconhecimento e, por outro, é forte a crença de “invulne- rabilidade”, a promoção de políticas de saúde preventivas torna-se difícil, sendo os jovens mais freqüentemente encontrados nos serviços

ambulatoriais e de emergência do que em consultórios. Apesar dessa constatação, se verificam importantes progressos em vários itens específicos. Destacam-se os programas de prevenção e atendimento das doenças sexualmente transmissíveis especialmente HIV/Aids, sendo que alguns países conseguiram estabilizar e inclusive fazer recuar os níveis de contaminação e prevalência na população total, ainda que se venha alertando para a “juvenilização” da Aids (para o Brasil, ver Rua e Abramovay, 2001).

No caso da prevenção da gravidez entre jovens, também se registram avanços, como ampliação do conhecimento e acesso a métodos anticoncepcionais (ver sobre o Brasil, Castro, Abramovay e Silva, 2004), ainda que haja um longo caminho a ser percorrido, em parte devido à persistência de hábitos culturais, como uma cultura de gênero em que as mulheres são subestimadas quanto ao livre arbítrio e ficam com uma maior carga quanto à decisão de ter filhos, criá-los e sustentá-los e socialmente se reproduz a construção de masculinidade por estereótipos de machismo. Tal quadro é reforçado por estruturas sociais que mais oneram os pobres, concentrando-se a maior quantidade de casos de gravidez juvenil entre os jovens de mais baixa escolarização e de famílias de mais baixa renda.

Outro tanto pode se dizer dos acidentes de trânsito – uma das principais causas de morte entre os jovens – apesar dos esforços das autoridades públicas e em direta relação com a crescente complexidade do funcionamento do tráfego das principais cidades da região (OPAS, 1998).

Relativamente menor é o trabalho acumulado em relação à prevenção e atenção das diversas expressões de violência juvenil, ainda que venham aumentando iniciativas com tal vetor. As experiências nesses domínios adotadas nos últimos anos coincidem com a implementação de programas de segurança cidadã – principalmente na Colômbia, El Salvador e Uruguai – que contam em sua dinâmica com componentes relevantes ligados à juventude. Neste contexto, se procura trabalhar a partir da ótica preventiva, assim como para reincorporar os jovens que cometem crimes.

Alguns expressivos avanços correspondem à esfera da sensibilização da opinião pública e dos tomadores de decisões em relação à necessidade de atender mais e melhor a saúde reprodutiva das adolescentes e jovens.

Se ainda há muito por fazer nessas matérias, boa parte dos avanços se conseguiu mediante campanhas de advocacia” e serviços, que contam com a presença de jovens e cuja participação faz parte dos esforços dirigidos para habilitá-los como atores estratégicos do desenvolvimento (Burt, 1998; Rodriguez, Madaleno e Katrinakis, 1998).

C – Inserção trabalhista: estratégias diversas e resultados parciais No âmbito da inserção trabalhista dos jovens, tem havido certo progresso, especialmente no que diz respeito à capacitação para o trabalho. Hoje, vários países da região dispõem de uma vasta gama de programas, que exigem esforços de investimento e desenho de estratégias detalhadas de execução, para assegurar o acesso dos jovens de famílias com escassos recursos, superando limitações dos tradicionais programas de “aprendizagem”.

Os jovens que participaram desses programas desfrutam de vantagens, tais como: maiores facilidades para sua inserção trabalhista, empregos mais estáveis, condições de trabalho mais adequadas e melhores relações sociais.

Além disso, esses programas obtêm impactos sociais, fomentando o retorno ao sistema educacional de parte dos jovens que participam dessas iniciativas, melhorando as relações dos beneficiários com seus familiares e com a comunidade ao seu redor e seu grupo de pares, aumentando o capital social. Registra-se, também, a satisfação dos beneficiários com diversas experiências realizadas. Porém, esses programas não têm sido aplicados da mesma forma em todos os países.

O programa PROJOVEN11 do Uruguai parece estar mais bem focalizado, o que está relacionado à escala reduzida em que opera, enquanto o programa na Argentina apresentou sérias deficiências, provavelmente por causa de sua amplitude (OIT 2001d; OIT e CINTERFOR, 1998).

11 Informações sobre o programa no capítulo VI.3D e para a análise do programa Primeiro Emprego ver referência no capítulo VI.2.D.

Contudo, em vários países, o sucesso dos programas de formação e de inserção ao trabalho para jovens se deparam com limitações estruturantes de baixas oportunidades de trabalho e de extensa situação de desemprego – o que não depende da modelação dos programas em si, mas de investimentos na economia com objetivos sociais.

Os avanços dos programas destinados a fomentar empreendimentos produtivos para jovens têm sido limitados. Embora não se disponha de avaliações rigorosas, as evidências sugerem sérias limitações na instrumentação de vários desses programas, e os mais antigos mostram uma falta de articulação entre a capacitação, o crédito e a assistência técnica para gestão.

Além disso, os fortes processos de reestruturação produtiva e as crises econômicas recentes impõem condições adversas às micro e pequenas empresas, problemas esses que são escassamente compensadas pelas políticas públicas desenhadas para esse fim. Nos últimos anos, foram adotadas medidas que tendem a superar as limitações mencionadas, porém seu efetivo desempenho ainda não foi avaliado.

D – Organização e participação juvenil: novas formas

É relativamente menor o trabalho realizado no que diz respeito à formação cidadã dos jovens e ao fomento de sua participação ativa no desenvolvimento, apesar da preocupação dos tomadores de decisões sobre o que se denomina de “apatia juvenil”, entendida como seu distanciamento de esferas clássicas de participação política.

Convém relembrar que a maioria dos jovens latino-americanos se encontra à margem das organizações e dos movimentos juvenis existentes. Apenas de 5 a 20 por cento declaram participar de alguma associação (Instituto de la Juventud 1994, 1997, 2000; Instituto Mexicano de la Juventud, 2002). Vale ressaltar, que a participação adulta em organizações sociais clássicas (sindicatos, partidos políticos, organizações comunitárias) também é baixa.

Contudo, quando os jovens são consultados sobre seu interesse pela participação organizada, as respostas positivas são altas, o que demonstra que muitos rejeitam as práticas dessas organizações, mas

não necessariamente seus propósitos ou objetivos concretos. Isso é muito relevante: os jovens querem participar, e o fazem muito ativamente em certas ocasiões, mas valorizam um sentido de autonomia.

De fato, muitos jovens vêm se destacando em movimentos pela ética, movimentos pela paz, e, em particular, nos movimentos críticos à globalização. Contudo, a forma de organização encontrada por essas juventudes se distancia das formas tradicionais e se interliga a concepções de interação em rede e em novas formas de participação juvenil.

É quando se privilegiariam novos atores e instituições como os processos de mobilização, por exemplo, encontrados no universo das organizações não-governamentais (ONGs), e dos novos movimentos sociais. (Castro 1995). Um exemplo seria a chamada crise do movimento estudantil como instância crítico-social que se dá no bojo da crise das esquerdas e suas entidades clássicas. Hobsbawm (1994) registra que desde 1970, os sindicatos e partidos de esquerda estariam sendo abandonados principalmente pelos jovens de classe média, orientando-se por movimentos sociais especializados, como o ambientalista.

Neste sentido, a importância de se escutar as pessoas jovens no momento da definição de uma política pública de juventudes não pode ser subestimada. Uma política nacional de juventude que não reflita as visões, preocupações e desejos dos jovens se distanciará de seu objetivo primordial, e com o tempo, cairá no esquecimento, pois não contará com apoio. Assim, políticas ou programas de/para/com jovens devem ser formatados a partir de seu envolvimento compreensivo, contando com espaços de participação juvenil nos processos de tomada de decisão.

Uma das formas efetivas de iniciar este processo é estabelecer esferas de consulta pública com a participação dos jovens.

O processo de consulta pública é longo e complicado, porém, vital em todas as iniciativas de construção de uma política nacional de/para/com juventudes, os próprios jovens e a sociedade legitimarão e darão credibilidade às propostas apresentadas. Além disso, a consulta pública é mais do que apenas “ouvir” os jovens. Significa trabalhar de e com os jovens e não somente para. Desta forma, os jovens são vistos como atores e sujeitos de direito importantes e não como um problema a ser resolvido.

É objetivo da UNESCO em suas ações de/para/com juventudes contribuir para que os jovens e as jovens tenham a oportunidade de falar e serem ouvidos, estabelecendo-se, assim, um verdadeiro diálogo, entre eles e o Estado, integrando suas percepções e prioridades nos projetos e programas desenvolvidos nas diferentes áreas; e atuando para que a temática juventude seja incluída nas agendas políticas de educação, ciência, cultura e comunicação dos países membros da UNESCO, com o propósito de criar espaços de participação, valorização, visibilidade e credibilidade para as contribuições dos jovens em suas diferentes esferas.