§ 211. Compete a qualquer que tenha interesse em se não ter feito uma obra nova que lhe é prejudicial (1) contra aquelle que a fez á força ou clandestinamente (2): pede que se mande demolir á custa do réo, condemnado este a pagar o prejuízo causado (3).
§ 212. O réo póde oppôr: 1
o, que a obra não causa prejuízo ao autor (4); 2
o, que foi feita para
L. 24, § 12, L. 26, D. dedamn. infect., Per. Dec. 35, Arouca á L. 2,
§ 1, D. de rer. divis. n. 74, Ferreir de nov. oper. L. 2, Disc. 11, n.
48. A opinião dos nossos praxistas, que se' não pôde embargar obras rusticas, não é fundada em direito: tanto podem ser embargadas, como as urbanas, y. gr. minas de agua, moinhos, etc, L. 1, § 14» D.
h. t., Stryk us. mod. L. 39, T. 1, § 11, Almeid. IV. dos Iíderd. §126.
(1) L. 11, .§ 10, L. 14, L. 16, D. quod vi aut clam. Que a obra fosse feita em terreno publico ou do réo, nada impórta, uma vez que se verifique prejuízo de alguma servidão do autor, L. un. § 3. D. de re- miss., Vinn. part.jun L. 2, C. 61.
2) Entende-se ter havido força se o autor houvesse prohibido ou em- bargado a obra,Vinn. supr.; Richer, Jurispr Un. Tom. 12, § 169;
clandestinidade, se o réo a fez de noite ou em occasião que não fosse visto; ou se não denunciou a obra que queria fazer, devendo-a denunciar;
ou se deu a saber uma cousa e obrou outra, L. 5, pr., § 1 e 2, D. h.
t.
(3) L. 15, § 7, L. 16, § 2, D. h. t. Os herdeiros do réo são con- demnados somente a indemnisar o que lhes proveio da obra tio de- funto, e a soffrer que o autor desfaça a obra á sua propria custa, L. 15,
§ 3, D. eod.
(4) V. gr., se alguem cortasse a mouta das varas do vizinho no tempo propilo de as cortar. L. 18, D. h. t.
DAS ACÇÕES PESSOAES 141
obviar maior prejuizo (1); 3
o, ou para beneficio da agricultura (2); 4
o, prescripção de um anno (3). § 213. 0 processo desta acção é sum mario (4), e o uso delia muito grande, porque póde ser intentada, não só nos casos em que se acha acabada a obra que pudera ser embargada, mas em outros muitos em que não cabe o embargo (5).
(1) V, gr., se para salvar as minhas casas do incendio fiz cortar as madeiras das do vizinho que estavão já meio abrasadas, L. 7,
§6, D. eod., Lauterbach, L. 43, T. 24, § 7.
(2) L. 7, § 7, D. eod. V. gr., se alguem na estrada ou na rua fez estrumeira que não impede o transito. Nas cidades e villas, porém, não se consente isto por ser incompatível com a limpeza. Vej. L.
17, § 2, D. si servit vind.
(3) L. 15, § 3, L. fin. D. h. t. Ainda depois do anno pode ser intentada esta acção, verificando o autor causa justa e provavel de ignorar a obra, L. 15, § 4 e seg. D. eod, Pech. de aquaed. L. 4, q.
87. Se a obra tiver sido feita á vista do autor deve usar do interdicto uti possidetis, Almeid. Tr. dos Interd., § 160.
(A) Boehm. de act. Sect. 2, C. 4, § 49, (g), reprehende os advogados imperitos, que, podendo usar deste interdicto summario, intentão a acção da Lei Aquilia, que é ordinaria, vej.
Alm. Tr. dos Iterd. § 159.
(5) V. gr., nos casos seguintes: 1o, se alguem destelhar o seu telhado com prejuízo do autor. L. 7, § 10, L. 9, D. h. t; 2º, se alguem tirou o brazão que estava na casa ou na sepultura do autor, L. 9, § 2, L. 11, § 2, D eod,; 3o, se alguem lhe cortou os ramos das suas arvores ou lh'as descascou para que seccassem, L.
7, § 5, L. 9, D. h. t., L. 5, L. 7, § 7, D. arbor furt caessar; 4o, se alguem fez fosso no lugar publico, no qual veio a cahir o animal do autor, L. 7, § 8, L. 9, % 3, D. eod.; 5o, se alguem no tanque alheio ou no rio lançou veneno ou ímmundicie que corrompesse a agua, L. 11, pr. D. eod.) 6o, se alguem tirando as pedras da sua terra, as lança na do vizinho, ou se tira a flôr da terra deste e a lança para a sua, L. 15, § 1, D. eod., Peg. á Ord. L. 1, T. 18, § 11,
142 TITULO VI
Acção de pedir caução ao damno por vir, ou de damno infecto.
§ 214. Compete: 1º, a toda a pessoa que terr justo receio de ser damnificada pela casa ruinosa do vizinho: pede que o possuidor dê caução ao damno futuro com comminação de se fazer o re paro á custa do réo; e não sendo possível a repara ção, que seja demolida aquella parte da casa que ameaça ruina (1).
§ 215. Compete: 2
o, em todos os casos em que o autor tenha justo temor de algum damno causado por vicio da obra ou por factos do seu vizinho (2) .
glos. 13, n. 17; 7°, se alguem mergulha para a sua terra as videiras do vizinho, L.22, pr. D. eod.; 8°, se alguem tirar á vinha alheia os páos, para que cahindo as cepas apodreção as uvas, L. 11, § 3, D.
eod., etc.
(1) Os mandados de metter de posse por primeiro e segundo decreto são prohibidos pela Ord. L. 3, T. 15, pr.; por isso entre nós não se pode comminar esta pena, imposta pela L. 4, §l;L. 15, § 11 e seg. D. de damn. inf., e é mais idonea a acima transcripta, L. 46, D. h. t., Gom. á L. 46, Taur. n. 16. Os juizes, mesmo ex offcio, po- dem ordenar a demolição da casa ruinosa, se a segurança publica nisso interessar, L. 8, G. de aedif. privat. Veja-se o que notámos ao § 204, nota final.
(2) Taes são os casos seguintes: 1°, se o vizinho fizer na sua casa tamanho fogo que seja para temer um incendio, L. 27, § 10, D.
adleg. aquil.; 2o, se fizer forno em tal sitio ou com taes materiaes que haja o mesmo perigo, Egid. á L. ex hoc. jure p. 1, C. 6, n. 40;
Ferreir. de nov. op. L. 2, Disc. 12 a D. 26. Contra os que fazem grande fumo que impeça o uso de commaum ou encostado á do vizinho, L. 18, D. de serv. praed. urb., Pech. de aquaed, L. 4, q.
37 ; 3º, aquelle que tiver o seu gado inficionado
DAS ACÇÕES PESSOAES 143
§ 216. O processo desta acção é summario (1). O effeito da caução prestada (2) é a indemnisação do.damno acontecido depois (3). Ainda antes de prestada, acontecendo damno, o que o soffreu póde reter as pedras e materiaes da casa ruinosa que dentro da sua cahissem (4).
com doença contagiosa, póde ser obrigado a retira-lo para onde se não possa pegar aos gados dos vizinhos ou dar caução, Pech. de servit. Tom. 3, C. 9 a n. 12. Aos ferreiros e outros artífices que precisão ter continuadamente um fogo multo activo, não só se póde requerer caução estando as forjas onde o incendio seja para temer, mas ainda interdicto, Ferreir. de nov. oper., L. 2, Disc. 12 a n. 11. Será mais prompto recorrer ao administrador do conselho encarregado de providenciar os damnos dos incendios e incendações. Decr. de 18 de Julho de 1835, art. 63, S 5. (2 a).
(2 a) Todas estas hypolheses fazem objecto das posturas das camaras municipaes, Carta de Lei do 1º de Outubro de 1828, Tit.
3 art. 66 (2 b).
(3 6) Estas posturas são executadas pelos fiscaes das camaras municipaes e pelas autoridades creadas pela Lei de 3 de Dezembro de 1841.
(1) Schiller Exerc. 43, § 34; Lauterbach, L. 39, T. 2, §7. A melhor prova, se a casa está ou não ruinosa, é a vistoria, L. 1, D.
h. t.
(2) Se o réo mandado dar caução fôr contumaz ha-se por dada, e fica obrigado ao damno como se caucionasse, L. 15, § fin. D. h.
t.; Stryk L. 39, T. 2, §§ 5 e 6.
(3) Esta indemnisação pode ser demandada em 30 annos depois do damno dado, L. 17, § 3; L 18, § 6, D. h. t. O tempo que a caução deve durar é arbitrado pelo juiz, L. 13, § fin.; L. 14; L. 15,
§ 3, D. eod. Fazendo-se obra na ribanceira do rio manda-se caucionar o damno que possa acontecer nos dez annos seguintes, L. 15, §§ 2 e 4, D. eod. Segundo o uso de algumas nações, basta protestar extrajudicialmente contra o damno para se poder demandar, de fórma que o uso desta caução vem a ser inutil, Voet.L. 39, T. 2, n. 15 ; Richer Jurispr. Univ., Tom. 12, §164.
(A) L. 6, L. 7, § 2, D. h. t.; Boehm, de act Sect. 2, C. 4, § 52.