Zaher e Sambaquy, seguindo as abordagens históricas da Documen- tação via Paul Otlet, e paralelamente dialogando com a vanguarda do pensamento de Suzanne Briet, contemporâneo de ambas, ini- ciam no Brasil o grande processo de mutação de nosso campo bi- blioteconômico-informacional. O Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD) constitui, pois, sob a atuação direta de Zaher e suas redes, um centro de circulação, produção e disseminação das grandes ideias informacionais de 1950 até o século XXI.
Zaher observa, no entanto, que as preocupações iniciais do Instituto Internacional de Bibliografia de Paul Otlet estavam focadas no de- senvolvimento de um novo sistema universal de classificação, o qual se voltaria à identificação e à divulgação de novas técnicas de repro- dução de documentos. A conhecida Classificação Decimal Universal (CDU) procuraria atender, no plano teórico-metodológico, a possibi- lidade de localização de quaisquer documentos no espaço, incluindo aqueles de alta complexidade temática. Assim sendo, estavam aqui representados, por exemplo, uma peça de arquivo, a revista, o livro, a medalha, a música, o filme, o disco, a emissão radiofônica, junto, ainda, de amostras, modelos, fac-símiles, enfim, todas as formas de registro existentes e as futuras possibilidades de fixação do conheci- mento (ZAHER; GOMES, 1972).
A Bibliografia, assim como para Otlet, é o solo da construção do pensamento teórico zaheriano. A partir da influência de Sambaquy, Celia rapidamente compreende o elo entre Humanidades, Ciência e Tecnologia. As cartografias do conhecimento são centrais para a compreensão da relevância do campo (na ebulição terminológica entre Biblioteconomia, Bibliografia e Documentação) e sua aplica- ção para a mudança dessa perspectiva no País. Entre Bibliografia e Documentação são desenvolvidas as transformações do léxico con- ceitual e da práxis do campo.
[...] o novo conceito de documentação, de que a informa- ção era mais importante do que o livro na sua totalidade, fazia com que precisássemos ter conhecimento de outros tipos de classificação. O Brasil era voltado totalmente para a classificação decimal de Dewey. E a FID tentava entrar
com a CDU no Brasil. Com muita dificuldade, eu, como vice- -presidente da FID, achava que a CDU era um sistema que o IBBD usava, mas que não era a resposta. Achei que devía- mos ter uma visão conceitual, teórica de todos os sistemas de classificação, e a ideia de falar de sistema de classifi- cação, escolher um professor de alto nível que ensinasse conceito de sistemas para ter uma visão de estrutura de classificação, mais do que aplicação. Só se falava em apli- cação, não se falava em conceitos estruturais de formação e de conceitos de classificação (ZAHER, 1995, p. 6).
Como consequência, em meados do século XX, soma-se à mutação conceitual da documentação o profundo desenvolvimento da inde- xação, que, além de influenciar Zaher e sua atuação no IBBD, afeta as transformações tecnológicas.
Eu havia feito o curso de indexação e resumos, da Columbia University, e que não era da área de biblioteconomia. Achei que tinha conceitos muito importantes que não eram leva- dos em consideração e que era uma importante função do bibliotecário influenciar os editores, os livreiros em como fazer resumos que pudessem depois ser aproveitados no processo de indexação de conteúdo dessas próprias revis- tas. Se o resumo é mal feito, o processo de indexação é falho. Os conceitos das técnicas de indexação e resumos é que eram novos. Tive um professor extraordinário, que é Tauber, na Columbia University. Processamento de dados em documentação, porque os nossos conhecimentos eram totalmente incipientes na época e era uma coisa que eu já havia introduzido dentro do próprio IBBD, com as máqui- nas que existiam (ZAHER, 1995, p. 6).
Zaher passa a atuar e promover a pesquisa bibliográfica como cam- po do conhecimento no País. Trabalhando inicialmente no setor profissional, com a bibliografia jurídica, Celia multiplica seu conhe- cimento entre teoria e prática no solo bibliográfico. Nesse contexto, no âmbito do IBBD, desenvolve-se uma “escola de pensamento” da bibliografia especializada no Brasil, já sob os aportes da teoria otle- tiana (ZAHER, 2017).
Os serviços bibliográficos atendiam aos especialistas, criando mo- delos que se transformariam em manuais de aplicação e formação.
Nesse meio-tempo escreve um livro, inaugural no Brasil, sobre In- trodução à Documentação, fundamental para os anos 1950 e 1960.
É na década de 1960, aliás, que surge a primeira pós-graduação
lato sensu em Biblioteconomia, o Curso de Pesquisa Bibliográfica do IBBD, conjugando teoria, metodologia, práticas laboratoriais, aplicação e impacto social (atendimento às demandas de domínios especializados) (ZAHER, 2017).
Essa conjugação indica uma mutação tecnológica. A preocupação de Celia Zaher com a automação das bibliografias é um desdobramen- to dos anos 1960, atenta que estava às mudanças que ocorriam em territórios visitados, como Índia e Estados Unidos, onde a automação já avançava. Em suas palavras,
O primeiro produto de automação do IBBD foi o Catálogo Coletivo. Para a produção do Catálogo Coletivo, eu apenas me baseei em leituras de uma experiência feita na Índia, porque eu tinha acabado de visitar aquele país e achei que seria interessante, mediante essa literatura, nós fazermos experiência similar, que foi como nós começamos a fazer com Kwic. Fizemos testes simultaneamente em São Paulo, onde se fazia com Kwoc, mas o IBBD foi o primeiro órgão que começou a fazer automação dos seus serviços tradicio- nais (ZAHER, 1995, p. 7).
Do ponto de vista da tessitura das redes e da internacionalização, se, em sua chegada, o IBBD já estava constituído pelo conhecimento e pela práxis de Lydia de Queiroz Sambaquy, a própria Zaher ampliará profundamente essas relações a partir de sua atuação mundial via fomento da Unesco.
Em 1972, a doutora Zaher vinculou-se à Organização das Na- ções Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em Paris, como diretora da Divisão para o Desenvolvimento da Documentação de Bibliotecas e Arquivos. De 1976 a 1982, desempenhou o cargo de diretora da Divisão de Promoção de Livros, Arquivos, Audiovisuais e Intercâmbio Internacio- nal no Setor de Cultura e Comunicação. De 1982 a 1983, foi comissionada perante o Governo do Brasil para exercer o cargo de diretora geral da Biblioteca Nacional. Em 1984, re- tornou à Unesco, em Paris, como diretora geral adjunta em comunicação. Durante 1987 e 1988, foi representante da Unesco perante o México e a República Dominicana. Desde 1987, desempenhava o cargo de diretora da Divisão de Estu- dos Culturais. Celia Zaher é autora de diversas publicações e tem participado de numerosas conferências e missões da Unesco em todo o mundo. Também tem sido honrada com várias distinções e medalhas (ZAHER, 1995, p. 1).
O olhar sobre uma macropolítica de informação impactará diretamen- te o papel estratégico do IBBD e, posteriormente, do Ibict nos cenários nacional e internacional. É nesse contexto político que Celia propõe um sistema nacional de informação integrando todas as informações do País para o desenvolvimento científico-tecnológico (ZAHER, 1977).
Criar sistemas nacionais de informação (NATIS) envolve alcançar alguns objetivos básicos que vão desde o estabe- lecimento de uma política nacional de informação, até à realização de todas as etapas necessárias à sua implemen- tação. O lançamento do programa NATIS visa a permitir aos países membros da Unesco uma análise de seus problemas no campo da informação de uma forma global, de maneira a evitar a proliferação de pontos fiscais sem coordenação.
Da mesma forma, visa a auxiliar no estabelecimento de um reequilíbrio no acesso à informação por parte dos países em desenvolvimento que se acham em desigualdade com rela- ção aos países industrializados (ZAHER, 1977, p. 373).
Em paralelo, a macropolítica de informação estava lado a lado com os horizontes tecnológicos. A preocupação com as mutações tecnoló- gicas estava clara nas perspectivas teórica e administrativa de Zaher.
Havia uma compreensão direta sobre o fenômeno da competitivida- de nos países de economia capitalista no contexto dos sistemas de informação pós-Segunda Guerra Mundial com influência direta no Brasil. Era um fato político diretamente vinculado ao desenvolvimento da indústria e dos institutos de pesquisa e desenvolvimento. Confor- me as previsões de Paul Otlet, influência direta para Institutos como o futuro IBBD, o emprego de máquinas de circulação de registros do conhecimento estava próximo. A partir dos anos 1950, a Bibliografia e a Documentação já estavam, dentro das bibliotecas especializadas, objetivamente relacionadas com essas transformações, a começar pe- las bibliografias automatizadas. Inicia-se, pois, nas décadas de 1950 e 1960, o desenvolvimento de metodologias vinculadas à automação para manipulação de grande massa de dados no que tange aos estu- dos estatísticos das mais distintas finalidades (ZAHER, GOMES, 1972).
Se, de um lado o computador permitia estudos do ponto de vista do conteúdo do documento, de outro possibilita- va igual oportunidade para os dados relativos a usuários.
Tornava, então, mais próximo o ideal de conseguir a infor- mação certa para o usuário certo, realização que tem sua sofisticação maior nos sistemas de disseminação seletiva da informação (ZAHER, GOMES, 1972, p. 2).
Essas travessias internacionais e interinstitucionais, teóricas e me- todológicas, de Celia Zaher, darão ao IBBD o papel estratégico nas políticas de vanguarda para educação, cultura e ciência, tendo a in- formação como elo conceitual e metodológico para transformação socioeconômica, e tendo o ensino como ponto seminal para dissemi- nação de um legado teórico e empírico não apenas no Brasil, como em toda América Latina e Caribe.