países, principalmente da América Latina e do Caribe, tomassem co- nhecimento do Comut e adotassem seu modelo inovador.
Miranda também criou durante sua gestão a Revista Latinoamericana de Documentación que, infelizmente, foi descontinuada após sua saí- da da presidência, na qual foram publicados importantes artigos na área de biblioteconomia e ciência da informação.
De 1977 a 1981, foi presidente da Associação dos Bibliotecários do Distrito Federal, atual Associação dos Bibliotecários e Profissionais da Ciência da Informação do Distrito Federal (ABDF). Na sua gestão, a ABDF era uma das mais respeitadas associações de bibliotecários do Brasil e da América Latina. Foi criado o Boletim ABDF, uma mistura de documento informativo e técnico, com a publicação de trabalhos produzidos por especialistas da área. Também foram organizados vários cursos, entre os quais um curso de especialização lato sensu, em parceria com a Universidade Católica de Brasília (UCB), que per- mitiu o aperfeiçoamento de inúmeros profissionais.
A administração financeira do Comut, pactuada com a Capes por meio de convênio, garantiu a agilidade necessária ao Programa, além de render a editoração e comercialização de livros técnicos.
Miranda também publicou cerca de 60 artigos, 59 livros como autor/
coautor/organizador; escreveu mais de 50 capítulos de livros; 25 ar- tigos em jornais e revistas; e 50 trabalhos apresentados em congres- sos nacionais e internacionais.
Além dessa profícua produção intelectual, proferiu palestras e confe- rências em eventos diversos. Nos dias atuais, sua ação como bibliote- cário mescla-se com as atividades acadêmicas como pesquisador cola- borador sênior da FCI da UnB, além de consultorias, palestras e cursos.
Muitas novidades, algumas boas e outras ruins, foram implementa- das nos primeiros dias do novo governo democrático, e a Secretaria de Ciência e Tecnologia (SCT), com status de ministério, foi dirigida no período por dois grandes nomes, conhecidos pelo papel rele- vante que desempenhavam para a educação, ciência e tecnologia:
José Goldenberg e, posteriormente, Edson Machado de Souza, que deram grande apoio à gestão e ao desenvolvimento da informação científica e tecnológica.
No Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológi- co (CNPq), ao qual o Ibict ainda era subordinado, foram empossa- dos Gerhard Jacob como presidente e Darcy Closs como diretor de programas, também bastante engajados e comprometidos com as questões da informação.
Conhecedora de sua capacidade técnica, intelectual e das realizações profissionais no campo da biblioteconomia e da ciência da informa- ção, a nova direção do CNPq convidou Miranda para assumir a direção do Ibict, instituição que, naquele momento, incorporou importantes serviços e atividades antes executadas por outros setores federais no campo da informação tecnológica.
No início do governo Collor, a Secretaria de Administração Federal (SAF) solicitou aos órgãos administrativos uma avaliação de suas ati- vidades com o intuito de modernizá-los e de racionalizar as suas ad- ministrações. Essa modernização deveria incluir não só a parte ope- racional, mas também as questões relacionadas ao pessoal técnico e administrativo.
No âmbito do Ibict, foi criado um Grupo de Trabalho com o objetivo de avaliar o Instituto por meio de uma revisão crítica de suas ativi- dades e seus serviços. Os resultados levaram à criação de uma nova estrutura, que incluiu a modernização da sua informática por meio da criação do Departamento de Tecnologias da Informação (DTI), e de um Departamento de Cooperação e Intercâmbio, responsável pe- las questões de relacionamentos técnicos e políticos junto a outras instituições nacionais e internacionais.
Os resultados dessa avaliação auxiliaram na elaboração do Plano de Ação 1990/1991, que teve como eixos principais:
× a realização de estudos das reais necessidades de informação dos usuários, não só em nível nacional (acadêmico, tecnoló- gico, empresarial, terceiro setor etc.), mas também em nível internacional, principalmente em relação à América Latina e ao Caribe, zonas de maior influência do Instituto;
× a realização de estudos de viabilidade econômica para novos produtos a serem criados pelo Ibict com base nas sugestões da comunidade científica e tecnológica;
× a criação de instrumentos de divulgação de serviços, produtos e ações do Instituto e uma grande participação em eventos nacionais e internacionais;
× a criação de mecanismos de vendas para produtos e serviços, de modo a oferecer as informações requeridas pelas comuni- dades científicas e tecnológicas; e
× a criação de mecanismos que permitissem uma maior integra- ção do Ibict com outras instituições de ensino e pesquisa, in- dústria e empresas, terceiro setor etc.
A idealização do Plano de Ação 1990/1991 contou com a participação ativa dos funcionários da casa por meio de uma assembleia interna, constituída pelos servidores e colaboradores, para análise, avaliação crítica e proposta de novas linhas de ação.
No campo dos serviços realizados à época, cabe salientar a produção e divulgação de vários guias de fontes de informação em diversas áreas do conhecimento, conforme as atribuições do Instituto, além do atendimento rotineiro dos seus produtos e serviços, como o Ca- tálogo Coletivo de Publicações Seriadas (CCN), Programa Comut em parceria com a Capes, o Bibliodata em colaboração com a Fundação Getúlio Vargas, revista Ciência da Informação etc.
A grande capacidade de relacionamento de Miranda e o seu reconhe- cimento profissional favoreceram a participação do Ibict em inúme- ros eventos no Brasil e no exterior, permitindo ao Instituto elevar seu papel de liderança na sua área de atuação. O Ibict esteve em várias edições do Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação (CBBD) e do Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias (SNBU),
além de eventos regionais promovidos por universidades, institutos de pesquisa e associações de classe.
Um dos grandes acontecimentos na administração do Miranda foi a transferência da secretaria executiva do Comut para o Ibict.
A extinção da Capes no início do governo Collor, e sua reinstalação posterior por pressão do Congresso Nacional, levou à perda de parte dos seus funcionários incluindo aqueles do Comut que foram realo- cados para outros setores. A insegurança causada preocupou os diri- gentes da Capes e do Ibict, que concluíram que a melhor solução se- ria a transferência da secretaria executiva do programa para o Ibict, tendo em vista a sua melhor situação institucional no momento.
Dada a importância do Comut para a pesquisa científica e tecnoló- gica no Brasil, o assunto foi tratado em nível de ministros, principal- mente pelo secretário de Ciência e Tecnologia Edson Machado, que durante anos foi diretor geral da Capes e, consequentemente, um grande conhecedor do Comut.
Finalizados os acertos formais, realizou-se a transferência e o pro- grama foi incorporado ao Ibict, diretamente ligado ao seu diretor, mantendo o status que tinha na Capes e de acordo com os convê- nios de cooperação técnica assinados entre Capes, Ibict, Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESU/MEC) e Fi- nanciadora de Estudos e Projetos (Finep).
Outra atividade de grande importância na administração de Miranda foi o prosseguimento do Sistema Público de Acesso a Bases de Dados (SPA), dentro das ações do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PADCT II), que permitia o uso compartilhado de bases de dados de informação nacionais e internacionais, uma es- pécie de Oasis na época. Posteriormente, em 1993, foi denominada Rede Antares, atendendo à demanda de informação da comunidade científica e tecnológica nacional. A modernização das atividades do SPA e, posteriormente, sua transformação na Rede Antares foram possíveis, em grande parte, devido à modernização das atividades de informática e à criação do DTI.
O PADCT foi criado em 1984 para permitir a implementação de uma política de desenvolvimento científico e tecnológico no país. Isso foi
possível após a assinatura de um acordo de empréstimo entre o go- verno brasileiro e o Banco Mundial para ser operacionalizado por agência brasileiras, entre as quais o CNPq, a Capes e a Finep.
Foram criados subprogramas fins em várias áreas prioritárias para o Brasil e, para dar suporte operacional, vários subprogramas de apoio, entre os quais o Grupo de Trabalho em Informação Científica e Tecnológica (GT/ICT), coordenado pelo Ibict.
O PADCT encerrou suas atividades em 1989 e foi continuado em 1990 com o começo das operações do PADCT II, tendo o GT/ICT reini- ciado suas atividades na administração de Miranda. Uma das princi- pais ações do GT/ICT nessa fase foi apoiar as atividades do SPA e sua posterior transformação na Rede Antares.
Além de continuar com suas ações como membro da FID/CLA, Mi- randa ainda possibilitou a assinatura de um convênio entre o CNPq/
Ibict e a FID para a manutenção e comercialização da Classificação Decimal Universal (CDU) no Brasil. Esse convênio vigeu até 1992, ano de formação de um consórcio de editores, o Universal Decimal Clas- sification Consortium (UDCC), que assumiu a responsabilidade e é, atualmente, o gestor e detentor dos direitos autorais e de publicação do sistema. Atualmente, desde 1997, o Ibict é o detentor da licença para edição em língua portuguesa, concedida pelo UDCC.
Outros acordos internacionais de cooperação foram assinados pelo CNPq/Ibict na administração Miranda, entre os quais o acordo de co- operação técnica com o Russian Institute for Scientific and Technical Information of the Russian Academy of Sciences (VINITI). O VINITI, criado em 1952, tem a missão de coletar informações científicas e técnicas de fontes de todo o mundo e disseminá-las para a comuni- dade científica russa.
Foi também assinado, nesse período administrativo, a renovação do convênio com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por meio da estrutura acadêmica da sua Escola de Comunicação, para prosseguimento do curso de mestrado do Ibict. Nessa mesma épo- ca, foram iniciados estudos sobre a viabilidade de criação de um cur- so de doutorado, concretizado em 1994.
Em 1990, Miranda conseguiu mudar a sede do Ibict para seu ende- reço atual, após negociação com a então secretária de Ciência e Tec- nologia. O prédio estava ocupado desde 1985 pelo ministério, e a mudança para a Esplanada dos Ministérios permitiu ao Ibict retornar à sua antiga sede.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A contribuição de Antonio Miranda para a ciência da informação, no Brasil e no exterior, é inquestionável, não só no campo das atuações técnicas e administrativas, mas também no ensino e na pesquisa.
As bibliotecas universitárias devem a ele grande parte do seu desen- volvimento, notadamente em relação à construção de seus prédios, estruturação de acervos, acessibilidade e disponibilidade documen- tária e idealização do programa Comut.
Os anos como assessor de planejamento bibliotecário na Capes fo- ram fundamentais para o desenvolvimento dessas bibliotecas, prin- cipalmente porque conseguiu vender suas excelentes ideias para os diretores Darcy Closs, Cláudio de Moura Castro e Hélio Barros.
No ensino, tanto no Ibict como na UnB, formou e orientou centenas de alunos na graduação, mestrado e doutorado. Como presidente da ABDF, criou, em conjunto com a UCB, o curso de especialização em Administração de Sistemas de Informação, que permitiu o aper- feiçoamento de vários profissionais de biblioteconomia. Além disso, promoveu, como presidente da FID/CLA, cursos técnicos que conta- ram com a participação de profissionais de vários países da América Latina e do Caribe.
Como pesquisador, tem uma produção acadêmica impressionante, conforme vimos na parte que o descreveu como bibliotecário. Mui- tos de seus trabalhos técnicos embasaram decisões político-admi- nistrativas em instituições nacionais e internacionais.
Como escritor e poeta, é respeitado e lido em muitos países, com vários prêmios por sua produção e inúmeras homenagens. O Portal
da Poesia Iberoamericana (c2004), criado por ele, recebe milhares de visitas de usuários dos cinco continentes.
Como ser humano, muito teria a ser dito e escrito sobre ele, mas, ten- do em vista a limitação de espaço, procurei fazer neste capítulo um apanhado geral de forma a mostrar um pouco de sua personalidade pessoal, intelectual, artística e profissional. Espero ter conseguido.
REFERÊNCIAS
ANTONIO Lisboa Carvalho de Miranda. Currículo lattes. Texto infor- mado pelo autor. Atualizado em: 19 jul. 2022. Brasília: CNPq, 2022.
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MIRANDA, Antonio Lisboa de. Entrevista. Entrevista cedida a Carolina Fraga. Revista Eletrônica da ABDF, Brasília, v. 1, n. 3, p. 7-14, out./dez.
2015. Disponível em:
PORTAL DE POESIA IBEROAMERICANA. Brasília: Antonio Miranda, c2004. ISSN: 2447-1178. Disponível em: http://www.antoniomiranda.
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Como citar o capítulo:
RODRIGUES, Ricardo Crisafulli. Antonio Lisboa Carvalho de Miranda:
bibliotecário, escritor, poeta, 13º diretor do Ibict. In: CUNHA, Danie- la A. P. (org.). Ibict 70 anos: um resgate histórico daqueles que fi- zeram o instituto. Brasília, DF: Ibict, 2023. Cap. 7, p. 138-154. DOI:
10.22477/9786589167457.cap7 .