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A BOLSA AMARELA DE LYGIA BOJUNGA

No documento Scripta Alumni - Curitiba (páginas 60-69)

A obra A bolsa amarela foi publicada 1976, sendo o terceiro livro de Lygia Bojunga. Foi traduzida para vários idiomas e muito utilizada no Brasil, para encenação teatral. É um livro que tem uma narrativa bem humorada e conta a

Scripta Alumni Curitiba, Paraná, v. 25, n. 2, p. 1-180, jul.-dez. 2022. ISSN: 1984-6614 eISSN: 2676-0118 https://revista.uniandrade.br/index.php/ScriptaAlumni/index Este trabalho está licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution 3.0 .

história de uma menina chamada Raquel que tinha três desejos: crescer logo; ser menino; tornar-se uma escritora. “Um dia fiquei pensando o que é que eu ia ser mais tarde. Resolvi que eu ia ser escritora (...). Faz tempo que eu tenho vontade de crescer e ser homem” (BOJUNGA, 2011, p. 11-12).

No capítulo As vontades o leitor começa a conhecer a personagem Raquel, uma menina muito inteligente, cheia de imaginação, mas que se sente deslocada por ser a filha mais nova, em uma família de adultos, representada pelos irmãos mais velhos, pelos pais e pela tia Brunilda.

A fim de suprir a carência de atenção e compreensão, Raquel cria dois amigos imaginários com os quais interage por meio de cartas: André e Lorelai. Raquel expõe suas mágoas para os amigos imaginários e, quando é surpreendida e repreendida pela irmã mais velha, tenta explicar que a amiga é inventada, mas a irmã conta tudo ao seu pai e Raquel, então, toma uma bronca.

Mas, depois de um tempo sem escrever cartas, ela resolve retomar a escrita, dessa vez para o amigo imaginário André.

Prezado André, ando querendo bater papo. Mas ninguém tá a fim. Eles dizem que não têm tempo. Mas ficam vendo televisão.

Queria te contar minha vida. Dá pé? Um abraço da Raquel. (...) Outro dia eu perguntei: o que é que tá acontecendo que toda hora tem briga? Sabe o que é que eles falaram? Que não era assunto para criança. (BOJUNGA, 2011, p. 12-19)

No trecho acima é visível que a menina Raquel não encontra outra saída para a socialização no seu ambiente familiar, senão a imaginária. É possível perceber que, por meio da brincadeira de Raquel como escritora, ela consegue demonstrar o que ocorre no seu contexto familiar e social.

As cartas de Raquel para André são um desabafo, visto que trazem consigo uma mensagem da autora. Lygia denuncia, através da narrativa, a falta de liberdade de expressão e a violação dos direitos dos cidadãos impostos pela ditadura militar6. A única forma de expor isso, sem ser punido, era por meio de metáforas, ironias e de muita imaginação. Sendo assim, denunciar através da literatura era uma maneira de ter

6 A ditadura militar teve sua vigência, no Brasil, entre os anos de 1964 e 1984 e foi um período marcado por muita repressão social. “Os militares utilizavam o termo psicossocial para designar a sua estratégia de atuação sobre a mentalidade de todos os indivíduos, visando alcançar o maior grau possível de internalização dos valores que deveriam ser, segundo eles, norteadores de todas as ações nas diversas esferas da vida social” (R Z ND , 2013, p. 17).

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sua opinião individual ser publicamente exposta sem severas consequências. (SANTOS, 2021, p. 32)

Mediante as palavras de Santos (2021) podemos entender que a narradora também denuncia a condição da mulher na sociedade, pois ser escritora e mulher era ainda mais desafiador, tendo em vista a sociedade da época ditatorial que o Brasil enfrentava.

É o seguinte: eu resolvi que eu vou ser escritora, sabe? E escritora tem que viver inventando gente, endereço, telefone, casa, rua, um mundo de coisas. Então eu inventei o André. Pra já ir treinando. Só isso. Aí meu irmão fechou a cara e disse que não adiantava conversar comigo porque eu nunca dizia a verdade. Fiquei pra morrer: — Puxa vida, quando é que vocês vão acreditar em mim, hem? Se eu tô dizendo que eu quero ser escritora é porque eu quero mesmo. — Guarda essas idéias pra mais tarde, tá bem? E em vez de gastar tempo com tanta bobagem, aproveita pra estudar melhor. Ah! e olha: não quero pegar outra carta do André, viu? (BOJUNGA, 2011, p. 13)

No trecho acima, quando Raquel decide escrever um romance e expõe sua vontade de ser escritora, as pessoas adultas a ignoram, descreditam-na e a ridicularizam.

No capítulo A bolsa amarela, Raquel ganha uma bolsa amarela, a qual faz referência ao título da obra. Tia Brunilda manda roupas e alguns objetos para serem distribuídos entre os irmãos de Raquel, mas ela é a última a poder pegar alguma coisa. Assim, o que sobra para ela é uma bolsa de adulto, da cor amarela, meio desbotada, devido ao uso. A bolsa é tão grande para a menina que ela precisa dar um nó para que não arraste pelo chão.

(...) Eu parei de fazer o dever e fiquei espiando. Vi aparecer uma bolsa; todo o mundo pegou, examinou, achou feia e deixou pra lá. (...) — Toma Raquel, fica pra você. Era a bolsa.

(...) Ela era grande; tinha até mais tamanho de sacola do que de bolsa. Mas vai ver ela era que nem eu: achava que ser pequena não dá pé. (BOJUNGA, 2011, p. 27)

A tia Brunilda representa o lado rico da família de Raquel e também o lado inútil, pois é uma mulher submissa em um mundo patriarcalista e depende exclusivamente de seu marido. No trecho abaixo Raquel observa como a tia se submete a esse papel:

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(...) Eu fico boba de ver como a tia Brunilda compra roupa.

Compra e enjoa (...). Outro dia eu perguntei: — Se ela enjoa tão depressa, pra que que ela compra tanto? É pra poder enjoar mais? Ninguém me deu bola. (...) Outra coisa um bocado esquisito é que se ele reclama, ela diz logo: “Vou arranjar um emprego”. Aí ele fala: “De jeito nenhum!” dá mais dinheiro. Pra ela comprar mais. E pra continuar enjoando.

(BOJUNGA, 2011, p. 26)

Como visto no trecho da obra, a narradora faz uma observação que faz crítica ao modo como tia Brunilda vive, já que ela gasta em excesso e, como visto anteriormente, depois enjoa e manda para a família de Raquel.

Já o capítulo O galo é um primor dentro da obra A bolsa amarela de Lygia Bojunga, no que diz respeito à representação do patriarcado, fenômeno muito presente na obra aqui analisada. O galo, que no enredo fugiu de um galinheiro porque não queria ser cuidador de galinha, vai parar dentro da bolsa de Raquel. O galo se chama Rei, mas não quer sê-lo: “Abri a bolsa correndo. O galo saiu lá de dentro (...). Eu estava de boca aberta: nunca tinha visto um galo usando máscara. E ele usava. Preta. Tapando a cara todinha. Só dois furos pros olhos”

(BOJUNGA, 2002, p. 25).

Percebe-se, então, por meio da narrativa, que o galo Rei tinha que se esconder por não representar o papel que o galinheiro lhe impunha, o de ser chefe.

Quando eu expliquei que desde pequenino eu sonhava com um galinheiro legal, todo mundo dando opinião, resolvendo as coisas, achando furada essa história de um galo mandar e desmandar a vida toda, sabe o que elas fizeram? Chamaram o dono do galinheiro e deram queixa de mim. (BOJUNGA, 2011, p. 36)

Aqui também é interessante analisar a imagem que ilustra esse capítulo, já que a figura (Figura 1) demonstra a ideia do papel do galo (que representa o gênero masculino), dentro do galinheiro. Como pode ser visto, este tem um tamanho desproporcional em relação ao tamanho das galinhas (que representam o gênero feminino). É grande e imponente e as galinhas estão aos seus pés, como se fossem regidas por ele. Ao alto observa-se uma faixa onde está escrito: “Diploma dos melhores tomadores de conta de galinhas” (BOJUNGA, 2011, p. 32).

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Figura 1: Representação do patriarcado pela figura do galo na obra A bolsa amarela de Lygia Bojunga (BOJUNGA, 2011, p. 32).

No entanto, o galo troca de nome porque não quer ser chamado de Rei, escolhendo o nome Afonso.

No capítulo A volta da escola, entra na história um outro galo de nome Terrível. No enredo esse galo também não escolhera seu destino, e, como bem ilustra o nome, seu papel era brigar. Mas ele também já não queria mais essa tarefa, por estar cansado demais daquela vida.

— Era o Terrível. Desde pequenininho que resolveram que ele ia ser galo de briga, sabe? do mesmo jeito que resolveram que eu ia ser galo-tomador-de-conta-de-galinha. Você sabe como é esse pessoal, querem resolver tudo pra gente. E aí começaram a treinar o Terrível. Botaram na cabeça dele que ele tinha que ganhar de todo o mundo. Sempre. Disseram até, não sei se é verdade, é capaz de ser invenção, que costuraram o resto do pensamento dele com uma linha bem forte. Pra não rebentar. E pra ele só pensar: "eu tenho que ganhar de todo o mundo", e mais nada. (BOJUNGA, 2011, p. 53)

Aqui a narradora traz à tona o lugar do patriarcado que, de certa maneira, é uma imposição social, já que se pode perceber que, na narrativa, mesmo que os galos não quisessem cumprir o papel de dominador, eram obrigados. No caso de Terrível, o pensamento lhe foi costurado, para que ele seguisse o roteiro de vida que lhe fora imposto.

Nesse capítulo também aparece uma personagem bastante peculiar: a guarda-chuva.

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O homem então fez um guarda-chuva menor que guarda-chuva homem. E usou uma seda cor-de-rosa toda cheia de flor. O cabo ele não fez reto não: disse que guarda-chuva mulher tinha que ter curva. E pendurou no cabo uma correntinha que às vezes guarda-chuva homem não gosta muito de usar (BOJUNGA, 2011, p. 48)

Aqui a obra traz mais uma crítica, em ralação à imposição social para com o gênero feminino, já que fala como deve ser uma guarda-chuva de mulher: com curva e adereços que o gênero masculino não usaria. Assim percebe- se uma imposição de como os gêneros devem se comportar: o homem como opressor/dominador e a mulher como submissa, seguindo, cada gênero, um padrão determinado.

No capítulo Comecei a pensar diferente, Raquel vai à casa dos consertos para reparar a guarda-chuva. Lá encontra uma realidade bastante diferente daquela que encontrava em sua casa:

Não tem sempre uma porção de coisas pra resolver? Quem é que resolve? — Nós quatro. Pra isso todo dia tem hora de resolver coisa. Que nem ainda há pouco teve hora de brincar.

A gente senta aí na mesa e resolve tudo que precisa. Resolve como é que vai enfrentar um caso que a vizinha criou; resolve se vai brincar mais do que trabalhar; ou estudar mais do que brincar; resolve o que é que vai comer; quanto é que vai gastar em roupa, em comida, em livro; resolve essas transas todas.

Cada um dá uma idéia. E fica resolvido o que a maioria acha melhor. — Você também pode achar? — Claro! eu também moro aqui, eu também estudo, eu também cozinho, eu também conserto. Aqui todo o mundo acha igual. — Mas pode? — Por que é que não pode? Aí. o relógio bateu outra vez. O pai ficou ainda mais animado e gritou: — Almoço! A comida tá pronta.

— Abriu o forno, tirou o bolo, perguntou se eu queria comer com eles, eu aceitei correndo. E perguntei pra menina: — Como é que você se chama, hem? — Lorelai. (BOJUNGA, 2011, p. 100-101)

No trecho acima, a narradora expõe o seu desejo de pertencer a uma família, na qual poderia participar e inverter os papéis de forma distinta de como a sua realidade lhe era apresentada.

Na Figura 2, podemos ver o interior de uma casa, onde os papéis estão invertidos: o avô estuda, o pai cozinha e a mãe conserta, diferentemente do que se apresenta em uma família tradicionalmente patriarcal, em que os homens são os provedores e as mulheres donas de casa.

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Figura 2: Ilustração do capítulo Comecei a pensar diferente do livro A bolsa amarela. (BOJUNGA, 2011, p. 92).

Por fim, no capítulo denominado Na praia, percebemos uma narrativa que rompe com o tradicional, traz para o enredo uma inversão de valores, e reconstrói a identidade feminina por meio da desconstrução do pensamento machista. Vejamos:

Minha vida foi melhorando. Eu já não inventava muita coisa, meu pessoal não ficava tão contra mim. Comecei então a achar que ser menina podia mesmo ser tão legal quanto ser garoto. E foi aí que as minhas vontades deram pra emagrecer.

Emagreceram, emagreceram, até que um dia pensei: daqui a pouco elas vão sumir. As aulas começaram de novo. Uma noite eu sonhei que estava na praia soltando pipa. (BOJUNGA, 2011, p. 109)

No trecho acima, percebe-se que a narradora, agora mais madura, já não tem tantas vontades como antes e suas preocupações vão desaparecendo, assim como o peso da bolsa. Nessa linha pode-se afirmar que a narradora faz uma alusão ao peso que carrega, com seus questionamentos, seus descontentamentos, sua solidão, entre outros sentimentos. Aqui ela se liberta desse peso, enquanto as personagens criadas por ela também vão desaparecendo.

CONCLUSÃO

Por meio da obra A bolsa amarela, de Lygia Bojunga, é possível perceber que a narradora vive em uma sociedade opressora, e, por ser criança e

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ainda do gênero feminino, enfrenta uma realidade castradora, na qual não pode ter voz, como integrante de uma família.

Essa condição é agravada pelo fato de Raquel ser bem mais nova do que seus irmãos mais velhos, o que nos leva a sentir o tamanho de sua frustração, por sempre ser motivo de chacota e frequentemente ser desacreditada pelos membros mais velhos.

Suas vontades são sempre oprimidas, o que a leva a criar um mundo imaginário à parte para que, assim, possa, de alguma maneira, sobreviver à sua condição de subalternidade. No decorrer do enredo percebe-se uma forte crítica à sociedade patriarcal, por meio da voz feminina representada pela protagonista Raquel.

No decorrer dos capítulos a condição da mulher é bastante representada, tanto pela personagem Raquel, quanto por meio das personagens criadas por ela. A narrativa também põe em discussão o papel do patriarcado, reconhecendo que este é um sistema social e, portanto, difícil de ser modificado.

No entanto, ao final, por meio da rebeldia das personagens, pelo menos no mundo criado por Raquel, existe uma mudança significativa de valores que a faz se livrar do peso que carrega por sua condição infantil e feminina.

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