Na Grécia Antiga, em Hesíodo e Platão, temos o que Orides Fontela chamou de amor como força criadora, em sua gênese mitológica e filosófica. Além disso, em Freud, temos uma retomada do Eros como força fecundante, um princípio destinado a reproduzir vida e se opor à morte. Dessa forma, o amor carrega diversos sentidos, conforme nos mostra a história do pensamento.
Eros, como Claude Calame delimita em seu estudo Eros na Grécia Antiga (2013), seria o “transporte cósmico desse poder de reprodução fecundante, [que] evidentemente, não escapou aos poetas e filósofos, que buscaram uma e plicação cosmogônica e teogônica da origem do mundo”
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(CALAME, 2013, p. 182). Nesse sentido, já podemos perceber o amor como figura mitológica, formulada por poetas e filósofos.
A esse respeito, ainda, temos um Eros que surge como princípio não gerado na Teogonia (1995) de Hesíodo. Escrito mais ou menos nos séculos VIII-VII a.C, o poema é um dos primeiros contatos que temos com uma teogonia e uma cosmogonia gregas. A respeito de Eros, Hesíodo o descreve como entidade cosmogônica, que surge junto a seres primordiais, mas também como força geradora de outros deuses e do resto das coisas. Isso fica evidente quando percebemos a influência do deus na junção erótica entre as primeiras divindades: a Noite, “unida a Érebos em amor” (HESÍODO, 1995, p. 91); ou ainda Céu “ao redor da Terra/ desejando amor” (p. 93), dentre outros casos amorosos descritos pelo poeta. O próprio Hesíodo deixa ainda mais clara a influência de Eros sobre os deuses e outros seres, quando afirma: “Eros: o mais belo entre Deuses imortais,/solta-membros, dos Deuses todos e dos homens todos/ele doma no peito o espírito e a prudente vontade” (p. 91) . É, portanto, a partir desse amor imperioso, com grande poder sobre os seres, que essas entidades primeiras se unem. Conforme Calame (2013), é em uma relação de philotês (fidelidade ou comprometimento mútuo) que Gaia e Urano se juntam em trabalho, gerando as tremendas criaturas que eram os deuses (o próprio Cronos, o tempo, é fruto dessa relação de desejo). Ainda conforme o autor, explorando o papel criador da força erótica no mito grego, lemos o seguinte:
A divisão, a diferenciação, a distinção nascem, paradoxalmente, da união dual e sob a égide de Eros, princípio único unificador, que gera a pluralidade. (...) tudo acontece como se Eros, na representação da cosmo-teogonia grega, servisse de mediador fecundante entre o dual e o plural.
(CALAME, 2013, p. 183)
O Eros poderoso age, então, a partir da unificação daquilo que é diverso (no caso das duas divindades, Gaia e Urano, princípios feminino e masculino) para daí gerar o fruto dessa união entre diferentes. O deus, dessa maneira, causa a criação dos deuses e do mundo, visto que ele se impõe nas
“relações entre as coisas, entre os homens e entre os deuses” (CALAME, 2013, p.
186). Nesse caminho, Eros é quem sempre ajuda a gerar, unificando para poder realizar a multiplicação.
Saindo do amor apenas mitológico, Platão (2011) nos apresenta um Eros que também é filosófico. Em O banquete, obra seminal para compreender o conceito do que foi Eros para o pensamento grego, também temos a potência geradora do deus, mas com outras ramificações. O inigualável diálogo platônico é uma “erótica cosmurgia” (PLATÃO, 2011, p. 35), uma criação de um universo discursivo no qual atua a força de Eros, visto que “a dialética de Platão é erótica”
(p. 9). Isso significa que o próprio método platônico deve seu nascimento ao deus
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do amor: na dialética, uma coisa leva a outra, um discurso gera algo diferente, há reprodução de novas ideias, dialogando com o próprio modo com que Eros tece relações.
Mas não só o método, como também os discursos que Platão empresta a seus personagens meio reais, meio literários, são uma grande homenagem ao deus do amor, já que os simposiastas falam a respeito de sua potência criadora e multiplicadora. Fedro, o primeiro a discursar, diz que Eros é um dos deuses mais antigos, assim como narrou Hesíodo. Além disso, ele também versa sobre a virtude que essa força pode proporcionar aos homens, já que ela produz “repulsa à ação repugnante e aplauso à beleza, onde quer que ela se manifeste” (PLATÃO, 2011, p. 37). Há, nesse primeiro discurso, um amor que, para além do cosmogônico ou teogônico, é uma “potência ética” (CALAME, 2013, p.
186), uma vez que ele produz as boas ações nos homens.
Pausânias também homenageia o deus do amor, mas apresenta duas representações da imagem de Eros. O Eros Urânio, companheiro de Afrodite Urânia, é o que propicia o belo (portanto, o mais ético, segundo o discurso de Fedro), enquanto o Eros Pandêmio é aquele que instaura o desejo nos “homens vulgares” (PLATÃO, 2011, p. 43). Nesse último, o possuído (o erasta) não se importa com o belo que pode provir do envolvimento amoroso, mas apenas com a
“satisfação física” (CALAME, 2013, p. 187). Temos, então, uma diferenciação entre um Eros mais nobre (aquele que é capaz de gerar o belo) e um mais vulgar, que visa a um prazer mais imediato e menos transcendental.
Na vez de Erixímaco, temos uma relação entre os procedimentos do médico (o próprio Erixímaco exercia a profissão) e a ação unificadora do Eros. Para ele, assim como o praticante da medicina sabe harmonizar os contrários do corpo (o quente e o frio, a parte doente e a parte saudável), também o Eros é responsável pela “harmonia de homens com os homens e (...) de homens com os deuses” (CALAME, 2013, p. 187). Há, então, um resgate do poder unificador desse deus muito antigo, que coloca dois seres em conjunção para gerar.
Aristófanes, logo após, apresenta uma construção mítica que explicaria a noção de atração amorosa e de procura por um par, algo que seria resgatado por Freud milhares de anos depois, em Além do princípio de prazer (2020), do qual também falaremos aqui. Podemos dizer que a fábula de Aristófanes nos faz lembrar ditos populares que estão arraigados em nosso imaginário, a exemplo de achar a metade da laranja ou a outra metade. Segundo ele, o ser humano do início dos tempos possuía ambos os sexos, até que Zeus separou-os com seus raios, mandando Apolo para consertar as feridas e endireitar suas feições.
Seria assim, a partir dessa divisão e, portanto, de um sentimento de falta, que o ser humano começou a empreender uma “procura nostálgica de sua complementaridade primordial” (CALAME, 2013, p. 189). Aristófanes, assim, fala da origem da atração erótica, explorando também a força criadora que age entre as duas metades, fazendo com que elas se complementem e se multipliquem.
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Partindo para Agaton, penúltimo dos discursadores, vemos que Eros é colocado em relação direta com a própria poesia. Para ele, o amor influencia o homem a cantar, porque “ao toque de Eros, todos devêm poetas” (PLATÃO, 2011, p. 79), colocando uma equivalência entre “influências de poesia e influências de Eros” (CALAME, 2013, p. 189). O deus do amor, portanto, não é apresentado aqui como criador apenas no sentido de fecundidade reprodutiva, mas também como criador (poietês) e mestre na arte das musas: o amor, dessa forma, é também poeta. Essa relação, que o autor do diálogo traz por meio de Agaton, aparece desde a poesia mélica, a antiga poesia cantada grega, na qual o simples olhar do objeto amado ou o delírio amoroso estimulavam o poeta a produzir e cantar versos.
Tudo o que vimos no diálogo platônico, então, deságua no discurso de Sócrates. Nessa parte, o mestre de Platão apresenta o Eros como ideal filosófico. Em sua fala, temos a célebre participação da sacerdotisa Diotima, que coloca em gradação o processo amoroso: aquele que ama (o erasta), inicia com o amor físico, mundano, para ir galgando seu caminho até o amor ideal, onde está o conhecimento de um Belo absoluto. Desse modo, percebemos a “unidade encarnada em um Belo muito abstrato” (CALAME, 2013, p. 191), na qual o amante pode chegar – se conseguir evoluir – tendo como guia o próprio Eros.
Quando Freud retoma o tema do Eros em seu trabalho, já no século XX, vemos que o amor postulado pelo pai da psicanálise guarda semelhanças com os discursos de Platão, pois o mito do andrógino presente na fala de Aristófanes serve como inspiração para o argumento de Além do princípio de prazer (2020). Esse livro, publicado primeiramente em 1920, marca uma renovação no pensamento de Freud, pois o princípio de prazer que antes norteava sua teoria integra agora duas outras pulsões: pulsões de morte (Tânatos), que buscam
“precipitar-se para adiante a fim de alcançar a meta final da vida” (FREUD, 2020, p.
143) e as pulsões de vida (ou pulsões sexuais), representadas pelo Eros, que procuram preservar a vida. Nesse sentido, o autor associa esses dois conceitos à pulsão à repetição, já que muitas vezes o indivíduo repete algo de maneira inconsciente, revivendo de tempos em tempos “uma e periência primária de satisfação” (p. 147), que foi recalcada, varrida para o fundo da psique. Desse modo, a repetição não seria algo realizado pelo indivíduo de maneira consciente, mas representaria um ciclo vivido por ele, denunciando seus desejos mais primários e ocultos. Assim, resgatando o mito do andrógino contado por Aristófanes, Freud traz novamente a nostalgia pela metade perdida, por meio da qual buscamos a reprodução da vida e a continuidade, repetindo um processo que teria ocorrido em tempos imemoriais e buscando a satisfação que um dia tivemos.
Assim, seja no campo mítico, filosófico ou psicanalítico, percebemos que pensar Eros implica refletir acerca de algo cosmogônico: uma força reprodutora e criadora, que parece capaz de reproduzir e ao mesmo tempo unificar.
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