Scripta Alumni Curitiba, Paraná, v. 25, n. 2, p. 1-180, jul.-dez. 2022. ISSN: 1984-6614 / eISSN: 2676-0118 https://revista.uniandrade.br/index.php/ScriptaAlumni/index Este trabalho está licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution 3.0 .
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Outro elemento presente no documentário em torno do qual gira o enredo de Nassar e que Carvalho buscava reescrever em seu filme, é o amor, mencionado e apresentado no romance sob uma perspectiva diferente das que se têm no Ocidente, onde o livro foi escrito, e que por isso era preciso ser entendido conforme a cultura árabe o entendia e o praticava. Entrevistando três jovens irmãs, muito semelhantes, inclusive, às da personagem André, Carvalho colhe depoimentos fundamentais que apresentam interpretações a respeito do sentimento anteriormente mencionado, e tem como resposta conceitos que relacionam amor a elementos universais como a constituição da prole, o casamento, as relações entre homens e mulheres e o respeito aos costumes religiosos.
Em diversos momentos a câmera do diário se volta para as crianças, desde os pastores até o relato da infância de uma das moças que falam sobre amor. É um passeio no passado infantil ou a apresentação da infância no agora que se assemelha ou, propositalmente, tenta ver a infância conforme descrita no romance, como serena, iluminada e pura: o jovem pastor cria elos com seus animais, brinca de ser pastor enquanto aprende a trabalhar; e, no relato de uma das moças, é narrada a dor da perda de um animal querido na infância inocente.
Conforme relata Tardivo, o documentário pode ser uma tentativa da construção do olhar da personagem André, do jovem confuso tentando compreender aquilo que está a seu redor. É “o retorno à infância – uma infância órfã, carente de referências –, a busca por referências e suas implicações” (TARDIVO, 2011, p. 154).
Na passagem Não separamos: este é muçulmano, este é cristão, este é judeu, um homem fala sobre respeito às religiões, sobre os costumes e aponta os deveres que são transmitidos às crianças desde cedo, especialmente às meninas, que a partir dos nove anos precisam, por exemplo, cobrir os cabelos, enquanto, por outro lado, os meninos são livres até os quatorze anos, quando são direcionados aos deveres masculinos.
Durante alguns momentos desse segmento do documentário é possível apenas ouvir a voz do depoente em off enquanto são exibidas cenas de duas crianças, um menino e uma menina de apro imadamente dez anos ‒ não há como saber com exatidão e não é mencionada a idade dos dois. Eles brincam e nadam em um rio: a menina ainda que mergulhe não pode retirar o tecido da cabeça, mesmo que o menino seja de sua família ‒ também não fica evidente que as crianças sejam ou não parentes ‒ implicitando que há limites até mesmo na intimidade familiar e que o respeito e o desvio do pecado predominam, inclusive, e principalmente, dentro do seio familiar.
Ao tratar do pão retorna-se ao ideal de perpetuação de saberes, quando pais transmitem os conhecimentos aos filhos, assim como os pastores no princípio do documentário transmitem a seus filhos o saber do ofício. O fazer do pão também é uma tarefa crônica que deve prosseguir pelas gerações. Ainda que no romance de Nassar a produção do pão como alimento do corpo seja apresentada como um trabalho de mãos femininas ‒ da mãe ‒ e o pão espiritual ‒ os sermões
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‒, trabalho do pai, no documentário, pelo menos na família visitada por Carvalho, o fazer do pão é uma tarefa masculina. Naquela casa o processo de produção é, de certo modo, perigoso, visto que é preciso colocar os braços dentro da fornalha, o que determina ser uma tarefa propícia aos homens, podendo, inclusive, funcionar como um ritual de passagem, visto que em dado momento o pai enfatiza que chega a hora certa, a idade em que o menino suporta o calor do forno em seus braços.
Além disso, tal qual no romance, na casa visitada por Carvalho há a valorização e metaforização do pão. O pão que se produz naquele lugar é um alimento sagrado, saudável e sem as impurezas. É o pão familiar, limpo, feito com muito zelo para alimentar a todos os membros da casa.
A última parte do documentário diz respeito à dança e, consequentemente, à musicalidade árabe, expressão de sentimentos e símbolo de momentos festivos, como casamentos e reuniões familiares. Aparentemente os homens são os responsáveis pela produção sonora, visto que não há a presença de mulheres usando instrumentos no documentário, a não ser a voz. É possível concluir que é um papel completamente masculino o de produção musical instrumental, independente de qual seja. Por outro lado, a dança é uma atividade predominantemente feminina, mas podendo ser praticada por homens em raros casos, como em casamentos e situações específicas em que o casal ou a família se reúne em grupos para a prática da dança. As mulheres, entretanto, costumam realizar apresentações individuais, na maioria dos casos, voltadas à sensualidade ou ao entretenimento.
Além de observada a dança dentro de grupos familiares, uma dançarina profissional foi entrevistada e filmada em apresentações. Ela se refere à dança como algo espiritual, que lhe proporciona alegria e a possibilidade de expressar seus sentimentos, sendo uma extensão de seu corpo e de sua mente mais do que apenas uma apresentação contemplável ou atividade física e festiva. É uma forma de falar com os movimentos do corpo.
Todos esses registros fazem-se fundamentais para dar início, aqui no Brasil, à montagem da obra cinematográfica planejada:
A culinária, os rituais religiosos, o mobiliário das casas, as vestes, registrar estas visibilidades para depois, aqui no Brasil, torná-las invisíveis. Ou seja, usando as palavras de Alceu Amoroso Lima: criar uma atmosfera, um sopro dominado pela tradição mediterrânea. Transformar o visível em invisível, não descrever as referências orientais; simplesmente sentir.
(CARVALHO, citado em AVELLAR, 2007, p. 348)
Com a coleta desses materiais, a partir do vídeo-diário de viagem organizado em documentário, o qual, ao longo de sua formação, constitui diversas micronarrativas ‒ a partir dos depoimentos de cada pessoa e grupo
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entrevistado ‒ Luiz Fernando Carvalho construirá o germe do que será a produção visual do longa-metragem LavourArcaica.