Se uma parte mente, se o advogado ataca a testemunha pessoalmente porque seu depoimento não favorece sua tese, e o juiz nega a produção de uma prova, aplica a presunção de veracidade ou um entendimento sumulado, independentemente de sua convicção acerca da causa, para colocar fim àquele processo em razão de uma exigência estatística imposta pelo seu tribunal, age de forma irresponsável.
Se compreendemos que o processo é o meio legítimo e justo para a solução adjudicada do conflito e ao mesmo tempo agimos deslealmente com a outra parte ou com os princípios e garatias processuais, incorremos em uma esquizofrenia moral, que depõe contra a nossa responsabilidade. Para utilizarmos os termos de Dworkin: "A esquizofrenia moral prejudica a responsabilidade de um jeito diferente: a pessoa se sente comprometida com dois princípios contraditórios e sucumbe àquele que lhe vem à mente no calor do momento, embora isso vá contra seus interesses e suas tendências mais estáveis".148
verossimilhança, afirma que apesar da diferença e convivência de ambas no processo, se a humanidade não é capaz de atingir a verdade absoluta, tem o dever de honestidade de buscar a aproximação máxima desta meta inalcançável.149
Nos próximos Capítulos, e em especial no Capítulo 3, veremos que há, portanto, dificuldades e limites ao processo de aquisição do conhecimento e, então, à busca da verdade, que se originam de várias causas como da lei, de fatos da realidade e do próprio arcabouço garantístico que equilibra o direito à verdade, ao contraditório e à prova, com outras garantias fundamentais como o direito à liberdade individual e à segurança jurídica. A verdade é um valor indispensável ao processo judicial como método de aquisição de conhecimento150 que por sua vez é inerente à função de julgar; mas, certamente, não é o único valor envolvido nesta busca.151
149 "Portanto se estamos convictos de que a natureza humana não é capaz de alcançar as verdades absolutas, é dever de honestidade de trabalhar com todas as forças para conseguir se aproximar o quanto possível dessa meta inalcançável: assim no processo, mesmo que se convença de que a sentença final não pode ser outra coisa que não um juízo de verossimilhança que não exclui a possibilidade de um erro judiciário, isso não retira que a estrutura do procedimento deva ser preordenada a propiciar a mais possível, aprofundada e controlada busca da verdade, de modo que a distância entre esta e a verossimilhança se reduza ao mínimo." Tradução do original:
"Anche se siamo convinti che la natura umana non è capace di raggiungere le verità assolute, è dovere di onestà adoparsi con tutte le forze per cercare di approssimarsi quanto più si può alla meta irragiungibile: così nel processo, anche se si è convinti che la sentenza finale non può essere altro che un giudizio di verosimiglanza tale da non escludere mai in maniera assoluta l'errore giudiziario, ciò non toglie che tutta la struttura del procedimento debba essere preordinata a rendere il più possibile approfundita e controllata la ricerca della verità, in modo che lo scarto tra questa e la verosimiglanza si riduca al minimo". CALAMANDREI, Piero.
Verità e verosimiglanza nel processo civile. In: Opere Giuridiche. Nápoli: Morano, 1972, p. 639-640, vol. V.
150 "O ideal cognitivo determinado do conceito de método consiste nisso: percorrer um caminho do conhecer com a consciência de ser sempre possível percorrer os mesmos passos. Methodos significa 'caminho da pesquisa, do percorrer de novo'. Ser, em termos profundos, de precorrer sempre de novo o modo como se procedeu anteriormente: é esse o ser propriamente metódico e que caracteriza o procedimento da ciência." Tradução do original: "L'ideale conoscitivo determinato dal concetto di metodo consiste in ciò: percorrere un cammino del conoscere con una tale consapevolezza da esser sempre possibile ripercorrerne i passi. Methodos significa 'via della ricerca, del ripercorrimento'. Essere in grado approfondire, di ripercorrere sempre di nuovo il modo in cui si è proceduto: è questo ciò che è propriamente metodico e che contrassegna il procedimento della scienza".
GADAMER, Hans-Georg. Che cos'è la verità? Soveria Mannelli: Rubbettino, 2012, p. 114.
151 "Eu chamei o critério de veracidade de critério 'central' ou 'fundamental' para a avaliação do sistema jurisdicional. Eu não disse, por outro lado, que a verdade é o único valor relevante. Outros valores, incluíndo a celeridade, os custos, e a não violação de direitos dos sujeitos envolvidos no processo (partes, testemunhas, jurados e outros). [...] A difícil questão é dizer como o valor de busca da verdade deve ser sopesado em comparação com esses outros valores. Este não é um problema que eu pretenda tentar solucionar. Isto está fora do escopo da epistemologia social. É suficiente para os meus propósitos demonstrar, como creio que tenha demonstrado, que a verdade é o valor primordial ou central da jurisdição." Tradução do original: "I have called the veritistic criterion a 'central' or 'fundamental' criterion for the evaluation of adjudication systems. I do not say, however, that truth is the only relevant value. Other values including speed, cost, and the nonviolation os independent legal rights of the role-players (parties, witnesses, jurors, and so forth). [...] The difficult problem is to say how the truth-getting value should be weighted as compared with these others values. This is not a problem I shall try to settle. It falls outside the scope of social epistemology. It is enought for my purposes to show, as I believe I have shown, that truth is a primary or central value in legal adjudication". GOLDMAN, Alvin I. Knowledge in a Social World. Nova Iorque: Oxford University Press, 1999, p. 284-285. No mesmo sentido, Giulio Ubertis: “A certificação de tal verdade não é portanto, em si e por si, o fim último do processo, mas – ‘compatível com os outros valores aplicáveis ao mesmo’ – o pressuposto para poder adequadamente decidir qual seja a lei aplicável ao caso concreto.” Tradução do original: “L’accertamento di tale verità non è
O reconhecimento destes limites não aniquila o reconhecimento da existência da verdade objetiva como valor processual, mas permite que se faça a análise de quais obstáculos são legítimos e quais devem ser reduzidos ou suprimidos e se impactam ou não na extensão da coisa julgada. Partimos do projeto ideal de processo cognitivo confiável, capaz de produzir crença verdadeira (conhecimento) ou tendente a produzir na maioria das vezes crença verdadeira de cognição plena e exaustiva, do qual redunde coisa julgada, apontando que este projeto é influenciado por redutores de cognição e, portanto, por redutores de imutabilidade.
Entendemos que a coisa julgada da sentença de julgamento de mérito ocorrerá nos limites do conhecimento produzido no processo. A cognição possui relação de proporcionalidade com a coisa julgada, pois somente haverá a coisa julgada acerca daquilo que foi conhecido (Capítulo 4 supra), pois estamos reconhecendo na presente tese que os cortes de cognição, como limites de conhecimento, vão gerar imutabilidade da sentença de julgamento de mérito na extensão do conhecimento que foi possibilitado às partes. Portanto, a presente tese se move impulsionada pela visão cognitiva do processo, pela necessidade de incremento de sua eficiência qualitativa, reconhecendo, no entanto, que este caminho não é linear ou absoluto, podendo ser desviado ou mesmo obstaculizado por limites cognitivos legítimos ou ilegítimos, o que afetará diretamente a imutabilidade da coisa julgada. Mas também isto não será absoluto pois o processo argumentativo apresentado não é linear, dependendo dos valores envolvidos em cada espécie processual avaliada (Capítulo 4.4, infra). É essa análise que os capítulos seguintes se propõem a realizar.
pertanto, in sé e per sé, il fine ultimo del processo, ma – ‘compatibilmente con gli altri valori implicate dal medesimo’ – il presupposto per poter adeguatamente decidere quale sia la legge applicabile nel caso concreto”.
UBERTIS, Giulio. Profili di Epistemologia Giudiziaria. Milão: Giuffrè, 2015, p. 03.
2 AS CARACTERÍSTICAS ESSENCIAIS E OS ELEMENTOS DA COGNIÇÃO PLENA E EXAUSTIVA