segunda condição: "a observância em concreto das formas e das regras processuais fixadas pela lei".
A justiça da decisão como direito do jurisdicionado deve permitir a revisão do julgado, excepcionalmente quando cumpridas determinadas condições, sob pena de lhe ser suprimida a proteção jurisdicional de tal direito. Isto não é novidade e não produziu a derrocada da coisa julgada, como pretendem determinadas teorias relativizadoras, e sempre esteve nas legislações ao longo dos séculos, como a restitutio in integrum, a actio nullitatis, e outros remédios, como nossa ação rescisória em vigor.
Pelo seu caráter analítico, adotamos a definição de Leonardo Greco, a seguir transcrita, acerca dos elementos ou das características essenciais da cognição, com algumas considerações interpretativas que passamos a expor. A partir da definição de Proto Pisani, Leonardo Greco300 construíu detida enumeração destes componentes, obrigando qualquer estudo acerca dos elementos da cognição a tomar esta definição como ponto de partida:
Seguindo os ensinamentos de Andrea Proto Pisani, em diversos escritos, e fiel ao meu compromisso com a mais ampla efetividade das garantias fundamentais do processo, aponto as seguintes características essenciais da cognição plena ou exauriente: 1) a predeterminação legal das formas dos atos processuais e dos prazos, assim como dos poderes, deveres e faculdades processuais das partes e do juiz; 2) a definição de uma sequência de atos que permita às partes propor fundamentadamente as suas demandas, exceções e argumentos, assim como demonstrar a sua procedência e a dos fatos que constituem o seu fundamento, em igualdade de condições; 3) a possibilidade de utilização de todos os meios de prova aptos a apurar a verdade dos fatos, tal como em qualquer outra área do conhecimento humano; 4) a predeterminação de um procedimento probatório apto a tornar efetiva essa possibilidade; 5) a predeterminação de prazos razoáveis de defesa das partes na fase introdutiva, no curso do processo e na fase decisória, assim como para a cognição adequada do juiz; 6) a realização plena do contraditório em forma antecipada, para que o provimento final do juiz somente seja proferido depois de que tenha sido garantida a ambas as partes a possibilidade de fazer valer todas as próprias defesas (exceções, proposições probatórias, demandas reconvencionais); 7) a efetiva possibilidade de pronunciamento conclusivo do juiz a respeito da verdade fática e do direito material das partes; e 8) a possibilidade de completo reexame da cognição do juízo de primeiro grau por um tribunal de grau superior; e 9) o acesso a tribunais de âmbito nacional para corrigir decisões contrárias à lei ou à Constituição.
Observando as características apontadas por Leonardo Greco, podemos distinguir ab initio aquelas que são aferíveis em abstrato, pois verificáveis através da lei, e aquelas que somente podem ser analisadas no processo em concreto, existente, em curso ou findo. Da primeira espécie, podemos destacar os itens 1), 2), 3), 4), 5), 8) e 9); e, da segunda, os itens 6) e 7).
Além desta classificação, também podemos distinguir componentes cognitivos pelo seu objeto. Temos assim, os elementos probatórios: 1) a predeterminação dos poderes, deveres e faculdades probatórias das partes; 3) a possibilidade de utilização de todos os meios de prova;
4) a predeterminação do procedimento probatório; 6) a possibilidade de utilização de todas as provas.
Quanto à manifestação das partes, temos o elemento cognitivo de participação e de influência das partes cumprindo o contraditório antecipado e participativo, previstos nos itens
300 GRECO, Leonardo. Cognição sumária e coisa julgada. Revista Eletrônica de Direito Processual, ano 6, n.
X, jul.-dez. 2012, p. 286.
1), 2), 5) e 6) da definição de Greco, e que ora resumidos da seguinte forma: a) a realização plena do contraditório em forma antecipada, após ter sido garantido de fato às partes a possibilidade de influir de forma satisfatória na construção da decisão do juiz; b) a predeterminação de prazos e de atos que permitam a manifestação das partes através de suas demandas, exceções e argumentos – enunciados propositivos ou proposições –, na fase introdutiva, na definição do objeto litigioso na decisão de saneamento, conclusões e avaliações acerca do que a outra parte ou o juiz disseram das provas produzidas; c) a fisiologia do processo com atos, prazos, poderes, deveres e faculdades processuais das partes e do juiz, adaptados mediante cooperação à cognição adequada.
Três das características essenciais da definição de Greco (1, 2, 4 e 5) exigem
“predeterminação” ou “definição de uma sequência de atos”. Esta predeterminação é evidentemente legal, de lege lata, não excluíndo, à evidência, a adaptabilidade como método de melhor qualidade epistêmica do que a adaptabilidade legal e rígida, como a adaptabilidade em concreto em cooperação entre as partes e o juiz acima defendida (Seção 2.2). Portanto, optamos pela redação do elemento cognitivo expressa na alínea c) no parágrafo anterior em detrimento da simples predeterminação legal.
Quanto a adaptabilidade em concreto, apesar de termos apontado como técnica qualificadora da geração de conhecimento no processo (Seção 2.2.2, supra), técnica epistêmica, portanto, a inexistência de sua previsão em um sistema processual a priori não gera limitação cognitiva capaz de subtrair o reconhecimento da coisa julgada material naquele caso, mas mera redução qualitativa do sistema cognitivo. Podemos dizer que um sistema processual é qualitativamente superior ao outro porque possui adaptabilidade em concreto, mas que ambos alcançam o mesmo produto: a prestação jurisdicional capaz de produzir coisa julgada. A diferença entre ambos está na qualidade do produto final: um de maior e outro de menor qualidade epistêmica. Disto não se exclui o ocaso do legislador criar um procedimento de tal forma inadequado à solução do conflito de interesses que pretende elidir, que possa gerar um corte cognitivo relevante e afastar a coisa julgada.
Outro elemento diz respeito à motivação da sentença pelo juiz quanto às questões de fato e de direito: 7) com possibilidade do raciocínio jurídico do juiz quanto às questões de direito e de fato propostas pelas partes. O elemento da motivação é um elemento de conteúdo da cognição, pois através dela é que o juiz exerce e demonstra seu conhecimento sobre os enunciados e provas, como também é objeto de conhecimento pelas partes e pelo tribunal ad quem. A motivação demonstra o que o juiz compreendeu e se torna, no mesmo instante, objeto de compreensão. É na motivação que estarão expressas as indissociáveis atividades de
conhecimento e julgamento necessárias à cognição plena e exaustiva. Alvissareira a norma do
§ 1° do artigo 489 do CPC/2015, que determina, sob pena de nulidade, fundamentação analítica das decisões, exigindo, por exemplo, o enfrentamento de “todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador”. Neste segundo sentido, a fundamentação é um importante elemento de controle da cognição no processo, como também o é o elemento impugnativo, presente nos itens 7), o duplo grau de jurisdição, com a real possibilidade de revisão do julgamento pelo tribunal, e 8), acesso à função nomofilática dos tribunais superiores.
Os elementos da motivação e impugnativo são elementos que possuem a natureza de controlabilidade, ou seja, que qualificam a busca do conhecimento mediante o controle do sistema (processo) de produção do conhecimento. Os critérios de controle são indispensáveis à cognição no processo como elementos hermenêuticos, através dos quais o intérprete avalia a correção das hipóteses colocadas para julgamento, evitando decisões arbitrárias e alcançando solução interpretativa do caso, justificada e defensável em uma dimensão pública e intersubjetiva.301 A busca da verdade como paradigma procedimental da cognição, como função reguladora302 ou seu ideal regulador303, exige que o processo epistêmico procure a certeza do direito a partir de um método (processo) confiável porque controlado. Tuzet, analisando o sistema jurídico italiano, indica como critérios de controle presentes no sistema legal (abstrato) as normas de direito objetivo que determinam o procedimento probatório de maneira eficaz, a avaliação das provas, o contraditório, a colegialidade do juízo, diversos graus de julgamento e a motivação. Assim, podemos somar ao contraditório (Seção 1.8, supra, e item 6 da definição de Leonardo Greco) e aos elementos da motivação e recursais a predeterminação de um procedimento probatório (item 4 da enumeração de Leonardo Greco), como componentes de controle da cognição plena e exaustiva.
O elemento impugnativo é absolutamente indispensável para a caracterização da cognição como plena e exaustiva. É histórica a controvérsia acerca da eficiência ou não de um segundo julgamento e os muitos fundamentos das doutrinas contrapostas.304 Mas a necessidade
301 TUZET, Giovanni. Filosofia della prova giuridica. Torino: Giappichelli, 2013, p. 15.
302 MARSONET, Michele. Verità, Scienza e Diritto. AMORETTI, Maria Cristina; MARSONET, Michele (Coord.). Conoscenza e verità. Giuffrè: Milão. 2007, p. 156.
303 TUZET, Giovanni. Filosofia della prova giuridica. Torino: Giappichelli, 2013, p. 100.
304 Para tanto, vide a enumeração de Laércio Becker. Duplo grau: a retórica de um dogma. In: MARINONI, Luiz Guilherme (coord.). Estudos de Direito Processual Civil – homenagem ao Professor Egas Dirceu Moniz de Aragão. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005, p.142-151. TEDOLDI, Alberto. I motivi specifici e le nuove
de controle da primeira decisão e a possibilidade de segunda cognição acerca da mesma controvérsia são fundamentos que nos parecem suficientes para reconhecermos o duplo grau de jurisdição como elemento cognitivo indispensável. Quando o juiz é sabedor de que sua decisão poderá ser submetida à crítica do tribunal, e que, portanto, não subsistirá soberana e inconteste, essa consciência representa efetivo e necessário controle da cognição, mediante a contenção do arbítrio. Para a decisão autoritária, a verdade é despicienda e a motivação ocasional não tem razão de ser.Recordamos, principalmente, o fevoroso defensor deste necessário elemento, Lucio Lanfranchi305:
[...] quer dizer, a rígida garantia constitucional, não modificável de modo pejorativo nem mesmo com o processo qualificado do artigo 138 Constituição, da tutelabilidade jurisdicional dos direitos, sem exceções e de direito, seguida do ordinário controle de legitimidade na Cassação e idônea, em virtude desta dupla possibilidade de juízos assim estruturados, para produzir coisa julgada formal e substancial, de acordo com os artigos 324 CPC e 2099 CC.
O elemento impugnativo abarca não só o direito de recorrer como também outras formas de impugnação das decisões judiciais, como a ação rescisória, o mandado de segurança e ações de complementação da cognição. Assim, dentre os elementos impugnativos, devemos acrescer a existência de ações impugnativas (rescisória e actio nullitatis) de coisa julgada viciada por déficits de cognição e ações de complementação de cognição.
Como a motivação, além da função de controle, o elemento impugnativo também é de conteúdo, pois, evidentemente, há cognição no segundo julgamento, substitutiva do julgamento de primeira instância (artigo 512, CPC/1973). A justificativa de os tribunais serem compostos por juízes mais experientes e habilitados não é suficiente para sustentar a existência de dois graus de jurisdição, mas, por outro lado, a possibilidade de se ter nova cognição após o primeiro pronunciamento jurisdicional, acompanhada da crítica da parte recorrente, certamente é superior epistemicamente ao grau único.306
prove in appello dopo la novella "iconoclasta" del 2012. Rivista di Diritto Processuale. Padova: CEDAM, ano LXVIII, n.1, 2013, pp. 145-164.
305 Tradução do original: "... vale a dire, la rigida garanzia costituzionale, non modificabile in modo peggiorativo neppure con la procedura qualificata dell’art. 138 Cost., della tutelabilità giurisdizionale dei diritti, senza eccezione alcuna, con almeno un grado di cognizione ordinaria piena ed esauriente in fatto ed in diritto, seguita dall`ordinario controllo di legittimità in Cassazione ed idonea, in virtù di questa doppia possibilità di giudizi così strutturati, a produrre il giudicato formale e sostanziale, di cui agli artt. 324 CPC e 2909 c.c.". LANFRANCHI, Lucio. Giusto processo civile e procedimenti decisori sommari. “Pregiudizi Illuministici” e “ Giusto Processo” Civile. 2. ed. Torino: G.
Giappichelli Editore, 2001. p. 3.
306 "A apelação de fundamentação livre, com a possibilidade de fazer valer seja a ilegitimidade seja a injustiça do provimento impugnado, é instrumento para correta composição da controvérsia também sob o plano da
reconstrução fatual, independente da concepção epistêmica ou retórico-persuasiva que se tenha do fenômeno probatório no processo civil. O método de refutar e de falsificar as hipóteses fatuais, que se dá através dos motivos específicos do apelo de modo não diverso do critério epistêmico de matriz popperiana, contribui para depurar e moldar a impureza e vícios da decisão, no seu cansativo caminho em direção à verdade (processual,
A cognição de segundo grau pode ser avaliada, também, a partir do confronto entre a eficiência cognitiva dos dois sistemas de apelo que dividem a história: o nosso sistema de apelo revisio prioris instantiae, apelação como mera revisão da sentença, ou o sistema do novum iudicium, nascido no ano de 520 d.C. com a Constituição de Giustiniano, superado pelo Código austríaco de 1895 de Franz Klein e vivo até 1940 no direito italiano307, que permite não só o ius novorum, com a apresentação de novas alegações, provas e fatos no grau superior, mas todo um novo julgamento.
A renovação de todo julgamento pode atentar contra a duração razoável do processo, mas a experiência do novum iudicium, que durante tanto tempo preponderou no direito processual de matriz romano-germânica, pode valer para atentarmos que a maior liberdade probatória em grau de recurso, permitindo e mesmo incentivando a formação de convicção no tribunal, mediante a propositura de novas provas ou a repetição das provas produzidas na primeira instância, pode qualificar a cognição e evitar decisões injustas. A gravação das audiências de primeira instância e a sua reprodução em segunda instância são medidas redutoras do déficit cognitivo diante da inexistência da imediatidade no tribunal.
Quanto ao acesso aos tribunais superiores, entendemos que se trata de um componente da cognição quando presentes os requisitos de admissibilidade dos recursos excepcionais. O julgamento pelos tribunais superiores não se configura em mero julgamento objetivo, para exercício da função nomofilática308, de caráter unicamente público, para a defesa do direito objetivo. Como ressaltado por Lenio Streck309, o julgamento pelos Tribunais Superiores é de
entenda-se) e a estabilidade do julgado com a confiança que ao menos um reexame integral do fato possa remover a insuficiência cognitiva do primeiro juízo, segundo a fórmula do Fehlerkalkül do vienense Merkel."
Tradução do original:"L´appello a critica libera, con la possibilità cioè di far valere sia l´illegittimità sia l´ingiustizia del provvedimento impugnato, è strumento per la correta composizione della controversia anche sul piano della ricostruzione fattuale, indipendentemente dalla concezione epistemica piuttosto che retorico-
persuasiva che s´abbia del fenomeno probatorio nel processo civile. Il metodo di confutazione e di falsificazione dell´ipotesi fattuale, che s´attua attraverso i motivi specifici di appello in guise non dissimili dal criterio epistemologico di matrice popperiana, contribuisce a depurare e mondare da impurità e vizii le statuizioni decisorie, nel loro faticoso cammino verso la verità (processuale, s´intende) e verso la stabilità del giudicato con l´affidamento che almeno un riesame integrale del fatto possa rimuovere le insufficienze cognitive del primo giudizio, secondo la formula del Fehlerkalkül del viennese Merkel". TEDOLDI, Alberto. I motivi specifici e le nuove prove in appello dopo la novella "iconoclasta" del 2012. Rivista di Diritto Processuale. Padova:
CEDAM, ano LXVIII, n.1, 2013, p. 147.
307 TEDOLDI, Alberto. I motivi specifici e le nuove prove in appello dopo la novella "iconoclasta" del 2012. In:
Rivista di Diritto Processuale. Padova: CEDAM, ano LXVIII, n.1, 2013, p. 155.
308 Sobre o tradicional entendimento da natureza nomofilática das Cortes superiores vide CALAMANDREI, Piero. La Cassazione civile. II. Disegno generale dell’istituto (1920). Opere Giuridiche, vol. VII, Napoli:
Morano, 1983, p. 57 ss.
309 STRECK, Lenio Luiz. Verdade e Consenso. Constituição, Hermêneutica e Teorias Discursivas. Rio de Janeiro: Lumen Iuris. 2006, p. 83-89.
aplicação da norma ao fato, como qualquer outro, sendo facultado pelo legislador e, inclusive, assegurado pela Constituição, o acesso a estes tribunais, o que não pode ser cerceado por obstáculos ilegítimos.310 Se há rejulgamento – como ocorre no Supremo Tribunal Federal e no Superior Tribunal de Justiça – e se esse julgamento vai influenciar no patrimônio jurídico de alguém, há cognição da qual a parte não pode ser subtraída sem hipótese justificada de não cabimento.
São inconstitucionais, portanto, os conhecidos filtros contra a admissibilidade dos recursos excepcionais, agora incorporados na legislação através do CPC/2015311. Não é admissível, por exemplo, o não cabimento de recurso especial contra as decisões das turmas recursais dos juizados especiais cíveis estaduais312 (Lei nº 9.099/95), simplesmente porque o artigo 105, III, da CR utiliza a palavra “tribunais”, o que não ocorre no artigo 102, III, que diz respeito ao recurso extraordinário. Trata-se de método hermenêutico literal, ultrapassado, que não fica de pé diante da garantia à cognição adequada, à isonomia e ao direito ao recurso excepcional previsto na própria CR. A admissibilidade da reclamação normatizada pela Resolução nº 12, de 14/12/2009, do Superior Tribunal de Justiça, mitiga este déficit cognitivo ao viabilizar alguma forma de correção de aplicação equivocada da norma federal em sede de juizados especiais estaduais.313
310 GRECO, Leonardo. Garantias Fundamentais do Processo: O Processo Justo. Estudos de Direito Processual.
Campos dos Goytacazes: Faculdade de Direito de Campos, 2005, p. 257-261.
311 FARIA, Márcio Carvalho. A jurisprudência defensiva dos tribunais superiores e a ratificação necessária (?) de alguns recursos excepcionais. Revista de Processo. São Paulo: Revista dos Tribunais, n. 167, jan. 2009, p. 250- 270.
312 Súmula nº 203: Não cabe recurso especial contra decisão proferida por órgão de segundo grau dos Juizados Especiais. Disponível em: <www.stj.jus.br>. Acesso em: 13 jun. 2015.
313 “Rcl 12382 / DF RECLAMAÇÃO 2013/0118087-6 Relator(a) Ministra ASSUSETE MAGALHÃES (1151) Órgão Julgador S1 - PRIMEIRA SEÇÃO Data do Julgamento 13/08/2014 Data da Publicação/Fonte DJe 21/08/2014 Ementa PROCESSUAL CIVIL. RECLAMAÇÃO. ACÓRDÃO PROFERIDO POR TURMA RECURSAL DO JUIZADO ESPECIAL DA FAZENDA PÚBLICA. SUPOSTO DISSÍDIO COM SÚMULA DO STJ. LEI 12.153/2009. REGIME PRÓPRIO DE SOLUÇÃO DE DIVERGÊNCIA. ARTS. 18 E 19 DA LEI 12.153/2009. PEDIDO DE UNIFORMIZAÇÃO DE INTERPRETAÇÃO DE LEI, ENDEREÇADO AO STJ.
INADMISSÃO, PELO PRESIDENTE DA TURMA DE UNIFORMIZAÇÃO LOCAL. USURPAÇÃO DE COMPETÊNCIA. PRECEDENTES DO STJ. I. A Reclamação é ação de natureza constitucional, que assegura a preservação da competência desta Corte ou a garantia da autoridade de suas decisões, conforme dispõem o art.
105, I, f, da Constituição Federal e o art. 187 do RISTJ. Relativamente aos Juizados Especiais Estaduais (Lei 9.099/95), o Supremo Tribunal Federal decidiu que, enquanto não criado, por lei federal, um Órgão
uniformizador da jurisprudência oriunda dos Juizados Especiais Estaduais, o Superior Tribunal de Justiça ficará encarregado da resolução das controvérsias, devendo sua jurisdição ser provocada por meio de Reclamação (STF, EDcl no RE 571.572/BA, Rel. Ministra ELLEN GRACIE, TRIBUNAL PLENO, DJe de 27/11/2009).
Nesse contexto, o STJ, pela Resolução 12, de 14/12/2009, prevê a admissibilidade da Reclamação, para "dirimir divergência entre acórdão prolatado por turma recursal estadual e a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, suas súmulas ou orientações decorrentes do julgamento do art. 543-C do Jurisprudência/STJ - Acórdãos Página 1 de 3 Código de Processo Civil". II. A Lei 12.153/2009, em seus arts. 18 e 19, enumera, de modo taxativo, as restritas hipóteses em que cabível impugnação contra acórdão de Turma Recursal do Juizado
A uniformização do entendimento jurisprudencial exercida pelos tribunais superiores é forma de se obter a certeza de aplicação do direito314, segunda condição de Taruffo para uma decisão justa: a correta aplicação da lei ao caso concreto. Assim, se subtrairmos de maneira desarrazoada o acesso à uniformização, retirando da parte a certeza quanto ao direito, lhe suprimimos a cognição jurídica, criando desigualdade quanto a interpretação da norma federal ou constitucional. O "direito vigente", portanto, seria aplicado às partes de processos aos quais a lei facultasse o acesso à função nomofilática dos tribunais superiores, alijando os infortunados da aplicação isonômica do direito.315 O acesso à função nomofilática dos tribunais superiores é imposição do Princípio da Igualdade ou Isonomia (artigo 3º, CR) que, além de produzir injustiça por incorreção, produz injustiça por desigualdade.
Definidas as classificações dos elementos da cognição como em abstrato ou em concreto e de acordo com o seu objeto, é necessário que façamos a correlação entre estas classificações, de acordo com a Seção 2.3, supra, para verificar a pertinência do metódo. Podemos observar,
Especial da Fazenda Pública: prevê o Pedido de Uniformização de Interpretação de Lei, quando Turmas de Juizados Especiais da Fazenda Pública de diferentes Estados derem, à lei federal, interpretações divergentes ou quando a decisão proferida contrariar súmula do Superior Tribunal de Justiça, ou quando Turma de
Uniformização do mesmo Estado proferir decisão em contrariedade a súmula do STJ (art. 18, § 3º, e art. 19 da Lei 12.153/2009). III. In casu, não obstante ter sido denominado de "Pedido de Uniformização de
Jurisprudência", extrai-se dos autos que o pedido foi feito com fundamento no art. 18, § 3º, da Lei 12.153/2009 e apresentado perante o Presidente das Turmas Recursais dos Juizados Cíveis, Criminais e da Fazenda Pública do Distrito Federal, constando, ainda, expresso requerimento do seu encaminhamento ao STJ. IV. Considerando que o pedido de Uniformização de Interpretação de Lei, formulado com suporte no art. 18, § 3º, da Lei 12.153/2009, foi endereçado ao STJ, o indeferimento do processamento, pelo Presidente da Turma de Uniformização local, representou indevida usurpação de competência desta Corte, pela autoridade reclamada, razão pela qual a presente Reclamação deve ser julgada procedente. Precedentes: Rcl 14.176/DF, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA SEÇÃO, DJe de 20/05/2014; Rcl 13.592/DF, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA SEÇÃO, DJe de 29/10/2013; Rcl 12.381/DF, Rel. Ministro HERMAN
BENJAMIN, PRIMEIRA SEÇÃO, DJe de 18/09/2013; Rcl 12.810/DF, Rel. Ministro ARI PARGENDLER, PRIMEIRA SEÇÃO, DJe de 14/10/2013. V. Reclamação procedente.”
314 "Para indicar somente aquele (um dos valores da uniformização de jurisprudência) a quem se faz mais referência se pode recordar antes de tudo a exigência de assegurar a certeza do direito, dado que uma jurisprudência uniforme evita a incerteza na interpretação acerca do direito e a consequente variedade e variabilidade da decisão judiciária." Tradução do original: “Per indicare solo quelle a cui si fa più spesso riferimento si può ricordare anzitutto l’esigenza di assicurare la certezza del diritto, dato che una
giurisprudenza uniforme evita l’incertezza nell’interpretazione del diritto e la conseguente varietà e variabilità delle decisioni giudiziarie”. TARUFFO, Michele. Le funzioni delle corti supreme tra uniformità e giustizia.
Palestra ministrada na Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, em 2014.
315 "Sobre o plano geral dos princípios reguladores do ordenamento, a tendencial fidelidade ao precedente jurisprudencial que por sua constante reafirmação formam o 'direito vivo' representa uma projeção do princípio da igualdade e da certeza das relações jurídicas. Ao contrário a mutação e a imprevisibilidade da jurisprudência criam situações de desigualdade e geram incerteza nas relações jurídicas." Tradução do original: "Sul piano generale dei principii regolatori dell'ordinamento, la tendenziale fedeltà ai precedente giurisprudenziale che per la loro costante riaffermazione formano il 'diritto vivente' rappresenta una proiezione del principio di
eguaglianza e di certezza dei rapporti guridici. Al contrario la mutevolezza ed imprevedibilità della
giurisprudenza creano situazioni di diseguaglianza e ingenerano incertezza nei rapporti giuridici". AMOROSO, Giovanni. La Corte di cassazione ed il precedente. In: ACIERNO, Maria; CURZIO, Pietro; GIUSTI, Alberto (coord.). La Cassazione civile. Lezione dei magistrati della Corte suprema italiana. Bari: Cacucci, 2015, p. 52.