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A centralidade do modelo biomédico

No documento Ana Carolina Lopes Neves (páginas 116-120)

4.2 Análise de conteúdo temático-categorial das entrevistas

4.2.1 Categoria 1 – Processo de trabalho

4.2.1.1 A centralidade do modelo biomédico

... pelo que eu tenho, quem atende hipertenso e diabético é a médica, não tem consulta com o enfermeiro; o que a gente tem, que eu acho que não tava sendo feito, eram grupos. (ENF U2)

Eles têm um dia só pra eles, que a gente classifica como HiperDia, que é pra hipertenso e diabético, no mesmo dia, que é segunda-feira o dia inteiro. São disponibilizados [pausa] 24 vagas por dia, mais é [...] 8 vagas de encaixe pros que tão descompensados, medicação acabou... enfim, aí eles vem aqui no balcão no dia e pedem encaixe e a gente sempre dá um jeitinho pra eles. (MÉD U2)

Eles têm atendimento [médico], eles recebem medicação, eles saem daqui...já com a consulta...a clínica faz todos os exames... eles podem tá verificando a glicemia, e...

[...] então assim, eu creio que... abrange aquilo que a... que a Prefeitura em si espera.

Aqui o atendimento ao hipertenso e diabético é só médico, clínico. Quanto às técnicas de enfermagem, a gente tem a aferição de pressão, curativo, vacina... (ACS 1 U2)

Essa parte aqui eu acho bem, bem, assim, equilibrada. A gente tem a parte do [...] da doutora, que faz HiperDia, né... [...] acho que essa parte aí a gente tá [...] fazendo um trabalho legal... Ah, a doutora que encaminha pra doutora... Clínica geral... aí se ela conseguir fazer o tratamento, acompanhar, continua aqui com a gente; se não, ela encaminha pro especialista. (TÉC. ENF 2 U2)

[...] É igual a essa reunião que teve aqui né [grupo educativo para usuários com HAS e DM], nunca mais tinha tido! Nunca mais tinha tido reunião dos hipertensos ... uns anos atrás ainda tinha [...] O que que dificulta? Eu acho que é justamente esse grupo.

Eu acho que se tivesse... essa orientação que a gente dá individualmente mesmo aqui. Se fosse assim, num salão, cada um contando sua dificuldade, cada um contando seus problemas... tem muitos que não sabe ler. (TÉC. ENF 1 U1)

Porque não tem a prevenção. Porque é aquilo que te falei no início, lá trás. A população não aceita que um dia pode ficar doente, que o que você vê no médico é pra prevenir, não é pra curar. (ACS4 U1)

Uma fala que se destacou dentre as selecionadas, é de um auxiliar administrativo de uma das unidades quando questionado acerca de profissionais com capacidade decisória em todo esse processo de atendimento ao paciente com hipertensão e diabetes:

Eu acho que só a médica. Porque geralmente eles vêm aqui só por causa de receita, encaminhamento. Se não tiver a médica, não tem... realmente é o que interessa eles aqui. (AUX. ADM. 1 U1)

Houve certa dificuldade para seleção das falas a destacar para esta subcategoria, já que as percepções voltadas ao modelo biomédico eram diversas, com a maior parte dos profissionais (aproximadamente 70% dos que apresentaram resposta referente a este modelo) se referindo às características deste modelo como ideal, “tudo” que o paciente necessita.

O destaque do modelo biomédico no processo de trabalho na ESF não é novidade nos estudos acadêmicos. Em 2005, Matumoto et al. afirmaram que, mesmo outrora, após onze anos da existência do PSF, ainda havia questionamentos quanto a prática cotidiana dos PSF’s

no que tange à reformulação do modo de pensar e fazer saúde considerando que em diversas das vezes, suas estruturas continuavam voltadas ao modelo tradicional biomédico que corrompe o processo de trabalho cotidiano. Com relação a isto, Brasil (2001) no Guia do Programa Saúde da Família, já havia pontuado que não se consegue transformar o “espaço potencial” em “espaço real”, continuando-se a reiterar o modelo do paradigma biomédico.

Em 2013, Da Silva abordou em sua discussão acerca do processo de trabalho e o modelo biomédico relatando que este é focado na queixa do usuário não permitindo, de certo modo, a aproximação necessária entre profissional-usuário, o que impede com que o ato do cuidar seja de fato realizado. O autor afirma ainda que para a produção do cuidado necessita- se de orientação do processo de trabalho pelas relações estabelecidas entre profissionais e usuários no momento do encontro. Se este encontro for mediado por uma escuta qualificada a qual permita a observação das necessidades do usuário, vínculo e responsabilização, será potencializado (DA SILVA, 2013).

Com base nestas informações, pode-se analisar que os profissionais pesquisados apresentaram falas que correspondem ao modelo biomédico quando se referem aos cuidados ou ações estratégicas da unidade para com o usuário com hipertensão e diabetes. Os mesmos citam as consultas e a renovação de prescrição medicamentosa, explicitando que há, portanto,

“uma ação sanguessuga”, já que o modelo que necessita ser modificado “suga as forças desta estratégia de reformulação em sua arma mais poderosa que são as práticas de saúde”; práticas de saúde influenciadas pelo tradicional paradigma o qual o conceito de saúde é considerado em sua negatividade, pensando a saúde enquanto a ausência de doença, dor ou morte, com a organização dos serviços medicamente definida (MATUMOTO et al, 2005).

Havendo tantas respostas voltadas a esta subcategoria, vê-se que o capital cultural destes profissionais está mais voltado à prática biomédica, podendo estes até fazerem críticas a este modelo, porém no momento da prática, sua atuação sendo voltada para tal realidade. O capital cultural e o habitus se expressam na prática, realidade visualizada através destes profissionais. Estes visam atender, garantir o acesso à demanda (cada vez em maior número devido à cultura do modelo), o que leva à assistência voltada às queixas e principais necessidades, e à forma mecanizada de cuidar. Logo, pode-se perceber esta característica do sistema como uma que afeta toda a assistência e cuidado ao usuário.

A ação educativa de prevenção de doenças e agravos e promoção da saúde não ocorre com frequência nas unidades estudadas, sendo realizada em 1 das unidades no episódio das entrevistas, como estratégia do enfermeiro para que reunir os usuários para serem entrevistados. Este fato ratifica, já em 2018, aquilo que foi afirmado novamente por Brasil

(2001), quando pontuou que corria-se o risco de que, influenciados pelo processo de trabalho, na alta demanda, na necessidade de resolutividades rápidas, e na cobrança da população por um pronto atendimento, os enfermeiros deixariam de se focar nas estratégias de prevenção e promoção de saúde, já que a forma como a pessoa vive e trabalha não seria considerada como sendo desencadeante ou condicionante do processo saúde-doença (BRASIL, 2001).

A realidade evidenciada, indiscutivelmente afeta a longitudinalidade da assistência aos usuários das linhas de cuidado estudadas, considerando que estes não possuem acesso às ações, educação em saúde e logo, informações acerca da promoção da saúde e prevenção de agravos relacionados à HAS e DM, agravos estes evitáveis. Além disto, temos o fato de que o vínculo usuário-equipe se torna prejudicado partindo do pressuposto que ao haver menos ações de saúde, há diminuição do contato entre profissionais e usuário e, logo, diminuição da criação e/ou fortalecimento do vínculo, e menor possibilidade de a equipe ser vista como referência à retirada de dúvidas quanto aos cuidados em saúde.

Outro ponto negativo que afeta a longitudinalidade a estes usuários, é o provável fortalecimento da compreensão destes quanto à cultura biomédica, levando os mesmos a compreenderem que este modelo de assistência é somente o que necessitam para sua saúde.

Esta realidade tende a influenciar no fluxo de trabalho dos profissionais. Isto não somente devido às suas práticas voltadas a este modelo, como, de igual forma, devido ao aumento do número de demandas espontâneas por procuras devido à “presença de doença” ou alterações em saúde, em busca do atendimento médico em consultório.

Neste tipo de modelo, o usuário tende a não ser olhado como um todo, porém como um “ser” com presença ou ausência de doença.

Realizando a interligação entre a ARS e a análise realizada neste subcapítulo, percebe- se, na análise de rede das unidades estudadas, o alto grau de Centralidade representado pelas médicas, possuindo na Unidade 1 o mais alto grau; e na Unidade 2, grau equivalente somente ao do enfermeiro. Este destaque nas Redes quanto às médicas de ambas unidades aponta para a centralidade do modelo biomédico apresentado. Estes resultados podem nos conduzir aos seguintes questionamentos: se não fosse o domínio do modelo biomédico, seria o médico o profissional de maior grau de centralidade? Se houvessem mais ações educativas, promoção e prevenção à saúde, seria ainda o médico o profissional com maior centralidade de grau?

O fato de a consulta no município ser realizada somente com a categoria médica pode fortalecer e contribuir para centralidade do modelo assistencial e para centralidade do profissional na rede; fato criticado, porém evidenciado como central na fala dos participantes.

No documento Ana Carolina Lopes Neves (páginas 116-120)