O contexto de modernização industrial promovido pelos governos na- cionalistas dos presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, du- rante os anos do populismo, promoveu grande deslocamento de mão de obra vinda das mais diferentes regiões do país para o sudeste. Mar- celo Ridenti (1993) afirmou que a sociedade brasileira viveu um dos processos de urbanização mais rápidos da história mundial. Essa trans- formação teria criado novos problemas e demandas trabalhistas, polí- ticas, econômicas e sociais.
Osasco, bairro paulistano, atraiu grande número de migrantes para trabalhar nas empresas que se instalavam devido ao barateamento de terrenos e à proximidade com a ferrovia. A descrição que Orlando Miranda apresentou em seu livro Obscuros Heróis de Capricórnio (1987) sobre a organização espacial das fábricas colabora para a visualização do cenário industrial a partir de então:
No triângulo incrustado, a cidade; no anel à sua volta, as fábricas. Perto da estrada de Itu ficam a Lonaflex, o Moinho Santista, a Eternit, a Brow Boveri, a Charleroi, o Frigorífico Wilson, a Adamas, a Serraria Morais Pin- to, a Osram, a Granada, a White Martins, a Cimaf, a
Rilsan, para citar as maiores. Completando o anel, pelo lado da ferrovia, a SOMA [...], a Hervy. [...] uma delas bem no centro, o Cotonifício Beltramo [...]; a outra, respeitando o anel, tem uma entrada às margens da ferrovia, na rua da Estação, mas, por ser muito gran- de, a maior de todas, projeta-se até a Avenida João Batista, e a atravessa para colocar do outro lado sua associada menor, a Braseixos. É a companhia Brasi- leira de Material Ferroviário, “Cobrasma”. (MIRANDA, 1987, p. 13)
A presença de tantas fábricas em Osasco, segundo Cibele Saliba Rizek (1988), pode ser explicada como parte do processo industrial e modernizante promovido pelo Estado populista, após a Segunda Guer- ra Mundial, procurando atender a demanda de produtos e serviços e devido à atração por grandes e baratos terrenos. Empresas como Cobras- ma (1944), Cimaf (1946), Lonaflex (1951) e Braseixos (1959) modifica- ram o perfil dos habitantes locais com a exigência por mais trabalhado- res, que se deslocavam do Nordeste e do Sul do país, ou do interior do estado de São Paulo, em busca de emprego. Diferente da primeira leva de imigrantes que ocupou a região central de Osasco, entre as ruas Antonio Agu e Primitiva Vianco, os recém-chegados foram morar em locais mais distanciados como Vila dos Remédios, Jardim Abril, Km 18 e Presidente Altino, ou nas cidades próximas e ainda mais pobres, como Itapevi, Carapicuíba e Barueri. Os problemas com infra-estrutura, como falta de esgoto, transporte e luz elétrica, eram característicos desses lu- gares, além de sofrerem com o olhar preconceituoso da elite local.
Hirant Sanazar, descendente da colônia armênia que ocupou o bairro de Presidente Altino e primeiro prefeito de Osasco no ano de 1962, demonstrou com clareza essa diferenciação ao descrever cada povo que chegava à cidade:
Em São Paulo predominaram os italianos, embarca- dos em Gênova, na Lombardia e na Calábria e aqui em Osasco se multiplicaram na área central, e jamais deixaram de colaborar com o seu desenvolvimento, enquanto seus descendentes continuam a obra funda- mental dos fundadores da vila. [...] Os espanhóis não
se ativeram especificamente a uma profissão, mas são hábeis comerciantes e se integraram com aquele espí- rito alegre e envolvente.[...] (Os nordestinos) esfalfa- dos pelo desemprego, pela miséria, a doença, com olha- res vazios projetados para “o imenso nada”, comendo e bebendo aqui e acolá em condições desumanas e in- crivelmente agressivas para sua dignidade. [...] Seu destino? A grande e avassaladora Capital do maior Estado do País e suas cidades-satélites, notadamente Osasco (SANAZAR, 2003, p. 44-65)
O texto tratou de estrangeiros – árabes, portugueses, espanhóis, armênios e italianos como contribuidores/fundadores da cidade, enquan- to os nordestinos foram descritos como aqueles que nada puderam ofe- recer, destituídos de qualquer humanidade. Embora sua presença seja marcante em Osasco até a atualidade, são poucas ainda as referências a eles na arquitetura e nas ruas. Nesse grupo de migrantes, filhos de cam- poneses e trabalhadores rurais incluía-se a maior parte dos operários que se empregou na Cobrasma, dentre eles o pernambucano Inácio Pereira Gurgel, o baiano José Campos Barreto, o paranaense Roque Aparecido da Silva e os interioranos José Groff, João Cândido, Antonio Roberto Espinosa, José Ibrahin e João Joaquim. A exigência de maior qualificação e especialização dos trabalhadores feita pelas novas fábri- cas fez com que alguns deles também procurassem estudar, disputando as poucas vagas escolares existentes e dividissem a mesma sala com os filhos da elite osasquense.
Sônia Regina Martim (2006), que pesquisou sobre a criação da esco- la secundária em Osasco, destacou a transformação sofrida pelo ensino, a partir da década de 1950, com as reformas educacionais e a prolifera- ção de colégios pelo estado de São Paulo. Esse processo, necessário para a expansão e qualificação de algumas indústrias, minimizou a divisão entre uma elite escolarizada e as camadas pobres e analfabetas de tra- balhadores. A criação, em 1952, do Ginásio Estadual de Osasco ou Gru- po Escolar Antonio Raposo Tavares (mais tarde conhecido como Ceneart), e em 1958, do Ginásio Estadual de Presidente Altino (Gepa), rompeu com o monopólio educacional dos colégios privados, Duque de Caxias e Nossa Senhora da Misericórdia, reduto dos mais abastados.
O curso noturno permitiu que se desenvolvesse o que Francisco Weffort (1972) e Helena Pignatari Werner nomearam “operário-estu- dante”.10 Ele seria aquele que vivenciou ao mesmo tempo a leitura de clássicos da filosofia e história, o teatro promovido pelos grêmios, os embates políticos, além de experimentar as dificuldades da produção e o enfrentamento com o patrão, na indústria.11 Ganhou importância, nesse sentido, o método de alfabetização do educador Paulo Freire, praticado por Helena, além das aulas de História, que descreveu como “momento mágico” de descoberta do mundo pelos seus alunos.
A variação de idades, classes e gêneros no mesmo espaço permitiu aprendizagem mútua, embates ideológicos e confronto entre visões de mundo dadas pelas diferentes classes e gerações de habitantes osasquenses: a primeira, constituída pelos já estabelecidos descenden- tes de imigrantes italianos, comerciantes e profissionais liberais, con- servadores politicamente; e a segunda, constituída por um grupo mais jovem que construiu sua identidade nessa transição entre o espaço fa- bril e a escola, ocupando espaços públicos e criando formas de negoci- ação de direitos ou enfrentamento que mais tarde resultaram na for- mação da União dos Estudantes de Osasco e da comissão de fábrica da Cobrasma. Além da oposição emblemática centro/periferia na configu- ração osasquense, essa tensão na composição política interna deve ser notada, pois ainda permanecem resíduos dela no presente.
A partir dos anos 1960 o crescimento populacional em Osasco foi muito grande, com taxa anual de 10, 8% ao ano, contra 5,7% no muni- cípio de São Paulo.12 Tornou-se lugar para o qual as pessoas voltavam para dormir, após trabalharem fora. Mesmo com o desenvolvimento industrial, o número de vagas nas fábricas locais ainda era pequeno e
10 Este termo apareceu no texto de Weffort (1972) para designar os descendentes dos operários italianos que formaram o operariado e que estudavam à noite no Cene- art. Outros trabalhos, como o de Rizek (1988) e de Couto (2003), adotaram essa designação.
11 Martim observou que os alunos organizaram um jornal, o Bacamarte, pelo qual discutiam política, e também possuíam grupos de estudos, atividades recreativas e realizavam leituras como as obras de Machado de Assis, Vitor Hugo, Dostoievski e Karl Marx. (MARTIM, 2006)
12 Dados extraídos do Plano Urbanístico Básico de Osasco da Prefeitura Municipal, novembro de 1966, p. XIV.
não conseguia absorver a quantidade significativa de migrantes que chegavam, agora não mais estrangeiros e sim famílias que vinham do nordeste e do sul do país, assim como aquelas que fugiam dos altos aluguéis e dos preços exorbitantes das moradias nas regiões centrais.
Osasco desenvolveu-se como periferia de São Paulo até os anos 1960 e, apesar de crescer demograficamente, não recebia nenhum in- vestimento, divorciado que era do centro da cidade como “subúrbio- estação”. Cibele Saliba Rizek, em sua dissertação de Mestrado (1988), apontou Osasco como bairro excluído do “mundo civilizado” e burguês, separado dele pela “muralha da distância” quebrada apenas pela exis- tência da ferrovia. O loteamento de terrenos distantes da especulação imobiliária atraiu moradores que dimensionaram suas vidas em torno das estações de trem, em condições precárias, transformando o local em “cidade-dormitório”.13 Questões como a cobrança de impostos sem retorno social, a falta de investimento em setores de saneamento básico e educação e a condição de abandono colocaram em debate a peculiari- dade de Osasco em relação às outras regiões e a necessidade de sua emancipação a fim de solucionar as carências específicas de seus habi- tantes, prejudicados pela priorização do centro por parte do governo paulistano.
[Se] por um lado, Osasco é semelhante, na sua consti- tuição e crescimento, aos demais bairros operários e subúrbios industriais de São Paulo, por outro lado, pela ação e experiência concreta dos contingentes de ope- rários que para lá se dirigiram, tornou-se excepcional (porque) a concentração de novas indústrias e bairros vêm acompanhados do Movimento Emancipacionista gerador de um localismo que perdurará até o final dos
13 Osasco é considerada ainda uma “cidade-dormitório”, apesar de ter o 4º maior PIB do Estado de São Paulo e ser a 14ª Maior economia do Brasil, segundo dados da própria Prefeitura. As principais indústrias foram embora, enquanto o setor co- mercial se desenvolveu no centro, principalmente com a construção de cinco shopping-centers, sem conseguir absorver a mão de obra local, além daquela que vem das cidades ao seu redor. O crescimento demográfico (a cidade tem atual- mente cerca de 700 mil habitantes) e imobiliário na cidade é grande, mas seus moradores trabalham em regiões vizinhas.
anos sessenta, sobretudo na luta de seus trabalhado- res estudantes (RIZEK, 1988, p. 1-2)
O Plano Diretor de São Paulo, organizado pelo então prefeito Jânio Quadros no início da década de 1950, acentuou ainda mais o caráter excludente do tratamento dado à região, pois previa aumento de impos- tos sobre residências da população de baixa renda e nenhum benefício urbano ou de infraestrutura. A oposição centro-periferia, caracterizada pelo desejo dos setores mais influentes de exercerem o poder local e pelo descontentamento da população mais pobre quanto ao tratamento dispensado pelos órgãos públicos às suas carências, manifestou-se nas três tentativas de campanha pela emancipação de Osasco, em 1953, 1958 e 1962 – quando o “sim” finalmente venceu o plebiscito. Para Rizek, o processo de luta pela emancipação da cidade não contou, de início, com o apoio dos trabalhadores, que não viam no acontecimento a possibili- dade de alteração relevante em suas condições de trabalho ou partici- pação política. Sua integração ao movimento ocorreu apenas no final da década de 1950 e início dos anos 1960, quando operários e estudan- tes passaram a exercer vínculo cada vez mais estreito e passaram a criar espaços específicos de atuação, negociando e diferenciando-se da elite que assumiu os cargos municipais.
A articulação entre os movimentos sindical e estudan- til, a política municipal, o clima de ascenso, têm colo- rações locais interessantes que perpassarão a fábrica e as escolas, forjando novas lideranças, mesclando novos e velhos projetos, preenchendo espaços, produzindo novas continuidades e rupturas. (Idem, p. 36)
Foi significativo nesse sentido o ano de 1962, quando alguns eventos sinalizaram diferentes tensões e interesses na sociedade osasquense: a fundação da Frente Nacional do Trabalho (FNT), ligada aos Círculos Ope- rários e guiada pelos Princípios para a Ação, do padre Lebret, a criação da União dos Estudantes de Osasco (UEO) e a formação da comissão de fábrica na Cobrasma. Esses três fatos foram marcos importantes no pro- cesso que culminou com a greve dos metalúrgicos em 1968.
Durante a década de 1960, as Comunidades Eclesiais de Base, forte- mente influenciadas pelo Concílio Vaticano II (1962-65), sob os papados
de João XIII e Paulo VI, exerceram papel social e político em todo o Brasil, principalmente nos bairros mais pobres. Inspirados pela ideia da militância cristã mais humanizada e voltada aos mais necessitados e pelo preceito “Ver, julgar e agir”, a Ação Católica, os Círculos e Juventu- des Católicas (JOC, JEC, JUC, e JAC), ligados às Comunidades, cresce- ram na periferia de São Paulo e nos bairros osasquenses.14 Operários como João Joaquim, Inácio Gurgel, João Cândido e José Groff ingressa- ram nesses núcleos, levando para as fábricas os debates realizados nas igrejas, sobre a luta pela base e pela negociação constante. Para Jessie J.
V. de Sousa, que pesquisou sobre o papel da Igreja nesse momento, A Igreja desenvolveu, assim, um intenso trabalho organizacional que expressava três movimentos no plano temporal: o primeiro, em que buscou firmar-se como interlocutor, junto ao Estado, dos interesses dos assalariados urbanos e, desta forma, projetar-se como mediador necessário na relação capital trabalho; um segundo que procurou alargar seu próprio poder institucional no seio da sociedade, colocando-se como alternativa ao crescente radicalismo urbano; e, por último, aquele em que pretendeu colocar-se como al- ternativa ao próprio modelo social ao se autodeter- minar a “terceira via”. (SOUSA, s/d, p. 7-8)
Estimulados pela atuação mais social, em localidades com grande concentração de trabalhadores, padres franceses, como Pierre Wauthier e Domingos Barbè, viram nas fábricas de Osasco a oportunidade de evan- gelizar e se aproximar da realidade dos operários. Empregaram-se na empresa Cobrasma, assistindo de perto e experimentando adversidades e tensões do cotidiano fabril. Conviveram com as famílias e ganharam a confiança das comunidades, que recorreram ao seu apoio quando a di- tadura militar passou a perseguir os sindicatos. Como mediadores e prote- tores conseguiram transitar entre os militantes católicos e a juventude
14 A parcela da Igreja mais popular e comprometida com o social deu origem à Ju- ventude Operária Católica (JOC) e à Juventude Estudantil Católica (JEC). Ainda havia as Juventudes ligadas aos universitários (JUC) e aos camponeses (JAC). So- bre essas organizações dentro da Igreja Católica ver JESUS, 2007; MENDES, 2002.
operária-estudantil, que começava a ser influenciada por grupos de esquerda.
A Frente Nacional do Trabalho nasceu como fruto desse processo de popularização da Igreja e do trabalho do advogado católico Mário Car- valho de Jesus, que convidou os operários da Cobrasma para participar das reuniões na sede paulistana, e depois fundou, junto com Albertino de Souza Oliva e José Groff, a subsede osasquense. Segundo eles, foi na FNT que teria nascido a ideia de se criar a comissão de fábrica, com a finalidade de organizar, pela base, seus companheiros, assumindo a fun- ção de mediação tão defendida pela Igreja. Para Francisco Weffort, em seu texto Participação e Conflito Social: Contagem e Osasco: 1968 (1972), a comissão de fábrica teria sido conquista da Frente Nacional do Traba- lho, principalmente de um de seus fundadores, Albertino de Souza Oliva, ex-chefe do Departamento de Pessoal da empresa Cobrasma, e que fora demitido por aproximar-se dos trabalhadores e não mais persegui-los, contrariando ordens da direção da fábrica. O autor afirmou que a co- missão teria sido estimulada pela concepção burocrática e racionaliza- da dos patrões, procurando evitar o enfrentamento com o sindicato e tirando do caminho funcionários mais combativos.
A Comissão [...] foi um acontecimento marginal ao sin- dicato recém-formado e surgiu, de certo modo, contra ele. Em fins de 1962, alguns operários da FNT tomaram a iniciativa de formar a comissão de dez membros para apresentar suas primeiras reivindicações (adicional de insalubridade para uma seção e medidas de seguran- ça) diretamente à direção da empresa. [...] Por sua par- te, o sindicato [...] não deu importância ao assunto, se é que chegou a saber dele. Por outro lado, a direção da empresa, que se encontrava em recomposição, recebeu bem a ideia de formação de uma comissão que via como adequado para resolver seus problemas com os operários através de negociações diretas e rápidas.
(WEFFORT, 1972, p. 60-61)
No entanto, seus membros não viam a comissão de fábrica como doação e sim conquista do objetivo cristão de humanizar as relações entre capital e trabalho. Paralelamente a esse acontecimento, na escola
pública se delineavam as ações dos estudantes-operários, integradas muitas vezes ao movimento de caráter nacional, liderado pela União Nacional dos Estudantes, tratando de temas como a ampliação de va- gas nas universidades durante o governo de João Goulart. O Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco também sofria grande influência do Parti- do Comunista Brasileiro (PCB), ainda hegemônico na militância sindi- cal brasileira.
A confluência desses diferentes movimentos teria como marco fundador um evento traumático para os operários e para a cidade: a morte de um metalúrgico num acidente envolvendo uma caldeira, na Cobrasma, ainda em 1962. Significaria para seus companheiros o pon- to crucial na tensão trabalhista que já existia na fábrica, em torno de reivindicações contra a insalubridade. O drama do colega que sofreu terrivelmente com as queimaduras por algumas horas e a proibição de irem ao enterro dele, imposta pelos patrões, uniu os trabalhadores num ato de rebeldia: parar todos os setores de produção por cinco minutos.
Este evento, central na memória desses operários, católicos ou es- tudantes, inaugurou novo processo de luta, que culminou com a pres- são para reconhecimento da comissão de fábrica.15 A morte colocava em evidência um problema não apenas interno à empresa, ou específi- co dos trabalhadores. Deslocava para o centro dos movimentos – cris- tão, trabalhista e estudantil – a discussão pela vida e pela conquista de direitos. Dava início a uma identidade cidadã, manifestando-se nas mais diversas instâncias públicas, ao mesmo tempo parte da dinâmica nacio- nal, mas mantendo sua peculiaridade, ou seja, o vínculo estreito entre fábrica e escola e o imaginário de autonomia contra qualquer tentativa de subjugação.
Em 1962, ainda, a União dos Estudantes de Osasco (UEO) con- quistou a doação por parte da prefeitura de um terreno para sua sede.
Até o golpe militar, quando foi extinta, a entidade havia ampliado sua presença nos espaços políticos, denunciando vereadores corruptos, apoi- ando greves, promovendo passeatas em que operários discursavam e debatiam com os estudantes os direitos trabalhistas, o cenário político
15 Chamada de Comissão dos Dez, seus membros foram eleitos por trabalhadores dos diversos setores de produção da fábrica Cobrasma. Em outras empresas, as comis- sões continuaram a existir de forma clandestina.
mundial, o conservadorismo dos políticos locais e a conduta do Partido Comunista.
O golpe militar de 1964 atingiu duramente esse processo de mobilização no país e na cidade. A intervenção política atingiu os grê- mios que foram fechados, em especial o do colégio Ceneart, tendo seu presidente, Gabriel Figueiredo, sido preso. A União dos Estudantes de Osasco (UEO) foi extinta, assim como ocorreu com a União Nacional dos Estudantes (UNE), incendiada no Rio de Janeiro. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, Conrado Del Papa, ligado ao PCB, foi destituído e detido, enquanto Albertino de Souza Oliva era levado da Frente Nacional do Trabalho por policiais.
Mesmo tendo sofrido intervenção, o Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco nunca deixou de ser frequentado pelos associados, que com- pareciam para conversar, beber e jogar, em número reduzido, mas cons- tante. O interventor indicado pelo governo, Luiz Camargo, procurou manter boa relação com Papa, que retornou ao sindicato e conseguiu realizar assembleias por dissídio salarial no ano de 1964. Na Cobrasma, no ano de 1965, houve ainda a eleição para compor a comissão de fábri- ca, tendo sido eleitos José Groff , João Joaquim, João Cândido e Inácio Gurgel, católicos, ao mesmo tempo em que se gestava o Grupo de Osasco, de traços esquerdizantes, do qual elegeram-se José Ibrahin, como presi- dente, e Roque Aparecido da Silva, como secretário geral. José Campos Barreto e Roque Aparecido da Silva teriam sido os primeiros a se apro- ximar de setores armados, entre 1967 e 1968, mantendo contato com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).16
16 José Campos Barreto, Roque Aparecido da Silva e Antonio Roberto Espinosa eram estudantes da Universidade de São Paulo. Os dois primeiros cursavam Ciências Sociais e o último estudava Filosofia, facilitando a mediação entre grupos de estu- dantes e intelectuais que se interessavam pelo movimento e os operários osasquen- ses. Segundo Oliveira(2011), foram atraídos para a cidade grupos como o Parti- do Comunista Brasileiro, a Política Operária (Polop), a Ação Popular (AP), o Movimento Nacional Revolucionário (MNR) e o grupo autodenominado O., cujo setor mais militarizado deu origem à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).
Essa última atraiu cerca de sessenta operários osasquenses, cooptados por João Quartim de Moraes. A Política Operária Comunista (POC), dissidência da Polop, também contou com a participação de operários osasquenses, como Joaquim Miranda, ligado a Nilmário Miranda. Sobre o assunto, ver Frederico (1987), Reis Filho (1990) e Ridenti (1993).
Em 1965, os estudantes secundaristas já realizavam reuniões clandestinas para discutir política e, embora a UEO tivesse sido fecha- da, haviam conseguido organizar outra entidade, o Círculo Estudantil de Osasco (CEO), que promovia nas escolas atividades como teatro, de- bates e festivais de música, procurando resistir aos desmandos do regi- me militar. O CEO ainda participou no ano de 1966 de manifestações contra a ditadura militar e, juntamente com os operários, exigiu parti- cipação de representantes dos dois grupos na Prefeitura durante as elei- ções de Antonio Guaçu D. Piteri, em 1966.
Nesse sentido, os osasquenses procuravam afirmar sua autonomia em relação às orientações nacionais, que defendiam o voto nulo nas eleições daquele ano. Contrariando a avaliação da maioria, os estudan- tes-operários decidiram pela negociação, chegando a ocupar postos no Gabinete do Prefeito, para quem teriam redigido um documento de apoio, com a condição de que os direitos democráticos fossem garanti- dos por ele. Roque Aparecido da Silva teria sido escolhido como repre- sentante estudantil, mas seu envolvimento com passeatas de protesto à ditadura e apoio aos vietcongs na Guerra do Vietnã teriam provocado o fim do acordo com o governo.
O ano de 1967 foi marco de outra conquista da Frente Nacional do Trabalho (FNT) e do Grupo Osasco: a formação e eleição da Chapa Ver- de, de oposição ao Partido Comunista Brasileira. Aqui as diferenças ide- ológicas e estratégicas entre cristãos anticomunistas e a “nova esquer- da” foram amenizadas para combater os adversários em comum: a dita- dura militar e o “Partidão”. As duas gerações negociaram suas visões de mundo e se fundiram num só grupo. A vitória com 90% dos votos, em pleno estado de exceção, confirmou a habilidade de resistência e a iden- tidade de luta e cidadania, imagem que a memória desses trabalhado- res tentou preservar subterraneamente nos anos subsequentes, sob a repressão.