Em 1965, os estudantes secundaristas já realizavam reuniões clandestinas para discutir política e, embora a UEO tivesse sido fecha- da, haviam conseguido organizar outra entidade, o Círculo Estudantil de Osasco (CEO), que promovia nas escolas atividades como teatro, de- bates e festivais de música, procurando resistir aos desmandos do regi- me militar. O CEO ainda participou no ano de 1966 de manifestações contra a ditadura militar e, juntamente com os operários, exigiu parti- cipação de representantes dos dois grupos na Prefeitura durante as elei- ções de Antonio Guaçu D. Piteri, em 1966.
Nesse sentido, os osasquenses procuravam afirmar sua autonomia em relação às orientações nacionais, que defendiam o voto nulo nas eleições daquele ano. Contrariando a avaliação da maioria, os estudan- tes-operários decidiram pela negociação, chegando a ocupar postos no Gabinete do Prefeito, para quem teriam redigido um documento de apoio, com a condição de que os direitos democráticos fossem garanti- dos por ele. Roque Aparecido da Silva teria sido escolhido como repre- sentante estudantil, mas seu envolvimento com passeatas de protesto à ditadura e apoio aos vietcongs na Guerra do Vietnã teriam provocado o fim do acordo com o governo.
O ano de 1967 foi marco de outra conquista da Frente Nacional do Trabalho (FNT) e do Grupo Osasco: a formação e eleição da Chapa Ver- de, de oposição ao Partido Comunista Brasileira. Aqui as diferenças ide- ológicas e estratégicas entre cristãos anticomunistas e a “nova esquer- da” foram amenizadas para combater os adversários em comum: a dita- dura militar e o “Partidão”. As duas gerações negociaram suas visões de mundo e se fundiram num só grupo. A vitória com 90% dos votos, em pleno estado de exceção, confirmou a habilidade de resistência e a iden- tidade de luta e cidadania, imagem que a memória desses trabalhado- res tentou preservar subterraneamente nos anos subsequentes, sob a repressão.
que espelho, o contexto brasileiro de frustração depois do golpe mili- tar de 1964, que impediu as reformas de base, e a resistência à repres- são, deram origem ao período tão significativo e marcado simbolica- mente como sinônimo de uma geração.
Nos países do Leste Europeu, a bandeira do nacionalismo e da democracia fazia parte das revoltas juvenis. No Ocidente, a revolta se dava contra valores tradicionais e geracionais: o progresso, o consumo e o conservadorismo. Na América Latina, as lutas eram marcadas pelo nacionalismo de esquerda contra o Imperialismo e pela defesa da de- mocracia contra os regimes autoritários.
Para Ridenti, o romantismo revolucionário, desejoso em conver- gir transformação política, econômica, cultural e social na utopia de um futuro melhor, e marca dos principais acontecimentos mundiais, teve sua versão brasileira nas manifestações estudantis e nas greves de Contagem (MG) e Osasco:
A liberação sexual, o desejo de renovação, a fusão entre vida pública e privada, a ânsia de viver o momento, a fruição da vida boêmia, a aposta na ação em detrimento da teoria, os padrões irregulares de trabalho e a relati- va pobreza, típicas da juventude de esquerda na épo- ca, são características que marcaram os movimentos sociais nos anos 1960 em todo o mundo, fazendo lem- brar a velha tradição romântica. (RIDENTI, 2001)
Mesmo que essas ideias não tenham sido hegemônicas, pois dife- rentes conceitos, sentimentos, ações e desejos continuaram a existir – o que Ridenti chamou de “zonas cinzentas” –, elas se tornaram fortes referências. Havia a crença de que mudanças radicais poderiam e es- tavam por acontecer a partir das intervenções que artistas, intelectuais, trabalhadores e estudantes poderiam realizar. Era um momento em que se apostava na possibilidade de alteração de valores e no potencial criativo.
No entanto, o ano de 1968 não deve ser entendido como generali- zação e omissão de divergências e especificidades das experiências em cada país ou grupo social. Obras como as de Zuenir Ventura, 1968: o ano que não acabou (1988) e 1968: o que fizemos de nós (2008) apresen- taram os estudantes, artistas e intelectuais como os grandes agentes da
história brasileira nesse período, tomado pelo “poder jovem” revolucio- nário. Sem querer negar que este tenha existido em grande parte dos setores sociais, no mundo e no Brasil, é preciso preservar as diferenças e a multiplicidade de dinâmicas. 1968 foi um ano de disputa por espa- ços, discursos, valores e objetivos políticos e sociais, nem sempre seme- lhantes ou concordantes.
Ventura atribuiu pouca importância à greve realizada em Osasco nesse ano, pois pareceu enxergar o potencial criativo na parcela mais intelectualizada da sociedade. Pelo contrário, Marcelo Ridenti destacou a especificidade da cidade, chamada por ele de “a Meca da esquerda”, em meio à formação de grupos armados da chamada “nova esquerda”, como a Polop (Política Operária) e a AP (Ação Popular), sedentos em combater o regime autoritário e traçar caminhos diferentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB).17 As manifestações estudantis pela demo- cratização do ensino público no Brasil e o processo das greves de Conta- gem e Osasco seguiram caminhos influenciados e ao mesmo tempo diferenciados quanto às manifestações na Europa, como o Maio Fran- cês, ou em outros lugares do mundo, como o Movimento Hippie ou pelos direitos civis negros, nos Estados Unidos.
O livro Combate nas Trevas (1987), do historiador Jacob Gorender, também fez referência às greves de Contagem e Osasco, associando-as à orientação e à ação dos setores da esquerda brasileira, mas é preciso que a especificidade da greve osasquense seja compreendida de forma ainda mais profunda. Ela também foi desejo e construção de outro gru- po, a Frente Nacional do Trabalho (FNT), organização cristã muitas vezes ignorada pelos trabalhos historiográficos como elemento importante, e que talvez não tivesse como aspecto marcante o romantismo revolucio- nário de 1968, ou ainda o entendesse de outra maneira.
A participação dos operários-estudantes em manifestações contra o regime e a organização de uma passeata em Osasco, simultaneamen- te a outras que aconteciam pelo país em protesto contra a morte do secundarista Edson Luís, no Rio de Janeiro, fortaleceu no Grupo de Osasco a crença na possibilidade de enfrentamento maior com o gover-
17 A expressão atribuída a Osasco por Ridenti (2007) significou que a cidade teve papel peculiar, junto a Contagem, nos acontecimentos de resistência ao regime, no ano de 1968, e se tornou centro de reuniões com intelectuais, grupos armados e de esquerda e o movimento estudantil.
no. Aqueles que pertenciam à FNT, embora não tivessem feito parte dos protestos, viam na possibilidade de organização pelas bases, o cresci- mento da luta operária dentro da fábrica. Em Minas Gerais, os meta- lúrgicos criaram o Movimento Intersindical Anti-Arrocho (MIA), ao qual os dois grupos osasquenses aderiram, planejando desencadear uma onda de greves que desestabilizaria governo e patrões. A primeira de- las, ocorrida na empresa Belgo-Mineira, em Contagem (MG), durante o mês de abril, pegou de surpresa o Estado, que acabou negociando com os grevistas e concedendo aumento salarial.
O conjunto de experiências acumuladas pelos operários-estudan- tes e católicos de Osasco – a criação da Comissão de fábrica, a Frente Nacional do Trabalho, as atividades do Círculo Estudantil de Osasco e a vitória da Chapa Verde no sindicato – e os problemas relacionados com aumento salarial e direitos trabalhistas deram a eles a certeza de que poderiam organizar uma greve que paralisaria empresas por toda ave- nida dos Autonomistas (antiga estrada de Itu, que ganhou o novo nome em homenagem aos emancipadores da cidade), estendendo-se a outras regiões, como ABC paulista e Santos.
Diferente de Francisco Weffort (1972), que considerou a greve como movimento espontaneísta e voluntarista, é preciso levar em conta todo o conjunto de forças, ideologias e experiências que contribuíram para pensar as estratégias e a avaliação do contexto feita pelos osasquenses, que decidiram antecipá-la para o mês de julho.18
Iniciada na manhã do dia 16, a paralisação, que previa a perma- nência de todos os grevistas na empresa (de dentro para fora), foi permeada por algumas negociações com os patrões e a violência truculenta da força pública, que invadiu a Cobrasma no final da noite, além de outras fábricas, como a Lonaflex e a Braseixos, e o Sindicato dos Metalúrgicos, no bairro Presidente Altino.
A repressão se abateu sobre a cidade, atingindo também as famíli- as dos grevistas, que passaram a ter suas casas vigiadas e suas vidas transformadas pelos eventos. A história traumática do movimento ope- rário-estudantil, inaugurado com a morte do metalúrgico na caldeira,
18 A greve estava prevista, num primeiro momento, para o mês de novembro, quan- do seria o dissídio da categoria. A decisão por sua antecipação e os efeitos que isso gerou ainda hoje são motivos de discórdia entre seus participantes.
continuaria no cárcere com as torturas, a desestruturação familiar, a solidão e o exílio. Mais do que a paralisação e o confronto com o regime militar em 1968, as decorrências existenciais e emocionais na vida des- sas pessoas posteriormente transformaram o evento, tão curto no tem- po cronológico, em intenso e longo na trajetória de vida, pois seu signi- ficado se estendeu a antes e depois dele e apresentou-se como traumáti- co, ferida, individual e coletiva, não curada.19
O silêncio, como afirmou Michael Pollak em seu texto Memória, Esquecimento e Silêncio, “longe de conduzir ao esquecimento, é a resis- tência que uma sociedade civil impotente opõe ao excesso de discursos oficiais [...] esperando a hora da verdade e a redistribuição das cartas políticas e ideológicas.” (Pollak, 1989, p. 6). Foi o que Pollak chamou de
“memória subterrânea”, que permanece viva mesmo sob a história ofi- cial e que em momentos de disputa e tensão emerge, fazendo-se percep- tível e legítima. A redemocratização, a partir dos anos 1980, e mais ain- da, o momento atual em que se valoriza o testemunho, por meio da criação da Comissão da Verdade, permitiram aflorar a memória orgu- lhosa, inconformada e ressentida dos trabalhadores de Osasco.
19 De acordo com Selingmann-Silva, “trauma” deriva de uma raiz indo-européia com dois sentidos: “friccionar, triturar, perfurar ; mas também “suplantar , “passar atra- vés. Nesta contradição – uma coisa que tritura, perfura, mas que, ao mesmo tempo, é o que nos faz suplantá-la, já se revela, mais uma vez, o paradoxo da experiência catastrófica [...]“ (NESTROVSKI & SELINGMANN-SILVA, 2000, p. 8) A possibi- lidade de narrar o trauma permite a possibilidade de superá-lo e renascer.
homens e mulheres da colônia osasquense
Eu não aceito quando alguém fala que a história tem mentira, porque ela é uma coisa tão da alma, ela vem tão de dentro!...
Teresinha Gurgel