A repressão que se abateu sobre Osasco, a partir de julho de 1968, pro- vocou desvio brutal na vida da colônia osasquense, dos operários e também de suas famílias. Os trabalhadores esperavam a negociação, mas a Cobrasma foi invadida pela força pública durante a noite do dia 16 de julho e o exército tomou a cidade por alguns dias, já que os quar- téis circundavam a cidade. Outras fábricas, como a Lonaflex foram ocupadas; o Sindicato dos Metalúrgicos, no bairro de Presidente Altino, foi cercado e tomado por soldados, enquanto uma rede de perseguições e prisões se estendeu por todos os cantos, inclusive as igrejas.
Essa passagem dolorosa nas narrativas revelou um momento de- cisivo na vida dos envolvidos; funcionou como fratura, ferida que mar- cou corpos e espíritos dos grevistas e de toda a rede afetiva que os cir- cundava. O tratamento dado aos parentes, em busca dos operários, não foi menos violento do que nas indústrias. Uma conexão de arbitrarieda- des e medo transformou as vidas dos que até então tinham atuado, seja para reivindicar salários, ligados à FNT, ou derrubar a ditadura, como o Grupo de Osasco.
Os narradores contaram sobre como a repressão afetou suas vi- das, nos dias que se seguiram à greve, mostrando como tentaram ainda resistir. José Groff, presidente da comissão de fábrica, e José Campos Barreto, que havia enfrentado os soldados, foram presos no momento da invasão da Cobrasma. Os demais conseguiram fugir pelos fundos da
fábrica ou pulando a cerca que separava o Sindicato dos Metalúrgicos das casas vizinhas, no bairro de Presidente Altino. O presidente do Sin- dicato, José Ibrahin, que estava em São Paulo no momento da greve, passou para a clandestinidade, assumindo a militância na Vanguarda Popular Revolucionária, junto com Espinosa. Inácio GInácio GInácio GInácio GInácio Gurgurgurgurgurgelelelelel fugiu e, mais tarde foi preso. De sua aventura, lembrou ter escapado com a aju- da de sua aluna, Elza, e da saudade que sentiu de sua família, referênci- as raras nas narrativas masculinas, voltadas mais para a atuação públi- ca e viril da luta política:
A Elza era uma aluna do curso de teatro que me en- controu em frente à igreja Imaculada Conceição e fa- lou: “Corre, Inácio! O que é que você tá fazendo aqui?!
Os homem estão te procurando! Passaram ontem, aqui na Igreja, procurando você. Daqui a pouco eles che- gam!”. Pensei: “Como é que eu vou fazer? Eles vão me encontrar!”. Aí, nós fomos até o palco da Imaculada.
Chegou lá, tinha nosso armário da bugiganga do tea- tro, né? Tinha um vestido lá... Ela falou: “Veste esse vestido.” E eu: “Mas, vestir esse vestido?!”. Ela mandou:
“Veste o vestido!” Eu coloquei... Tinha uma peruca ve- lha lá. Ela pôs a peruca em mim e falou: “Some!”. Ain- da bem que já estava anoitecendo! Subi de vestido e de peruca, e fui embora!! Eu não sei, não lembro, por in- crível que pareça, onde foi que coloquei esse vestido nem onde pus essa peruca! Que coisa, meu Deus!! [...]
Qual é o outro fato mesmo que me doeu, assim, o co- ração?... Ah! Era estar sozinho, muitas vezes, no mato ou dormindo na casa dos amigos! E lembrar minha família! Aquilo doía demais!! Doía demais! Sabe, en- quanto eu estava fugindo, naqueles 48 dias, pensei muito na minha família... Conhecendo a Teresinha, tinha certeza de que ela iria, “aos trancos e barrancos”, aguentar tudo! Aguentar tudo e vencer! Isso, essa fé dentro de mim, eu tive. Ela é muito mais forte do que eu. Muito mais forte!
Inácio Gurgel, operário ligado ao teatro e à poesia, lembrou sua fuga fazendo menção ao seu desempenho em se passar por mulher, com a ajuda de sua aluna Elza. As fantasias e trapilhos que substituí- ram tantas vezes o macacão de fábrica lhe salvaram momentaneamen- te da prisão. Sua relação de amor com eles por toda vida lhe permitiu conviver com a dor gerada pelo tratamento na prisão, a dificuldade de voltar ao emprego, o trauma da violência sofrida.
No início de sua apresentação, Gurgel apresentou seu nascimento como sua “primeira peça de teatro”. A greve de Osasco foi também es- paço de sua encenação pública, assim como aquela que levou à sua
“retirada de cena”. Com a repressão, escolheu enfrentar o medo pelos caminhos da criação e se deixou travestir, como numa peça de teatro. A estratégia narrativa durante a entrevista foi performática, assim como foi a própria fuga em 1968. A encenação serviu para ele como defesa e denúncia posteriormente, nos encontros e exposições que rememoraram a greve, quando pode exibir seus poemas e emocionar-se com eles. Sua presença sempre se fez sentir pelas palavras e gestos, em postura de declamação e emoção.
Além dos remédios, que ele dizia ainda tomar enquanto estava concedendo a entrevista, a parafernália do teatro, as palavras e as ence- nações lhe deram sustentação para suportar o peso de suas angústias. A imagem descrita sobre o homem travestido, apesar de cômica, se mis- turou a certa angústia ao narrar. Fez parte da dinâmica de seu relato, numa clara opção pela arte como interpretação de sua vida e de resiliência diante do sofrimento, seja no contexto da ditadura como no presente.
Talvez tenha se tornado sua arma de defesa, ao ligar-se ao JUBA e permanecer encenando até seu falecimento em 2011.46 As duas mulhe- res às quais fez referência, a aluna Elza e sua esposa Teresinha, aparece- ram como guarida e acolhimento, como forças femininas no momento em que ele, homem fragilizado, sentia-se sozinho e perdido. Ao contrá- rio de todo heroísmo masculino, Gurgel deixou transparecer o medo e
46 O JUBA (Jovens Unidos Buscando o Amor) foi o grupo teatral criado no início dos anos 1970 e que durou até 1980, quando Inácio Gurgel criou o grupo Semente, que fez mais de 102 apresentações pelo interior de São Paulo, com a peça Alma Seca, do autor Benedito Mariano.
a insegurança, elementos da subjetividade pouco distintos no imaginá- rio sobre as ações dos homens durante a ditadura militar. As relações de gênero por ele narradas fugiram ao essencialismo, quando atribuiu à sua esposa e à sua aluna a força, enquanto o narrador fragilizava-se pelo medo.
Os diferentes mecanismos de fuga foram abordados nas narrati- vas dos colaboradores para escapar da repressão e das prisões. Enganar as autoridades policiais e militares foi um trunfo das redes que, junta- mente, quiseram mostrá-lo, e que reafirmou o caráter épico do enfren- tamento à ditadura. As histórias de subterfúgios compartilhadas pelos entrevistados, citadas por um e outro como consentimento e fortaleci- mento da experiência em comum, tiveram caráter desafiador e ousado.
Não trataram apenas da dor, mas do misto da improvisação em meio ao clima de desespero que tiveram que enfrentar.
Inácio G Inácio G Inácio G Inácio G
Inácio Gurgurgurgurgurgel:el:el:el:el: Depois, veio a repressão... Nós fugimos dos militares! Quando nós pulamos o muro, Quintino me disse: “Inácio, vamos para a Lapa, que eu tenho um amigo lá! A gente dorme na casa dele”. Falei: “E vamos a pé pra lá?”. Ele respondeu: “Não, a gente atra- vessa pro Piratininga, lá tem um ônibus.” Aí, lembrei:
tinha um ônibus que fazia a Linha Piratininga-Lapa.
No ônibus, estava cheio de moças e a gente tinha fugi- do da fábrica, no turno das 22 horas... Todo mundo no ônibus, sorrindo, feliz!... E eu pensando: “Puxa vida! Elas são tão felizes!”. Quando desci na Lapa, foi que perce- bi que estavam dando risada de mim! Porque quando pulei o muro, minha calça rasgou daqui até aqui! Eu estava nu e não via!!
O humor procurou quebrar a tensão das histórias contadas. O riso produziu a reintegração à dignidade, relembrando a sobrevivência ao momento de perseguição. Em meio a tantas possibilidades de violên- cia, narrar sobre as calças rasgadas seria lembrar também do alívio sentido, do fato que pode ser transmutado em aventura jocosa. Como as imagens de Gurgel, outras lembranças repetiram-se nas falas masculi- nas, partes da mesma história de resistência. Uma delas, várias vezes citada, referiu-se à sorte de João Joaquim, operário que se livrou por
duas vezes da prisão. Sua saga fez parte do repertório do grupo como motivo de anedota e acaso. Inácio Gurgel declamou sua poesia para homenagear o feito do colega:
O companheiro João Joaquim correu pra se escapulir Enganchou-se num arame da cerca que tinha ali, Deu um grito desesperado
“Não me matem, seus soldados, Isso aqui está um horror!
Olha que incêndio danado!”
A Polícia olhou de lado E o negão se mandou!
Aqueles que conseguiram fugir pelos fundos da fábrica, como Roque Aparecido e João Joaquim, lembraram de se reunirem na Igreja Matriz de Santo Antonio, no bairro de Bela Vista, em Osasco. Contaram com a ajuda dos padres operários, como Pierre Wauthier e Domingos Barbé, que procuraram reorganizar o grupo e proteger, no “território sagrado”, os grevistas. Uma denúncia teria levado o cerco aos operári- os. João Joaquim se escondeu dentro do confessionário achando que estava sozinho. Só depois, então, com a entrada dos policiais, percebeu o silêncio se quebrar e descobriu que muitos tinham tido a mesma idéia que ele. Assistiu aos companheiros sendo presos e foi salvo pelo peque- no recinto religioso, silencioso guardador das faltas, e generoso com os
“pequenos e grandes pecados”. Seria preso mais tarde, fora de lá.
A saga de RRRRRoqoqoqoque Aoque Aue Aue Aparecidoue Aparecidoparecidoparecido também foi representativa das estra-parecido tégias ousadas, sempre lembrada por ele nos encontros que tivemos, e também por seus companheiros. Grande expectativa, muita gestualidade e risos fizeram parte da encenação para relatar a sua fuga.
Enquanto eu estava andando no pátio, tinha uns pe- dreiros lá... Eu vi a polícia!... Então, peguei uns tijolos, tentando fazer de conta que era um deles, para não ser preso! Mas o “cacete comeu” e eu fui preso!! [...] O policial que estava lá na mesa controlando a situação me conhecia, óbvio, e enquanto eu estava conversando com o Pierre Wauthier, ele gritou: “O operário estu- dante comunista!”. E eu, nem aí... “Não sou comunista.
Só sou operário e estudante, poxa!”. E ele: “É você mes- mo, Roque!”. Eu respondi “Opa! Sim, senhor!”. Pergun- tou: “Qual é o seu nome completo?”. Então, com toda tranquilidade, enfiei a mão no bolso, com a carteira de identidade na mão: “Roque Alves de Souza”. Ele re- gistrou com a máquina de escrever e eu coloquei a identidade de volta no bolso. E fiquei lá... Um tempo depois, fomos todos levados para o DOPS. [...] Leu uma lista de nomes: “Fulano, Siclano, Beltrano, Roque Alves de Souza... Alguém da lista está aí?”. E nós: “Não, não, não”. Ele perguntou: “Qual é o seu nome?”. Respondi- am: “Fulano”. Olhou para mim: “Qual é o seu nome?”.
Respondi: “Roque Aparecido...”. Ele gritou: “Ah! Você é o Roque. Você tá fodido! Vai passar muito tempo aqui com a gente! O Barreto já está aí. O , a gente vai pegar!”.
Eu disse: “Doutor, doutor, calma. Eu não estou en- tendendo nada! Não sei por que estou aqui. Não sei o que está acontecendo, doutor!”. Ele perguntou: “Qual é o seu nome?”. Respondi: “Roque Aparecido da Silva”.
Pediu: “Documento!... Porra, não é que você escapou por pouco?! O Roque Alves de Souza está aí, vai ficar muito tempo preso!”.... Eu falei: “É, doutor, desculpa, mas não sou eu...”!! E ele: “Então, nós vamos prender o Ibrahin. O Barreto está aí, o Roque Alves de Souza está aí... Pode ir embora!”... Tá legal... Saí!!
Os colaboradores brincaram com as palavras e as situações impre- vistas, quando a criatividade tornou-se aliada, revelando-se instrumen- to de resistência. A narrativa de Roque Aparecido ganhou ares de épica:
tensão, perseguição e astúcia. Como Inácio, tentou fingir outro persona- gem, enganar os algozes. E conseguiu. Pelo menos momentaneamente.
Lembrar os momentos em que as autoridades foram confundidas, burladas, rir delas, fortaleceu a identidade do grupo, marcado pela pos- sibilidade de insubordinação, de subversão provisória da ordem. De certa forma, recordar o feito seria continuar humilhando e denunciando as injustiças daqueles que tentaram desumanizá-los um dia.
O significado do riso em narrativas como as de Roque Aparecido – e são várias entre eles – fez lembrar o “grande massacre de gatos” na França do século XVIII, evento analisado pelo historiador Robert Darnton. A piada repetida provoca a gargalhada e o sentimento de união, de certa vitória diante do opressor – mesmo que só por um instante. Os operários franceses mataram a gata favorita, la grise (a cinzenta), a mando da própria patroa, após terem-na confundido e enganado, imi- tando gatos para atormentá-la durante a noite. Os trabalhadores de Osasco enfrentaram a opressão de forma sagaciosa e conseguiram se livrar de seu cerco. Ao contarem esses acontecimentos repetidamente, puderam rir deles e, de certa forma, vingar-se do autoritarismo, uma vez que funcionaram como pequenas/grandes experiências que perma- neceram escondidas por trás da história oficializada, subterrâneas, mas significativas para valorizar a identidade da colônia osasquense.
No entanto, não só de passagens inusitadas a memória de perse- guição e fuga se alimentou. Muitos dramas vieram à tona nos relatos.
Os operários que acabaram voltando para a fábrica, depois de permane- cerem foragidos e escondidos por algumas horas ou dias, não demora- ram a descobrir que a paralisação teria um preço alto para si e para sua família. Os trabalhadores ligados à greve de Osasco passaram a ter suas ações compreendidas como afronta, crime registrado nas carteiras de trabalho e nos olhares sobre aqueles que voltaram ao trabalho. Aqueles que não foram para a clandestinidade e a guerrilha conheceram outro tipo de isolamento, interpretado também como punição e destruição de suas vidas. Quem ficou desempregado sofreu com as recusas de traba- lho; quem pode retornar, teve sua vida revirada, num clima de descon- fiança e insegurança.
Inácio G Inácio G Inácio G Inácio G
Inácio Gurgurgurgurgel:urgel:el:el:el: Depois que eu fui à Delegacia Regio- nal do Trabalho, o General Moacir Gaia me deu uma bronca! Ele já morreu... Me deu uma bronca e me libe- rou. Me chamou de “Comunistinha de merda”! Gene- ral Moacir Gaia... Depois disso, ele falou: “Volta a traba- lhar”. Voltei com os meus amigos e eles falaram:
“Inácio, você vai voltar?!”. Falei: “Vou ver como é que está!”. Quando cheguei, a minha intimação estava lá!
E, se eu saísse de lá, tentasse fugir, era morto! Não era
preso. Eu era é morto! A minha sentença foi trabalhar!
Estava preso ali!... Ó, o papel do DOPS diz: “Inácio Gurgel esteve presente nesta Delegacia onde foi ouvi- do”. Sabe como eu interpreto esse “ouvido”? Foi o tapa que eu levei nos ouvidos!! Eu interpreto assim! Foi muito pra minha cabeça, viu?
JJJJJosé Gosé Gosé Gosé Gosé Grrrrroff:off:off:off:off: Aí nós tínhamos a famosa “lista negra”, né? Você chegava numa fábrica... Às vezes nem a fi- cha faziam: “Por ordens superiores nós não vamos fa- zer a sua ficha”. Você fazia a ficha, passava. Quando viam que era você...
O fato de poder trabalhar não diminuiu a agonia de Inácio Gurgel.
Sua sentença foi voltar e permanecer na fábrica sob vigilância. Para Groff, João Joaquim e Joaquim Miranda o castigo foi entrar para a lista de agitadores. Em qualquer caso, representou ficarem marcados, sem escolhas. Todos eles foram presos e depois de soltos permaneceram es- tigmatizados. A cada ficha preenchida, depois de entrevistas realizadas, vinha a decepção de não serem os escolhidos, devido à marca da greve.
A demissão e o estereótipo de subversivos fizeram com que alguns ti- vessem que mudar de casa ou de cidade, como foi o caso de João Cândi- do e Joaquim Miranda.
Roberto Espinosa, Roque Aparecido e José Groff, mesmo sob a ameaça e perigo, voltaram às portas das fábricas e atuaram em locais da cidade, procurando manter a paralisação, por meio do que os primei- ros chamavam de “grevilha”.
R R R R
Roqoqoqoqoque Aue Aue Aue Aue Aparecido:parecido:parecido:parecido:parecido: Aí, de novo a repressão!... E, apesar disso, quer dizer, a massa não sabia o que fazer! Algu- mas pessoas voltavam pro trabalho, outras não... Vi- nham, chegavam perto. Então, nós bolamos um negó- cio, no improviso, no sufoco, já que nós éramos guer- rilheiros, comunistas, debraístas, né? Que era greve de grevilha! O Guevara falava: “Guerra de guerreiro!”;
“Greve de grevilha”!
R RR
RRoberto Espinoberto Espinoberto Espinoberto Espinoberto Espinosa:osa:osa:osa:osa: O que era greve de grevilha? Seria você um dia fazer, por exemplo, um piquete, aí assim,
seria necessário! [...] A gente parava, distribuía os pan- fletos, na véspera, fazia isso... Seria, também, você fa- zer um movimento numa fábrica, no outro dia, ou- tro... E esse nome “greve de grevilha”... Nós escreve- mos um folheto, de análise da greve que tinha sido, sobre os motivos, inclusive, dizendo que ela continua- va como greve de grevilha, explicando o que seria. Esse documento foi assinado por duas pessoas. Nós bota- mos a assinatura, embaixo de duas pessoas que nem podiam ter feito! Era mais uma homenagem a elas!
Uma que estava sem contato conosco, que era é o Zé Ibrahin! E, a outra que, estava presa na Polícia Fede- ral, estava sendo torturado, naquele momento, inclu- sive, que era o Barreto! José Campos Barreto...
Os relatos de Roque Aparecido e Roberto Espinosa deram o tom do enfrentamento armado à guerra; reforçaram a persistência da greve tal qual guerrilha. Os panfletos voltaram a circular com a análise do movimento, na tentativa de fazê-lo durar, ganhar mais adeptos. Naque- le momento, já começavam a se constituir os sacrificados da causa e José Campos Barreto era um deles.
A repressão havia desmantelado o movimento operário, que se desdobrou em outras ações, dentre elas o compromisso assumido de vez com a guerrilha, por parte do Grupo de Osasco. O envolvimento com a resistência política não acabou aí, nem mesmo por parte daque- les que não aderiram à luta armada e que tentaram viabilizá-la nos es- paços comunitários e outros meios sociais. José Groff permaneceu atu- ando na Frente Nacional do Trabalho, de forma contida, enquanto InácioInácioInácioInácioInácio G
GG G
Gurgurgurgurgurgelelelelel permaneceu atuando no teatro, ligado às Comunidades de Base, seu mecanismo de superação da dor:
Sabe, a poesia e o teatro para mim são como uma tera- pia, uma terapia!... Porque, depois da greve, devido à minha situação de saúde, e orientado pelos psicólo- gos, me afastei um pouquinho. Eu me recolhi! Eu me recolhi... Senti um vazio enorme dentro de mim, pare- cia que todos os dias eu morria! Cada hora que passa- va... Sabe? Então, me recolhi, profundamente! Foi o
JUBA que me salvou! Jovens Unidos em Busca do Amor... Foi esse grupo que me salvou, que deu força!
Eles que salvaram a minha pele! A Igreja e o teatro.
A ferida provocada pela greve fez com que seu sentido permane- cesse no tempo e fosse presentificado constantemente na memória dos colaboradores. A fala de Gurgel sobre o vazio e o fato de “morrer a cada dia” fez notar o trauma, não apenas individual mas coletivo, que conti- nuou a ser encarado e purgado em cada narrativa.
O rasgo na alma se aprofundou ainda mais, nos porões da ditadu- ra, na tortura e no exílio dos demais envolvidos na greve. A propaganda anticomunista criada pelo governo e as ações repressivas ainda se tor- nariam mais truculentas a partir da decretação do Ato Institucional Nº 5.