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A greve de Osasco e seus significados

Outros espaços, além da fábrica, do sindicato e da escola apareceram como aglutinadores das especificidades do Grupo Osasco e dos membros da Frente Nacional do Trabalho, fazendo convergir objetivos, solidarie- dade e negociações entre os então operários e estudantes-operários. O golpe militar implicou em mecanismos da censura. A falta de liberdade

para pensar, agir, criticar, manifestar-se, provocou reações entre a clas- se média mais intelectualizada e artistas que produziram peças de tea- tro como O Rei da Vela, de Oswald de Andrade ou Roda Viva, de Chico Buarque.

Os protestos contra o Estado de exceção foram reforçados pelos Centros Populares de Cultura, organizados pelos estudantes, que acre- ditavam levar a “cultura politizada” aos mais diferentes locais e pessoas.

Nesse clima, os narradores lembraram os vários pontos de encontro em que era possível estabelecer relações de amizade e discutir a situação do País: bares, cinemas e festivais – que, até a decretação do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), em dezembro de 1968, ainda podiam ser pre- servados nas brechas da censura ou clandestinamente.

A criação do grupo de teatro, na década de 1960, foi uma das formas encontradas por eles para demonstrar o descontentamento social e político e articular suas afinidades – da FNT e do Grupo Osasco – na preparação da greve e na resistência conjunta, em termos revolucionários ou não.

Os relatos de Roque Aparecido e Inácio Gurgel, por exemplo, aponta- ram suas fronteiras: a Igreja e o movimento político-estudantil; simul- taneamente acenaram para o reconhecimento e pertencimento coleti- vo ao recordarem a criação do Grupo Operário de Teatro Amador (GOTA). O teatro foi obra do diálogo e da negociação entre as redes.

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Roqoqoqoqoque Aue Aue Aue Aue Aparecido:parecido:parecido:parecido:parecido: Nesse meio tempo, logo que come- cei a estudar, alguns colegas e eu fundamos o primei- ro grêmio estudantil de Osasco. Começamos a ter vá- rias atividades. Organizamos as duas primeiras olim- píadas estudantis de Osasco, no Clube Floresta. Ao mesmo tempo, eu trabalhava durante o dia na Cobras- ma: primeiro no escritório, depois como aprendiz de qualidade. Comecei a ter participação, também, na comissão de fábrica, mas a principal atuação foi na criação de um grupo de teatro entre os operários da Cobrasma. Era o GOTA, Grupo Operário de Teatro Amador.

Inácio G Inácio G Inácio G Inácio G

Inácio Gurgurgurgurgurgel:el:el:el:el: Quando toda a luta política começou, nos anos 1960, eu era Congregado Mariano! Rezava direto! Até o pessoal lá da fábrica Cobrasma, a turma

do Roque Aparecido, do Ibrahin, a turma do Barreto, e outros mais, falavam para mim, mandavam recadinho pelo Roque: “Fala para o Inácio parar com esse negó- cio de Congregação Mariana, parar de rezar, que isso não dá camisa pra ninguém! Ele precisa ’entrar de sola’

na luta operária”. Respondia para ele: “Então, tá certo!

Vamos entrar!”. O Roque dizia: “Vamos fundar um grupo de teatro aqui dentro, Inácio!”. Eu falava: “Ro- que, se a gente formar um grupo aqui dentro, será que dá certo, será que está na hora?”. E ele: “Já vem você com o seu medo!”. E eu: “Olha, o Vidigal vai nos man- dar embora, rapaz!”. E todos os dias o Roque ia à mi- nha seção: “Como é, Inácio, vamos fundar um gru- po?”. Eu já participava do teatro, na igreja Imaculada Conceição, em Osasco, mas comecei mesmo em Pernambuco! Nos folguedos do Nordeste, reisado, guerreiro, xaxado! Dança do xaxado!... [...] Fundamos um grupo de teatro, o GOTA (Grupo Osasquense de Teatro Amador). Levamos o espetáculo Oração por uma negra para dentro da Cobrasma. Encenamos uma peça de Natal que eu fiz! Chamava Maltrapilho. E ou- tras peças que não me lembro agora.

O sentido inaugural das ações apareceu mais uma vez nas narrati- vas masculinas: Roque Aparecido destacou o primeiro grêmio, as pri- meiras olimpíadas, o primeiro grupo de teatro dentro da fábrica. Foi ele quem convenceu Inácio Gurgel a encenar dentro da fábrica e superar o medo dos patrões; e Inácio pode trazer sua experiência anterior nos folguedos e nas Comunidades de Base a serviço também de seus cole- gas operários e do Grupo de Osasco. Para Gurgel, sua postura como rezador e a posição mais combativa de Roque Aparecido e José Ibrahin seriam válidas como expressão de resistência; não seriam excludentes.

A arte seria o território simbólico que lhes permitiria negociar.

A questão política perpassou os espaços da produção cultural e esportiva e a arte foi usada como estratégia para unir e conscientizar, para vencer o temor e politizar a reza. Mais do que representar um canal político, o teatro tornou-se espaço afetivo na vida de muitos narradores:

ponto de encontro, vida, integração e, mais tarde, caminho de terapia e superação de suas dores, principalmente para Gurgel.

Este último pontuou a criação do primeiro grupo de teatro do qual participou na igreja, o Corpo Cênico Imaculada Conceição e, em 1968, o Teatro Independente de Osasco, que teria dado origem na década de 1970 ao Grupo Expressão, sua grande terapia para superar as dores. Seu relato também retratou a saudade que tinha dos trapilhos utilizados nas encenações, enquanto estava foragido, após a greve, e o quanto en- cenar – coisa que ainda fazia no momento da entrevista – significava sentir-se vivo e poder suportar as sequelas de sua prisão.

Para João Joaquim, outro operário, o teatro inaugurou nova fase em sua vida, estimulando sua desinibição e sua integração com a Igre- ja e a fábrica. As peças exibidas, dentro e fora das empresas, nas escolas, eram controladas muitas vezes por direções disciplinadoras.40 Serviam, no entanto, aos interesses de politização, preparo para o embate armado ou trabalhista e desaguadouro do descontentamento na fábrica e no movimento estudantil, contra a censura imposta pelo regime. Os gru- pos cênicos, assim como a música, tornaram-se aglutinadores, espaços de resistência para além da escola e do processo de produção, no con- texto de tensão política.

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Inácio Gurgurgurgurgurgel el el el el recordou, com bom humor e os olhos iluminados, como o grupo teatral alcançou papel marcante fora de Osasco, no enfrentamento ao regime, colocando a arte como caminho de protesto.

Mesmo antes de 16 de julho de 1968... Nós fomos fa- zer teatro, em Minas Gerais... Essa história de Minas Gerais!... É muito curiosa, muito pitoresca, e ao mes- mo tempo, complicada. Essa história... É muito com- plicada!... O Rubens Pignatari escreveu um espetáculo parecido com Morte e Vida Severina, com aquela conotação... Chamava-se Rede, seca e fome. Isso! Rede,

40 Os grupos de teatro de Osasco eram dirigidos por Ricardo Dias e Rubens Pignatari;

chegaram a apresentar as peças Muro de Arrimo, Morte e Vida Severina, O Santo e a Porca e Zumbi, em 97 cidades de São Paulo, entre o final dos anos 1960 e início de 1970. Além disso, outras peças eram feitas pelo Círculo Estudantil de Osasco nas escolas, das quais participaram Ana Maria Gomes, Roque Aparecido e Osny Gomes, e pela Juventude Operária Católica nas igrejas, com apoio dos padres operários.

seca e fome. E nós ensaiamos! Como em Osasco esta- va pegando fogo, então nós falamos: “Vamos para Mi- nas Gerais e a gente disfarça um pouco!” Não deu ou- tra! Chegamos lá, em Guaxupé, a mulher do Coronel Lipiani tinha ido visitar a cidade. A mulher do Coro- nel Comandante do Quartel de Quitaúna...

Puta merda! Quando ela soube, quando viu os car- tazes na cidade, anunciando que um grupo de teatro de Osasco ia lá, ela falou: “Mas que maravilha! Minha terra é linda! Eu vou assistir a esse espetáculo!”.... Pron- to!... Aí, nós entramos, e tinha uma hora em que a gen- te criticava veementemente a fome, as Forças Arma- das... Em cena! Em cena... Teatro lotado!... Nós tínha- mos duas sessões nessa noite. Ela bateu o pé, gritou e falou: “Vocês são mentirosos!”. Saiu do teatro... O pri- meiro telefone que encontrou lá fora, passou a mão e ligou para o quartel de Quitaúna. Não deu outra, né?

No outro dia, nós voltamos para Osasco. Chegamos aí em frente à igreja Imaculada... Foi todo mundo preso!!

Os relatos, trançados pela tensão e o bom humor, permitiram ima- ginar certo espírito de indignação e vontade de transformação que to- mava conta de alguns setores da sociedade, seja pela tomada das ruas, das fábricas, dos grêmios ou dos espaços de lazer e cultura. O sentimen- to também de irreverência revelou estratégias narrativas que tornaram o ato de contar mais leve, manifestando pequenas vitórias e perdas. Delas Inácio Gurgel fez humor e poesia, performance que marcou toda a en- trevista, sempre tomado pela emoção. Suas palavras versaram sobre cada marco da greve, cada rede significativa para a colônia – homens católi- cos ou revolucionários, mulheres donas de casa ou intelectuais – man- tendo sempre viva pela oralidade a memória coletiva (sua apresenta- ção era continuamente exigida nos encontros e exposições promovidos pela colônia osasquense depois da reabertura política, e foi com suas poesias que ele foi convidado a concluir a peça de teatro 68+40, no Tea- tro Municipal da cidade, em 2008). As mais diferentes manifestações lembradas pelos colaboradores tornaram Osasco parte da imagem mítica do ano de 1968: contestação, renovação, magia.

Mesmo no clima de enfrentamento, algumas brechas mais sutis no endurecimento ditatorial foram desenhadas pelos entrevistados. A música, sempre lembrada, pareceu unir, amenizar a dor e as diferenças de posição política. Inácio Gurgel falou de seu companheiro José Cam- pos Barreto, operário-estudante ligado à VPR, como exímio tocador de violão. Apesar das críticas e das divergências de caminhos, o “rezador” e o “guerrilheiro” se encontravam e se uniam pelo poder da música.

O Barreto era assim: um exímio companheiro. Um violinista de mão cheia! Sabe? Uma doçura de pessoa!

Chegava em mim e falava: “Inácio, faz umas músicas.

Para de rezar, pô! Faz umas músicas boas!”... Só que tem um detalhe muito importante: quando eu ficava com ele, a gente tocava um pouco. Inclusive tem uma música aqui, que é o Sol zangado. O Barreto chegou a acompanhar essa música.

Barreto pareceu ser a síntese deste paradoxo: tantas vezes citado por toda a colônia, ele conseguiu ser o operário, o guerrilheiro e o tocador de violão, sensível. Aquele que se sentava com Inácio, “o rezador me- droso”, para cantar, muitas vezes sem que os companheiros do Grupo Osasco soubessem. O violão, a música, pareceram ser o meio de conci- liação entre as redes. Assim também os festivais de música em Osasco e em São Paulo, dos quais participou Gurgel, como compositor, da mes- ma forma que sua amiga Risomar Fasanaro – uma das colaboradoras – e os diversos saraus realizados nas casas dos narradores, quando as dife- renças se amenizavam e a identidade pela mesma causa operária se fortalecia.41 Todo processo de organização e de diferenciação osasquense ganhou dimensão de obra coletiva, entrelaçando fábrica, sindicato, es- cola, igreja, teatro, poesia e música. Isto fortaleceu a identidade coletiva que, apesar dos desencontros, foi construída baseada na crença de que todos eles fizeram parte de uma grande História.

41 Os grupos continuaram ainda a se reunir em saraus realizados em lugares públi- cos ou nas casas de alguns dos entrevistados, e Inácio Gurgel, até sua morte em 2011, era presença marcante, declamando suas poesias sobre a greve de 1968 jun- to a Risomar Fasanaro, narradora que também fez poesias sobre Osasco.

Seus relatos, carregados de emoção pela expressão da palavra, apre- sentaram direcionamento em comum, a estratégia do contar passando pelos mesmos pontos, mesmo quando havia desvios e ênfase em certas lembranças mais pessoais ou de rede. O momento das “mudanças essen- ciais” (a participação nos diferentes movimentos sociais) destacou as características flutuantes e mutáveis da memória individual ou coletiva, permeadas por eventos relativamente invariáveis e significativos para a identidade. Os entrevistados voltaram várias vezes aos mesmos aconte- cimentos, mesmo que as perguntas realizadas produzissem certos des- vios nas narrativas, porque estes eram imprescindíveis para que se fi- zessem compreender e se posicionar. Houve, o que Pollak considerou como “enquadramento de memória” e que chamo aqui de “acordo nar- rativo” por considerar que a memória é sempre viva e flutuante mas constituída de alguns elementos irredutíveis, selecionados, para que o fortalecimento da identidade se realize.

Em certo sentido, determinados aspectos tornaram-se tão fortes que passaram a fazer parte de certa “essência” da memória da colônia osasquense, muito embora outros tantos acontecimentos e interpreta- ções puderam se modificar em função das diferenças entre os interlocutores. O trabalho de fortalecimento da memória – enqua- dramento, para Pollak (1989) – pode ser analisado em termos de inves- timento afetivo e até mesmo político para a manutenção do sentimento de pertencimento, de unidade, coerência e continuidade da rememoração dos eventos que significam coletivamente. A troca de informações, os fatos elencados e o sustento que as narrativas deram umas às outras constituíram os sinais de balizamento de existência e de distinção da colônia, e se mantiveram conectados por um núcleo resistente, fio con- dutor de cada uma das histórias individuais. Reconstrução contínua e avaliação constante, a memória oral dos colaboradores manteve elos entre eventos considerados chaves nas lembranças, e que tornaram as trajetórias narradas cada vez mais consolidadas e ampliadas em seu sentido, compatibilizando, no caso de Osasco, o desejo de revolução do Grupo de Osasco com o apostolado católico voltado para a base, da Frente Nacional do Trabalho.

Zygmunt Bauman (2005) já teria dito que o sentimento de perten- cimento a um grupo só ocorre a alguém de fato se ele não for imposto como destino, sem alternativa. A identidade precisa ser entendida como

tarefa a ser realizada muitas vezes sem conta; mais do que destino, ela é escolha que mantém os indivíduos unidos e os distingue como grupo diante de outros.42 No caso da colônia de Osasco, a greve e a repressão a ela foram eleitas para falar de organização, do medo e da coragem; para atribuir erros e acertos; para avaliar seus efeitos subjetivos e coletivos.

Como prévia do movimento em julho, os narradores apontaram a paralisação, no mês de abril de 1968, organizada pelos trabalhadores em Minas Gerais, quando 10% de aumento salarial teriam sido conce- didos pelo governo a eles em resposta à greve na empresa Belgo-Minei- ra. Este fato teria consolidado a crença num movimento mais político, porém mais ingênuo quanto à reação de patrões e Estado. Como a para- lisação de Contagem teria surpreendido os militares, os operários do Grupo de Osasco acreditaram que teriam mais força que seus ante- cessores, devido ao apoio de intelectuais e estudantes aos operários, jun- tamente à experiência de enfrentamento ao governo nas ruas, a leitura marxista na escola e a orientação política dos grupos armados.

JJJJJosé Ibrosé Ibrosé Ibrosé Ibrosé Ibrahinahinahinahin comparou a organização das duas greves, salientan-ahin do a particularidade das reivindicações osasquenses com relação a ou- tras manifestações pelo país:

A nossa foi em julho, né?... Mas a diferença entre Con- tagem e Osasco é que a nossa foi uma greve muito mais politizada, muito mais com reivindicações políti- cas! Então, a gente queria manter e expandir as comis- sões de fábrica, a questão da liberdade sindical. A gen- te dizia que só a greve derrubava o arrocho. Uma série de reivindicações mais políticas... E não era um movi- mento localizado numa empresa, era um movimento que partiu do sindicato! O sindicato que organizou. E o sindicato se expandiu pra outras empresas e tal, ou- tras fábricas... Então, a nossa visão era parar toda a cidade!... [...] Osasco tinha que ser o estopim!! Osasco ia começar.

42 Sobre isso, Zygmunt Bauman afirmou que “a identidade só nos é revelada como algo a ser inventado, e não descoberto, como alvo de um esforço, um ‘objetivo’;

como coisa que ainda se precisa construir do zero ou escolher alternativas e então lutar por ela e protegê-la lutando ainda mais [...]”. (BAUMAN, 2005, p. 22)

As palavras chamaram novamente a atenção para o pioneirismo de Osasco, na deflagração de uma greve mais politizada, a ser prepara- da com o intuito de balançar o regime militar. Embora os operários da Belgo-Mineira tivessem alcançado a vitória, conquistando o aumento salarial, seus companheiros osasquenses dariam o tom mais radical ao movimento grevista que deveria se espalhar por todo o Brasil: “Osasco ia ser o estopim; Osasco ia começar”.

Essa escolha só ocorreria porque o Grupo de Osasco, mais politizado do que a Frente Nacional do Trabalho e mais ativo que os comunistas da “velha guarda”, estaria à frente das ações. Esta crença no vanguardismo e a pressão dos colegas nas fábricas para que a greve ocorresse foi o que fez com que ela tivesse acontecido em julho de 1968, quando deveria ter ocorrido em novembro, com o restante da categoria. Sua antecipa- ção foi outro motivo de dissonância entre os colaboradores, com críti- cas por parte dos operários católicos ao radicalismo do Grupo de Osasco.

A diferença foi marcante nas narrativas e pareceu delinear suas concepções até o momento das entrevistas, quando avaliaram o evento e deixaram transparecer as críticas. Se para Espinosa e Roque Apareci- do havia o sentido revolucionário ocupando o espaço vazio ou ocupado precariamente pela FNT, seus colegas da organização católica aponta- ram para “os desvios” à esquerda como um problema.

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Roqoqoqoqoque Aue Aue Aue Aue Aparecido:parecido:parecido:parecido:parecido: A gente já falava em luta armada e já organizava a greve com essa perspectiva também, tanto que a Vanguarda Popular Revolucionária do capitão Lamarca foi um resultado, praticamente, em 68, de um grupo de ex-militares, dirigidos pelo sar- gento Olavo Pinto, o Grupo de Osasco e alguns minei- ros do Colina.43 O grupo de Osasco estava no processo de organização da VPR.44

43 O grupo Colina foi uma dissidência da Polop (Política Operária) e nasceu em 1967 a partir das divergências entre seus membros com relação às ações armadas e à necessidade de discussões mais teóricas sobre elas. Sobre a formação do grupo Colina (Comandos de Libertação Nacional) verificar a monografia de LEITE, Isa- bel Cristina. COLINA: oposição armada e memórias do regime militar em Belo Horizonte (1967-69), Universidade de Ouro Preto, 2006.

44 A Vanguarda Popular Revolucionária nasceu em 1966 da fusão de duas organiza- ções armadas, a Polop e o MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário). (cont.)

Albertin Albertin Albertin Albertin

Albertino Oo Oo Oo Oo Oliva:liva:liva:liva:liva: O motivo principal era reivin- dicatório. A politização se deu depois. Quer dizer, na hora em que o pessoal do Sindicato, principalmente o Grupo de Osasco entrou na jogada pra desenvolver o trabalho, daí a conotação política se deu, porque foi aí que a coisa ferveu lá no Primeiro de Maio, né?

Nas falas dos narradores, as opiniões demarcaram suas discordân- cias quanto à condução da greve. A memória coletiva que legitimou a luta que empunharam juntos não se traduziu em discurso monolítico quanto à greve, tendo suas fronteiras. Houve reconhecimento de unida- de quanto à realização dela, à ideia de caminharem juntos até determi- nado momento. Para o Grupo de Osasco, ela teria sido estratégica, me- canismo para se atingir a luta armada e fazer a revolução; para os nar- radores cristãos, ela teria motivos meramente reivindicatórios da base nas fábricas e a politização da luta não foi vista como aspecto positivo por isso.

Relatos como os de Albertino Oliva, José Groff e Inácio Gurgel fizeram questão de pontuar sua religiosidade e o caráter moderado dos operários ligados à Igreja. As falas de Roque Aparecido, Roberto Espinosa e José Ibrahin destacaram a ligação com o ideal revolucionário e mais politizado do Grupo de Osasco. Não houve desqualificação entre eles e sim posicionamento discordante e, por vezes, ressentido.

JJJJJosé Gosé Gosé Gosé Gosé Grrrrroff:off:off:off:off: Ao Grupo de Osasco nós nunca pertence- mos, mas tínhamos um objetivo comum pela frente.

Nesse objetivo a gente caminhava junto. Agora o jeito de levar esse trabalho, eles tinham um jeito e nós da FNT tínhamos outro, que era o da não violência ativa, de Gandhi: firme o tempo todo, e não valente de vez em quando. [...] Então, nós deflagramos a greve em 16

(cont.) A fusão de parte de seus militantes com a Colina deu origem ao grupo VAR-Palmares. Em 1970, a VPR se recompôs e organizou a guerrilha no Vale do Ribeira sob a liderança do capitão Carlos Lamarca e de José Campos Barreto, am- bos de Osasco. Sobre esse grupo e outros que atuaram na luta armada há várias análise, dentre elas destacam-se as de Jacob Gorender (1987), Daniel Aarão Reis Filho (1990/1999/2000), Hélio Gaspari (2002), Marcelo Ridenti (2007) e Denise Rollemberg (2003).