os marcos coletivos
A conciliação na memória oral coletiva de Osasco tornou-se mais cla- ra quando os entrevistados trataram de eventos fundadores da causa em comum entre eles, relativa à organização os trabalhadores. Pollak (1992) afirmou que, como a memória é um fenômeno construído, exis- tem fatos, lugares e personagens que são apresentados como vestígios de acontecimentos herdados pelo grupo. Essas referências reforçam a identidade coletiva e ajudam a construir a imagem de como a coletivi- dade de narradores pretende ser reconhecida e significada. No caso das duas redes estudadas, alguns “acontecimentos vividos pessoalmente” e aqueles “vividos por tabela”, como o nascimento da comissão de fábri- ca, tornaram-se marcos cronológicos e simbólicos quanto ao enfren- tamento da própria ditadura, na década de 1960. No lugar de memória herdada, como nomeou Pollak, diria que são fatos partilhados e filtra- dos pela experiência da coletividade, uma vez que as lembranças não podem ser coisificadas.
Entre esses fatos em comum – dos quais nem todos os narradores participaram, embora os tenham como referência – foram enfatizadas a morte de um operário e a criação (clandestina) da comissão da fábrica, em 1962; a vitória da Chapa Verde nas eleições sindicais e a criação do Movimento Intersindical Anti-Arrocho, em 1967; a manifestação operá- ria no Primeiro de Maio e a própria realização da greve, no ano de 1968.
A chamada Comissão dos Dez, na Cobrasma, nasceu a partir de um fato ao qual nem todos estiveram presentes, mas que se tornou pon- to inicial, símbolo de união coletiva: a morte de um trabalhador de forma trágica dentro da fábrica, em 1962. Os colaboradores descreve- ram o acontecimento traumatizante que permaneceu vivo na memória coletiva:
Albertin Albertin Albertin Albertin
Albertino Oo Oo Oo Oo Oliva:liva:liva:liva:liva: Num determinado dia, em 1962, morreu um rapaz lá dentro da Cobrasma. Ele estava junto ao forno, houve uma reação na hora do forno de aço, né, e essa reação soltou uma labareda que lam- beu o sujeito e ele ficou com mais de 60% do corpo dele queimado, e acabou morrendo!
JJJJJoão João João João João Joaqoaqoaqoaqoaquim:uim:uim:uim:uim: Na fundição tinha os altos-fornos, que fundiam as peças e etc... E tinha as panelas, nós cha- mávamos de panelas, que tinham aço pra fazer a cor- ridas, fazer a fundição, e era um operário que fazia...
Quando ele colocava a alavanca na parte de cima, abria lá embaixo, aí o aço escorria, fundia a peça. Aí quando terminava, substituía o operário por outro, e por ou- tro... Ah! Altamente insalubre!! E, um dia, quando fez aquela corrida de fundição, ficou um operário fazen- do limpeza onde colocavam o forno. Aí, o ponteiro, aquele volante que ficava na panela de 10 mil quilos de aço, 12 mil quilos de aço, ele despejou a escória, que era o que eles faziam... E naquele dia a escória caiu em cima de um operário que tava fazendo a lim- peza. O operário teve umas três, quatros horas de vida...
Isso foi em 1964, 1965...
A história do acidente que provocou a reação dos trabalhadores contra a fábrica reforçou a memória coletiva, fazendo cada um sentir-se parte do mesmo destino. O evento que fez nascer a unidade operária, apesar de suas diferenças, foi a morte, fato traumático que mobilizou a todos. Na memória coletiva, os detalhes e a dramatização da morte do operário importaram para saber sobre o significado do acontecimento:
a violência e impacto do acidente, o sofrimento nos poucos minutos de vida, o auge da falta de proteção e de direitos coletivos que já se arrastava na fábrica. Em especial, a alta insalubridade, lembrada por João Joaquim, à qual qualquer trabalhador estava sujeito, pondo em risco sua vida.
As datas do acidente indicadas por eles não coincidiram nos rela- tos (1962, 1964 ou 1965), mas o sentido da tragédia permaneceu: foi dela que nasceu a paralisação dentro da fábrica e a ideia de tocar o apito como protesto.
Alessandro Portelli (2009), em sua pesquisa sobre a greve na cida- de de Terni, na Itália, percebeu algo semelhante: os trabalhadores havi- am deslocado a data da morte de um operário, Luigi Trastulli. Morto numa manifestação na década de 1940, contra a Organização do Trata- do do Atlântico Norte (OTAN), sua imagem teria sido relacionada pela população a uma greve, em 1953, cujos efeitos teriam sido devastado- res. A figura martirizada do jovem, usada fora do tempo histórico, cum- priria a função de uni-los simbolicamente, independente da data exata de seu falecimento.
Portelli chamou a atenção para o fato de que a excepcionalidade dos que morreram passa a concentrar o sentido de todos aqueles que sobreviveram a um fato trágico. Em anos de fábrica, trabalhando oito horas por dia, sujeitos aos riscos de acidente e à falta de leis que os protegessem, os trabalhadores conseguiram evitar sua própria morte.
Daí a experiência traumática daquele companheiro inscrever todos na possibilidade de terem sido atingidos, pondo em evidência sua instabi- lidade e fraqueza.
Mais do que forneceu a precisão cronológica, a data apontada pe- los ex-operários cumpriu uma função simbólica. A memória, como afir- ma Portelli, não seria apenas fornecedora de informações nem um de- positário passivo de fatos e sim processo ativo de criação de significa- dos, que se renovam a partir do presente. No caso de Osasco, a lembran- ça do colega morto pelos entrevistados reforçou a necessidade de uni- dade, devido ao sacrifício e ao trauma sofrido por eles.
Politicamente, aquele momento inaugurou a pressão para que a comissão de fábrica, que já existia de forma clandestina e precária, fos- se reconhecida pelos patrões. A resistência operária iniciou-se com a paralisação da fábrica em homenagem ao amigo e em protesto contra as condições de trabalho. Esse ato levou ao fortalecimento do grupo que criou a comissão e conquistou sua legalização em 1965. Participan- tes do Grupo de Osasco ou da Frente Nacional do Trabalho partilharam da mesma história em suas narrativas, demonstrando como deses- tabilizaram a rotina da fábrica:
JJJJJoão João João João João Joaqoaqoaqoaqoaquim:uim:uim:uim: Aí, no dia seguinte, na hora do enterrouim:
desse companheiro, a empresa paralisou. Não me lem- bro mais ou menos que hora que parou, mas era fora
de horário, né? Então, vamos supor que umas nove e meia da manhã, dez horas, tocou a sirene, e as pessoas falavam: “Ué, ainda não é hora de almoço, por que é que tá tocando?”. E a empresa ficou totalmente parali- sada! A peãozada conseguiu fazer com que a “Rádio Peão” funcionasse em todas as seções da empresa. Isso em sinal de protesto pela morte do companheiro, né?
JJJJJoão Cânoão Cânoão Cânoão Cânoão Cândido:dido:dido:dido:dido: A gente fez uma grevezinha de cinco minutos, uma manifestação de solidariedade a um companheiro nosso em função de que ele morreu em um acidente. Aquele tipo de acidente estava sempre acontecendo e a gente já tinha uma pauta contra isso.
Fizemos cinco minutos de interdição em homenagem ao falecido, à revelia da firma que não tinha deixado a gente ir ao enterro dele. Foi assim um impacto muito grande pra nós!...
Albertin Albertin Albertin Albertin
Albertino Oo Oo Oo Oo Oliva:liva:liva:liva: Houve a sugestão pra que a genteliva:
parasse a Cobrasma na hora em que o companheiro fosse enterrado, na hora do enterro iria parar a Cobras- ma. E o pessoal, lá, se organizou... E exatamente, pare- ce que foi duas horas da tarde ou coisa parecida, o enterro estava saindo da casa do rapaz, alguém foi lá e tocou esse apito que você acabou de ouvir aqui, enten- de?! E a fábrica parou!
O toque do apito da Cobrasma, símbolo do trabalho na cidade de Osasco, foi usado por eles fora de hora, para subverter a ordem e a disciplina. O objetivo era demonstrar o impacto da tragédia e a indig- nação pela constância de acidentes à qual todos estavam sujeitos. Além disso, manifestaram-se contra a insensibilidade dos empresários demons- trada pela proibição quanto ao direito de prestarem solidariedade à fa- mília do companheiro, de irem ao seu enterro e de chorarem sua perda.
Ainda utilizado pela fábrica, o som do apito pode ser ouvido em determinadas horas do dia e ajuda a organizar, inclusive, as tarefas co- tidianas dos moradores da vizinhança. Mais do que isso, o apito da Cobrasma tornou-se parte da vida na cidade, característica da “cidade
do trabalho”, como Osasco foi nomeada oficialmente. Os narradores deram destaque ao fato de o soar da sirene ter sido transformado em símbolo de resistência, início do rompimento da submissão, fundação de uma ideia: a criação oficial de uma organização pelas bases.
JJJJJoséoséoséoséosé Ibr Ibr Ibr Ibr Ibrahin:ahin:ahin:ahin:ahin: Então, a partir de 1965, a gente começa a trabalhar na idéia de comissão de fábrica, que no começo era clandestina, desde a morte do operário na fornalha, mas não era reconhecida e nós tínhamos que trabalhar nela clandestinamente.
O apito foi também utilizado por eles, no dia 16 de julho de 1968, para paralisar a mesma fábrica e iniciar a greve, tomando o controle do tempo: o símbolo da disciplina tornou-se mecanismo de desobediência.
O sinal da entrada e saída de operários serviu naquele momento para lembrá-los do momento da subversão: quando todos eles entrariam sem trocar o turno e ocupariam os setores da fábrica, inclusive a sala dos engenheiros, para forçar as negociações com os patrões.
Enquanto alguns dos entrevistados estavam falando, coincidente- mente, o som da sirene chamou a atenção deles. Pausa!... Olhos e ouvi- dos atentos... Toque corriqueiro, anunciando determinadas horas do dia para a troca de turno, naquele momento provocou emoção, brilho nos olhos, risos e vivacidade.
Inácio G Inácio G Inácio G Inácio G
Inácio Gurgurgurgurgurgel:el:el:el:el: Fiz uma poesia do que senti nesses 23 anos de Cobrasma. Todos os dias, às seis horas da manhã, o que sentia ao ouvir o apito da Cobrasma. Da minha cama eu ouvia! Daqui eu ouvia!....
JJJJJoão João João João João Joaqoaqoaqoaqoaquim:uim:uim:uim:uim: Cobrasma!... Ouve o apito! Tá tocando!...
O som que paralisou momentaneamente a fala deu mais sentido à história que contavam. Continuou a tocar a alma dos contadores, ati- vou lembranças com mais intensidade. A memória oral é viva, pulsante, e naquele instante passado e presente se fundiram, na sensibilidade provocada por um barulho, que deixou de simplesmente sê-lo para sig- nificar e emocionar.
Emoção que marcou também o relato sobre o nascimento da Co- missão dos Dez, a partir da resistência na fábrica. A morte do operário
foi transformada em mito de libertação contra a dominação. O mito como palavra que remete à origem a um tempo primordial, “o tempo fabuloso do princípio”, de como algo nasceu e passou a ser e significar.
E a poesia, como as enunciadas por Inácio Gurgel em toda sua perfor- mance narrativa, mostraram a memória da passado na forma de pala- vra cantada e ritmada, procurando manter os rastros da luta deles con- tra o esquecimento. A poesia forneceu caráter épico à formação da co- missão, marco de fundação da trajetória operária que culminaria na greve e continuaria nos confrontos depois dela. Sua origem esteve rela- cionada com a violação do direito, a morte de um mártir; operário do qual ninguém chegou a mencionar o nome; a síntese de todos deles.
Inácio Gurgel, José Ibrahin e Roque Aparecido, pertencentes a grupos diferentes, convergiram quanto à importância da comissão como mediação na negociação de direitos com o patrão e à sua força simbóli- ca na solidariedade entre as redes. Ela pareceu ter congregado, pela primeira vez, as diferenças entre os setores da indústria e, mais tarde, ter feito parte de comunhão maior, política e nacional, da intelec- tualidade com o trabalho. Isto a tornou motivo de orgulho coletivo.
Inácio G Inácio G Inácio G Inácio G
Inácio Gurgurgurgurgurgel: el: el: el: el: E aí, no meio de tudo isso, a Comissão dos Dez... A Comissão dos Dez foi um trabalho de ex- pressão! De libertação da classe operária osasquense, sobretudo, na Cobrasma! Maravilhoso!!... Olha aqui, ó!
A Comissão dos Dez foi trabalho de expressão!
Refeitório, Prêmio de Insalubridade E o Prêmio de Produção!
Valei, Nossa Senhora!
Se mandassem alguém embora, A turma virava “o cão !
Estudantes universitários Uniram-se aos operários E a ditadura tremeu!
Muitos, então, foram mortos, Deram a vida por amor!
Gritaram para o mundo inteiro, Defendendo os brasileiros E na luta ficou!
Muitos intelectuais vieram em nossa defesa, Na coragem da esperança,
Na esperança da certeza!
A Igreja com ação e preces,
Para que a gente tivesse o sagrado pão na mesa!”
O narrador usou rima, ritmo e sonoridade para render homena- gens a todos os que participaram do processo de luta em Osasco. O ponto inaugural foi a comissão, juntando-se a ela universitários, inte- lectuais e a Igreja. O uso de sua capacidade de declamar tornou ainda mais grandioso o que quis rememorar: o feito “maravilhoso” de “liber- tação da classe operária osasquense”. Apesar dos dramas e perdas – e ele não esqueceu aqueles que morreram pela causa – suas palavras de- monstraram otimismo, sentido vitorioso e conciliador. Além das con- quistas trabalhistas que a comissão obteve, sua existência se estendeu no tempo e se inseriu na defesa “de todos os brasileiros”. O narrador fez da experiência coletiva sua poesia engajada e tocante, aclamando com entusiasmo o grande feito histórico.
JJJJJosé Ibrosé Ibrosé Ibrosé Ibrosé Ibrahinahinahinahinahin, operário da Cobrasma em 1965, também anunciou a Comissão dos Dez em sentido fundador e mobilizador:
Foi um período de bastante luta dentro de Osasco, de bastante mobilização, tanto do movimento secun- darista como dos trabalhadores, principalmente os metalúrgicos. A Cobrasma era a fábrica mais organi- zada, porque tinha a comissão. A Comissão dos Dez foi um avanço e, diga-se de passagem, a primeira co- missão de fábrica existente no país foi a da Cobrasma!
Nas lembranças de Gurgel e José Ibrahin a alusão à Comissão dos Dez ganhou sentido fundante: a primeira comissão de fábrica foi tam- bém “trabalho de libertação e mobilização”. A ideia da originalidade dos trabalhadores osasquenses da Cobrasma faz parte da disputa por outra memória entre o próprio movimento operário na atualidade: a quem caberia o pioneirismo da representação legal dentro das empresas?34
34 Diferentes sites na Internet ligados a movimentos sindicais reconhecem como primei- ra comissão de fábrica do Brasil aquela formada em 1981 pelos trabalhadores (cont.)
O trabalho de Valdemar S. Pedreira Filho sobre as comissões de fábrica no Brasil (1998) constatou que elas não eram novidade na déca- da de 1960. O autor localizou sua existência clandestina desde 1919, em São Paulo, e sua proliferação em várias empresas sob a influência do Partido Comunista a partir de 1948. Sobre seu reconhecimento e legali- zação, no entanto, concluiu:
[...] em 1965, o grupo de fábrica dos operários da Cobrasma S.A. Indústria e Comércio negociou com a direção da empresa o reconhecimento de sua comis- são de fábrica. Pode-se afirmar que esta foi a mais sig- nificativa experiência de organização por locais de tra- balho vivenciada pelo operariado brasileiro, ao longo das fases mais recentes de sua história. Além de ter sido a primeira do gênero, cujas negociações envolve- ram patrões e empregados, a aprovação dos seus esta- tutos foi deliberada em assembleia dos trabalhadores da empresa. (PEDREIRA FILHO, 1998, p. 121)
Apesar de haver coincidência entre a versão de Ibrahin e a pesquisa de Pedreira Filho, o embate pela memória da Comissão dos Dez perma- neceu. As palavras do ex-operário procuraram legitimar a importância do feito fundador para a história não só do movimento osasquense, mas para os operários em todo Brasil, parecendo dialogar com outras versões.
A convergência de movimentos e o rompimento com a tradição sindical fez parte da construção identitária entre as redes, negociada e consentida. Foi a eles que os narradores atribuíram a vitória nas elei- ções sindicais no ano de 1967, outro marco da memória coletiva. A co- nexão e a coerência entre as histórias orais compuseram o sentimento de pertencimento aos acontecimentos vividos pessoalmente ou “por ta- bela”, pela coletividade. (POLLAK, 1989, p. 2).
(cont.) da Ford: www.cut.org.br, www.fetecpr.org.br/ato-comemora-30-anos-da- comissao-de-fabrica,www.abcdeluta.org.br., www.redebrasilatual.com.br/revistas/61/
trabalho/. O fato sinaliza para uma possível disputa dentro do movimento operá- rio por memórias e silenciamentos quanto aos significados dos movimentos de 1968, em Osasco, e de 1978, no ABC. Não caberia esta discussão neste trabalho, mas poderia ser tópico importante a ser desenvolvido.
Por meio desses feitos experimentados ou filtrados, os narradores construíram um “sentido de si, para si e para os outros”; colocaram-se no centro da história, recorrendo a fatos anteriores à sua participação na fábrica da Cobrasma para significar suas vidas: a formação da coo- perativa dos vidreiros anarquistas, a morte do operário, a criação da comissão de fábrica, a vitória sindical, o Primeiro de Maio, culminando na greve de 1968. Eles tornaram valorosa sua experiência como sujei- tos pertencentes a uma coletividade que fez acontecer a história. InácioInácioInácioInácioInácio G
GG G
Gurgurgurgurgurgelelelelel, mais uma vez, descreveu a conquista como feito grandioso por- que coletivo e solidário:
Fizemos uma composição: Chapa Verde. Está aqui nes- ta cartilha, pode ver, na última página... Na última página tem a Chapa Verde, você vai ver de cara... Quer ver?... Chapa da Oposição, eleições: 14, 15 e 16 de ju- nho de 67. E tinha aqui, uma coisa... Ah! Olha essa parte da cartilha sobre a greve: “Avante companhei- ros! Chapa Verde. Uma árvore com folhas verdes indi- ca que haverá esperanças de bons frutos!”... Essa era a nossa chamada para os operários. Nisso aqui nós nos unimos: a turma do Roque, a turma do Ibrahin, do Barreto, tantos outros, juntamente com a Frente Naci- onal do Trabalho, Ação Católica Operária. A Frente Nacional do Trabalho entrou muito forte: o Dr. Mário Carvalho de Jesus, que era do Sindicato de Perus, e Albertino de Souza Oliva, que trabalhava na parte ad- ministrativa da Cobrasma. E o Groff, que foi presiden- te da Comissão dos Dez, na Cobrasma. [...] Isso foi muito grandioso!...
Gurgel deixou claro: “nisso aqui nós nos unimos”. Em torno das eleições sindicais, o Grupo de Osasco e a Frente Nacional formaram uma só composição, tornando a vitória sobre a chapa do Partido Comunis- ta algo grandioso. Juntos com José Ibrahin, Roque e Barreto eles pude- ram desafiar a vigilância da ditadura e iniciar um novo sindicalismo.
Essa aproximação entre as redes também se manifestou nas pala- vras de RRRRoqRoqoqoque Aoque Aue Aue Aue Aparecidoparecidoparecidoparecidoparecido, reconhecendo no contato com os companhei- ros da FNT a possibilidade de canalizar seu espírito já insubmisso:
Quando comecei a trabalhar na Cobrasma, passei a conviver com outras pessoas, os novos companheiros da Frente Nacional do Trabalho, o Groff, o Cândido, isso foi se intensificando. Eles colocavam para nós essa questão contra a ditadura, e a gente sofria na pele!
Então, a consciência foi meio que a partir da integração nesse processo e da própria personalidade de não me sujeitar a qualquer imposição. Agora, por que a greve ocorreu em Osasco? O fato da Frente Nacional do Tra- balho ter se constituído com setores ligados à Igreja, se tornou sólido aqui em Osasco, mais forte do que em São Paulo, que era uma cidade maior! Uma cidade menor, com uma concentração industrial maior, deu ao movimento em Osasco essa particularidade... Com certeza, a participação do Dr. Albertino de Souza Oliva, ligado à FNT como advogado foi fundamental! E não havia apenas operários semi-analfabetos, mas também um advogado, que conhecia o outro lado, da adminis- tração, e toda a realidade operária e da produção, da gestão do trabalho, como se dava naquela época. Esse grupo teve um papel muito importante!
O Sindicato dos Metalúrgicos, que até as eleições tinha como pre- sidente Conrado del Papa, ligado ao Partido Comunista, não foi fecha- do pelo governo com a repressão, mas sofreu intervenção. JJJJJoão Cânoão Cânoão Cânoão Cânoão Cândi-di-di-di-di- do
dodo
dodo, que foi o primeiro presidente da comissão da Cobrasma, chamou a atenção para o fato de que mesmo com a tentativa de controle estatal sobre os sindicatos, os trabalhadores não se curvaram:
Na época teve a intervenção no sindicato, mas a luta operária estava em nossas mãos, era nosso destino!
Tanto que com a intervenção, eles vinham pedir pra gente conversar com os interventores, que eles ajuda- riam os operários, mas a gente dava o encaminhamen- to que a gente queria ao sindicato. A gente queria dar outro sentido à presença deles. A vitória em 1967 ti- nha que ser nossa!