Identidade profissional é um conceito que vincula individualidade do ser humano a uma atividade profissional (VALE, 2010). Desta forma, pode se dizer que a identidade do ser humano é um conjunto de características próprias, que o torna diferente do outro e que expressa uma maneira de ser subjetiva, que vai sendo construída nas e pelas relações sociais. Para Berger e Luckmann (1985), a identidade se configura como um elemento chave da subjetividade e da sociedade, formando-se e sendo remodelada por meio dos processos de relações sociais. As identidades são singulares ao sujeito e produzidas a partir de interações do ser humano, da consciência e da estrutura social na qual este está inserido.
Logo, a identidade é uma estrutura de onto-psico-antropológica, com a qual o ser humano se reconhece e age nos processos dialéticos dentro dos fenômenos sociais (DITTRICH, 2010).
Identificar-se profissionalmente na área da saúde requer primeiro uma identificação individual como pessoa, ser humano dotado de características da sua história e cultura, levando a um entrosamento tanto ativo ou passivo de ações pessoais e coletivas no âmbito social. A identidade profissional se constrói, pois, a partir da significação social da profissão; da revisão constante dos significados sociais da profissão; da revisão das tradições. Mas também de reafirmação de práticas consagradas culturalmente e que permanecem significativas. Para Baumann (2005), as questões atinentes à identidade estão ligadas a comunidades de ideias e princípios.
Dentro dessa ideia sobre a identidade do profissional, o egresso AA diz que: “este termo significa entender e estar satisfeito com a escolha feita em termos profissionais. Eu gosto muito do que faço, fiz minha escolha, na finalização da graduação e hoje ainda me motiva muito estudar, refletir, participar de cursos e de educação continuada na área”.
Esse conceito emitido pelo egresso AA mostra que ele compreende identidade profissional desde as suas atuações nas relações sociais, bem como indica que tal escolha tem características pessoais próprias de seus gostos e projetos profissionais. Como já citado por Dittrich e Koefender (2011) a identidade profissional está profundamente enraizada nas características próprias do pensar e do agir do profissional. Quando ele se sente realizado naquilo que projetou para si
mesmo e percebe que na sua atuação existe uma correspondência com suas expectativas profissionais, ele cria uma identidade sua que o referenda existencialmente.
Denota-se na fala do egresso AA que ele tem consciência de sua escolha feita e de sua satisfação profissional. Logo, possui uma identidade profissional na área em que atua, pois mostrou que desde sua formação até agora ainda se sente motivado a avançar nos estudos. Esse testemunho é contundente para afirmar que o egresso AA identifica-se com a sua profissão.
Por outro lado, o egresso B afirma que identidade profissional “é uma construção formada continuamente com possibilidades de satisfazer necessidades relacionadas ao trabalho”. Tal juízo indica que, em parte, o egresso sente-se com uma identidade profissional. No entanto identidade profissional é mais do que possibilidade de satisfazer necessidades profissionais.
Ela implica uma tomada de consciência do profissional no que diz respeito ao seu papel profissional dentro de uma rede de relações que ultrapassam o pessoal, bem como atingem outras dimensões do ser e do agir humano de ordem política, econômica, social, cultural, ecológica, religiosa, etc.
Nesta direção de raciocínio, o egresso C confirma a sua consciência sobre identidade profissional; diz ele: “pra mim, identidade profissional tem uma relação com a identificação que a pessoa tem com seus valores... visão de mundo, e sua profissão”. Sem dúvida, a identidade profissional tem uma carga semântica de gostos, conceitos, verdades, idiossincrasias que foram marcantes na formação e na caminhada existencial da pessoa.
Vale dizer que o profissional da saúde tem que ter muito claro na sua identidade profissional que os valores são diversos para atuação profissional socialmente falando, no entanto existe um princípio inquestionável que se torna um valor sine qua non: o respeito e o acolhimento cuidadoso à vida, seja ela de quem for.
Na saúde, a complexidade presente numa equipe de profissionais dá-se quando, numa vivência de cuidado, faz-se apelo a estratégias para ajudar a avançar no incerto e no aleatório, como a arte de perceber informações, valores, conhecimentos que surgem durante a ação interativa e integrá-los, buscando no diálogo, aberto e sincero, formular esquemas de ação que reúnam o máximo de certezas para defrontar o incerto. Nessa visão, a complexidade implica interações
de pessoas no cuidado, que são ações recíprocas que modificam o comportamento ou a natureza de elementos, corpos, objetos ou fenômenos que estão presentes ou se influenciam. Consideram-se a interação e a noção – placa giratória entre ordem, desordem e organização (o nó górdio), termos ligados via interações (um termo não pode ser concebido fora da referência do outro (DITTRICH, ESPINDOLA, KOEFENDER, 2012)
Em tempo, ainda se registra que o egresso C apresenta que é importante para o reconhecimento duma identidade profissional a pessoa estar fazendo o que gosta. Segundo ele, a satisfação profissional está focada nisso. No entanto afirma que tudo isso depende dos valores pessoais na atuação profissional. Responde ele na entrevista: “Somos uma única pessoa, seja nas nossas relações pessoais, familiares ou mesmo no trabalho. Portanto identidade profissional passa por fazer aquilo que se gosta, passa por satisfação profissional, mas que tem uma relação direta com seus valores pessoais, e isso pode ser bom ou ruim para a sociedade, depende dos valores individuais de cada um”.
Já a resposta do egresso DD sobre sua identidade profissional vem carregada de uma crença. Ele abre a sua resposta dizendo: “Ainda creio que precisamos ter afinidade pela nossa profissão, prazer em exercê-la e assimilar o que realmente devemos praticar e podemos realizar”.
Tal juízo mostra que este egresso tem consciência da satisfação e do prazer no exercício profissional, porém o que também se percebe é que ele usa o verbo creio, que quer dizer acreditar em uma verdade de fé. Por outro lado, se percebe que este profissional está comprometido com sua identidade profissional, pois assim registra ele: “ser profissional médico me traz uma satisfação e certeza que com tranquilidade, dedicação, muito estudo e competência posso promover discussão com outros profissionais, alunos e pessoas que estão sendo atendidas (e/ou assistidas) para que haja crescimento entre estes.
Mesmo na atenção clínica, podemos promover mudanças de pensamento, comportamento e até de vidas... (talvez um tanto pretensioso, mas...)”. Estas ideias indicam que este profissional está comprometido com a saúde e a educação e entende que a tranquilidade, a dedicação na prática e nos estudos teóricos é fundamental para desenvolver com competência os objetivos da profissão. Com efeito, tal juízo denota uma identidade profissional.
Nesta direção de comprometimento com a questão do conhecimento no desempenho da identidade profissional,o egresso EE falou: “você conhecer e agir de acordo com os princípios de sua profissão; acima de tudo, amar o que faz e ter amor pelas outras pessoas. Me sinto como uma profissional comprometida com a vida; com conhecimento profissional através de minha atuação”. Logo, essa fala mostra que tal profissional assume a sua profissão de forma ética e política, pois é uma profissional comprometida com a vida e com a eficácia do conhecimento na sua atuação na rede de atenção à saúde.
De forma geral, o perfil dos respondentes da pesquisa aponta uma consciência sobre o que significa a identidade profissional. Tal perfil está especialmente focado na questão do prazer e das realizações de satisfação das necessidades pessoais e sociais, bem como no comprometimento com o avanço do conhecimento e a competência no desenvolvimento das ações no trabalho.