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Refletindo sobre o contexto de vida atual

No documento Marli Koefender.pdf - Univali (páginas 67-70)

ARTIGOS CIENTÍFICOS

1. Refletindo sobre o contexto de vida atual

O ser humano na contemporaneidade vive constantes desafios, assombros existenciais diante de impactos, dos mais diversos, que perturbam a sua saúde física, psíquica e espiritual. Tudo acontece com rapidez, o ser humano sente que perdeu o controle do ritmo da realidade em que vive, pois o conhecimento e as relações, muitas vezes, são apenas superficiais e provisórios. Isso causa medo e insegurança. No entanto também provoca impulsos para sair de um modelo de vida mecânico e acomodado.

O fechamento do ser humano no finito racional, controlável, na busca de realização de um comportamento hedonista e individualista, de querer realizar os sonhos na carreira-trabalho-lucro para gozar a vida radicalmente no prazer e sucesso garantido não deu muito certo. Nas relações amplas, a expropriação, a dominação, a objetificação, a corrupção e a massificação cultural levaram o ser humano a tornar-se inseguro num mundo criado por ele, mas estranho e cruel a ele

mesmo. Terá sido esta a tão sonhada autonomia da liberdade da razão, tão desejada no antropocentrismo moderno?

Parece que o modelo de ser humano, de natureza e de conhecimento fragmentado, mecânico, finito, que se ergueu no pressuposto de que o corpo, res- extensa, é separado da razão, res-cogitans, está superado pela profunda crise de dor e sofrimento que a humanidade passa, seja pelas doenças, pela violência, pelos desastres ecológicos, pela fome, pela exclusão sociopolítica, pela sede na falta de água, etc. Parece, igualmente, que o ser humano está no limite de sua suportabilidade para aguentar uma tensão de morte por demais presente nas praças, nas escolas, nas famílias, nos hospitais, nos meios de transporte, nos governos, nos setores de trabalhos nos quais pessoas desmaiam e enfartam sobre as suas máquinas.

Em espaços universitários e de lazer, jovens se suicidam ou assassinam pessoas inocentes. Em espaços universitários e de laser, jovens se suicidam ou assassinam pessoas inocentes. Segundo Toffler,18 “se olharmos em volta, encontraremos testemunhos difundidos de colapso psicológico. É como se uma bomba tivesse explodido na nossa „psicosfera‟ comunal”. Com efeito, essas são adversidades que causam grandes dores e levam a pensar que algo muito errado está se passando na organização do conviver humano social. A vida está em risco, o planeta inteiro está dando sinais.

Uma massa de seres humanos se vê mergulhada numa solidão e numa carência afetiva, que leva à falta de intimidade e de confiança compartilhada socialmente. Para Frankl, as pessoas da sociedade moderna e pós-moderna clamam por intimidade, visando suprir o intenso vazio da carência de afeto. “Esta necessidade é tão premente que a intimidade é buscada a qualquer preço, em qualquer nível, ironicamente até em um nível impessoal, a um nível meramente sensual.”19

O ser humano vive uma crise tão grande, que ele quer encontrar um salvador para as suas angústias, seus medos, suas culpas, seu vazio interior, sua pobreza material e psicoespiritual. Milhares de pessoas, independentemente de

18 TOFFLER, Alvin. A terceira onda. A morte do industrialismo e o nascimento de uma nova civilização. Rio de Janeiro: Record,1980, p. 359.

19 FRANKL, Viktor e. Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo.Aparecida-SP: Editora do Santuário, 1989, p.67.

classe e nível de formação escolar, são atraídas diariamente por cultos religiosos das mais diversas igrejas evangélicas e seitas religiosas, em diferentes continentes.

A proliferação desses cultos é surpreendente, pois o seu sucesso se faz por meio do acolhimento às necessidades do ser humano indiscriminadamente. Na maioria das vezes, lhe é oferecido amizade imediata e calorosa aceitação da sua presença. A mensagem do culto, com todo um ritual evocativo, trabalha os sentimentos e as emoções do ser humano. Ela visa sensibilizá-lo para a aceitação dos significados de verdades apelativas, dentro de uma moral espiritual rígida e até coercitiva.

O último produto vital mercadejado pelo culto é „significação‟. Cada um tem sua própria versão sincera da realidade – religiosa política ou cultural. O culto possui a única verdade e os que vivem no mundo exterior e que deixam de reconhecer o valor dessa verdade são descritos como mal informados ou satânicos. A mensagem do culto é martelada no novo membro o dia inteiro, em sessões que duram a noite inteira. É pregada incessantemente, até que ele começa a usar os termos de referência, seu vocabulário e, finalmente, sua metáfora para a existência. O „significado‟

transmitido pelo culto pode ser absurdo para o estranho. Mas não tem importância.20

Esta reflexão sobre a corrida para os cultos religiosos em busca de cura para as dores psicoespirituais remete para outra reflexão referente à negação da transcendência do ser humano na relação com Deus. O mundo moderno oportunizou muito avanços com a ciência, porém também fez o ser humano vítima, um prisioneiro das suas verdades dogmáticas, proferidas nos moldes de uma razão que se entendeu absolutamente impecável. Na ânsia de querer e de saber sempre mais e mais e de não ser questionado, o ser humano construiu caminhos de realização, mas, também, de autodestruição.

O homem não mais possui segurança [...] para agir, [...]. Isso acarretou súbito “vazio existencial”, [...] uma desorientação e instabilidade, da qual irrompeu subitamente e permaneceu sem reposta, a questão do sentido de cada atividade. [...] o sentimento crônico de falta de sentido abala a saúde psíquica do homem. A saúde psíquica afetada freqüentemente ocasiona comportamentos

20 TOFFLER, Alvin. Op. Cit. 1980, p. 369.

sociais e individuais inadequados, dando geralmente lugar a um motivo concreto para que o medo do futuro possa se instalar. 21

A Terra, morada do ser humano, na sua natureza, clama por respeito à vida e toca a consciência do ser humano, seja pelo amor ou pela dor nas múltiplas experiências vividas compartilhadamente. Por isso é tempo de encontrar nas muitas adversidades que causam sofrimento um sentido novo para viver. É preciso romper com os vícios de uma racionalidade exacerbada, presente na divisão do ser humano em espírito (logos) e matéria (hyle), infinito e finito, profano e sagrado. É hora de reconstituir a inteireza do ser humano nas suas polaridades interdependentes. Parafraseando Lukas (op. cit.), o racional e o irracional não implicam contradição, tampouco como não existe contradição entre razão e sentimento.22

Poder tirar o véu da dor e do sofrimento nos dias contemporâneos é começar a entender o ser humano como um ser biopsicoespiritual, que está carecendo de cuidado, pois precisa resgatar a sua espiritualidade como a força natural de sua criatividade. Esta é a manifestação legítima de sua essência divina, a energia vital, que integra as suas percepções sobre a importância do respeito e do amor a si e ao outro que se traduz em vida, esperança, seja ele o humano, os seres da natureza, a cultura nas suas manifestações diversas.

Dentro deste contexto, se lança a arteterapia como um caminho terapêutico-educativo, de empoderamento para o ser humano encontrar a força, para libertar-se de suas dores e seus sofrimentos fisicopsicoespiritual.

No documento Marli Koefender.pdf - Univali (páginas 67-70)