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industriais de produção é o valor, com seu arquétipo presente nas páginas d’O Capital (MARX, 2016). Na filosofia, o elo que integra as relações entre a vontade humana (ou subjetividade, supraestrutura) e a infraestrutura econômica (os modos de produção, as mercadorias, a riqueza, a realidade) é a práxis. Daí a categoria filosofia da práxis, entre o pensar e o fazer, a teoria e a prática. Na política, a “vontade centralizada”, a

“intervenção do Estado”, as políticas públicas (leis, portarias, Constituição, políticas de educação e etc.) como fio condutor da relação entre sociedade civil e Estado.

Todos esses âmbitos amarrados numa única concepção de mundo – a própria weltanschauung (GRAMSCI, 1981, p. 114).

3 MARCO CONTEXTUAL

século XIX para o as primeiras décadas do novo século XX, inicia-se a especulação e a exploração de rochas de Camboriú, especialmente mármore e granito: as jazidas de mármore, e as pedras de granito em matacão pela especialização autodidata (REBELO, 1997).

Já em 1950, a população das terras camboriuenses, hoje compreendida pelos municípios de Camboriú e Balneário Camboriú, era de 9.248 habitantes. Destes, 1.835 eram urbanos. A chegada da luz elétrica acontece na mesma década (REBELO, 1997).

O final da década de 1950 dá a largada e os primeiros anos de 1960 terminam por extrair as terras de Camboriú que dão acesso ao Oceano Atlântico. Via Decreto aprovado pela Câmara de Vereadores, nasce o Distrito da Praia (1959). Quatro anos depois, há uma tentativa de separação desde recém-criado Distrito, impedida pela Câmara de Vereadores (1963) numa apertada votação de 4 a 3. Em nova investida, um vereador apresenta novo projeto. O placar se inverte e o legislativo aprova, em fevereiro de 1964, por 5 a 2, a emancipação do Distrito. Ratificada por Lei Estadual em abril e num Decreto em junho, em 20 de julho de 1964 é instalado oficialmente o município de Balneário Camboriú(REBELO, 1997; PEREIRA, 2003). Dali para frente, Camboriú continua sendo uma cidade do litoral catarinense, porém, sem o mar.

Mercadorias dos produtores broqueiros criam-se desde o início do século XX até hoje (2017), contribuindo no desenvolvimento regional: importante atividade para a cidade, que “já teve na extração de pedras sua principal fonte de renda” (MENDES, 2014, p. 104). Broqueiros são pessoas que trabalham com rochas, extraindo-as da natureza e realizando os cortes necessários por suas habilidades intelectual e manual, através de instrumentos como cunhas, escopos e marretas.

Até mesmo a emancipação do Distrito da Praia não foi capaz de deter o ímpeto criador da produção de pedras, especialmente entre 1970 e 1990, quando se destaca a grande produção, agregando a atividade à vida da cidade e suas famílias. No final da década de 1980, entram em cena duas mercadorias mais industriais que competem diretamente com o trabalho mais manual da cortação de pedras: os blocos de lajota em cimento e o asfalto.

Mesmo em meio aos avanços tecnológicos e o surgimento de outros materiais,

as mercadorias oriundas do trabalho de broqueiros e suas famílias forneceram e continuam fornecendo material para obras públicas e privadas de pavimentação: os paralelepípedos de pedra (REBELO, 1997; CORREA, 2016).

3.1.1 As rochas presentes: granito e mármore

Cabendo pesquisar sobre uma atividade econômica tão recheada de perigos e complexidades, faço-me, na posição de cirurgião-dentista que também me encontro, tentar compreender, mesmo que de maneira superficial, os métodos utilizados pelos trabalhadores desta arte com pedras. O produto final deste grupo econômico, independente da função a qual o trabalhador foi designado (cortador, transportador, vendedor, e etc.) ou das fases do processo (localização dos maciços rochosos, lavra, beneficiamento, venda, e etc.) têm nas rochas ornamentais o seu elemento primordial e indispensável, portanto, tornam-se as rochas também objetos desta pesquisa.

Parte das pedreiras da cidade de Camboriú, SC situa-se, geologicamente, dentro do Complexo Camboriú, conforme segue:

“O Complexo Camboriú foi assim denominado por Chemale Jr, Hartmann e Silva (1995), que a ele atribuíram uma associação de gnaisses, migmatitos e granitos cálcio-alcalinos localizados na porção centro-leste do Estado de Santa Catarina. Basei (1995), no entanto, já havia apresentado uma descrição dos núcleos do embasamento ao sul de Camboriú, no Morro do Boi, trecho da Serra do Cantagalo, demonstrado o predomínio de migmatitos estromáticos dobrados durante o ciclo Pré-Brasiliano e redobrados durante o Ciclo Brasiliano. Datações Rb/Sr em rocha total situaram então a idade de geração do Complexo em 2,5 Ga” (LOPES, 2008, p. 23).

Estando as rochas presentes em abundância na região da cidade apontada e adicionando o ímpeto da formação econômico-social e suas necessidades, as rochas podem ser catalogadas com a denominação de rochas ornamentais.

Seguindo uma classificação comercial, as rochas ornamentais podem ser

divididas em duas: 1) Granitos: que são “rochas ígneas e metamórficas de granulometria grossa”. Neste grupo, encontram-se os “minerais félsicos, tais como quartzo, feldspato alcalino e plagioclásio”. Pela alta dureza apresentada, “necessitam serras diamantadas para o corte”. 2) Mármores: pela sua baixa dureza, “são relativamente fáceis de serem cortados e polidos, sendo adequados para processamentos industriais” sendo formados por “composição carbonática”

(VARGAS, MOTOKI e NEVES, 2001).

Identificado e selecionado o perímetro da pedreira, o próximo passo é escolher os métodos de extração (“lavra”) das rochas da natureza para posterior beneficiamento.

“Os métodos de lavra consistem num conjunto específico dos trabalhos de planejamento, dimensionamento e execução de tarefas, devendo existir uma harmonia entre essas tarefas e os equipamentos dimensionados. O planejamento inclui a individualização dos blocos com dimensões adequadas à etapa seguinte da cadeia produtiva, representada pelo desdobramento dos blocos em chapas. É importante verificar, durante a fase do planejamento, se o maciço rochoso ou o matacão possuem características ideais para serem lavrados, como a verificação da existência de impurezas, trincas, alterações, topografia local, etc” (REIS e SOUSA, 2003, p. 208).

Durante a lavra das rochas ornamentais, independente da técnica utilizada, certos perigos, maiores ou menores, atingem os trabalhadores desta atividade. Por ser a fase em que se materializa como a efetiva remoção das rochas do estado bruto da natureza e se transformando em produto, e, como tal, detentor de valor econômico, cabe relevar a importância desta etapa.

“A fase de lavra, escopo do trabalho, é o pilar da cadeia produtiva das rochas ornamentais, compreendendo as metodologias empregadas no desenvolvimento físico das jazidas e as técnicas de liberação de blocos de rocha, tanto para o isolamento de volumes primários e secundários como no seu

esquadrejamento” (MENEZES, 2005, p. 5)

Das rochas ornamentais surgem, pela interferência do homem, os mais variados produtos. De destaque, seu uso na construção civil, seja em residências ou espaços públicos. Sendo o trabalho a atividade humana que se relaciona com a natureza e, neste caso, com as rochas, criando uma cultura em torno do exercício dos broqueiros, pedreiros, cortadores e demais nomenclaturas, gerando riqueza ao País e elevando seu potencial produtor que dou sentido a esta pesquisa e à saúde dos trabalhadores envolvidos nas artes das rochas.

A taxonomia geológica classifica os granitos como sendo pertencentes às rochas magmáticas. Tal grupo de rochas apresenta “três planos preferenciais de corte, que são: corrida, segundo e trincante” (STELLIN, 2007, p. 4). E é a partir do prévio conhecimento e análise destes planos de corte que os trabalhadores e seus instrumentos conseguem “abrir” a rocha até então intacta da natureza.

As pessoas que se aventuram pelo perigo da arte que interage com as rochas para produção de bens sociais tão importantes ao nosso modelo estrutural de sociedade precisam saber utilizar algumas invenções humanas peculiares, como os explosivos.

A invenção da pólvora e o aperfeiçoamento de substâncias explosivas remonta desde o século IX até os dias atuais. As “primeiras referências à pólvora” podem ser encontradas em escritos de alquimistas, como num “texto taoísta datado em meados do ano 800” aonde adverte para não misturarem “enxofre, rosalgar e salitre”. Se misturados, podem queimar o corpo humano (VASCONCELOS, SILVA e ALMEIDA, 2010, p. 2). Tal conhecimento foi lapidado e incorporado em guerras entre os povos árabes, sírios e mongóis, no século XIII. Na mesma época, o inglês Roger Bacon, através de “intermediários entre o Oriente e o Ocidente” (Idem, p. 3) reproduz as misturas e codifica em seus escritos. Espalhando-se pelo mundo, foi no século XIX que essa química, acrescentada por outros ingredientes, foi patenteada por Alfred Nobel. Pelo pensamento privatista, Nobel (o próprio do famoso prêmio) acumulou fortuna com “sua” invenção – a dinamite(VALENÇA, 2001).

Porém, mesmo antes da descoberta da pólvora e da dinamite, o Império Romano (27 a.C. – 476 d.C.) também extraia produtos de suas rochas. A técnica

consistia na utilização de cunhas de madeira nas fissuras naturais do maciço rochoso.

Após colocadas, as madeiras eram encharcadas com água que, graças à expansão causada pelo congelamento da madeira molhada, abriam os blocos, gerando subdivisões (VIDAL, AZEVEDO e CASTRO, 2014).

Como se vê, o início dessa prática em terras tupiniquins, mais especificamente Camboriú, deu-se no nascimento do século XIX e o emprego da pólvora mantem-se essencial. Portanto, após localizados os granitos, faz-se um furo na rocha, de espessura e comprimento variáveis. Nessa cavidade, insere-se o material explosivo.

Com a detonação guiada pelos planos preferencias de corte, tem-se a mesma rocha, agora desprendida do solo e subdividida em duas partes. Daqui em diante, as subdivisões na rocha são feitas com cunhas de metal, escopos, marretas e martelo.

Este trabalho é um dos tantos métodos de lavra existentes, sendo considerado mais artesanal se comparado com as técnicas industriais hoje existentes(Idem, 2014).

Assim, uma rocha de granito que, antes de ser alvo da ação humana, possuía, por exemplo, o tamanho de um automóvel, agora está decomposta em centenas de pedras menores (ou em milhares, a depender do tamanho da rocha encontrada).

Esses blocos de granito puro originam os chamados paralelepípedos de pedra, utilizados em calçamento de vias públicas e privadas. Também podem ser produzidos de diferentes tamanhos, servindo como meio-fio, placas de revestimento, calçadas públicas, ornamento em jardins, moerão de cercas, bases de casas, pilares para telhados, bancos de praça e etc.