e leva consigo muitos velhos dentistas, assim como traz novos a cada ano. A publicação de 2010 intitulada “Perfil atual e tendências do cirurgião-dentista brasileiro”19 aponta para um Brasil em que há mais de duzentos e dezenove (219) mil dentistas ativos. O autor e coautora deste texto têm o orgulho supremo de fazer parte do maior “exército” de dentistas do mundo. Ao menos, quantitativamente. Um
“batalhão”, pertencente à sociedade civil brasileira, que corresponde de 15 a 20% da população mundial de dentistas (VOIGT, 2016).
Apesar da satisfação em pertencer a um universo vasto e plural como o dos dentistas brasileiros, ambos não cerram os lábios, tampouco silenciam diante de dados epidemiológicos. Também de 2010 é a Pesquisa Nacional de Saúde Bucal/SB, inquérito epidemiológico realizado para obtenção de dados epidemiológicos referentes à odontologia, chamada de SB Brasil/2010. Nela, o Ministério da Saúde mostra que há 30 milhões de desdentados necessitando de prótese bi-maxilar.
Número que não tende a diminuir, visto que cerca de 27 milhões de brasileiros (de 15 a 19 anos) nunca foram ao dentista. Estes, no perigo de, quando alcançarem idades sexagenárias, pulem da lista dos “sem acesso” para a dos “desdentados” (BRASIL, 2012).
Diante desse cenário, com alto número de dentistas e dados epidemiológicos que sinalizam um débito social histórico por parte do Estado brasileiro quanto ao direito a ter dentes, percebe-se que o problema não é quantidade, pois há de fato
“recurso” humano (COSTA et al, 2013). Uma questão é a desigualdade distributiva injusta entre os mais variados Brasis, isto é, há locais com uma concentração excessiva desses profissionais e, outros com uma falta significativa deles (SOUSA et al, 2017). A maioria está nos centros urbanos (SANTANA, 2016). Por se aglomerarem, os cirurgiões-dentistas têm-se deparado com a saturação do mercado de trabalho (SALIBA et al, 2012). Outra questão é a ausência de uma formação odontológica voltada para a epidemiologia real, para o conhecimento do real (PINHEIRO e NORO, 2016): um real desigual.
o homem? Ciência se faz individualmente ou coletivamente? Certos experimentos podem ser vivenciados por um único ser que, através da observação e metodologia de pesquisa, pode gerar um fenômeno científico individual, sempre incorporando características de dado momento histórico em que este “pesquisador” se situa. Do momento que esta experiência individual é compartilhada com um segundo sujeito, há o início da formação de uma comunidade que se relaciona em torno deste saber gerado, assim como identificado em:
“Fleck parte da suposição de que a teoria do conhecimento individualista conduz apenas a uma concepção fictícia e inadequada de conhecimento científico. A ciência consiste em algo organizado por pessoas de modo cooperativo; assim, deve ser considerada, em primeiro lugar, a estrutura sociológica e as convicções que unem os cientistas, para além das convicções empíricas e especulativas dos indivíduos” (FLECK, 2010, p. 15).
O retrato acima parte do pressuposto que comunidades científicas se unem a partir de concepções de mundo, ou seja, a imagem-objetivo de mundo dos pesquisadores que compõem um mesmo coletivo de pensamento acabam sendo semelhantes, pois é isto que os aproxima. As convicções especulativas oriundas das metodologias de pesquisa utilizadas de um certo coletivo de pensamento nada mais são que confluências entre os sujeitos portadores de concepções de mundo semelhantes. Pode-se pensar, também, que o que leva sujeitos a integrarem coletivos de pensamento X ou Y é determinado pela concepção de mundo e formação econômico-social que seus integrantes carregam previamente ao estudo de problemas sociais estudados pelos coletivos X ou Y.
Trazendo para o campo da saúde, atualmente, dentre outros, cito modelos científicos que buscam explicar o que leva homens e mulheres (seja individualmente ou coletivamente) a desenvolverem o processo de saúde ou de doença.
“Apesar de consistir em indivíduos, o coletivo de pensamento não é a simples soma deles. O indivíduo nunca, ou quase nunca, está consciente do estilo de pensamento que, quase sempre, exerce uma força coercitiva em seu pensamento e contra a qual
qualquer contradição é simplesmente impensável” (FLECK, 2010, p. 84).
Assim, pode-se afirmar que cada período histórico possui o seu próprio e característico pensamento hegemônico, aquele que persiste em tentar explicar e dar conta dos problemas que advém de seu campo. No caso da saúde, o pensamento hegemônico visto em nossa sociedade faz referência ao coletivo de pensamento que tem a determinação biológica atrelada a fatores ambientais como modelo explicativo para vida (seja na saúde ou na doença) das pessoas e seus grupos sociais.
“Fazendo parte de uma comunidade, o estilo coletivo de pensamento passa por um fortalecimento social comum a todas as formações sociais e é submetido a um desenvolvimento através de gerações. Transforma-se em coação para os indivíduos, definindo “o que não pode ser pensado de outra maneira”, fazendo com que épocas inteiras vivam sob a coerção de um determinado pensamento, queimando aqueles que pensam diferente, que não participam da atmosfera (Stimmung) coletiva e que são considerados pelo coletivo como criminosos, a não ser que uma outra predisposição não gere um outro estilo de pensamento e um outro sistema de valores” (FLECK, 2010, p. 150).
Na função de tentar responder ao maior número de problemas da sociedade e na medida em que a comunidade científica sente-se segura para, num dado desenvolvimento histórico, oferecer soluções frente os impasses coletivos é que determinado coletivo de pensamento tornar-se-á hegemônico. Porém, a partir do momento que esta hegemonia não é capaz de abraçar a todos os sujeitos afetados, cria-se condições para que determinados estilos de pensamento, antes considerados criminosos, passem a adentrar as pautas coletivas.
Entendendo o modelo explicativo do processo saúde-doença reinante em nossa sociedade como impedido de superar e incorporar os conhecimentos pregressos, há de se encontrar “novas” maneiras de se construir o conhecimento.
Antes ainda, deve-se considerar que o paradigma atual é apenas um
desmembramento de um conhecimento anterior, no caso, a determinação biológica surge após o modelo explicativo da determinação social do século XIX. Assim, torna- se incongruente conceber o modelo hegemônico atual, pois o mesmo é incapaz de incorporar o conhecimento anterior.
2.7 Perspectiva historiográfica da determinação social em saúde e doença