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4 PERCURSO METODOLÓGICO

A disposição do percurso, tentando facilitar o entendimento, está decomposta em quatro partes. A primeira é o movimento observação-participante, trajeto sobretudo esclarecedor para desbravar os caminhos entre pedras. A segunda, as entrevistas-narrativas, como núcleo central da coleta de dados. A jornada que se amalgama nestes dois itens nem sempre obedeceu a uma linha do tempo, pois o processo de construção de um interfere nos outros. Aqui, para fins didáticos, apresenta-se de maneira sequencial e linear. A terceira parte trata da organização dos sujeitos entrevistados. Por fim, a quarta parte aborda questões pós-coleta dos dados, como sistematização e referencial de análise.

Esta pesquisa foi apreciada e aprovada no dia 5 de setembro de 2016 pelo Comitê de Ética da Universidade do Vale do Itajaí, SC, sob o número 1.713.341 em consonância com as determinações da Resolução MS/CNS no 466/2012.

torna parte do contexto [...] ao mesmo tempo modificando e sendo modificado por este” (MINAYO, 2004, apud QUEIROZ et al, 2007, p. 280).

Há razões para a escolha deste método. Ao adentrar o contexto da produção atual de pedras pela ação humana, tal investida permite “ver o comportamento dos participantes em uma nova luz”, assim, oferecendo condições antes impossíveis ao

“descobrir novos aspectos do contexto” no ato de acompanhar observando o trabalho dos produtores de bens em pedra. Observar-participar também permite triangular com outros métodos de coleta “providenciando evidencias adicionais”, como será possível ler mais adiante quando se faz uso da metodologia entrevista-narrativa (OLIVEIRA, 2010, p. 23).

Realizar um estudo observacional, de campo, anteriormente à coleta das narrativas, também serve para que, lá no processo das entrevistas, como todos os sujeitos serão pertencentes ao mesmo grupo social do trabalho, seja possível este pesquisador estar atento aos verbetes, gírias, jargões, práticas, técnicas da profissão e etc., que surgirão das falas das pessoas que integram o universo de sujeitos pesquisados.

Alocado no ambiente de produção do trabalhador, lança-se mão da técnica do diário de campo para captar, anotar e descrever os movimentos humanos dispendidos para que haja a transformação das rochas em produtos desta atividade econômica em particular, gerando mercadorias que serão comercializadas entre os membros da sociedade humana.

“No diário de pesquisa, o pesquisador registra suas hipóteses e seus achados. A propósito de um ‘objeto’ que é previamente dado, em um campo específico e ao longo de seu aparecimento.

Frequentemente, esta forma de diário visa a reunir informações que o autor e seus colaboradores pretendem explorar ou tratar de uma maneira ou de outra em um tempo posterior. René Lourau (1988) defende a ideia que o diário de pesquisa é já a pesquisa (SOUZA e ABRAHÃO, 2006, p. 95).

Do conjunto observação-participante e diário de campo, regido pelo objetivo de

observar os movimentos humanos dos atores que produzem pedras, partimos para as idas a campo. Mas que campo(s)?

4.1.1 Progresso da pesquisa pelas idas a campo

Pessoas ativas que interagem com as rochas de Camboriú como meio de trabalho formam um coletivo vasto, podendo ser classificadas: pelas diferentes rochas em que atuam, pelas técnicas de extração, por período da história da divisão do trabalho em que se encontram, pela relação trabalhista. Pude perceber um pouco a

“pedreira” na qual estava me metendo quando teci a primeira observação-participação com um broqueiro durante seu trabalho. Os resultados dessa interação aparecem no item 5.

Algumas características desse trabalho de cortar pedras me foram elucidadas.

Pessoas que somente cortam pedras através de seus instrumentais e conhecimento são importantes. Mas é preciso algo anterior. Alguém que extraia a rocha da natureza.

Essa primeira extração necessita de um trabalho peculiar e perigoso: explodir as pedras. Então, captei algo que antes não conhecia. Uma pessoa que reparte pedras com instrumentais de metal também precisa saber lidar com material explosivo. Este trabalhador, por ocasião de sua relação trabalhista, não explode mais pedras.

Antigamente sim. Hoje em dia não. Ele recebe as pedras já extraídas e desenvolve a etapa de corte manual com peças de metal, como martelo, cunha, escopo e alavanca.

Foi possível abrir um horizonte amplo sobre esse trabalho após a conversa. Fiquei curioso para saber como se dá a extração na mata com os fogos e solicitei ao trabalhador que me indicasse um colega que realiza essa extração na primeira etapa com explosivos. Surge um nome. Através das indicações de localização recebidas, vou atrás desse segundo broqueiro.

Chegando a casa do broqueiro (cortador de pedras) indicado, encontro-o e me apresento como pesquisador da Univali. Explico os motivos de estar ali e sou convidado a entrar na residência. O trabalhador explica que realiza sim abertura de pedras com fogos, porém não tem previsão para realizar nova explosão. Ao contrário do primeiro broqueiro visitado, este não trabalha para uma empresa. É autônomo. Ele mesmo sobe o morro, seleciona a rocha, detecta se é boa, faz o furo, introduz o material explosivo e detona. Após feito isso, aí sim se inicia os cortes manuais. Os

mesmos cortes daquele primeiro broqueiro participante da pesquisa. Apesar de não ser dessa vez poder observar a explosão do granito, agradeço as informações obtidas.

Deixo meu contato para que, caso surja a ocasião da explosão, que me comunique para acompanhá-lo. Mesmo saindo de lá sem essa bárbara visualização da detonação, outros conhecimentos me perturbaram nessa segunda interação pesquisador-broqueiro. Ele me explica que é preciso fazer diferença entre rochas sob medida e rochas de britagem. Camboriú possui as duas formas de produção: a primeira, mais antiga, de pedras que são produzidas pelo trabalho mais manual, de cortes, sob medida; a segunda, mais industrial-tecnológica, produzida pelos sistemas de britagem. Outra vez sou surpreendido pelas notícias advindas da pesquisa.

Inicialmente disposto a observar e entrevistar cortadores de pedra, agora descubro que além dos cortes, se faz detonação. E que além dessa produção sob medida, existem britadores que também empregam pessoas trabalhadoras.

Ainda como resultante da observação com o primeiro broqueiro, detecto que ele trabalha para uma empresa. Aqui a chamo de comércio NTP. NTP é uma empresa privada que comercializa pedras sob medida em Camboriú. Por ser morador, sei bem aonde fica esse estabelecimento.

Resolvo observar o comércio NTP. Uma família é que gerencia o negócio. Em conversa com os proprietários, explico minhas intenções com a pesquisa. Sou informado de que não tem problema algum eu conversar com os funcionários que passam o dia cortando pedra nos galpões e lonas, porém, minha ida a pedreira deles (o local aonde é feita aquela primeira extração por detonação de explosivos) é negada.

Sinto certo receio e não insisto no pedido. Saio dali meio chateado pela negativa, mesmo ampliando os resultados obtidos com a conversa com os proprietários do comércio NTP.

Decido dar um tempo nas visitas às pessoas cortadoras e me interesso em ir ao encontro dos sistemas de britagem. Em contato com moradores locais, um deles meu pai, sou informado que Camboriú possui dois britadores, cada um com seu proprietário. O britador mais antigo fica na parte leste da cidade, próximo a Balneário Camboriú. O segundo britador no interior da cidade, mais a oeste. Como meu contexto continua sendo a produção de bens em pedra de Camboriú, busco o ingresso em um deles. Difícil. Os dois britadores são empresas privadas, de complicada inserção a

título de pesquisa, ainda mais se tratando da área da saúde. Por saber aonde fica, tento por duas vezes visitar cada um dos britadores: sem sucesso em ambos. O portão sempre fechado, com avisos de proibida a entrada de pessoal estranho. De certo não querem ser incomodados. Em certa altura estava quase desistindo de visitar empresas de britagem pela dificuldade de acesso. Ficaria na observação somente dos cortes para pedras sob medida. Eis que, em dado momento, em meu próprio local de trabalho, uma Unidade Básica de Saúde em Itajaí, comento com alguns colegas sobre a pesquisa que estou realizando. Para surpresa, uma pessoa, uma importante Agente Comunitária de Saúde (ACS) me diz: “o meu marido trabalha num britador”.

Dali para frente as coisas se facilitam no quesito britador/visita em pedreira.

Chamo o esposo da ACS de Antônio. Já o conhecia. Combinamos o dia e hora e partimos rumo ao britador em que ele trabalha: e que fica em Camboriú! Itajaí não possui sistemas de britagem. Era um sábado de manhã. Fomos eu e ele até o britador do interior, aquele mais a oeste. Antônio trabalha na construção e manutenção das esteiras (estruturas que fazem a pedra passear pelo sistema). Ali conheço o proprietário do local. Como fui com um “padrinho”, sou bem recebido pelo dono, que, por opção própria, recebe a alcunha de Roberto Carlos. Igual ao cantor famoso.

Além de poder interagir nas dependências do sistema de britagem, acompanhei um motorista de caminhão da empresa durante uma entrega de carga de pedras. A viagem partiu do britador (interior de Camboriú) com destino a uma empresa que deseja ampliar seu pátio, localizada na marginal oeste da BR-101, entre Itajaí e Navegantes.

Sou informado que além do granito, Camboriú extrai mármore. Pensava que que esta atividade já havia extinguido. Mas não. Há uma pedreira de mármore em atividade. Assim, veja: sistemas de britagem se alimentam de granito, um paredão de rocha gigante. Cortadores de pedra também trabalham no granito, porém oriundos de sistema de lavra em matacão. O granito para abertura manual é diferente do paredão rochoso dos britadores. Agora, outro tipo de rocha surge: o mármore.

Para que não se perca o desenvolvimento, até agora, observou-se dois cortadores de pedra (um que só corta e outra que detona e corta), uma empresa de blocos sob medida, uma empresa de britagem e uma pedreira de blocos de mármore.

Apesar das muitas diferenças no modo de se fabricar e nos tipos de pedras – entre o manual e o tecnológico, o granito e o mármore – todos produzem mercadorias a partir das pedras camboriuenses, contexto da pesquisa.

A esta altura, imaginava eu estar com a observação-participante concluída.

Ultrapassada esta etapa, resta partir para as entrevistas-narrativas.

Esta etapa exploratória via observação-participante foi realizada no decorrer do ano de 2016.