5.3 Três propostas de artigos
5.3.3 Artigo 3
TRABALHADORES-PRODUTORES:
FORTALECEDORES DE UM ESTADO QUE OS EXCLUI Thiago Bernardes Nunes e Rita de Cássia Gabrielli Souza Lima
RESUMO: O estudo descrito neste artigo visa analisar o modo como a transformação do real foi se impondo aos trabalhadores-produtores de bens em pedra, paralelamente à construção de elementos do Estado brasileiro, no contexto da cidade de Camboriú, SC. Para a construção, edifica-se uma pesquisa qualitativa, do tipo exploratória, com coleta de dados via observação-participante e entrevistas-narrativas. O eixo central norteador do roteiro semiestruturado é o trabalho, ou seja, buscou-se as experiências peculiares que atravessam o cotidiano histórico da especificidade laboral do trabalho com pedras, relacionando com condições genéricas que permeiam não somente este, mas todas os demais ramos da divisão social do trabalho, como: a teoria do valor, o capitalismo financeiro e a tributação das mercadorias. Destaca-se esta última como fonte do financiamento das estruturas e ações estatais, provenientes da criação de produtos, fruto do trabalho concreto de trabalhadores-produtores. Da relação com os dados surge a categoria: “O trabalho com pedras criador de valor”. Eleito o método ético-político de análise, da interlocução entre a historicidade do objeto e suas tendências contraditórias, tem-se as relações de hegemonia como hipótese ao excluir da organização social – política e filosófica - os atores protagonistas trabalhadores- produtores, fortalecedores do Estado “ampliado”. Mesmo sendo notável para a sociedade civil e para o Estado este ramo produtivo, dado o padrão de desenvolvimento adotado por esta sociedade, o aparelho estatal e seu ordenamento político-jurídico é omisso para com essa população. O Estado só está interessado no lado econômico do trabalho, negando o ensino formal, o direito à saúde, a participação na construção do conhecimento e a direção da sociedade. Nisto, cabe ao Estado garantir a justiça nas relações sociais de troca, socializando a posse dos meios de produção e inserindo-os no campo da produção do conhecimento pelo levante popular capaz de conquistar o Estado, oportunizando a inclusão dos excluídos.
Palavras-chave: Trabalho; Valor; Estado; Hegemonia; Mudança Social.
ABSTRACT: The study described in this article aims to analyze how the real transformation was imposed to the workers-producers of assets in stones, in parallel with the building of elements from the Brazilian State, in the context of Camboriú/SC city. For the construction, a qualitative research is built, of the exploratory type, with data collection by way of participant-observation and interviews-narratives. The central pivot guiding the semi-structured script is the work, that is, It was searched the peculiar experiences that go through the historical everyday of the labor specificity of the stone work, relating this with the generic conditions that permeate not only this one, but all the other branches of the social division of labor, such as: the value theory, financial capitalism and the taxation of the merchandises. The latter stands out as the source of the funding structures and actions of the state, stemming from the creation of products, result of the concrete work of workers-producers. From the relationship with the data comes the category: "The work with stones creating value". Elected the ethical-political method of analysis, from the interlocution between the historicity of the
object and its contradictory tendencies, arises the relations of hegemony as hypothesis by excluding from the social - political and philosophical - organization the protagonists actors workers-producers, strengtheners of the State "extended". Although this notable and productive branch for the civil society and for the State, given the development standard adopted by this society, the state apparatus and its political-juridical ordering is silent for this population. The State is only interested in the economic side of work, and is denying the formal education, the right to healthiness, to participation in the construction of knowledge and the direction of society. In this, it is up to the State to ensure the justice in the social relations of exchange, socializing the possession of the means of production and inserting them in the field of knowledge production by the popular uprising able to conquer the state, opportunizing the inclusion of the excluded ones.
Keywords: Work; Value; State; Hegemony; Social Change.
1 INTRODUÇÃO
O desenvolvimento estrutural civilizatório pode ser visto como a interação entre dois elementos básicos: a matéria presente na natureza e a intervenção humana (trabalho). Integram esse desenvolvimento a construção de casas, prédios, monumentos, instrumentos de trabalho, portos, aeroportos e espaços de circulação pública como ruas, avenidas e pontes. Construções estas dependentes da matéria presente na natureza, como: madeira das árvores, pedras das rochas, argila do barro, água dos rios e etc. Mas não somente. Fundamental para a transformação da matéria bruta é o trabalho concreto humano criador de valor. Não à toa o médico inglês William Petty, no século XVII, afirma que se “o trabalho é o pai”, “a mãe é a Terra”1:65. E desta relação histórica entre natureza e trabalho como fortalecedora da organização social moderna (o Estado) é que versaremos neste manuscrito.
Com a divisão social do trabalho adotada pela sociedade globalizada, o advento de diferentes profissões é um movimento que se modifica com o tempo. Se em eras atrás existiam pessoas realizando o trabalho de apagar/acender lampiões, hoje não mais. A massificação da energia elétrica tratou de modificar o cenário social das profissões, extinguindo algumas e criando outras novas, como os técnicos eletricistas. Tal movimento ocorre em diversas áreas do conhecimento e da ação.
Para este estudo, focaremos na profissão dos produtores de bens sociais extraídos de rochas presentes no território do município de Camboriú, SC, Brasil.
Do grandioso rol da divisão social do trabalho, há os que trabalham extraindo produtos (ou bens sociais) das rochas. No interior dessa categoria, há uma atividade
específica que lida com o granito de matacão. Os responsáveis por esse trabalho de artesanato mineral, quando realizado em boa parte através de cunhas e marteladas, são chamados de broqueiros. Há outras denominações como escarpelinos e etc., mas o mais comum em Camboriú, SC, é a palavra broqueiro para designar esta arte dos mestres das rochas.
O estudo descrito neste manuscrito tem por objetivo analisar o modo como a transformação do real foi se impondo aos trabalhadores-produtores de bens em pedra, paralelamente à construção de elementos do Estado brasileiro, no contexto da cidade de Camboriú, SC.
Argumenta-se que a transformação do real neste contexto estudado, se deu por meio de relações de hegemonia, excluindo da organização social – política e filosófica - os atores protagonistas trabalhadores-produtores, fortalecedores do Estado “ampliado”.
1.1 Rochas, granito, extração, cortes: produzindo produtos/mercadorias
Nem sempre esta atividade laboral existiu na localidade citada. A bibliografia regional aponta para o começo do século XX como o período de iniciação2. Denominado artesanato mineral, a extração de rochas surge num momento em que a agricultura predominava em solo camboriuense. Anteriormente, no Rio de Janeiro, capital da nação até então, a presença do trabalho com as rochas já se encontrava abundante, servindo produtos e mercadorias para o desenvolvimento do país. De maneira mais efetiva, passam a compor o “calçamento da cidade, graças às melhorias urbanas advindas da chegada da Família Real Portuguesa”. No governo de Dom João VI (1808-1821) o “calçamento das ruas era feito a partir de pedras extraídas dos flancos nus dos morros de granito”3:7.
À exemplo das terras fluminenses, o chão de Camboriú também contém granito. A taxonomia geológica classifica os granitos como sendo pertencentes às rochas magmáticas. Tal grupo de rochas apresenta “três planos preferenciais de corte, que são: corrida, segundo e trincante”4:4. E é a partir do prévio conhecimento e análise destes planos de corte que os trabalhadores e seus instrumentos conseguem “abrir”
a rocha até então intacta da natureza.
As pessoas que se aventuram pelo perigo da arte que interage com as rochas para produção de bens sociais tão importantes ao nosso modelo estrutural de sociedade – seja no Rio de Janeiro ou em Camboriú – precisam saber utilizar algumas invenções humanas peculiares, como os explosivos.
A invenção da pólvora e o aperfeiçoamento de substâncias explosivas remonta desde o século IX até os dias atuais. As “primeiras referências à pólvora” podem ser encontradas em escritos de alquimistas, como num “texto taoísta datado em meados do ano 800” aonde adverte para não misturarem “enxofre, rosalgar e salitre”. Se misturados, podem queimar o corpo humano5:2. Tal conhecimento foi lapidado e incorporado em guerras entre os povos árabes, sírios e mongóis, no século XIII. Na mesma época, o inglês Roger Bacon, através de “intermediários entre o Oriente e o Ocidente”5:3 reproduz as misturas e codifica em seus escritos. Espalhando-se pelo mundo, foi no século XIX que essa química, acrescentada por outros ingredientes, foi patenteada por Alfred Nobel. Pelo pensamento privatista, Nobel (o próprio do famoso prêmio) acumulou fortuna com “sua” invenção – a dinamite6.
Porém, mesmo antes da descoberta da pólvora e da dinamite, o Império Romano (27 a.C. – 476 d.C.) também extraía produtos de suas rochas. A técnica consistia na utilização de cunhas de madeira nas fissuras naturais do maciço rochoso.
Após colocadas, as madeiras eram encharcadas com água que, graças à expansão causada pelo congelamento da madeira molhada, abriam os blocos, gerando subdivisões.
Como vimos, o início dessa prática em terras tupiniquins, mais especificamente Camboriú, deu-se no nascimento do século XX e o emprego da pólvora mantem-se essencial. Portanto, após localizados os granitos, faz-se um furo na rocha, de espessura e comprimento variáveis. Nessa cavidade, insere-se o material explosivo.
Com a detonação guiada pelos planos preferencias de corte, tem-se a mesma rocha, agora desprendida do solo e subdividida em duas partes. Daqui em diante, as subdivisões na rocha são feitas com cunhas de metal, escopos, marretas e martelo.
Este trabalho é um dos tantos métodos de lavra existentes, sendo considerado mais artesanal se comparado com as técnicas industriais hoje existentes7.
Assim, uma rocha de granito que, antes de ser alvo da ação humana, possuía, por exemplo, o tamanho de um automóvel, agora está decomposta em centenas de pedras menores (ou em milhares, a depender do tamanho da rocha encontrada).
Esses blocos de granito puro originam os chamados paralelepípedos de pedra, utilizados em calçamento de vias públicas e privadas. Também podem ser produzidos de diferentes tamanhos, servindo como meio-fio, placas de revestimento, calçadas públicas, ornamento em jardins, moerão de cercas, bases de casas, pilares para telhados, bancos de praça e etc.
Além de constituir-se como um trabalho concreto, o artesanato mineral produz valor pela criação de produtos e mercadorias que irão circular no mercado, dada a atual formação econômico-social capitalista-mercantilista. E é sobre o valor das coisas que iremos nos debruçar a seguir.
1.2 A teoria do valor e processos de trabalho
Desde Aristóteles já há demonstrações humanas de interesse nas questões que rodeiam o tema valor. Valor aqui que não deve ser confundido como “princípio”,
“moral”. Valor este que mais se aproxima daquele que “é a expressão contingente do valor” 8:223, ou seja, o preço.
Mas quem de fato consegue, passados vinte e quatro séculos do mundo grego, com substância aprofundar a teoria do valor vem da Alemanha. Após o lançamento em 1867 da obra Das Kapital: Kritik der politischen Okonomie, “N. Sieber, professor de economia política da Universidade de Kiev”aponta em seu livro de 1871 que a teoria do valor ali contida, “nos seus traços fundamentais”, é “uma continuação necessária da teoria de [Adam] Smith e [David] Ricardo”1:25, autores da escola clássica econômica.
Podemos bem continuar produzindo os mais diferentes e possíveis produtos sem que eles sejam trocados. Se um produtor de blocos de paralelepípedos quiser usá-los unicamente para uso próprio, calçando um trilho em seu quintal, tais produtos possuem valor de uso, acontecendo quando a “utilidade de uma coisa transforma essa coisa num valor-de-uso”1:58. E não possuem valor de troca. Ou seja, o trabalho
concreto de cortar pedras produz valores de uso blocos de paralelepípedos. Assim, é
“difícil pensar em um produto que não tenha valor de uso e possua valor de troca, já que nenhum produtor desejará comprar”9:18. Podemos também observar a teoria do valor nas ferramentas do cortador de pedras. Cunhas e escopos, se eu mesmo os fiz para “satisfazer necessidades” próprias, eles não os serão levados ao “mercado para a troca”, portanto, não serão “elementos constitutivos de uma economia mercantil”9:18. Agora, tendo mil paralelepípedos, se desejar trocá-los por outras mercadorias diferentes, atribuo valor de troca, pois o valor de uso a mim não existe. Desse modo, alienando, ou negando, o valor de uso da mercadoria mil paralelepípedos no objetivo de adquirir mercadoria distinta daquela produzida. Nessa relação social presente na troca, uma dúvida: como definir o valor de mil paralelepípedos perante outra(s) mercadoria(s)? Na intenção de facilitar esse problema, surge o dinheiro, que atua como “validador social das mercadorias ou dos trabalhos que as produziram”10:51.
Não somente as rochas ou qualquer outro mineral podem servir de meio para que a humanidade realize relações sociais de troca. Ela própria, a humanidade, é uma mercadoria. Sendo também natureza, um ser humano e sua força de trabalho possuem valor de troca. Ao cortador de pedras, numa sociedade de proprietários e não-proprietários, caso queira produzir valor de uso, terá que “ter” as pedras, pois elas são o seu “objeto de trabalho”, ou seja, “todas as coisas que o trabalho apenas separa de sua conexão imediata com seu meio natural”1:211, provido pela natureza.
Não possuindo as rochas (“objeto de trabalho”), mesmo que possua os explosivos, cunhas, cinzéis, marreta e demais, seu “instrumental de trabalho”, aliado ao seu conhecimento técnico-científico para uma “atividade adequada a um fim, isto é, o próprio trabalho”, não terá como produzir valor. Esses elementos fazem parte do
“processo de trabalho”1:211 que, incompleto na ausência das rochas, não se faz.
Um produtor de pedras que não possui os meios (instrumental + objeto de trabalho) lança-se ele próprio como uma mercadoria, pois possui sua força de trabalho, “vendida como mercadoria pelo seu próprio possuidor, a pessoa”. Um dono de pedreira que compra essa força de trabalho, nos tempos atuais, deve realizá-la por tempo determinado. Caso a pessoa que vendeu a força de trabalho a faça ad infinitum,
“de uma vez por todas, vender-se-á si mesmo, transformar-se-á de homem livre em
escravo”1:198. No caso Camboriú, SC, o artesanato mineral inicia no século XX, não muito após a abolição da escravatura no Brasil (1888).
Postas as mercadorias no mercado – sejam elas pedras ou força de trabalho – qual grandeza há em comum para medi-las? Visto que toda mercadoria produzida ou consumida é a cristalização de um esforço, o “valor da força de trabalho é determinado, como o de qualquer outra mercadoria, pelo tempo de trabalho necessário à sua produção”1:200. Tal compreensão nos faz estabelecer também que, no mercado das relações sociais de troca, “todos somos simplesmente vendedores de mercadorias, seja ela a própria força de trabalho”11:175, ou paralelepípedos de pedra.
Uma relação social justa, que seja, já nos alerta Walter Benjamin, para que possamos falar em “igualdade e liberdade”. Situação não vista nas sociedades capitalistas pela presença da mais-valia, entendida a grosso modo onde o fragmento excedente de “trabalho é extorquido”1:254 dos produtores, do operariado, e concentrado em mãos e bolsos capitalistas. Sua taxa é “a expressão exata do grau de exploração da força de trabalho pelo capital ou do operário pelo capitalista”1:254.
1.3 O capitalismo financeiro sobre os financiamentos do Estado
E não somente pela mais-valia que os trabalhadores não-detentores dos meios de produção se veem usurpados diante dos produtos por eles produzidos em seu processo de trabalho. Com os avanços do capitalismo pelo globo, principalmente a partir dos anos de 1980, a comunidade mundial trabalhadora se vê diante do
“ressurgimento do capital produtor de juros”, passando a “determinar as relações econômicas e sociais do capitalismo contemporâneo”. Essa modalidade de capitalismo ora reinante em nossa sociedade “busca fazer dinheiro sem sair da esfera financeira”, através de dividendos, juros e “posse de ações e de lucros nascidos da especulação bem-sucedida”12:843. Sufocadas “pela dominação financeira” global, empresas capitalistas nacionais que produzem bens e pedras ou outras mercadorias, passam a intentar diminuir cada vez mais o “custo da força de trabalho”, artimanha fundamental, “tendo em vista a força do capital portador de juros ao retirar o excedente
criado na produção”12:844. Consequentemente, pela mais-valia cotidiana aliada à produção de juros e rendas na “nuvem” financeira, “o trabalhador produz não para si, mas para o capital”13:1187, marcas básicas “do capitalismo contemporâneo financeirizado”13:1195.
Com o advento das ondas financeiras, os trabalhadores mundiais não são os únicos a sentirem a força expropriante do agitado mar capitalista. Os Estados nacionais também e o caso brasileiro não é diferente.
Historiadores, não sem muita controvérsia, remontam o surgimento do Estado moderno para meados do século XVI, enquanto outras correntes apontam para o século XIV. Até então, na Idade Média (século V ao XV) a “monarquia era absoluta”14:19. Uma contribuição de Florenzano indica que podemos considerar como
“primeiro Estado moderno do mundo” aquele nascido na Itália, mais especificamente
“na história de Florença”14:24, sendo para Jacob Burckhardt “a primeira a apresentar por completo uma porção significativa do moderno aparelho estatal”14:24.
Avançando o relógio do tempo e viajando para terras sul-americanas, tomemos o Estado Brasileiro e seu aparelho estatal. Desde a invasão portuguesa, a Independência à Coroa (1822), a Proclamação da República (1889) e a formulação da atual carta magna reinante (Constituição Cidadã de 1988), diversas transformações puderam ser vistas na organização da sociedade brasileira, atravessadas pela globalização do sistema econômico dominante, o capitalismo e sua face financeira.
A questão que nos permeia à diante na construção do cenário deste manuscrito é a seguinte: de que maneira o Estado brasileiro obtém recursos para sua operação e reprodução?
O atual modelo de financiamento do Estado brasileiro “é constituído da arrecadação tributária, dos empréstimos compulsórios e da dívida pública”15:106. Destes três itens, iniciamos primeiro pelo último: a dívida pública.
A dívida pública é formada pelos empréstimos contraídos pelo Estado, tanto no mercado interno quanto externo, para financiar parte de suas despesas. Na prática, é a soma das dívidas
externa (feita em moeda estrangeira) e interna (em real).
Segundo o Tesouro Nacional, nela está incluída o chamado refinanciamento ou “rolagem” - quando são feitos novos empréstimos para pagar os antigos16.
Em vistas do exposto, ocorre um alto esforço dos governos brasileiros, diminuindo gastos públicos e aumentando a arrecadação, gerando “superávit primário das contas públicas para honrar os compromissos da dívida”15:106. Porém, apesar do
“esforço”, o que se vê é um aumento gradual da dívida pública, extraindo montantes cada vez maiores dos recursos provenientes da produção interna, acelerando “a sua trajetória de alta, passando de aproximadamente 56,0% do” Produto Interno Bruto (PIB) no final de 2014, “para 70,0% no mesmo período de 2016”17:13. Assim, verifica- se que para “assegurar uma escala de superávit primário, condizente com as exigências do mundo das finanças e com os interesses das classes dominantes”18:8, o Estado brasileiro opta por destinar fatias consideráveis de seus recursos – gerados pelos trabalhadores de todos os Brasis, do cortador de pedras ao cirurgião-dentista – ao pagamento de juros da dívida.
Nesse emaranhado econômico que resulta por sugar recursos valiosos, a arrecadação tributária torna-se principal fonte de “financiamento do SUS”19:1607 (Sistema Único de Saúde) e da máquina pública, aonde os tributos expressam “o volume de recursos, que o Estado extrai da sociedade para financiar suas atividades”15:107. Desse modo, a receita do Estado brasileiro, dentre outras especificações, “é a expressão monetária resultante do poder de tributar [...] bens e/ou serviços da entidade, validada pelo mercado em um determinado período de tempo”20:12. Extraída dos Princípios Fundamentais de Contabilidade, entende-se a palavra “bem” e/ou “bens” “em sentido amplo, incluindo toda sorte de mercadorias, [...]
inclusive equipamentos e imóveis”20:12.
Podemos concluir, então, que a criação de mercadorias advindas da natureza transformada pela ação humana do trabalho – como os paralelepípedos de pedra – equivale à obtenção dos recursos que propiciam a operação e reprodução do Estado brasileiro. Afinal, não podemos tributar as rochas de granito intactas das montanhas camboriuenses, não é mesmo? De tal modo que os broqueiros e demais trabalhadores envolvidos na arte de produzir bens em pedra constituem-se como