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5.3 Três propostas de artigos

5.3.1 Artigo 1

1 INTRODUÇÃO

Figura I

Figura II

Quantas histórias da vida já foram e serão contadas tendo esses bancos de pedra (figuras I e II) como palco? Será que “eles” sempre foram bancos de pedra?

Não nos atreveremos a responder. Nossa proposta neste artigo é outra, a de descrever os movimentos preliminares engendrados em uma pesquisa de mestrado que tem por objetivo problematizar a relação entre o trabalho, a determinação social do processo saúde-doença e a transformação do real, no contexto da produção de bens em pedra de um município do sul do Brasil. Missão elaborada mirando responder o seguinte problema de pesquisa: de que modo a transformação do real foi se impondo ao trabalho – dos anos de 1960 ao contemporâneo - e gerando movimentos no processo saúde-doença de produtores de bens em pedra? A hipótese é que este

‘modo de’ foi processado por relações de hegemonia.

Este artigo desenvolve-se apresentando: breve relato da construção da pesquisa; pinceladas pelo percurso metodológico de obtenção e classificação dos dados; apontamentos do encontro do objeto com Gramsci; a teoria da hegemonia e concepção de mundo; o método humanístico de análise da realidade; e, para concluir, as considerações não finais, seguidas pelas referências.

Em que contexto o objeto de estudo - o trabalho e processos correlatos -, será analisado?

Camboriú é há décadas regionalmente conhecida como a “capital do mármore e do granito”. É historicamente destaque nesse trabalho, conforme relatam moradores em matéria ilustrada (em dezembro de 2012, edição n. 197) do Jornal Linha Popular.

Ampliando contato com bibliografia local, relatos expõem as mutilações ocasionadas pela extração de pedra no município, tais como perdas, desde dedos e audição, até membros superiores e inferiores inteiros ou mesmo a morte1,2. Entre dúvidas, a maior:

de que modo a transformação do real foi se impondo a este trabalho?

Três conceitos-chave conduziram o marco teórico do estudo: saúde do trabalhador, determinação social e saúde social.

2 MATERIAIS E MÉTODOS

Para Laurell e Noriega (1989), a abordagem em saúde do trabalhador assume

que, na análise do processo saúde-doença, o trabalho tem um papel fundamental em sua determinação3. Saúde do trabalhador que considera o trabalho, enquanto organizador da vida social, como o espaço de dominação e submissão do trabalhador pelo capital, mas, igualmente, de resistência, de constituição, e do fazer histórico4.

Enquanto um modelo teórico explicativo do processo saúde-doença, a determinação social sustenta que as formas como a sociedade se organiza para produzir os elementos infraestruturais atuam diretamente na condição de saúde dos povos. As relações de propriedade e divisão do trabalho, no sistema produtivo capitalista, geram contradições imanentes e abismos sociais5.

Segundo Nikolai Semashko, comissário da saúde do povo na União Soviética6, na ocasião da Revolução Russa, em 1917, saúde social é determinada pelo regime sociopolítico-econômico e pelas condições de vida coletiva que destes dependem7. Nesta perspectiva, o fator etiológico de doenças é sociedade8. Ou seja, os fatores naturais e biológicos interferem na vida humana, no processo saúde-doença, “pero de un modo indireto, sólo atraves de las condiciones sociales”6.

Consultando relatos de obras clássicas - como os de Bernardino Ramazzini, em seu livro De Morbis Artificum Diatriba9, em que o autor expõe mais de oitenta doenças descobertas por ele, em 1700, a partir da observação, vinculadas ao trabalho de 53 profissões10; os de Rudolf Virchow, sobre a incapacidade do modus operandi da medicina oficial na questão da epidemia de febre tifoide na Alta Silésia, em 184811; e os de Giovanni Berlinguer (1983) sobre as condições de trabalho dos operários italianos, no contexto do século XX, observamos o modo como a sociedade de classes e suas imposições denunciam a produção de sofrimentos específicos, doenças do trabalho e iniquidades sociais da formação econômico-social dominante12. Engels (2015), no século XIX, elabora o termo assassinato social para tipificar as práticas da sociedade burguesa da sua época13. Entre homens livres e escravos, patrão e empregado, burgueses e proletários, detentores dos meios de produção e vendedores de força de trabalho, a “natureza não faz distinção”. A sociedade sim e “essa diferença não é justa”14.

Sobre o processo saúde-doença, há uma exigência inicial: assumir um conceito de saúde – e seus desdobramentos externos. Defendemos o conquistado pela VIII

Conferência Nacional de Saúde, em 1986, que guarda similitude com o conceito social da Revolução Russa: saúde é, “antes de tudo, o resultado das formas de organização social de produção”15. Reconhecemos que este conceito original foi travestido, sendo desdobrado por uma nova roupagem quando da sua disposição no texto da Lei Orgânica da Saúde, nº 8080/90, sob os ventos neoliberais dos anos 90. Outro desdobramento, e perante forças externas opressoras, faz-se resistente o entendimento de saúde do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), como “capacidade de lutar contra tudo o que [n]os agride e [n]os ameaça”16.

O levantamento de campo desta pesquisa qualitativa de mestrado, do tipo estudo de caso único e abordagem ético-política, em perspectiva dialética17, foi realizado em dois momentos: primeiro, observação/interação com as unidades atuais de produção de bens em pedra em Camboriú, no propósito de “entender as características que definem um determinado sistema limitado”18. Concluído, partimos para o segundo momento: as entrevistas. Cortadores (8), transportadores (4) e colocadores de pedra (4) são os sujeitos que compõem o universo das dezesseis (16/8+4+4) pessoas selecionadas, construído pela técnica da bola-de-neve19. Estes protagonistas foram entrevistados individualmente a partir de um roteiro semiestruturado, com o objetivo de propiciar o relato de histórias orais, como “história do tempo presente, pois implica uma percepção do passado como algo que tem continuidade hoje e cujo processo histórico não está acabado”20. Um gravador de voz foi utilizado para o registro e, após transcritos, os 16 áudios geraram conteúdo extenso e denso.

O conteúdo coletado pelas entrevistas foi organizado, classificado e codificado com base no método proposto por Minayo21. Da relação com os dados surgiu, preliminarmente, a categoria “Rochas brasileiras: do sofrimento à resistência”.

3 O ENCONTRO DO OBJETO COM GRAMSCI

Perante esses textos e contextos, contradições de classe, e conflito de interesses entre capital e humanidade, convergentes ao objeto de estudo, “se consegue pensar historicamente, para identificar com sobriedade intelectual a sua própria tarefa no mundo, é possível encontrar certa serenidade mesmo no alvoroço

das contradições e abaixo da pressão da mais implacável necessidade”22.

É sobre a finalidade deste pensar historicamente o objeto que a proposta se debruça.

Considerando a hipótese do estudo, a de que a transformação do real sobre o trabalho e movimentos correlatos no processo saúde-doença de um contexto de produtores de bens em pedra se deu por meio de relações de hegemonia, a análise e interpretação das narrativas será conduzida pela análise gramsciana da teoria da hegemonia, e alguns conceitos relacionados.

4 A PREOCUPAÇÃO DE GRAMSCI COM OS SUBALTERNOS

Ao afirmar que “o homem ativo de massa atua praticamente, mas não tem uma clara consciência teórica desta sua ação, que, não obstante, é um conhecimento do mundo na medida em que o transforma”23, percebe-se uma preocupação coletiva, não somente com os intelectuais, mas com o cuidado em trazer para a discussão o papel dos muitos trabalhadores simplórios e de suas forças que, dispendidas sobre o objeto de trabalho, transformam a natureza em bens utilizados socialmente.

A filosofia da práxis lança as luzes para clarear esta consciência teórica escurecida, adormecida na vida dos simplórios. Diferencia-se de outras filosofias por não conciliar “interesses opostos e contraditórios”. Ao contrário, luta para resolver ativamente as “contradições existentes na história e na sociedade”24.

É a expressão destas classes subalternas, que querem educar a si mesmas na arte de governo e que tem interesse em conhecer todas as verdades – inclusive as desagradáveis23:270. Assim, visando à emancipação dos grupos ou classes subalternas, Gramsci desenvolve sua filosofia da práxis para que não seja “um instrumento de governo de grupos dominantes”, mas para “combater as ideologias modernas”, superando o senso comum das massas, “a fim de poder constituir o próprio grupo de intelectuais”, educando o povo subalterno, “cuja cultura é medieval”. Sem embargo, a filosofia da práxis é “a ideologia que organiza esta classe [subalterna] para a conquista e exercício

da hegemonia”23.

Aliás, uma nova hegemonia. Ideologias que tratam passivamente a relação contraditória do modelo de produção funcionam como:

[...] meras ilusões para os governados, um engano sofrido, enquanto são para os governantes, um engano desejado e consciente. [Ao contrário,] para a filosofia da práxis, as ideologias não são de modo algum arbitrárias: elas são fatos históricos reais, que devem ser combatidos e denunciados em sua natureza de instrumentos de domínio23:269-270.

Combatê-las em sua “forma mais refinada” passa a ser o norte pretendido pela filosofia da práxis, assim, tornando “os governados intelectualmente independentes dos governantes” ao ser a ideologia construtora de intelectuais orgânicos, que não se desprendem de sua origem, de sua classe “para destruir uma hegemonia e criar uma outra, como momento necessário da inversão da praxis”23, pela “conquista da hegemonia” com direção das “classes populares nas complexas sociedades contemporâneas”25.

“Relação de hegemonia é necessariamente uma relação pedagógica”.

Encarcerado, Gramsci aprisionou essas palavras que nos servem de guia ao desenvolvimento deste item. Livres e unidas, foram trazidas pelo autor Joseph Buttigieg, que junto a outros dezenove (19) textos, integram o livro Ler Gramsci, entender a realidade, organizado por Coutinho e Teixeira (2003).

A obra gramsciana não dedica um caderno especial para conceituar ou demarcar o conceito de hegemonia. Gramsci “jamais pensou em reunir as inúmeras notas que tratam direta e explicitamente da questão da hegemonia”26. É dever empreender uma leitura concisa e apurada de todos os cadernos, na sequência cronológica de redação para que se possa ter uma “compreensão integral do conceito gramsciano de hegemonia”26. “A análise de fenômenos específicos”, as realidades italianas e mundiais do período compreendido entre as duas grandes guerras mundiais, atravessaram seu caminho. Passagens e ensaios, distribuídos em diversos trechos fatuais dos Cadernos do cárcere levam “Gramsci a considerar o emprego do

termo hegemonia” e configura o “núcleo central da filosofia política do Gramsci maduro”26.

Com a insurgência dos dados coletados, trazer à nossa companhia o autor italiano e, ademais, seus célebres e extensos escritos carcerários, mas respeitando o tempo dado de dois (2) anos para conclusão de um trabalho de mestrado, não teremos como mergulhar integralmente em sua produção. À vista disso, tentaremos dar uma forma inicial a partir de estudiosos nacionais e internacionais.

5 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para esclarecimento ao leitor, cada um dos dezesseis (16) entrevistados nesta pesquisa recebeu um codinome, identificado pela letra P, seguida por dois números arábicos, como P31, P23, P20 e etc.

5.1 Hegemonia nas pedras

Diversas amputações imputadas pelo modo de se trabalhar e os perigos provenientes surgiram nos relatos das entrevistas. Etapa necessária para extração de pedras, a aplicação do fogo e as explosões ocasionaram mutilações e mortes:

“Dois irmãos num dia só morreram, [...] um esmagou e o outro bateu e jogou” (P10) “Coisinha leve assim, perde uma mão”

(P23) “Muita gente com um olho cego e sem mão, porque explodia a mina. [...] Tem o DD, tem o JP. [...] Uns sem a mão, outros sem o dedo, outros cegos, outros com os dedos tudo torto” (P31) “Quando explodiu fiquei praticamente cego” (P20).

Não menos brutal como os fatos mencionados acima, a relação de trabalho entre os atores e como a transformação do real foi impondo condições a estes trabalhadores também é digna de nota, conforme observaremos a seguir.

Hegemonia “é uma relação educacional”26, que pode ser tanto por consenso passivo como ativo, e “existe em toda a sociedade, não apenas nas relações

escolares”.

[...] “fazia mil pedras [de paralelepípedos] por semana. [...] O PdoP30 queria muito. [...] Então não ia fazer só mil pedra por semana. Ia fazer três [mil paralelepípedos], eles queriam comprar mesmo. [...] Essa coisa de avacalhação” (P22).

Como nessa fala de um cortador de pedras (P22), fazendo referência a um comprador (PdoP30). Há uma relação pedagógica entre o pedido por maior produção do PdoP30 e o trabalho produtor do P22. Claramente há uma “conversa” entre os dois sujeitos, que produz resultados, e que nenhum deles sai inalterado desse diálogo. O PdoP30 quer mais pedras por semana e, não sendo ele o produtor, comprará de um terceiro, o P22. P22 tem o costume de fabricar mil paralelepípedos por semana. Sua produção segue um método. Alterada a quantidade produzida, preservado o mesmo período de tempo, alteram-se os meios de se produzir. Faz mais rápido. Maior rapidez no pedido causa, como dito, avacalhação: os paralelepípedos dessa produção não terão as mesmas perfeições dimensionais do método anterior (que será um problema para o colocador de pedras que antes estava acostumado com seus objetos tridimensionais regulares). Mas a semelhança de tamanho dimensional antes tida entre os milhares de paralelepípedos de pedra não é uma preocupação do comprador PdoP30, afinal, as pedras não são para uso próprio. O comprador PdoP30 é um comerciante de pedras: compra do P22 para vender a outros, nesse caso, uma Prefeitura que deseja calçar suas ruas.

E como P22 aceita essa condição? Outros cortadores também se depararam com essa situação em seu cotidiano? Por que não se negaram? Estavam organizados para isso? Não se sabe. Não vendo “capacidade de tornar-se protagonista de sua própria história”25, sabe-se que há uma relação hegemônica consensual passiva. Pela conversa, P22, sem resistir, sem expor seu lado, trabalha. E o que leva PdoP30 a querer comprar mais pedras do que antes? Certamente receberá mais dinheiro em menos tempo, pois consegue agora vender mais que antes. Há um pensamento lógico de acumulação de capital que não foi forjado geneticamente por PdoP30. Inserido no contexto capitalista brasileiro, por relação hegemônica com o sistema, age em pleno direito de usufruir dos resultados de seu trabalho comercial. Portanto, cabe complementar, “operações de hegemonia” se orquestram por:

[...] “atividades e iniciativas de uma ampla rede de organizações culturais, movimentos políticos e instituições educacionais que difundem sua concepção de mundo e seus valores capilarmente pela sociedade”26:46.

Corroborando com o raciocínio, Gramsci convence-se “que a formação da personalidade acontece no processo histórico, no terreno da disputa hegemônica”27.

5.2 E como se concebe uma concepção de mundo?

Da Itália, Antonio Gramsci, pensador e ativista, resgata weltanschauung, termo da filosofia clássica alemã que trata de uma “visão de mundo” integral, ampliada. Ou mundivisão, cosmovisão. Para o italiano sardo, essa visão/ação macro de mundo elabora-se por três unidades constitutivas - economia, filosofia e política - e necessita

“convertibilidade de uma na outra”, para que cada uma das unidades possa conversar com a outra, possibilitando “tradução recíproca” de uma com todas, sem desintegrar o sistema que as relaciona, formando um “círculo homogêneo”23.

Quadro 1, ilustrativo para compreensão da lógica gramsciana de concepção de mundo.

Na economia, o “centro unitário” da relação entre trabalhador e forças industriais de produção é o valor, com seu arquétipo presente nas páginas d’O Capital28. Na filosofia, o elo que integra as relações entre a vontade humana (ou

subjetividade, supraestrutura) e a infraestrutura econômica (os modos de produção, as mercadorias, a riqueza, a realidade) é a práxis. Daí a categoria filosofia da práxis, entre o pensar e o fazer, a teoria e a prática. Na política, a “vontade centralizada”, a

“intervenção do Estado”, as políticas públicas (leis, portarias, Constituição, políticas de educação e etc.) como fio condutor da relação entre sociedade civil e Estado.

Todos esses âmbitos amarrados numa única concepção de mundo – a própria weltanschauung23.

5.3 Uma abordagem para tratamento de dados reais

A observação não nos foi suficiente. Recorremos as entrevistas, pois não nos sentíamos preparados para um estudo etnográfico; tampouco tínhamos tempo para ousar e, com efeito, encarar este preparo. Optamos por dar voz a atores protagonistas.

Colher suas falas, aspirações, utopias, angústias, felicidades, vivências dos próprios trabalhadores da atividade produtiva e suas visões perante o mundo em que estão29. A análise dos dados, portanto, foi conduzida pela abordagem ético-política, em perspectiva dialética, tomando por base a dimensão reflexivo-crítica para compreender “o modo de”, isto é, o modo como a transformação do real foi se impondo ao trabalho e gerando movimentos no processo saúde-doença de produtores de bens em pedra, no contexto de Camboriú, SC17. Este método é uma adaptação do método humanístico de análise da realidade cunhado por Gramsci como o método do “posto che”, cujo percurso é orientado pelo diálogo entre a historicidade do objeto e a indagação de suas tendências contraditórias. Partindo desta interlocução, o pensamento percorre um caminho em que uma nova realidade é incorporada à espera de resposta, de nova análise30.

6 CONCLUSÕES (NÃO) FINAIS

Preliminarmente, a análise dos dados – dirigida por Gramsci e o “modo de” - não permite a insurgência da sociedade regulada proposta por Gramsci e encarnada na concepção integralista da realidade, pois, o contexto posto estudado, garante-se historicamente por questões de subalternidade, hierarquias, apropriação de trabalho

alheio, verticalização das decisões político-econômicas que afetam o cotidiano do trabalho. Os protagonistas dessa produção são tratados como peças à economia burguesa - detentora da propriedade privada, dos meios de produção - e não como pessoas que, além de economicamente ativas, vivem no mundo real, integral, logo, também participam da sociedade civil, porém não atuam concretamente nas intervenções do Estado, nem tampouco na produção de conhecimento teórico, mesmo atuando concretamente. São pessoas fragmentadas: ativas na produção da infra- estrutura econômica, passivas nas decisões de Estado.

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