1.1 Folheando o Pilar
1.1.1 A diocese de Duque de Caxias e São João de Meriti
Em 1972, o jornal Folha da Cidade que circulava aos domingos nos municípios de Duque de Caxias, São João de Meriti, Nilópolis, Nova Iguaçu e Magé lançou a campanha
‘Um Bispo para Caxias’ (POUBEL, 1972). A campanha para a criação da diocese na cidade vinha acompanhada de crítica ao Bispo Diocesano de Petrópolis, Dom Manuel Pedro da Cunha Cintra, “ausente e assoberbado de trabalho”.12 Essa reivindicação somente foi atendida anos depois através da Bula Qui Divino Consilio, do Papa João Paulo II, segundo Mattos (2006) e Oliveira (2005), a pedido de Dom Adriano Hypólito, bispo da Diocese de Nova Iguaçu13.
Dom Mauro Morelli era bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo na gestão do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e, em 12 de julho de 1981, foi instalado bispo diocesano caxiense, cargo que ocupou até 2005. A celebração foi notícia de capa no Jornal do Brasil.14 A matéria registrou a presença de aproximadamente três mil pessoas no evento, com participação de diversos membros do clero nacional e fluminense, além de lideranças locais.
Antes de sua posse, Dom Mauro liderou uma campanha de apoio aos trabalhadores grevistas da Fiat (antiga Fábrica Nacional de Motores).15 O manifesto de apoio aos operários foi assinado por Dom Adriano Mandarino Hypólito, Bispo de Nova Iguaçu; Dom Paulo Aires, bispo metodista; Reverendo Mozart Noronha, pastor da Igreja Cristã Renovada e Reverendo Carlos Cunha, pastor da Igreja Presbiteriana da Penha.
12 Fonte: POUBEL (1972). Um Bispo para Caxias. A FOLHA DA CIDADE. Duque de Caxias. Ano XVIII, nº33, de 06/08/1972. p.2. Arquivos do Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto, da Câmara Municipal de Duque de Caxias.
13 A Diocese de Nova Iguaçu foi criada em 26 de março de 1960 pela Bula Quandoquidem Verbis do papa João XXIII. Até então, ela pertencia à Diocese de Petrópolis.
14 D. Mauro Morelli é sagrado bispo da Diocese de Caxias (JORNAL DO BRASIL. Primeiro Caderno, Cidade, 13 jul.1981, p.5).
15 A Fábrica Nacional de Motores (FNM) em Xerém, Duque de Caxias, foi fundada como uma empresa estatal durante o Estado Novo com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico em 1942, Os primeiros motores produzidos foram de aviões com tecnologia licenciada da empresa norte-americana Curtiss-Wright. Ao final da Segunda Guerra Mundial, obrigada a diversificar sua produção, licenciou a tecnologia da empresa italiana Isotta Fraschini Spa para fabricação de caminhões. Em 1949, após a falência da empresa italiana, a FNM fez um novo contrato com a Alfa Romeo para o desenvolvimento de um novo caminhão com motor e cabine criados no Brasil. Os caminhões (fabricados cerca de quinze mil veículos), chamados de Fenemê, alcançaram relativo sucesso na época. Em 1968 foi vendida para a Alfa Romeo, e, posteriormente incorporada pela Fiat, que, em 1985 encerrou as operações da Fábrica Nacional de Motores (RAMALHO, J.R. Estado patrão e luta operária: o caso FNM. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989 apud MONTEIRO, 2007, p.75).
OLIVEIRA (2005), também citada em MATTOS (2006, p.98-99) analisou que a campanha de arrecadação de alimentos e as doações para o fundo de greve provocaram a reação do bispo petropolitano, Dom Manoel Pedro da Cunha Cintra. Este escreveu ao Núncio Apostólico Dom Carmine Rocco por considerar descabida a intromissão de Dom Mauro na diocese alheia, pois ele ainda não havia sido nomeado bispo. Antes da investidura, Dom Mauro teve um papel emblemático para o clero e os movimentos populares/sociais, por traduzir seu modus operandi identificado com a Teologia da Libertação.
No início da década de 1980, a Diocese de Duque de Caxias e São João de Meriti contavam com oito paróquias e quinze sacerdotes em cada município. Além do Clero Diocesano local, havia as congregações das Irmãs Franciscanas de Dillingen, Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, Irmãs da Divina Vontade e Irmãs Catequistas Franciscanas. A Igreja Matriz de Santo Antonio foi cedida pela Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil para nela ser instalada a sede da nova Diocese (MATTOS, 2006). Havia, portanto, uma presença significativa da Ordem Franciscana na região constituída por freiras com atuação na educação16.
No processo de organização diocesana, foi produzida e publicada em 1988 a cartilha
‘Comunhão, co-responsabilidade e coordenação pastoral da Igreja em Duque de Caxias e São João de Meriti’, também conhecida pelos fiéis como o ‘livrinho amarelo’. O texto orientou a ação pastoral participativa, descentralizada e preconizava o envolvimento dos membros na vida da Igreja e a formação político-cristã.
A seguir, apresentamos a composição adotada pela Diocese de Duque de Caxias e São João de Meriti, que vigorou entre 1988 e 2008.17 Para o governo eclesiástico, a matriz era composta da Assembleia Diocesana, Conselho Pastoral Diocesano, Equipe de Coordenação e Equipe Administrativa, com suas respectivas representações.
16 As Irmãs Franciscanas de Dillingen, cidade alemã situada ao sul da Baviera, chegaram ao Brasil expulsas pelo nazismo no início da década de 1940. São responsáveis pelos colégios Santo Antonio em Duque de Caxias e Santa Maria em São João de Meriti. A Mitra Diocesana também criou sua escola paroquial.
17 Em 2008, a Assembleia Diocesana de Pastoral aprovou a revisão que deu origem ao novo texto: “Que todos sejam um”. COMUNHÃO, CO-RESPONSABILIDADE E COORDENAÇÃO PASTORAL DA IGREJA EM DUQUE DE CAXIAS E SÃO JOÃO DE MERITI, publicado em 2009.
Figura 1 - Organograma da Diocese de Duque de Caxias e São João de Meriti
Fonte: Comunhão, Co-Responsabilidade e Coordenação Pastoral da Igreja em Duque de Caxias e São João de Meriti, 1988.
Conforme a Matriz, as comunidades, paróquias e cada região pastoral constituíram suas representações e fóruns, com eleição de representantes e mandatos fixados em dois anos.
A assembleia da comunidade reunia seus membros para discutir e avaliar o trabalho local, eleger o conselho comunitário e a equipe de coordenação local. Aos conselheiros eleitos em assembleia cabia a tarefa de escolher a equipe administrativa e supervisioná-la. O conselho também convocava a assembleia comunitária, para “cuidar da formação da comunidade, dando especial atenção às necessidades de seus membros em relação ao crescimento na fé e ao engajamento político na construção de uma nova sociedade”
(COMUNHÃO, 1988, p.12). Desta forma, compõe o Conselho Comunitário representantes das comunidades, a equipe administrativa e de coordenação, o presbítero e religiosos (as) que acompanham a comunidade. O mesmo critério fora adotado para constituir a assembleia paroquial ou da área pastoral, assim como o conselho e equipes.
Desde sua chegada à Baixada Fluminense, Dom Mauro demonstrou engajamento nas ações sociais e apoio às lutas populares. Essa particularidade está também refletida na composição do Conselho Diocesano de Pastoral, com representantes do movimento social organizado na diocese, o que denota compromisso com a efetivação desses grupos e a gestão democrática.
DIOCESE
ASSEMBLÉIA DIOCESANA Representantes eleitos nas comunidades. (nº fixado p/ Conselho Pastoral Diocesano) Presbítero Religiosas (freiras) Um representante de cada Comunidade Religiosa
CONSELHO PASTORAL DIOCESANO Dois representantes leigos de cada paróquia
Duas religiosas Equipe de Coordenação Pastoral
Diocesana
Um representante de cada comissão pastoral ou movimento organizado em nível diocesano.
Presbíteros
EQUIPE DE COORDENAÇÃ
Bispo O coordenador
Equipes de Coordenação
Pastoral das Regiões Pastorais
EQUIPE ADMINISTRATIVA Eleita pelos membros do Conselho Pastoral