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Influências e conjuntura

No documento O povo negro tem um projeto coletivo (páginas 53-59)

Através do Pilar é possível dimensionar o trabalho de fortalecimento de uma rede social de mobilização e participação liderada pela Igreja Católica. O protagonismo era fruto de interesses políticos de Dom Mauro Morelli e dos editores e redatores do Pilar que fizeram através do periódico suas articulações. Nas questões sociais (violência, fome) e partidárias (apoios a determinados partidos, candidatos e ações governamentais), o Pilar, como mídia alternativa, foi extremamente útil para a diocese caxiense. Tanto atendia aos interesses diocesanos comunitários ao denunciar descasos, crimes e outras atrocidades contra a população, como servia de canal de influência para grupos de interesse, condução política e partidária e para promoção do bispado de Dom Mauro.

Estado, de outro as reivindicações estão requerendo e legitimando seu lado provedor”

(DOIMO; RODRIGUES, 2003, p.101)29.

Desta forma, os processos desordenados de ocupação territorial aliados às precárias condições de vida colaboraram para posicionar a Baixada Fluminense como um lugar periférico em relação à grande metrópole, o Rio de Janeiro. Os municípios baixadenses eram conhecidos como cidades dormitórios. A violência simbólica30 engendrada nesse círculo perverso produzia entre a população mais vulnerável, tanto do ponto de vista econômico quanto social, um pertencimento duvidoso, um não-lugar. A associação da região à criminalidade e às precariedades urbanas gerou para a metrópole um contingente submetido aos efeitos da exploração capitalista.

Em “Baixada Fluminense: humilhação, gemidos e esperança”, o bispo Morelli expressou o contexto violento da região e o trabalho da população negra e pobre como contrapontos para servir ao progresso da capital:

[...] As cidades-dormitório ou campos de concentração segundo a concepção política e ideológica do opressor ou do oprimido, amanhecem assistindo a revoada dos anjinhos e o velório dos corpos, esquartejados e presuntados, enquanto a massa corre apressada, lotando trens imundos e outras gaiolas para cuidar do bem-estar e do progresso de seus amos e senhores. Aliás, nada funcionaria na Cidade Maravilhosa sem a Baixada Fluminense. Da mesma forma, não há “milagre” brasileiro sem os negros e pobres. […] A Baixada Fluminense, contra a lógica do mundo, acorda, levanta e caminha (MORELLI, 1990, p.2).

No Pilar, embora seus redatores tenham insistido em denunciar as condições adversas da vida na periferia, buscavam em contrapartida elevar as iniciativas de superação, como no editorial “O encontro começa agora”, do Padre João Munari. Em referência ao 7º Encontro Intereclesial de CEBs, que reuniu mais de duas mil pessoas, comparando Duque de Caxias,

“cidade da rejeição, lugar do medo e da impunidade” à Belém na Palestina,

29 As autoras se referiram à ação do Movimento Popular de Saúde (MOPS) que na década de 80 ganhou visibilidade e expressão por agregar uma intensa e complexa rede social: “Disseminado pelas inúmeras

“entidades” populares, sem demora, o MOPS começou a ser reificado, isto é, a ser tomado como se fosse um sujeito com vida própria. Documentos atestam que ele, o Movimento Popular de Saúde, começa a “falar” em nome próprio como se fosse um sujeito, e a dar subsídios às suas próprias estratégias de ação. Na verdade, as redes sociais locais predispostas à participação em movimentos sociais já estavam interconectadas havia tempo, tendo como carro-chefe as pastorais sociais, entre elas a pastoral da saúde, criada no início da década de 1980 mediante vínculo orgânico com a CNBB sob hegemonia da Teologia da Libertação. Em sua órbita, detectamos inúmeras “entidades” de apoio, renomeadas como ONGs nos anos pós-1990” (DOIMO e RODRIGUES, 2003, p.100).

30 O “poder simbólico” (BOURDIEU, 1989) impõe significados de mundo como legítimos e constroi uma realidade social sem coerção, fruto de determinismos sociais. Invisível e exercido com a cumplicidade dos que não querem saber que estão submetidos ou que o exercem.

[...] esquecido pelos centros de poder e de decisão. Na historia subversiva de Deus virou centro e capital do mundo construído para levantar os pequenos, confundindo os sábios e grandes da terra. Há um ano atrás, Caxias também virou Belém.

Conhecida como a cidade da rejeição, lugar do medo e da impunidade, pela graça de Deus, Duque de Caxias foi escolhida para acolher a inestimável riqueza de uma Igreja nova, livre de tradições e estruturas, comprometida apenas com a comunhão, com a vida, com a verdade do Evangelho, com a liberdade do Espírito. [...]

Sobraram desafios: os evangélicos disseram que o ‘novo’ a ser assumido pelas comunidades é a capacidade de caminhar de forma ecumênica esquecendo os séculos de desunião e de agressão recíproca. Índios, negros e mulheres lembraram que a comunidade deve ser também lugar de resgate de tudo que foi massacrado em séculos de dominação e discriminação. [...] Belém Caxias: houve uma estrela apontando o caminho. Lembrando o 7º Encontro, percebo que para nós, ele deve começar agora (MUNARI, n.3, 1990, capa).

Sobre esse mesmo evento OLIVEIRA (2010) declarou, com base no Serviço de documentaçãodas Comunidades Eclesiais de Base - SEDOC31, que:

A Baixada é uma síntese do próprio Brasil. Aqui chegaram e moram pessoas vindas de todos os estados do país, a maioria gente expulsa da terra pelos latifundiários. Um povo que traz a marca do sofrimento e da resistência. É a síntese dos grandes desafios nacionais: terra, trabalho, saúde e educação. Acolhendo aqui o Sétimo Encontro e todas as comunidades evangélicas e católicas, urbanas e rurais estarão sendo acolhida à solidariedade da Igreja na luta dos povos, na luta dos pobres, na celebração e na partilha da caminhada. (OLIVEIRA, 2010, p.54)

Portanto, a temática da violência conjugou uma ofensiva dos editores do Pilar que deu o tom das primeiras edições do periódico. Padre Lino advertiu aos leitores: “não é para aumentar o medo! Pelo contrário, é para informar que começa a existir uma reação contrária à violência e ao medo” (CORDERO, 1990, p.02). Neste sentido, Dom Mauro denunciou a existência de uma “guerra civil e policial que aterroriza e esmaga a Baixada Fluminense”

(MORELLI, 1990, p.02), apresentando estatísticas dos homicídios e da impunidade na região, com alusão ao contingente de negros e migrantes.

Mais de 60% da população negra, herdeira de 300 anos de escravidão e 100 de cinismo republicano. Além do povo negro, a Baixada Fluminense foi o espaço reservado aos ‘sem-terra’, mineiros, capixabas e nordestinos, vítimas do milagre brasileiro, isto é, do modelo econômico concentrador de capital e de terra (prisioneira do capital).A existência dos grupos de extermínio não é calúnia dos

‘comunistas do bispado’, mas terrível realidade comprovada pela Anistia Internacional e por órgãos da imprensa brasileira, como o Jornal do Brasil. A conivência ou a participação de policiais na guerra de extermínio também não é invenção da ‘Igreja Progressista’, mas uma aberração que solapa as próprias instituições do Estado. Sequestros e execuções na Baixada Fluminense não ocupam espaço nos noticiários da TV, do rádio ou dos grandes jornais, exceto como propaganda subliminar em favor da pena de morte. Dom Mauro Morelli, 3 de junho de 1990 (MORELLI, 1990, p.2).

31 SEDOC. Serviço de documentação. Comunidades Eclesiais de Base. Povo de Deus na América Latina, a caminho da Libertação. Petrópolis: Vozes, v.22.219. p.260, nov./dez. 1989

A violência também fez vítimas no meio eclesial, sinalizando que o periódico respondia aos acontecimentos da época. O artigo “Um preço a ser pago” (PILAR, n.3, p.3, 1990) denunciou o assassinato da irmã Filomena, da Congregação das Franciscanas e professora do Instituto de Educação Santo Antônio de Nova Iguaçu (IESA), encontrada baleada na cabeça dias antes. A freira apoiava os ribeirinhos das margens do rio Bota em Nova Iguaçu e moradores da favela da Viga, na mesma cidade. Irmã Filomena representava a Cáritas Diocesana e o IESA no convênio com o governo do estado do Rio de Janeiro, que previa a construção de mais de cem moradias populares. O jornal levantou suspeita de vingança por seu trabalho na organização de mutirões para construção de casas para as vitimas das enchentes.

O artigo “Violência até quando?” de frei Evaristo Spengler, do Centro de Defesa dos Direitos Humanos João Cândido, de São João de Meriti, descreveu as estatísticas da Baixada Fluminense e anunciou a criação do “Fórum permanente contra a violência”, integrado pelas dioceses de Duque de Caxias, Volta Redonda e Nova Iguaçu, além de grupos defensores dos direitos humanos e do movimento popular. Entre os objetivos do fórum estavam a sistemática e permanente pressão sobre as autoridades; a construção de amplo dossiê sobre a violência, (a ser divulgado pela Anistia Internacional); a criação de Conselhos Municipais de Direitos Humanos; seminários com participação popular para o debate das razões da violência e o papel dos grupos (institucionais ou não) através das quais ela se manifesta. Em Duque de Caxias, o fórum obteve apoios dos coletivos organizados: MUB, Conselho Comunitário de Saúde, Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Pastoral do Menor e Agentes de Pastoral Negros, que promoveram um encontro com juízes, promotores e defensores públicos e o comandante da Polícia Militar em 20 de abril de 1990 (SPENGLER, 1990, p.4).

A centralidade do tema violência se manteve e originou no Sínodo, uma reflexão e debate sobre a realidade: “no nosso caso, a realidade que desafia é a situação de miséria e de morte, que nos cerca” (PILAR, n.6, p.6, 1990). “Catequese, educação na fé, em comunidade para a cidadania”, evento realizado pelo Sínodo recebeu carta de cristãos da paróquia de Xerém que criticava o caráter reformista e idealista do Sínodo:

O documento não foi pensado para a grande massa dos cristãos dispersos, nem nos que atuam fora da Comunidade. Caímos no mesmo erro da Igreja tradicionalista: a Comunidade, (não mais a Igreja) é a sociedade perfeita: fora dela não há salvação! E as 99% das ovelhas ficarão como rebanho sem pastor, perdidas pelo mundo (PILAR n.18, 1992 ,p.2).

A situação dos trabalhadores rurais em Xerém, matéria de página inteira no Pilar (n.20, 1991) indicava apoio à luta dos lavradores e comunidades rurais, em especial ao candidato à presidência do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Duque de Caxias, Cândido Henrique, ameaçado de morte. O periódico convidou os leitores a participarem da manifestação ecumênica “para celebrar a vida, alimentar a esperança do povo e denunciar ameaças de morte a cristãos e outras pessoas que lutam para garantir a posse da terra”

(PILAR, n.20, p.3, 1991).

Ao promoverem fóruns, reuniões e debates entre a comunidade e o poder público, as iniciativas diocesanas em Nova Iguaçu e Duque de Caxias buscavam comprometer os envolvidos na busca de soluções para a violência social e institucional, ir além da denúncia.

Essa via libertária, comunitária ou associativa não correspondia aos ideais eclesiais tradicionais, mas antes ao modelo “Ver, julgar e agir”, um pensar social, reflexivo, com vistas a uma intervenção consciente sobre a realidade. Essa metodologia norteou os fundamentos da Teologia da Libertação, que exigia uma revisão crítica sobre as desigualdades e injustiças, a conscientização da opressão e uma ação planejada para a libertação.

A mobilização diocesana em torno das expressões das violências na região buscava envolver o poder público na busca de soluções. O Pilar noticiou o Encontro do Movimento Popular com Juízes de Direito do estado do Rio de Janeiro que reuniu mais de sessenta lideranças da Baixada e dezoito juízes fluminenses, no Centro de Formação de Líderes (CENFOR) da Diocese de Nova Iguaçu em março de 1991. Em abril, o Encontro com Chefes de Polícia foi realizado também em Nova Iguaçu e em Duque de Caxias, em maio de 1991 (PILAR, n. 13, p.4, 1991).

Aliado aos encontros com representantes estaduais, a diocese convocava a Anistia Internacional, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), movimentos populares, estudantes e professores da UERJ e UFRJ e membros do Fórum para debaterem estratégias de combate a violência e à impunidade (PILAR, n.15, p.4, 1991).

O periódico também enfatizava ações e projetos de enfrentamento da violência, como do Padre Bernardo Colgan, na carceragem da 64ª Delegacia Policial de São João de Meriti, que oferecia alfabetização para os detentos. No currículo, aulas de língua portuguesa, matemática, religião, saúde preventiva, direito civil e noções de higiene. Por outro lado, apoiado pela diocese caxiense, o projeto buscou atender às inquietações advindas da rebelião ocorrida naquela delegacia que fez várias vítimas (PILAR, n. 33-38, 1993). Anos depois, o

mesmo projeto voltou à pauta quando a Campanha da Fraternidade32 enfocou o tema dos encarcerados (PILAR, n.82, p.12, 1997).

A violência também integrou os debates do Seminário de Política de Desenvolvimento Brasil-Alemanha (PILAR n.40, p.10, 1993) que teve a participação de Ivanir dos Santos do CEAP, representantes do Centro de Direitos Humanos João Cândido e da promotoria.

Ao mesmo tempo, o Pilar também se mobilizou para o plebiscito de 21 de abril de 1993 sobre a forma e o sistema de governo, com nítido apoio do diretor do periódico pelo parlamentarismo: “Para terminar e para que ninguém pense, então, que tanto faz e tanto fez, digo qual seria a minha escolha: República com Parlamentarismo” (CORDERO, 1993, p.09).

O diretor ainda Indicou o livreto de Paulo Vannuchi e Frei Betto publicado pelo ISER, O plebiscito de 1993, e noticiou o 'O Massacre da Candelária'33 que Dom Mauro relacionou ao contexto da campanha contra a fome:

(...) O futuro da Republica Federativa do Brasil dependerá da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria, pela Vida. O poder econômico só se curva frente a forte poder político. O poder político somente presta atenção a povo consciente, organizado e comprometido com a própria cidadania. A tarefa de reconstruir o Brasil está sendo empreendida por mulheres e homens que reconhecem que o faminto é carne de sua carne e que o sangue derramado na Candelária é sangue do seu sangue (MORELLI, 1993, p.2).

Em agosto de 1993, a violência da polícia carioca fez mais vítimas na chamada

‘Chacina de Vigário Geral’, quando 21 pessoas foram executadas por um grupo de extermínio no bairro vizinho a Duque de Caxias. Em paralelo, a CNBB se mobilizava contra o massacre dos Yanomami, ocorrido na aldeia Haximu, fronteira com a Venezuela (PILAR, n.41, p.8, 1993).

O processo que aglutinou forças para os grupos liderados pela diocese caxiense em torno da violência foi um mote que fortaleceu o protagonismo social da Igreja na defesa dos direitos humanos na região da Baixada Fluminense. Ao longo dos anos, na análise do periódico Pilar, a violência como tema mobilizador e aglutinador assume uma feição subliminar que cede a novas demandas, como veremos nos próximos capítulos.

32 As Campanhas da Fraternidade, iniciativa da CNBB desde 1964, podem ser divididas em três fases: na primeira, o propósito dos textos estaria na renovação interna da Igreja, auxiliando na conscientização dos cristãos de que deveriam agir como uma comunidade. Na segunda fase, estariam voltadas para a realidade social, com a denúncia de situações e conjunturas injustas, promovendo os direitos humanos e a cidadania, não apenas dos católicos, mas também “de todas as pessoas de boa vontade”. No terceiro momento, elas se orientariam para a situação existencial do povo, articulando fé e política, fé e vida (ZECA, 2008).

33 A chacina da Candelária ocorreu em 22 de julho de 1993, quando policiais assassinaram oito meninos de 11 a 19 anos que dormiam ao lado da Igreja da Candelária no centro do Rio de Janeiro.

No documento O povo negro tem um projeto coletivo (páginas 53-59)