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A presença negra no Pilar

No documento O povo negro tem um projeto coletivo (páginas 59-67)

presença e pela manifestação dos ORIXÁS. A questão é linda, séria e profunda.

Primeiro porque o flagelo da discriminação sobre tudo ou quase tudo que diz respeito ao povo negro, é muito forte, ainda mais se tratando de religiosidade, de manifestação de fé. Em segundo lugar, a seriedade e a profundidade da questão está no fato de que o Deus da Libertação, na Sua criatividade, não obedece a limites impostos pelos seres humanos com suas filosofias, suas religiões, suas moralidades, seus preconceitos, para se manifestar, para se dar e conhecer. [...] ‘Receber o Santo’, na minha compreensão de negro hoje, quer dizer que Deus age na historia do Povo Negro tendo-o como Templo dele (ROCHA, 1992, p.8).

José Geraldo da Rocha, um dos fundadores dos Agentes de Pastoral Negros, coletivo que recupera as tradições e reafirma sua identidade cultural enegrecida, mantinha interlocutores internos e externos à Igreja Católica. Os textos de sua autoria publicados no jornal diocesano representavam múltiplas vozes historicamente silenciadas e reprimidas, acerca da presença negra no Brasil. Ele se constituiu, naquele contexto, como partícipe da resistência contra-hegemônica e anunciou aos leitores um catolicismo africanizado, traduzido numa experiência espiritual facilitadora de pertencimento cristão e ancestral.

O Pilar contribui para fortalecer uma “identidade de resistência”, ao longo do processo de mobilização e organização social negra na base católica e, para consolidação de uma “identidade de projeto” (CASTELLS, 1999), via artigos de José Geraldo da Rocha e matérias correlatas à questão racial e a organização de coletivos.

As ações dos grupos cuja questão racial tornara-se central encontraram resistências na comunidade leiga, conforme declarou Padre João (entrevista por e-mail em 28/12/2010):

“Os leitores manifestavam suas dificuldades em cartas que chegavam à redação. Isso tinha repercussões? Não. Sabíamos que o Pilar estava tentando abrir caminhos para novas expressões, mas no meio de uma mentalidade geral bastante tradicional. Era só um termômetro para medir se podia ou não pisar no acelerador” (entrevista por e-mail em 28 de dezembro de 2010).

Segundo Munari (entrevista por e-mail em 28/12/2010), algumas cartas dos leitores expressavam um descontentamento, mas essas manifestações não impactavam a abordagem das questões da negritude, embora tenha reconhecido dificuldades para manter aquele espaço de interlocução:

Quem fez crescer a sensibilidade foram às pessoas engajadas, que no Pilar um meio para veicular idéias e iniciativas. Sempre foi difícil manter este espaço porque havia segmentos da diocese que não entendiam e, aparentemente em nome de uma falsa fidelidade à Igreja, achavam que certos assuntos não eram oportunos nem pertinentes. Não percebiam que nisso expressavam nada mais nada menos que a mentalidade oficial e o preconceito latente alimentado pelas instituições públicas e pelos grandes meios de comunicação (MUNARI, entrevista por e-mail em 28/12/2010).

Se os leitores do Pilar questionavam o posicionamento do jornal acerca de temas raramente explorados na grande imprensa, principalmente diocesana como a teologia negra, negritude e racismo, a direção do periódico, por sua vez, não ofereceu maior publicidade aos insatisfeitos. Ao contrario, se observa certo silêncio auspicioso da parte dos interessados, o que garantia a inserção dos temas, que fora abalada tempos depois.

Padre Lino Cordero (1992), dois anos e meio após a primeira edição do periódico, veio a público declarar que, para alguns leitores, era incompreensível que a população negra, ou um grupo de negros, se posicionasse de modo diferenciado na discussão das desigualdades, separada da luta de classes.

Interessante (porque atual) e bonita (porque feita com amor) questão: vários leitores e pessoal das comunidades, mais de uma vez se dirigiram a Pilar par perguntar: “Por que os negros querem ser diferentes, se constituir em grupos separados?” Não somos todos iguais? Igualmente oprimidos socialmente? Não seria melhor lutar juntos e, assim, ter mais força para a conquista de nossos direitos?

A Direção

A redação de Pilar sabe que as matérias publicadas nesta página já são uma contínua resposta a essa questão, mas pede se for possível, que os amigos negros tentem responder de maneira fácil e direta (CORDERO, 1992, p.10).

A questão racial afeta patrimônios sociais, políticos e culturais, mesmo com a compreensão de raça como categoria política e analítica culturalmente construída. Na sociedade brasileira, o racismo, estrutural e estruturante, atuam na manutenção e reprodução das desigualdades. Entretanto, sua visibilidade tem sido ofuscada no imaginário social ao se associar as relações assimétricas às desigualdades de classe, assim como demonstrou o texto do diretor do Pilar.

Como recorrente posicionamento do senso comum, o paradigma da igualdade foi evocado, ancorado no conceito de classe, útil para justificar as desigualdades e a opressão social. Tal interpretação ainda presente nos discursos das massas e de alguns intelectuais no contexto religioso católico é basilar, pois se trata da igualdade humana diante de Deus.

Após o episódio narrado pelo diretor do Pilar, o estranhamento ou a rejeição dos leitores ao tema racial não produziu continuidade. O afastamento de José Geraldo da Rocha e de sua coluna respondeu às inquietações manifestas por Lino Cordero pela via do silêncio. À época, o autor cursava o mestrado em Teologia Sistemática na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), entre 1991-1993, e concomitantemente escrevia no Pilar e ministrava aulas no curso de teologia para leigos, Trairaponga34, da diocese caxiense.

34 A palavra tem origem nos Tupinambás (chamados de Jacutingas por utilizarem as penas da jacutinga para se enfeitar), que habitavam as margens dos rios Iguaçu e Meriti e chamavam essa região de Trairaponga, que

O autor relatou em entrevista que, na gestão do padre João Munari no Secretariado Diocesano, recebeu apoio e incentivo para discutir a Teologia Negra no periódico.

O artigo, “As boas notícias que estão anunciadas pelo povo negro” (ROCHA, 1993, p.11), foi um dos últimos de sua autoria no jornal. Lino Cordero anunciou o retorno de Rocha ao Pilar após a defesa da dissertação Negro um clamor de justiça, na qual analisou a Campanha da Fraternidade de 1988, Ouvi clamor desse povo. Contudo, José Geraldo não retornou ao Pilar e declarou ter se afastado em razão do ‘choque ideológico’ entre ele e o grupo de leigos e padres que assumiram a direção da ASPAS e citou dentre eles, o teólogo Celso Carias.

Em contrapartida, quando José Geraldo da Rocha saiu da cena do Pilar, ele assumiu junto aos APNs, que ajudou a fundar, a formação de Grupos de Teologia Negra. Esse modelo, na esteira das CEBs, partia da realidade da negritude para discutir alternativas fundadas na Teologia Negra de Libertação. O desdobramento das atividades do grupo foi a publicação das reflexões nos Cadernos de Teologia Negra “Amadurece uma esperança” (PILAR, n.45, p.11, 1994).

também nomeou uma das freguesias. Durante os séculos XVII e XVIII, foram organizadas na região de Iguaçu e Estrela as freguesias de: N. Senhora do Pilar do Aguassu (1612), N. S. da Piedade de Aguassu (1719), São João Batista do Trairaponga (1647) que depois passou a ser São João Batista de Meriti , N. S.

da Piedade de Anhum-mirim (1759), Santo Antônio de Jacutinga (1755) e N. Senhora da Conceição de Marapicu (1759), segundo Souza (2004, p.26-37).

O curso Trairaponga, desenvolvido em Duque de Caxias no período de 1990-2000 com duração de dois anos, era composto de vinte encontros mensais. Tinha uma metodologia inovadora em que, no primeiro ano, a coordenação procurava identificar as fragilidades na formação dos agentes e, valendo-se da realidade observada, formulava um programa com vistas a suprir as carências e necessidades percebidas. O curso, que foi uma experiência embrionária multidisciplinar integrada com incentivo à leitura, exercícios e dinâmicas que fomentavam a discussão da multiplicidade de interpretações, o respeito ao diferente, às outras religiões e a importância do convívio, o fortalecimento dos laços de amizade e da criação de vínculos entre os agentes (SANTOS, 2008).

Figura 4 – Cadernos de Teologia Negra.

Fonte: CADERNOS DE TEOLOGIA NEGRA. Amadurece uma esperança. 1.ed., vol. 1. Rio de Janeiro, Nov.1993. 40p.

A publicação de quarenta páginas teve composição e arte final da equipe do jornal Pilar. O texto apresentou questionamentos gerados pela Teologia Negra, o histórico dos grupos que discutiam a questão, como os APNs e as exigências para a consolidação dessa teologia: a memória, a participação, a fé, a produção coletiva, a consciência, a abertura ao novo sujeito.

No ano de 1994, José Geraldo passou a coordenar o Programa Negritude Brasileira do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e realizou com o teólogo Marcos Rodrigues o

‘Seminário Nacional de Teologia Negra’ em Duque de Caxias (PILAR, n.52, p.8, 1994). Na mesma edição, também foi notícia a publicação do segundo Caderno de Teologia Negra,

‘Deus na roda com a gente’ de 1994. Nesse segundo volume, não há referências ao Pilar e os temas em destaque foram o negro e a espiritualidade; a mulher negra e sua experiência de Deus e memória e tradição, com sugestões de atividades, cânticos e questões para o debate.

Figura 5 - Cadernos de Teologia Negra

Fonte: CADERNOS DE TEOLOGIA NEGRA, v.2: Deus na roda com a gente.

Rio de Janeiro: [s.n.], jul.1994. 48p.

Os textos de apresentação dos dois volumes do Caderno de Teologia Negra são de José Geraldo da Rocha que deixou o Pilar justamente quando os APNs completavam uma década de existência. Na ocasião organizou a coletânea de artigos de sua autoria – “Retalhos de nossa história” - publicados no jornal entre 1991 e 1993 (PILAR, n.52, p.11, 1994).

Figura 6 - Teologia Negra

Fonte: ROCHA, J. G. da. Teologia Negra: Retalhos de nossa história. Rio de Janeiro: [s.n.], 1994. 47p.

José Geraldo da Rocha foi contemporâneo de Celso Pinto Carias na PUC-Rio e cursaram mestrado e doutorado em teologia na década de 1990. Para Geraldo Rocha, ele e Celso pertenciam a ‘escolas’ teológicas antagônicas e, embora ambos tivessem passado pelo Pilar, o fizeram em momentos diferentes. No lugar da coluna de José Geraldo da Rocha, comprometida com os temas étnico-raciais e a teologia negra, entrou “Deus e o sofrimento humano” de autoria de Celso Pinto Carias, também coordenador do curso de Teologia Trairaponga. Por fim, Rocha declarou que atuou como professor nesse curso, mas interrompeu sua atividade docente por divergências políticas e teológicas.

2 A EDUCAÇÃO LIBERTADORA

Por tudo isso é que defendemos o processo revolucionário como ação cultural dialógica que se prolongue em ‘revolução cultural’ com a chegada ao poder. E, em ambas, o esforço sério e profundo da conscientização, com que os homens, através de uma práxis verdadeira, superam o estado de objetos, como dominados, e assumem o de sujeito da história.

Paulo Freire

A luta por reparação, valorização e reconhecimento da identidade cultural da população negra no Brasil é um processo de longa duração. Como grupo de interesse, com narrativas e dinâmicas próprias para articular, influenciar e conduzir o jogo político, o movimento negro brasileiro percebeu a lacuna de formação necessária para a continuidade de suas lutas para tornar a ação anti-racista uma ação pedagógica. Embora ativistas reconheçam que essa não é a solução para todos os males, ela mostrou ser importante bandeira de luta porque na educação brasileira persistem desigualdades históricas tanto sociais quanto raciais.

(GOMES, 2010).

Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, a exemplo de outros municípios e estados brasileiros,35 se antecipou ao indicativo da Lei nº10. 63936 e promulgou a Lei nº 12.716 em novembro de 1995, de autoria do então vereador Artur Messias (PT),37 que versava sobre a

“introdução nas escolas do município das atividades e estudos direcionados ao resgate da história dos elementos da cultura afro-brasileira”.

35 Ver o estudo realizado por Silva Junior (1998) em que o autor mapeou vários municípios que contemplaram legislações antirracistas antes da Lei 10.639/2003, como: Aracaju, Belém, Porto Alegre, São Paulo e o Distrito Federal.

36 A Lei nº 10.639 de 09 de Janeiro de 2003 altera a Lei nº 9. 394, de 20 de Dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a

obrigatoriedade da temática ‘História e Cultura Afro-Brasileira’. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africanas foram aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação através parecer CNE/CP3/2004, em 10 de março de 2004. A partir dessas Diretrizes, o CNE aprovou a Resolução nº1, de 17 de junho de 2004, regulamentando a temática nas diversas ações dos sistemas de ensino.

37 O jornalista Arthur Messias integrou a equipe do jornal Caminhando da diocese iguaçuana em1987. Foi vereador de Nova Iguaçu, (1991-1996), Deputado Estadual (1999-2002) e Prefeito de Mesquita por dois mandatos, (2005-2008 e 2009-2012) pelo Partido dos Trabalhadores.

O primeiro Presidente do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro (COMDEDINE) de Nova Iguaçu, Geraldo Bastos, eleito em 2010 e fundador do primeiro núcleo de Pré-Vestibular para Negros e Carentes (PVNC) na cidade declarou ter integrado a equipe de assessoria de Artur Messias na ocasião da referida lei. Segundo ele, os debates sobre o projeto de lei ocorreram no Coletivo Manuel Congo38 e ele foi encaminhado ao vereador Messias e sancionado pela Câmara de Vereadores de Nova Iguaçu. A iniciativa acolhida pelo vereador traduzia uma demanda protagonizada pelo coletivo.

Anos depois, em 1998, em São João de Meriti, o vereador Jorge Florêncio, eleito pelo PT no período de 1997-2000, com o apoio da diocese e do Pilar, aprovou projetos semelhante ao iguaçuano: a inclusão da disciplina História e Cultura da África no currículo escolar da rede pública do município de São João de Meriti e Ensino e a Prática da Capoeira na mesma rede.

A educação formal demonstrou ser uma constante preocupação dos coletivos organizados em torno da negritude, mas, no plano não formal, registram-se ações qualificadas de formação sociopolítica muito caras aos movimentos sociais como um todo. O movimento negro em particular agrega ainda oportunidade de, pela via educativa, denunciar o racismo e questionar o mito da democracia racial, promovendo uma educação libertadora, portanto.

Esse segundo capítulo recupera as demandas por educação para o movimento negro brasileiro, tendo como referencial o centenário da abolição e ações empreendidas pela base católica, como o Pré-Vestibular para Negros e Carentes (PVNC).

No documento O povo negro tem um projeto coletivo (páginas 59-67)