A cidade de Duque de Caxias é uma região de grande potencial industrial e econômico. Após a instalação da Fábrica Nacional de Motores (FNM) em 1942 e da Refinaria Duque de Caxias (REDUC), em 1961, desencadeou-se um processo de industrialização na cidade que atraiu um enorme contingente populacional. A região registrou um alarmante crescimento demográfico entre as décadas de 1950-1960, da ordem de 161% (Duque de Caxias) e de 145% (Nova Iguaçu), segundo Souza (2004). Além da refinaria e de empresas do ramo petroquímico, a construção das importantes via de acesso - Rodovias Washington Luís,
Presidente Dutra e a Avenida Brasil -87 facilitaram a locomoção e o escoamento da produção.
Embora a população não usufruísse do desenvolvimento urbano e da riqueza gerada pelo parque industrial, essa configuração provocou um caráter político diferenciado que estimulou a organização operária e consequentemente sindical.
O ‘Primeiro Encontro dos Trabalhadores de Duque de Caxias, realizado em 1962 e vinculado ao Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), promoveu uma articulação nacional reunindo os metalúrgicos de Xerém (FNM), os petroleiros da REDUC, os químicos, ferroviários, rodoviários e incluiu em sua programação atividades culturais para atrair a população local para o debate dos problemas da cidade. Com o golpe militar, segundo Pinheiro Junior (2007), prefeituras e sindicatos da região foram severamente abaladas pelas intervenções pós-golpe e prisões de militantes sindicais, estudantis e populares.
Em 1968, Duque de Caxias tornou-se ‘área de segurança nacional’, justificado pela presença da refinaria e da rodovia interestadual. Na avaliação do autor, as principais motivações intervencionistas foram os movimentos social, sindical e estudantil.88 A vitória do candidato oposicionista em 1966, Dr. Moacir do Carmo do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), contra o prefeito Tenório Cavalcanti, apoiado pela União Democrática Nacional (UDN), uma das articuladoras do golpe militar, somou-se à organização do PCB Partido Comunista Brasileiro (PCB) na região, produzindo embates e acirramentos políticos que preocupavam os golpistas. Outros municípios da Baixada também sofreram intervenções militares (Nova Iguaçu, São João de Meriti, Japeri e Nilópolis), mas em Duque de Caxias, essa ação parece ter sido mais incisiva (ALVES, 1998). A preocupação estratégica com a REDUC e a ascensão dos movimentos sociais foi determinante para alçar Duque de Caxias à área de segurança nacional.
A ala mais progressista da Igreja Católica no Brasil teve importante papel no cenário marcado pela radicalização política e pelo regime autoritário, tornando uma das principais organizações de apoio às lutas e reivindicações das camadas urbanas e rurais por justiça social. No clero brasileiro, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) seguia com certa hegemonia as orientações do Concilio Vaticano II e da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Medellín. Mais atentos aos aspectos sociais e humanos da fé do que aos doutrinários e dogmáticos, essa corrente progressista respaldava no
87 Inaugurada em 1928, a Rodovia Washington Luís (BR 040) foi a primeira rodovia asfaltada do Brasil ligando o Rio de Janeiro a Belo Horizonte. A Rodovia Presidente Dutra (BR 116) foi inaugurada em 1951 e a Avenida Brasil, inaugurada em 1946, faz interseção com ambas.
88 O movimento estudantil em atividade na cidade estava organizado na Associação Caxiense de Estudantes Secundaristas, sob forte influência da Associação Metropolitana de Estudantes Secundaristas (AMES).
Brasil e na América Latina o movimento de renovação da Igreja Católica, traduzido nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e Pastorais Populares consolidadas na Teologia da Libertação (ALVES, 1991).
Em muitos sentidos, a Igreja Católica Progressista foi o ator social mais importante do período de formação da sociedade civil brasileira contemporânea. A Igreja Católica Progressista criou, promoveu a apoiou movimentos sociais modernos em todo o Brasil, tanto nos centros urbanos quanto na zona rural. Durante muitos anos – a começar pelo trabalho realizado na constituição das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) nos anos 1960 –, foi a Igreja Católica Progressista que esteve no centro das lutas de pequenos agricultores deslocados/ atingidos por barragens, comunidades indígenas, pescadores, trabalhadores urbanos e donas-de-casa das periferias das grandes cidades, em bairros pobres e favelas. Além disso, a Igreja Católica Progressista atuou em comunidades carentes para organizar as pessoas que perderam com a modernização autoritária da economia do país, denunciando publicamente as injustiças sociais na tentativa de influenciar as decisões da elite política brasileira e chamando a atenção internacional para o problema dos direitos humanos no Brasil (LEVY, 2009, p.178).
Entretanto, apesar da influência e do apoio da Igreja Católica Progressista as lutas populares no Brasil, as demandas pré-existentes, produto das desigualdades sociais, também eram bandeiras da sociedade civil organizada (LEVY, 2009). A significativa participação da Igreja pode ser tomada como oportuna pelos próprios grupos, em especial durante a ditadura militar, o que fez da Igreja um ‘abrigo’ para os inconformados com o status quo vigente. A estratégia da Igreja Católica era atuar nas bases em redes de solidariedade, através da
“Comunidade Eclesial de Base que constitui um jeito diferente de ser Igreja e, ao mesmo tempo um movimento social” (OLIVEIRA, 2005, p.12).
A aliança de clérigos e leigos no movimento popular fortaleceu a luta por direitos e, além de impactar politicamente o poder vigente, a ação pastoral formava novas lideranças nas bases e incentivava o protagonismo social. Nesse contexto, a Baixada Fluminense, diante da escassez de serviços e meio digno de sobrevivência, tornar-se-ia um espaço de crescimento e fortalecimento dos Movimentos Populares.
Na Baixada Fluminense, além da Igreja Católica atuar na formação e articulação de grupos e lideranças populares, o Partido dos Trabalhadores (PT) tornou-se uma sustentação para esses coletivos e reuniu entre seus membros adeptos dos movimentos sociais libertários/emancipatórios e agregou entre suas diversas correntes, um catolicismo de esquerda.
A aproximação dos movimentos populares com o PT foi descrita por Alves (1991) como prioridade pastoral, no contexto da paróquia do Pilar que pertence a Diocese de Duque de Caxias:
Na segunda metade de 1981, o processo de formação desenvolvido pelos organizadores das Prioridades Pastorais passou a incluir entre seus temas de estudo a questão partidária e eleitoral. Eram semanas de estudos, cursos, palestras, etc., abordavam as mudanças na Lei dos Partidos e na Lei Eleitoral. Houve também a organização de debates com os representantes dos partidos, onde se discutira a origem do partido e seu programa. Apesar desta ampla reflexão não havia nenhuma definição conjunta dos membros das Prioridades Pastorais quanto à participação no processo partidário e eleitoral. Foi na reunião da Pastoral Operaria, que discutira a conjuntura econômica e política do país, que se colocou mais uma vez em discussão a solicitação do PT Municipal para que os membros da Paróquia lançassem candidatos (ALVES, 1991, p.106).
A pesquisa de Pinheiro Junior (2007) também ressaltou a articulação e aproximação do movimento popular de caráter associativo - Movimento de Amigos de Bairro em Nova Iguaçu (MAB); Movimento de União de Bairros de Duque de Caxias (MUB); Associação de Bairros e Moradores de São João de Meriti (ABM) - com o catolicismo de esquerda na Baixada Fluminense. O estudo registrou ainda a participação dos leigos católicos na estrutura do PT, não configurando uma corrente interna de caráter confessional, mas aderindo aos coletivos existentes (tendências) ou se mantendo ‘independentes’. Esse processo acarretou divisões e crises internas no segmento católico progressista, mas as vinculações existentes entre as Comunidades Eclesiais de Base, associações de moradores e as pastorais repercutiram na década de 1980, notadamente no processo de formação do Partido dos Trabalhadores de Duque de Caxias, Nova Iguaçu e São João de Meriti.
Nos anos 1980, de acordo com Alves (1998, p.114-115), surgiu na região um poderoso movimento social com amplo apoio dos setores progressistas da Igreja Católica em atuação nas Comunidades Eclesiais de Base e pastorais sociais, que elegeu o primeiro vereador petista em Nova Iguaçu, Artur Messias. Esse resultado eleitoral, segundo o autor, não correspondeu à combatividade e expressividade daqueles sujeitos organizados. Mas, considerando o contexto e as forças em confronto, ao eleger um representante das camadas populares do recém- fundado Partido dos Trabalhadores com apoio diocesano, Nova Iguaçu demonstrou fôlego na luta contra-hegemônica.
As estruturas partidárias consideradas de esquerda, em conformação naquela década buscavam expressar o conflito capital e trabalho. A luta de classes ocupava o centro do debate político, entretanto, relacionava a opressão econômica à cultural. Nessa nova cultura política democrática, destacam-se dois partidos que fizeram referências em seus programas às
questões de cunho racial: o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT). O programa do PT publicado em 21 de outubro de 1980 declarou que:
O PT manifesta-se solidário com os movimentos de defesa dos demais setores oprimidos, entendendo que respeitar as culturas e as raças significa ajudar e acabar com as discriminações em todos os planos, sobretudo no econômico. Neste particular a luta pela defesa da cultura e das terras indígenas bem como a questão do negro assume papel relevante [...] (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1998, p.81).
O Encontro dos Trabalhistas no Brasil com os Trabalhistas no Exílio, liderado por Leonel Brizola em Lisboa, Portugal, no dia 17 de junho de 1979, produziu a Carta de Lisboa, considerado o documento fundador do PDT, que descreveu entre seus compromissos:
[...] buscar a forma mais eficaz de fazer justiça aos negros e aos índios que, além da exploração geral de classe, sofrem uma discriminação racial e étnica, tanto mais injusta e dolorosa, porque sabemos que foi com suas energias e com seus corpos que se construiu a nacionalidade brasileira (PARTIDO DEMOCRÁTICO TRABALHISTA, 1979).
Depois, incorporado ao Estatuto do PDT, o texto afirmava que:
O quarto compromisso programático do PDT é com a causa das populações negras, como parte fundamental da luta pela democracia, pela justiça social e a verdadeira unidade nacional. Este compromisso nós concretizaremos no combate à discriminação social em todos os campos, em especial no da educação e da cultura e nas relações sociais e de trabalho. A democracia e a justiça só se realizarão, plenamente, quando forem erradicados de nossa sociedade todos os preconceitos raciais, e forem abertas amplas oportunidades de acesso a todos, independentemente da cor e da situação de pobreza (PARTIDO DEMOCRÁTICO TRABALHISTA, 1979).
A importância do colégio eleitoral da Baixada Fluminense trouxe para Nova Iguaçu o Congresso Estadual do Partido Democrático Trabalhista, em dezembro de 1982, que reuniu mais de três mil pessoas. Na ocasião, o recém-eleito deputado federal Abdias do Nascimento apresentou moção de apoio a Nelson Mandela, aprovada por aclamação:
Considerando que o 4º Compromisso Prioritário do PDT se relaciona com a causa das populações negras; considerando que Nelson Mandela, o líder e dirigente da luta secular do povo negro sul-africano contra o sistema criminoso do Apartheid, constitui um símbolo e um patrimônio dessa luta de todos os povos negros oprimidos da África e do mundo; nós, negros militantes do PDT e do movimento negro, e seus amigos solidários com a causa negra, propomos que esta plenária do 1º Congresso Estadual do PDT reúna sua voz ao clamor da comunidade internacional, manifestando sua solidariedade com a causa da libertação imediata deste companheiro, Nelson Mandela preso há mais de vinte anos nos cárceres nefastos do
governo branco, minoritário e racista da África do Sul (AFRODIÁSPORA, 1983, p.19-20).
O contexto de redemocratização política que originou a formação de novos partidos, dentre eles o PT, nasceu no calor das greves dos operários do ABC paulista, com notório viés classista. O PDT se configurou ainda durante o exílio de seu fundador Leonel Brizola e manteve entre seus membros, Abdias Nascimento, um expoente da luta racial. Esses elementos contribuíram para que o PDT assumisse um compromisso racial mais efetivo, enquanto o PT apenas se apresentou ‘solidário com os movimentos’.
A organização dos movimentos populares, as aproximações com os partidos de esquerda e as disputas eleitorais refletiram as contradições e a tensão entre os grupos, ampliadas na luta pela hegemonia política. Na Baixada Fluminense, Alves (1998) observou esse fenômeno quando analisou as dificuldades vivenciadas pelos cristãos católicos ao ingressarem na política partidária em Duque de Caxias. Na ocasião, a proposta de criação de uma Pastoral Política para ocupação de espaço institucional na luta pela democratização da Igreja, não vingou. Mas, ainda que esse grupo político não estivesse organizado como tendência, sua articulação se manteve identificada com a Igreja Católica. Para o autor, os cristãos esperavam transpor para a estrutura partidária uma “nova política” baseada na experiência dos movimentos sociais. Alguns, cooptados pelas tendências trotskistas e marxistas-leninistas, outros, em alianças pontuais, manobravam plenárias a fim de garantir maioria, filiando pessoas “sem consciência política”. A concorrência pelo poder produziu relativizações e uma mistura entre a “vanguarda” e o fisiologismo (ALVES, 1998).
O panorama de carência econômica, opressão sociopolítica e cultural sobre a população baixadense, e, a ausência de políticas sociais aliadas às repressões do Estado, influenciou na formação de entidades com apoio da Igreja Católica. Para Haddad e Oliveira (2001), essa se configurou como uma instituição promotora de ações educativas junto aos grupos populares, em especial no período marcado pelo processo de redemocratização do país.
As novas organizações tinham como missão principal a reconstrução do tecido social que havia se rompido com a ditadura em defesa dos direitos humanos, apoiadas na Educação Popular. Mais uma vez buscava-se nesses processos educativos ampliar o nível de compreensão que a população pobre tinha das suas condições de vida, discutindo suas causas com vistas à atuação crítica sobre a realidade. Textos bíblicos, adaptados ao contexto, sob a perspectiva da Teologia da Libertação contribuíram para a consolidação das Comunidades Eclesiais de Base, dos grupos de ação pastoral e de Educação Popular. A reflexão sobre a
realidade orientada pelo método Ver, Julgar e Agir analisava os problemas e discutia no coletivo estratégias de intervenção, como caminho para transformação. Nesse sentido, a prática educativa era, ao mesmo tempo, organização e mobilização social investida da ação militante, mas realizada em nível microsocial.
Nessa conjuntura acima descrita, a luta em torno das necessidades elementares da população da Baixada Fluminense, mobilizou coletivos, como as Comunidades Eclesiais de Base e pastorais e, algumas de suas lideranças tornaram-se interlocutores na formação partidária de esquerda e passaram a ocupar lugar também na arena dos partidos, em particular, no PT. Logo, a identidade do partido com os movimentos de massa de caráter popular abarcou coletivos em diversas instâncias de atuação. Mas, como os movimentos sociais contemporâneos não estão restritos aos conflitos de classe, as dimensões subjetivas da ação social também foram incorporadas e a luta social atravessou fronteiras econômicas, alcançando e incorporando também demandas culturais.